Aperte o cinto, vamos chegar
Agua brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Aterrar
(6º cancão: “Samba do Avião”, Antonio Carlos Jobim)
Um calor abafado recebeu os bolsistas enquanto desceram do avião no pátio do Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. Na verdade, sentiram o calor ainda mais pelo fato de terem viajado da Nova Iorque onde, na hora de embarcar, estava nevando. Foi assim que todos notaram que estar em outro hemisfério pudesse também dizer estar em outra estação do ano.
Dentro do aeroporto, o calor continuava. O menino entrou na fila de imigração com outros da sua turma. Trocando olhares inquietos, cada bolsista aguardava que um oficial de imigração lhe chamasse. Levou algum tempo, mas, enfim, todos conseguiram passar. De certo modo, o carimbo novinho no passaporte denotou o começo da experiência como bolsista AFS no Brasil.
Passar pela alfândega foi mais rápido e, logo depois, os bolsistas entraram no saguão principal do aeroporto. Tranquilizaram-se assim que viram quatro jovens com uma placa de papelão na qual estava escrita as palavras, “Bem-vindos/Welcome – AFS do Brasil”. Ao ouvir o inglês fluente desses brasileiros, todos ex-bolsistas que estiveram nos Estados Unidos, os recém-chegados se acalmaram ainda mais. Além dos quatro brasileiros, o grupo de boas-vindas incluia dois bolsistas AFS chilenos que, rumo às suas colocações no Brasil, tinham chegado de Santiago no dia anterior.
Os bolsistas subiram no ônibus fretado que lhes esperava em frente do terminal. Não havia ar condicionado no ônibus, então, mesmo com as janelas abertas, fazia muito calor. Depois de um tempo no trânsito na Avenida Maracanã, o ônibus começou a subir o morro e se afastou da cidade. Ao entrar no verde da Floresta da Tijuca, a temperatura já tinha baixado um pouco. Logo depois, o ônibus chegou ao seu destino no Alto da Boa Vista: o Colégio Santa Marcelina, um internato administrado pela ordem das Irmãs de Santa Marcelina. Lá, os bolsistas passariam por três dias de orientação final antes de ir a suas colocações pelo país.
O comitê do AFS do Rio de Janeiro achou o colégio ideal para os calouros estrangeiros. Naquela época de verão, ficava vazio e, o mais importante, estava longe dos encantos e riscos da cidade. Pois o lugar garantia o que o comitê considerasse necessário: ensinar aos bolsistas um pouquinho de português e oferecer-lhes informações, não só práticas, mas também sobre a cultura, geografia e história brasileira. Assim, durante boa parte da orientação, os bolsistas foram bombardeados de informação e avisos.
Para o menino, a “lição” mais divertida foi a comida servida no refeitório. De manhã havia frutas e sucos desconhecidos, queijo e presunto, pãezinhos e bolos, e café bem forte que se tomava com leite quente e açúcar. O almoço não era como o pequeno lunch americano, não. Ao contrário, tinha uma fartura de carne, arroz, feijão, farofa, legumes, salada e, enfim, uma sobremesa e, claro, mais café. Quanto ao jantar, os jovens tomavam o que se chamava um “lanche” que, na verdade, mais ou menos se igualava ao lunch: um sanduíche, um ou dois pedaços de fruta, e alguma coisa doce. Sim, a comida brasileira era uma descoberta. Embora o menino não soubesse naquele momento, seria algo do Brasil do que ia sentir muita falta ao voltar para seu país.
A programação incluia intervalos. O mais longo, depois do almoço, durava duas horas. Nesse intervalo dava bastante tempo para fazer outras coisas. Alguns bolsistas iam à biblioteca para estudar o português. Outros, ainda sentindo o cansaço do fuso horário, tiravam uma sestazinha no dormitório. Também havia possibilidades de fazer atividades físicas: pingue-pongue no ginásio, natação, caminhadas no belo jardim murado do colégio.
Mesmo com essas diversões, o que o menino mais cobiçava era aquilo que foi negado a ele. Ou seja, o comitê não permitiu que os bolsistas, nem em grupo, visitassem a cidade. O diretor do comitê explicou que na última noite da orientação, teria uma excursão guiada de ônibus a uma escola de samba na Mangueira. Mas, infelizmente, não teria oportunidade de conhecer outras atrações como o Cristo Redentor, a apenas 10 quilômetros do colégio, ou as praias de Copacabana e Ipanema. Uma pena, mas não seria possível, de jeito nenhum.
O menino ficava atormentado pelo morro verde que se via subindo além do muro do colégio. Pensou nas possibilidades da região:
– O Corcovado não deveria estar muito longe daquele topo, e, pro outro lado do Corcovado, as praias.
Mas essa vez, a única “praia” que ia frequentar seria a pequena piscina do colégio da qual a água estava tépida e turva. E quem eram os cariocas que ia conhecer nesses três dias? Só os quatro jovens do comitê e umas irmãs que, vestidas de hábito e meio efêmeras, apareciam e desapareciam nas sombras do colégio.
Os tesouros da Cidade Maravilhosa ficariam para outra visita.
