Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • Cadê a praia?

      Posted at 11:52 am by wannabemineiro, on novembro 3, 2019

      Aperte o cinto, vamos chegar

      Agua brilhando, olha a pista chegando

      E vamos nós

      Aterrar

      (6º cancão: “Samba do Avião”, Antonio Carlos Jobim)

      Um calor abafado recebeu os bolsistas enquanto desceram do avião no pátio do Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. Na verdade, sentiram o calor ainda mais pelo fato de terem viajado da Nova Iorque onde, na hora de embarcar, estava nevando. Foi assim que todos notaram que estar em outro hemisfério pudesse também dizer estar em outra estação do ano.

      Dentro do aeroporto, o calor continuava. O menino entrou na fila de imigração com outros da sua turma. Trocando olhares inquietos, cada bolsista aguardava que um oficial de imigração lhe chamasse. Levou algum tempo, mas, enfim, todos conseguiram passar. De certo modo, o carimbo novinho no passaporte denotou o começo da experiência como bolsista AFS no Brasil.

      Passar pela alfândega foi mais rápido e, logo depois, os bolsistas entraram no saguão principal do aeroporto. Tranquilizaram-se assim que viram quatro jovens com uma placa de papelão na qual estava escrita as palavras, “Bem-vindos/Welcome – AFS do Brasil”. Ao ouvir o inglês fluente desses brasileiros, todos ex-bolsistas que estiveram nos Estados Unidos, os recém-chegados se acalmaram ainda mais. Além dos quatro brasileiros, o grupo de boas-vindas incluia dois bolsistas AFS chilenos que, rumo às suas colocações no Brasil, tinham chegado de Santiago no dia anterior.

      Os bolsistas subiram no ônibus fretado que lhes esperava em frente do terminal. Não havia ar condicionado no ônibus, então, mesmo com as janelas abertas, fazia muito calor. Depois de um tempo no trânsito na Avenida Maracanã, o ônibus começou a subir o morro e se afastou da cidade. Ao entrar no verde da Floresta da Tijuca, a temperatura já tinha baixado um pouco. Logo depois, o ônibus chegou ao seu destino no Alto da Boa Vista: o Colégio Santa Marcelina, um internato administrado pela ordem das Irmãs de Santa Marcelina. Lá, os bolsistas passariam por três dias de orientação final antes de ir a suas colocações pelo país.

      O comitê do AFS do Rio de Janeiro achou o colégio ideal para os calouros estrangeiros. Naquela época de verão, ficava vazio e, o mais importante, estava longe dos encantos e riscos da cidade. Pois o lugar garantia o que o comitê considerasse necessário: ensinar aos bolsistas um pouquinho de português e oferecer-lhes informações, não só práticas, mas também sobre a cultura, geografia e história brasileira. Assim, durante boa parte da orientação, os bolsistas foram bombardeados de informação e avisos.

      Para o menino, a “lição” mais divertida foi a comida servida no refeitório. De manhã havia frutas e sucos desconhecidos, queijo e presunto, pãezinhos e bolos, e café bem forte que se tomava com leite quente e açúcar. O almoço não era como o pequeno lunch americano, não. Ao contrário, tinha uma fartura de carne, arroz, feijão, farofa, legumes, salada e, enfim, uma sobremesa e, claro, mais café. Quanto ao jantar, os jovens tomavam o que se chamava um “lanche” que, na verdade, mais ou menos se igualava ao lunch: um sanduíche, um ou dois pedaços de fruta, e alguma coisa doce. Sim, a comida brasileira era uma descoberta. Embora o menino não soubesse naquele momento, seria algo do Brasil do que ia sentir muita falta ao voltar para seu país.

      A programação incluia intervalos. O mais longo, depois do almoço, durava duas horas.  Nesse intervalo dava bastante tempo para fazer outras coisas. Alguns bolsistas iam à biblioteca para estudar o português. Outros, ainda sentindo o cansaço do fuso horário, tiravam uma sestazinha no dormitório. Também havia possibilidades de fazer atividades físicas: pingue-pongue no ginásio, natação, caminhadas no belo jardim murado do colégio.

      Mesmo com essas diversões, o que o menino mais cobiçava era aquilo que foi negado a ele. Ou seja, o comitê não permitiu que os bolsistas, nem em grupo, visitassem a cidade. O diretor do comitê explicou que na última noite da orientação, teria uma excursão guiada de ônibus a uma escola de samba na Mangueira. Mas, infelizmente, não teria oportunidade de conhecer outras atrações como o Cristo Redentor, a apenas 10 quilômetros do colégio, ou as praias de Copacabana e Ipanema. Uma pena, mas não seria possível, de jeito nenhum.

      O menino ficava atormentado pelo morro verde que se via subindo além do muro do colégio. Pensou nas possibilidades da região:

      – O Corcovado não deveria estar muito longe daquele topo, e, pro outro lado do Corcovado, as praias.

      Mas essa vez, a única “praia” que ia frequentar seria a pequena piscina do colégio da qual a água estava tépida e turva. E quem eram os cariocas que ia conhecer nesses três dias? Só os quatro jovens do comitê e umas irmãs que, vestidas de hábito e meio efêmeras, apareciam e desapareciam nas sombras do colégio.

      Os tesouros da Cidade Maravilhosa ficariam para outra visita.

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    • Das ist ein jüdisches Brot

      Posted at 3:05 pm by wannabemineiro, on outubro 12, 2019

      Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa

      Uma boa média que não seja requentada

      Um pão bem quente com manteiga à beça

      Um guardanapo e um copo d’agua bem gelada

      (5º canção: “Conversa de Botequim”, Noel Rosa e Vadico)

      No início de fevereiro, o menino voou de Los Ángeles ao Aeroporto JFK em Nova Iorque. Embora partisse deste aeroporto para Rio de Janeiro, primeiro teve que passar por dois dias de orientação num hotel em Manhatten, no qual ficaram os demais quarenta bolsistas com colocações no Brasil. A maioria dos bolsistas representavam os EUA mas quatro membros da turma tinham vindo de países europeus.

      O hotel estava gelado. Seu antiquado sistema de aquecimento funcionava só para agravar o cheiro persistente de cigarro e mofo. O único mérito do hotel era a localização na 23rd Street, não muito longe da sede americana do AFS. Foi escolhido por isso.

      A orientação foi uma confusão de reuniões sucessivas e vários avisos sobre como se comportar no Brasil, documentação para preencher, refeicões e “coffee breaks”.  Se tivesse um fio ligando todos os bolsistas juntos seria o prazer de estar às vésperas de uma grande aventura. Em qualquer momento durante a orientação, se avistava jovens de 17 ou 18 anos partilhando informações sobre as colocações deles. Além do Rio de Janeiro e São Paulo, se ouvia nomes de lugares alheios, meio impronunciáveis, como Maceió, São João del Rei e Araçatuba.

      No segundo dia, os bolsistas tiveram duas horas livres para almoçar e, ao menos um pouco, explorar Manhatten. O menino acompanhou um grupo de quatro outros bolsistas, composto por dois americanos, um alemão e uma austríaca. Esse passeio fosse uma chance para ele falar alemão. A conversa que decorreu, no entanto curta, representaria um dos eventos mais momentosos na sua vida.

      Os bolsistas entraram em um delicatessen-padaria para almoçar. Aproximaram-se à vitrine expositora onde se mostrava vários tipos de pães e sanduíches. A austríaca, apontando para um pão redondo, perguntou ao bolsista da Alemanha:

      – Was ist dass? (O que é aquilo?)

      – Ich weiss nicht (Não sei) – respondeu.

      O menino se surpreendeu. Não só entendeu o que disseram os dois bolsistas como também teve a coragem de tomar parte da conversa:

      – Das ist ein jüdisches Brot. Es heisst “bagel”. (É um pão judeu. Chama-se “bagel”.)

      Os europeus lhe agradeceram pela informação e até pediram sanduíches de bagel. Depois, almoçando com eles, o menino ficou feliz, pois conseguia falar mais alemão ainda. Assim, aprendeu que o bolsista alemão ia para Porto Alegre e a austríaca para Vila Velha, no Espírito Santo.

      Mas o que mais lhe impressionou era usar o alemão espontaneamente em uma situação autêntica. Até aquele dia, apesar de ter estudado alemão por dois anos no colégio, o menino nunca tinha o falado fora da sala de aula. Ademais, durante as aulas, sua professora usava uma variação do então corrente Método Audiolingual: junto com o estudo meticuloso de estruturas gramaticais, a professora abordava ao ensino de alemão enfatizando a memorização de diálogos e a tediosa realização de exercícios de repetição e substituição. Qualquer situação de conversa que o menino praticava em classe foi, em regra, rigorosamente definida e com pouca chance de falar de improviso.

      Pois aquela conversa sobre pão lhe abriu os ohlos. A capacidade de falar uma outra língua – fosse o alemão ou qualquer outra língua – não só era possível mas também era algo que prometia novos rumos. No dia seguinte, ao entrar no avião da Avianca, o menino entendeu que isso foi a lição da sua estadia em Manhatten.

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    • O destino

      Posted at 9:17 am by wannabemineiro, on outubro 2, 2019

      Canta canta, minha gente

      Deixa tristeza pra lá

      Canta forte, canta alto

      Que a vida vai melhorar

      (4º canção: “Canta canta, minha gente”, Martinho da Vila)

      No começo de dezembro, o menino descobriu que seu país de destino seria o Brasil. Essa notícia veio numa entrega especial do correio.

      A carta incluia mais detalhes sobre a colocação do menino. A família que ia recebê-lo consistia de duas pessoas, uma mulher de uns 50 anos de idade e, com 25 anos, o filho dela. Moravam numa fazenda de cana-de-açucar no interior do estado de São Paulo. Além da cana, a família também criava cavalos. A fazenda se localizava a cinco quilômetros duma pequena cidade onde o menino estaria estudando.

      Acompanhando a carta havia duas fotos. Em uma, numa estrada de terra que penetrava um imenso campo de cana-de-açucar, se via claramente o filho a cavalo. A outra foto era misteriosa: uma criança de quatro ou cinco anos, morena e quase nua, divertindo-se numa pequena fonte. Por algum tempo, o futuro bolsista estudou a foto junto com as informações sobre sua família hospedeira paulista, tentando identificar a criança. Apesar disso, não conseguiu entender quem era.

      A data de partida estava agendada para o início de fevereiro. Já que as férias natalinas estavam chegando, havia pouco tempo para cumprir o que exigia essa primeira viagem no exterior: tirar passaporte e visto, comprar mala e resolver o que levar nela. Mas, fora dessas preparações concretas, o que deixou o menino mais aflito era o país de destino mesmo.

      – Brasil – o nome soava estranho aos ouvidos. O país era desconhecido, um mistério.

      De fato, ele só tinha duas imagens do Brasil. A primeira, mais ou menos positiva, era do Rio de Janeiro, uma bela cidade à beira mar, protegida por uma estátua de Jesus Cristo. Mais amedrontadora, a segunda imagem quase lhe deu arrepios: o Rio Amazonas e, à sua margem, uma grossa floresta, os dois lugares frequentados por animais perigosos.

      – Brasil – certamente não tinha a intimidade de nomes como Suiça, Alemanha ou Áustria, países que o menino queria conhecer durante muitos anos. Mesmo que aceitasse a colocação, o futuro bolsista ficou um pouco decepcionado.

      Os pais tentaram lhe entusiasmar:

      – Pense bem nessa colocação. É uma oportunidade de conhecer algo fora do típico roteiro turístico.

      – Você vai aprender outra língua que ninguém fala por aqui.

      – Um dia você vai conhecer a Europa, exatamente como você quer. Mas estamos falando do Brasil, meu filho. Quando é que vai ter outra chance como essa?

      Resignado ao seu destino, o menino decidiu procurar livros sobre a língua portuguesa na biblioteca da universidade não muito longe da casa dele. Entre as dúzias de livros didáticos de francês, espanhol, e italiano, ele encontrou ‘Teach yourself Portuguese’, aparentemente o único livro sobre o português. Tirou o livro da estante. Estudou as primeiras páginas, que tratavam da pronúncia. Logo depois, se desanimou. Além das palavras portuguesas com seus acentos agudos, circunflexos e tis, não soube como interpretar o sistema fonético ‘internacional’ que mostrava a pronúncia correta de português. Tentou ler outras partes do livro. Mas isso também ficou difícil por causa da terminologia.

      – Substantivo, subjuntivo, superlativo. Nem sei o que é isso – pensou. Fechou o livro e devolveu-o na estante.  – Ao chegar no Brasil, vou ver como é o português.

      Duas semanas antes da viagem, o menino recebeu dois recursos de informação que, pelo menos um pouco, ampliaram seu conhecimento do país de destino. O primeiro recurso era um pequeno livro turístico com muitas fotos do Brasil. “Edifício Itália no centro de São Paulo”, “Favela sobe um morro do Rio”, “Jangada à beira mar”, “Terra roxa do interior paranaense”…cada foto mostrou um Brasil nunca imaginado.

      O segundo recurso era mais valioso ainda: um disco do sambista Martinho da Vila. Aquilo denotou o início do contato com a língua portuguesa. O menino adorou o disco, sobretudo a primeira faixa, “Canta canta minha gente”. Escutou tantas vezes que decorou as primeiras quatro linhas: “Canta canta minha gente / deixa tristeza pra lá / canta forte canta alto / que a vida vai melhorar”. Cantava as linhas sem saber que estava sendo exposto a várias características do português falado no Brasil.  Vogais nasais, a palatalização, o indicativo usado como imperativo familiar…sem dúvida, ele não sabia o que significava estes fenômenos linguísticos mas cada esforço de ecoar a voz do Martinho da Vila o ajudou aos poucos a registrá-las no cérebro. Aliás, o ritmo de “Canta canta minha gente” e das demais músicas eram agradáveis, contagiantes mesmo. Ao estudar o homem negro, barbudo e sorridente na capa do disco, o menino se lembrou umas palavras da Diana, a jovem universitária e recém bolsista no Brasil que lhe emprestou o disco.

      – Tenho certeza que você vai gostar do Brasil – ela tinha afirmado – e a música brasileira é boa demais.

      Postado em a história do menino/Julião | 6 Comentários
    • Um desejo de viajar

      Posted at 2:24 pm by wannabemineiro, on setembro 5, 2019

      Vou mostrando como sou

      E vou sendo como posso

      Jogando meu corpo no mundo

      Andando por todos os cantos

      ( 3º canção:  “Mistério do planeta”, Galvão e Moreira)

      O menino sempre quis viajar. E durante muitos anos, costumava viajar de atlas do mundo. Abria o livro ao acaso e estudava lugares distantes. De vez em quando, numa folha de papel fino delineava países e províncias, imaginando as paisagens, cidades e pessoas contidas nos mapas que reproduzia.  Ficava mais e mais seduzido por cada nome escrito no mapa. Iquitos, Tókio, Besançon, Sri Lanka.

      Enfim, com dezesseis anos de idade, o menino se deparou com sua chance de conhecer o mundo. Avistou um cartaz afixado na parede do corredor no colégio. Era um anúncio para bolsas de estudo com o American Field Service, ou seja AFS. O menino já sabia que sua cidade na Califórnia recebia bolsistas AFS do exterior. De fato, recentemente tinha feito amizade com dois bolsistas, um da Noruega e a outra da Suiça. Até que viu o anúncio que a ficha caiu para ele: talvez pudesse ver o mundo como intercambista. Pensando nisso, foi imediatamente à diretoria da escola e apanhou uma solicitação de bolsa do AFS.

      Preenchou a solicitação e escreveu a redação obrigatória explicando porque ele seria um bom intercambista. A bolsa era concorrida e a documentação necessária meio exigente. Além disso, não se podia escolher nem a cidade, nem o país onde gostaria de morar durante o ano escolar. Se o menino fosse selecionado como intercambista, o destino e a colocação na escola e a família lá seriam decididos pelo AFS. Mesmo assim, ao enviar o pedido, foi natural para ele se perguntar:

      – Qual país me convém?

      Respondeu a si mesmo:

      – Já estudei a língua alemã então uma cidade na Alemanha, Suiça ou Áustria seria perfeita.

      Voltou à realidade. Se fosse selecionado, o país de destino seria provavelmente um lugar que nem imaginou. Mas não tinha importância, porque o menino sempre quis viajar.

      Algumas semanas depois, no final de outubro, recebeu convite à segunda e mais importante etapa do processo seletivo: uma reunião social na casa de alguém do comitê regional do AFS. Ao chegar à casa do evento, o menino e Alexandra, uma amiga que também recebeu convite, viram mais seis candidatos representando outros colégios da área. Embora descrito como um relaxado encontro de conversa e comida, os candidatos entendiam que de fato o evento representava um tipo de entrevista. Os seis adultos presentes, cada um deles afiliados com AFS de alguma maneira, estariam observando-os a fim de decidir se mereciam ou não mereciam bolsa de estudo. Por isso, todos os jovens tinham medo se iam dizer alguma bobagem ou comportar-se mal. As conversas cautelosas revelaram que cada candidato tinha um ou dois lugares específicos que gostaria de conhecer. Mesmo assim, como era no caso do menino, todos disseram que iriam para qualquer lugar se conseguissem uma bolsa.

      Depois do evento, Alexandra e o menino voltaram juntos à cidade deles. Olhando pela janela do carro, ele de repente perguntou:

      – Ouvi você dizer que o seu destino preferido é Paris. Mas, só entre você e eu e mais ninguém, qual é o menos preferido?

      Alexandra demorou algum tempo para responder:

      – Turquia. Não sei porque mas é a Turquia. E para você? Qual é o país menos preferido?

      A resposta dele foi imediata:

      – Brasil. Mas iria, porque eu sempre quis viajar.

      Postado em a história do menino/Julião | 4 Comentários
    • Uma carta para Elis Regina

      Posted at 3:31 am by wannabemineiro, on agosto 8, 2019

      Eu quero uma casa no campo

      Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé

      Onde eu possa plantar meus amigos

      Meus discos meus livros e nada mais

      ( 2º canção: “Casa no campo”, Zé Rodrix e Tavito)

      Cara Elis

      Já faz muito tempo que queria te escrever esta carta. Quando morei no Brasil, te vi várias vezes na televisão. Não entendia tudo do que você cantava mas a sua voz e presença no palco me tocaram profundamente. Seja “Romaria” ou “Atrás da porta”, “Madalena” ou “Casa no campo”, eu sempre tinha a impressão de que você estava cantando só para mim. Ao ouvir sua voz minha mente vagueava por locais distantes, encontros imaginados. Confesso que, naquela época, minha fascinação por você beirou a paixão. Até me lembro pensando em você quando passei por Porto Alegre numa longa viagem de ônibus: foi aqui onde Elis Regina nasceu!

      Mas já basta de divagações do passado.

      Quero te falar um pouco de hoje em dia. Não sei se você sabe mas o mundo mudou muito desde quando você cantava da alegria de estar numa simples casa no campo com seus amigos, seus discos, seus livros e nada mais. O mundo de hoje oferece contato com qualquer pessoa, música ou livro que quiser. De fato, oferece você. Ou seja, duas ou três palavras tecladas, um “clique do mouse” e, voilà, você aparece na telinha, sentada numa cadeira de balanço, cantando “Casa no campo”. Outras duas ou três palavras no teclado e mais um clique e se pode ler sobre a historia de sua vida ou mesmo a da Maria Rita que atualmente faz sucesso no Brasil. É só uma questão de procurar as informações que quiser. Cada busca nos leva a possibilidades sem fim.

      Mas há outro mundo que nós, das gerações mais velhas, tivemos o privilégio de conhecer. Isto é o mundo da sua canção. Ao ouvir os simples versos acima, surgem em mim recordações e sensações que são quase proustianas:

      A garoa fina que cai em silêncio fora duma casa no interior mineiro. Ao lado da casa, o Fusca e o Corcel, cobertos de lama depois da longa viagem de BH. Livros, concentrados em vários lugares, da entrada da casa até o banheiro. O cheiro de lenha queimada. Um disco predileto entre as pontas dos dedos antes de colocá-lo suavamente no prato do toca-discos. O silêncio crepitante que antecipa as vozes de Mercedes e Milton cantando em espanhol. A cozinha com o fogão à lenha e uma seleçao de cadeiras e banquinhos. Uma cesta cheia de mexerica e caqui. Empadão de frango e pão de queijo, fresquinhos do forno. Café de pano, copos de vidro e colheres, e, meio invisível na mesa, uma linha de formigas pequeninas rumo ao açucareiro. O ritmo da conversa em volta da mesa. Livros entreabertos. Trechos lidos, discutidos, relidos. Cigarros Hollywood, cinzeiro e mais um cafezinho. Sobretudo, o prazer de estar com amigos, frente a frente, sob o mesmo teto enquanto a garoa continua caindo.

      Na época da sua canção, a casa no campo era muito mais do que um abrigo. Era um lar cheio de calor humano. Mas hoje em dia não sei se continua assim.

      É isso que provoca em mim o desejo de falar com você, Elis. Se já não tivesse se despedido de nós, será que você se importaria de ver computadores e smartphones, e tudo o que é permitido pela tecnologia hoje, em sua casa no campo? Usaria o Uber para chegar àquela casa? Uma pesquisinha no Google ajudaria você e seus amigos a interpretar a canção que acabam de ouvir pelo YouTube? Ou, no caso de não estiver satisfeitos com os resultados da pesquisa, chamariam outros amigos no Whatsapp para saber outra opinião? E, afinal, se a casa no campo não tivesse acesso à internet? Será que quereria mesmo?

      Cordialmente,

      Julião

      Postado em a história do menino/Julião, cartas, tecnologia | 16 Comentários | Marcado post2
    • Tentando relembrar

      Posted at 10:50 am by wannabemineiro, on julho 25, 2019

      Você pode escolher se você vai fazer

      o simples, o normal, aquilo que é esperado de você já

      ou se você vai surpreender…

      … faça mais, faça mais do que pegadas nesse chão!

      ( 1º canção: “Mais do que pegadas”; Projota)

      Este blogue tem duas intenções. A primeira é que o que eu escreva aqui me ajude a reativar e ampliar meus conhecimentos com a língua portuguesa. A segunda é que cada postagem se relacione, de alguma forma, com as letras duma música brasileira. O vínculo entre os dois textos pode ser grande ou pequeno.

      No caso desta primeira postagem, aceito o desafio erguido pelo rapper Projota. Recentemente, eu me aposentei então está bem na hora de seguir outro rumo com novas experiências. Além disso, faz muito tempo que queria escrever um blogue em português só para ver se conseguia fazer. Será que vou conseguir escrever cem postagens? O tempo dirá. Sem dúvida, um blogue de cem postagens, todas escritas em uma língua não nativa, seria algo muito especial para mim. Representaria, como Projota diz, “mais do que pegadas nesse chão.”

      Obviamente já tenho alguma facilidade com a língua portuguesa. Isso é porque morei no Brasil como estudante de intercâmbio quando tinha 17 anos em 19xx. Minha família brasileira me diz que nos dez meses que estava morando com eles consegui falar o português direitinho, quase como os mineiros que me rodeavam nas calçadas da cidade. Deveras me lembro falando, mas falando com tanta proficiência assim? Não sei. Só lembro que ao voltar para meu país de idioma inglês sentia tanta falta da minha família brasileira e da língua que nos uniu que ficava em casa, tocando os discos de Milton que tinha trazido do Brasil bem embalados na mala.

      Hoje em dia cada frase me cansa. Quero que o português saia da boca facilmente. Que palavras apareçam na página com rapidez e sem erros. Que o sotaque me pegue de novo. Será que isso tudo é possível? A cada ano que passa esqueço palavras, formas verbais, pronúncias. A plasticidade encefálica está se diminuindo. E meu país, isolado numa imensidão azul, oferece raras oportunidades para falar português. O Brasil fica longe daqui.

      Mas não quero que este blogue seja uma lamentação do tempo perdido. Quero que seja uma viagem exploratória, uma chance de redescobrir a língua portuguesa através da música brasileira. Assim, cada postagem que segue daqui por diante simboliza um esforço para melhorar o português escrito. Além da conexão entre a música selecionada e o assunto da postagem que a acompanha, o vocabulário e umas estruturas gramaticais da canção podem aparecer no que escrevo. Convido o leitor a deixar um comentário sobre a música, o assunto ou meu português.  Cada postagem incluirá um link para a canção ou mesmo uma janelinha com um vídeo.

      Acho que a maioria das postagens serão do gênero crônica. Mas não sou escritor. Peço desculpas adiantadas por qualquer postagem que pareça ridícula ou infantil. Que cada postagem seja melhor do que a anterior!

      Postado em língua/linguagem/linguistica | 7 Comentários | Marcado post1
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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