Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • A vida é um risco

      Posted at 8:07 pm by wannabemineiro, on março 20, 2020

      Talvez eu morra jovem

      Alguma curva no caminho

      Algum punhal de amor traído

      Completerá o meu destino

      (16º canção: “Coração selvagem”, Belchior)

      Poucos dias depois de que foi diagnosticado com câncer, meu pai chamou todos da família para se reunir em seu quarto no hospital. Queria falar sobre a resolução final de seus bens após a sua morte. Felizmente, o pedido foi prematuro pois meu pai viveria mais alguns anos. Mas o que sempre vou lembrar daquele dia melodramático é que foi a primeira vez que encontrei o advogado da família. Ao chegar no quarto do meu pai, esse homem, grandalhão e mal vestido, nos cumprimentou e começou sua fala assim:

      – A vida é um risco.

      Enquanto conversava amistosamente com meu pai e coletava informações minhas e de meus irmãos, o advogado reiterava essa declaração brusca várias vezes.

      No dia seguinte, minha irmã e eu trocamos ideias sobre a reunião no hospital. Tivemos a mesma impressão geral. Achamos assustador aquele advogado falando sobre os riscos de vida diante de uma família enfrentando o câncer. Ele tinha repetido “a vida é um risco” tantas vezes que pensamos que talvez fosse agente de seguros ao invés de advogado. Porém, mais tarde, aprendemos que o advogado, alguém que agora respeitamos muitíssimo, teve, e ainda tem, toda razão em repetir aquela frase quantas vezes ele quisesse. Ou seja, em 1969, quando ele era estudante numa universidade perto de São Francisco, sobreviveu a um esfaqueamento repetido de um assassino em série que matou pelo menos 30 pessoas, inclusive a namorada dele.

      ………..

      A vida é um risco. Recentemente, tenho pensado muito nas palavras do advogado. Mas desta vez o estímulo deste mantra envolve outra “palavra-C”: o coronavírus. Todo dia mais e mais pessoas em mais e mais países estão ficando doentes ou morrendo. Sem dúvida a crise do coronavírus está por chegar na Nova Zelândia, onde, até agora, há cinco casos do vírus. Será que o país está preparado para isso?

      Cada pessoa tem suas próprias preocupações sobre o maldito vírus. Para JJ e eu a questão imediata talvez pareça superficial. Nós devemos ou não devemos viajar para a Califórnia e o Texas na semana que vem? Em janeiro deste ano, por impulso, compramos passagens baratas para Los Ángeles. Infelizmente, não se permite reembolso nenhum das passagens. Podemos adiar a viagem, mas, mesmo para fazer isso, teremos que pagar uma multa pesada. Além disso, já pagamos três noites num hotel em San Antonio, Texas. Como as passagens aéreas, essas noites não são reembolsáveis. Sempre viajamos com seguro de viagem mas, neste caso, nossa apólice não cobre reclamações provocadas pelo vírus. Afinal de contas, se não formos nesta viagem, vamos perder bastante dinheiro.

      A outra escolha é acompanhada por outros riscos. Se nós formos aos Estados Unidos daqui a uma semana, é óbvio que o risco de contrair o vírus vai aumentar bastante. Ainda bem que JJ e eu temos boa saúde. Todo dia praticamos atividades físicas como a natação e o ioga e temos uma dieta balanceada. Mas não somos exatamente jovens e, do que se sabe do vírus até agora, parece que os efeitos são mais danosos para pessoas de nossa idade. Há outro cenário possível: não adoecer do vírus efetivamente mas o contrair e infectar alguém pelo caminho. Se isso aconter, eu ficaria horrorizado por saber que eu tivesse transmitido o vírus. E se a pessoa infectada fosse um membro de minha família, como minha querida mãe que mora num asilo na Califórnia…nem quero imaginar. A última consequência que podia provir da decisão de viajar na semana que vem é que nós não poderíamos voltar à Nova Zelândia durante algum tempo. Por exemplo, nós poderíamos estar sujeitos a algum bloqueio nos Estados Unidos, esperando obter liberação para viajar novamente. Ironicamente, é possível que essa situação de limbo, se durasse por muito tempo, custaria mais do que as passagens e as noites no hotel em San Antonio.

      Pois então, a pouco mais de uma semana de embarcar para Los Ángeles, JJ e eu precisamos decidir se viajamos como planejamos ou se ficamos na Nova Zelândia e perdemos bastante dinheiro. Enquanto eu pondero as vantagens e desvantagens de tomar uma decisão ao invés da outra, cinco palavras insistentes ecoam na minha mente: a vida é um risco.

      ………..

      Posfácio:

      Hoje é o dia 20 de Março de 2020, a data de nossa viagem. Às 22 horas, nosso avião, um dos últimos ainda voando na frota da Air New Zealand, vai decolar para Los Ángeles. No avião vão faltar, pelo menos, dois passageiros.

      Postado em Covid 19, whānau | 4 Comentários
    • Amigos inusitados em Christchurch

      Posted at 6:40 am by wannabemineiro, on março 15, 2020

      Às vezes em certos momentos difíceis da vida

      Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída

      A sua palavra de força, de fé e de carinho

      Me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho

      (15º canção: “Amigo”, Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

      Hoje é o dia 15 de Março de 2020. Faz exatamente um ano que duas mesquitas em Christchurch, na hora das orações, foram atacadas. Cinquenta e uma pessoas morreram no atentado. Cinquenta e uma vidas preciosas perdidas. Cinquenta e um futuros apagados.

      Hoje é um dia para todo neo-zelandês homenagear não apenas esses cinquenta e um mortos mas também as famílias e os amigos que foram deixados para trás abruptamente. Mesmo que seja doloroso ou incômodo, hoje é um dia para nós refletirmos.

      Como se pode imaginar, o atentado gerou atos de coragem, generosidade e amor. No local das mesquitas, paramédicos e a polícia responderam sem receios, e nos hospitais próximos, enfermeiros e médicos trabalharam incansavelmente. Os cidadãos de Christchurch e do país inteiro doaram sangue e prestaram homenagem às vítimas na forma de flores, vigílias de todas as fés, e hakas Maori.

      Mas de todas as reportagens que surgiram naquele dia em Christchurch, de todas as reações provocadas pela violência hedionda, o que mais me comoveu foi o relato sobre uma breve e inusitada amizade estabelecida entre dois homens na calçada em frente da mesquita.

      Segundo uma reportagem na Television New Zealand, quatro trabalhadores de construção do outro lado da rua da mesquita mostraram muita coragem perante o risco deles mesmos morrerem. Os operários ouviram tiros, e, mesmo que a polícia e paramédicos ainda não tivessem chegado, atravessaram a rua para ajudar os devotos da mesquita. Na calçada em frente do prédio, encontraram uma menininha e um homem, os dois gravemente feridos de tiros. Enquanto balas voavam para dentro da mesquita, três desses operários colocaram a menininha num carro e a levaram ao hospital, um ato que provavelmente tenha salvada sua vida.

      Entretanto, o outro operário ficou na calçada com o homem moribundo. Segurou-o e consolou-o, até que morresse. O operário, entrevistado por um repórter no dia seguinte, relatou a experiência de ser o último amigo do homem na calçada:

      – Eu segurava a mão dele. Eu lhe abraçava. Eu lhe falava, sussurrando no ouvido dele. Eu disse para ele ficar lutando e ele lutou durante muito tempo, mas, aí, ele morreu.

      O operário, visivelmente abalado, continuou:

      – Eu só quero que as pessoas saibam que ele não morreu sozinho, que ele não estava sozinho naquela calçada, que ele tinha alguém ali que sinceramente se importou com ele.

      Depois de que o homem morreu, o operário colocou seu próprio colete de segurança sobre o rosto do defunto. Ele chorou, angustiado sobre a perda desse seu amigo momentâneo. Enfim, alguém do local de construção veio para confortá-lo. E nos dias seguintes, o operário, como outras pessoas afetadas pela tragédia em Christchurch, recebeu aconselhamento profissional para lidar com o susto e a tristeza que estava sentindo.

      Nunca se saberá dos últimos pensamentos do homem que morreu na calçada. Imagino que estivesse rezando a Alá, fortalecido por sua fé e pelo amor que sentia pelos seus entes queridos, seus amigos e sua communidade. Mas ao mesmo tempo devia ter percebido a presença tranquilizadora do operário. Mesmo que estivesse morrendo e se preparando para sua partida, o devoto devia estar ciente de que alguém, um verdadeiro amigo, estava ao seu lado. E foi assim, juntos, que esses dois amigos encararam a grande incerteza da partida, até que um atravessasse para o mundo vindouro e o outro ficasse nesse mundo.

      Algumas horas mais tarde, quando se revelou a magnitude do atentado, Jacinda Ardern, a Primeira Ministra da Nova Zelândia, se dirigiu à nação. Com pesar, confirmou que muitas pessoas morreram nas mesquitas e outras, com ferimentos graves, estavam no hospital. A seguir, Ardern se referiu às vítimas em Christchurch, enfatizando três palavras que reuniriam milhares de pessoas, não só na Nova Zelândia, mas no mundo inteiro:

      – Elas são nós.

      Simples e sincera, esta foi a mensagem dos dois amigos inusitados naquela calçada.

      Postado em Aotearoa New Zealand | 0 Comentários
    • O casal inseparável

      Posted at 6:26 am by wannabemineiro, on março 9, 2020

      A deusa da minha rua

      Tem os olhos onde a lua

      Costuma se embriagar

      Nos seus olhos eu suponho

      Que o sol, num dourado sonho

      Vai claridade buscar

      (14º canção: “A deusa da minha rua”, Jorge Faraj e Newton Teixeira)

      A primeira vez que se falaram foi no trem, rumo a Itajubá. Ele a enxergou, sentada sozinha, e se aproximou. Apresentou-se como José, estudante da Escola de Engenharia. A moça bonita respondeu que seu nome era Ana Júlia e que ia para Itajubá, onde morava a irmã dela. Ambos tímidos, continuaram a falar.

      Depois de algum tempo, uma ideia surgiu na mente do estudante:

      – Ouso eu convidá-la para o próximo baile dos engenheiros?

      Por sua vez, a moça estava pensando:

      – Ouso eu convidá-lo para sentar ao meu lado em vez de ficar de pé nesse vagão vazio?

      E foi assim, num trem no interior mineiro, que o namoro de José e Ana Júlia começou.

      ………..

      O namoro de Mamãe e Papai era encantador, algo que merecia estrear numa tela de Hollywood. Mas o que mais supreendeu Julião dessa história foi o fato de que todos os filhos a conheciam. Além disso, se sentia um orgulho palpável quando alguém da família contava aquele romance no trem, com Mamãe sentada e Papai de pé, ao lado dela. Julião não podia dizer a mesma coisa de seus próprios pais na Califórnia. Sem dúvida, ele era orgulhoso de seu pai e de sua mãe como indivíduos, mas raramente os considerava como casal, muito menos contemplava a história do namoro deles. Na verdade, essa história não era muito clara para Julião.

      O carinho que Mamãe e Papai sentiam um pelo outro se via todo dia em casa. Se uma canção romântica tocava na rádio ou na televisão, dançavam em frente da família. Sempre foi um prazer vê-los dançando porque se moviam como se fossem um só corpo. Nos domingos Papai frequentemente acordava cedo para assistir a Tom e Jerry com Iberê e Julião. Quando Mamãe entrava na sala, Papai costumava a receber com um beijo e perguntava se ela tinha dormido bem. Nessa ocasião, era comum também ouvir o casal trocar palavras de ternura em francês ou italiano. Talvez o mais sutil indício do amor entre Mamãe e Papai ocorria todo dia na hora de almoço. Durante aquela confusão em volta da mesa, com filhos e namorados e amigos falando e comendo, se podia ver os pais trocando olhares de carinho e orgulho, olhares que pareciam dizer:

      – Oh, meu bem, olha a maravilha de família que nós criamos. Como eu amo amar você!

      Por mais que Mamãe e Papai estivessem juntos nos almoços, passavam bastante tempo separados, cada um realizando o que precisava para o bem-estar da família. Mamãe, encarregada do eficaz andamento da casa, ficava super ocupada durante a semana. Tinha que assegurar que as tarefas domésticas fossem todas realizadas na hora. E, na cozinha, o congelador e despensa bem abastecidos atestavam os esforços de Mamãe que ia ao mercado quase todo dia. No caso do Papai, ele passava muitas horas no centro, trabalhando como um dos diretores da CEMIG (Centrais Elétricas de Minas Gerais). Às vezes, ele tinha que fazer viagem de negócios porque, naquela época, a CEMIG estava construindo ou abrindo novas usinas hidroelétricas através do imenso estado de Minas Gerais. Engenheiro de corpo e alma, Papai disfrutou o desafio de levar luz a mais e mais famílias no interior.

      Mas, na verdade, quando viajava, o ambiente da casa em Gutierrez estava um pouco triste, a falta do Papai ficava acentuada por uma cadeira vazia durante o almoço. Numa ocasião, fazia três ou quatro dias que ele estava visitando um região esquecida do Estado. Na véspera de sua prevista volta para casa, Mamãe e alguns filhos assistiam a Locomotivas, a novela das 17 horas da Rede Globo. O capítulo daquela noite era um dos últimos: se revelou que Milena e Fernanda, até então adversárias num triângulo amoroso, eram mãe e filha, e as duas mulheres se reconciliaram com abraços, beijos e carinho. Essa cena era tão emocionante que Mamãe e os outros assistindo não deram conta que Papai tinha regressado à casa, um dia antes do que planejava. Com a valise na mão, ele ficou de pé na porta da sala. Ninguém desviou os olhos da tela, onde se ouvia Fernanda e Milena falando palavras de ternura entre si:

      – Que bom sentir você me abraçando, minha filha.

      – Eu preciso tanto de você.

      – Para de chorar.

      – Eu te amo, Mamãe!

      O feitiço da novela se quebrou quando Papai deslizou sua valise através do chão. Brincando, ele proferiu algumas palavras de ternura, meio sincronizadas com as da novela, para a família. Mamãe se levantou da cadeira e, entre lágrimas e risadas, o beijou de volta. Os outros na sala já tinham se esquecido do que se passava na televisão, pois estavam observando Mamãe e Papai, reunidos de novo, com orgulho e emoção.

      ………..

      AVISO: daqui em diante, ao menos por um tempo, este blogue vai falar sobre outros assuntos. Mas a história sobre Julião e sua querida família em Belo Horizonte não terminou, então fique ligado.

      Postado em a história do menino/Julião | 2 Comentários
    • A família louca

      Posted at 11:39 am by wannabemineiro, on março 3, 2020

      Família, família

      Papai, mamãe, titia

      Família, família

      Almoça junto todo dia

      Nunca perde essa mania

      (13º canção:  “Família”, Arnaldo Antunes e Toni Bellotto)

      O menino deixou sua mala no quarto que ia compartilhar com o irmão caçula. Logo depois, foi à sala de jantar. Moema já estava lá, falando com alguém no telefone. As vozes de Mamãe e de Marli, a cozinheira, se ouviam da cozinha que ficava ao lado. Zilda, a empregada, estava pondo a mesa. Cada vez que abria a porta da cozinha, um cheiro inconfundível de feijão, cebola e carne grelhada dava água na boca do menino.

      Ele olhou ao redor de si. Embora naquele momento a sala de jantar estivesse quase vazia, era obviamente muito usada. No meio da sala havia uma mesa, retangular e grande, com pelo menos doze cadeiras. Uma televisão se encontrava em cima dum gabinete e no outro lado da sala havia um sofá e uma mesinha com várias revistas. Num canto, perto da porta que dava para as garagens abaixo da casa, uma cesta grande oferecia bananas, maçãs e laranjas verdes. Tudo isso sugeria que a sala de jantar era o coração da casa.

      E esse foi o cenário naquele dia. Dentro de dez minutos, a família começou a chegar da escola ou do trabalho. Designando-lhe como “irmão americano” ou “filho americano”, Moema e Mamãe apresentaram o menino a cada pessoa que entrou na sala. O primeiro irmão a entrar foi o artista, Iberê, que, na verdade, trabalhava num ateliê instalado na garagem. Daí, outras pessoas compareceram uma após outra: Ubirajara, acompanhado por sua namorada, Fátima; Ubiratan, o irmão esportivo; Jupira com seu noivo, Gil; Tibiriça e sua namorada, Andreia; e, enfim, vindo do centro da cidade, juntos no mesmo carro, foram “Papai”, Regina, que era a namorada do Iberê, e José Alfredo, o irmão caçula e único filho sem nome de índio. No total, o menino contou quatorze pessoas em volta da mesa. A sala estava lotada.

      Marli e Zilda colocaram o almoço na mesa. Havia pratos de tomate e palmito, bife grelhado com cebola, e couve cortado fininho. Uma tigela grande de feijão se localizava em cima da mesa, justamente ao lado de um grande prato de arroz, como se essas duas comidas fossem inseparáveis.

      Certamente, o menino foi o principal foco de atenção durante aquele primeiro almoço. Ele tentou responder a um monte de perguntas. Falou sobre sua família e escola na Califórnia, a ex-colocação no interior paulista, e o que ele gostava e não gostava do Brasil até então. A discussão estava animada e divertida, com todo mundo falando, muitas vezes ao mesmo tempo. Leves desentendimentos foram seguidos por boas gargalhadas. As vozes sintonizaram com o ruído constante de talheres e pratos.

      Entre todas as conversas que ocorreram, uma teria um efeito duradouro sobre o menino. Gil a iniciou quando perguntou:

      – Qual é o seu sobrenome mesmo? Como é que é? – um pouco hesitante – Petr…

      – Petrucci – respondeu o menino, enfatizando as três sílabas.

      Gil repetiu o sobrenome várias vezes:

      – Petrucci, Petrucci, Petrucci. Soa quase como um sobrenome daquela novela “Machão” – perguntando para todos em volta da mesa: – Qual era o nome daquela personagem?

      – Julião Petruchio – responderam Jupira e Moema em uma só vez.

      – É isso mesmo. Julião Petruchio – disse Gil. Brincando com o menino: – Eu vou te chamar de “Julião”. Vai ser o seu nome brasileiro, cara. Julião!

      – Julião! Julião! – repetiram alguns dos irmãos, rindo com Gil.

      – Para com isso! – repreendeu Mamãe. – O nome dele é “Peter”.

      A sala de jantar se silenciou por um momento e o menino ficou corado. Mas o nome “Julião” já estava feito. Daí para frente, Gil e outros da família frequentemente usariam o apelido com o menino americano.

      Logo após essa conversa, Zilda tirou a mesa e trouxe fruta, goiabada, e queijo Minas. Além da sobremesa, havia café, que se tomava em copos americanos. Maços de cigarros e cinzeiros também apareceram na mesa. E daí, aos poucos, as pessoas sairam da mesa. O almoço tinha se acabado.

      Mais tarde, enquanto desfazia a mala no seu quarto, o menino, ou seja, Julião, pensou sobre aquele primeiro almoço e sua nova família. Tinha gostado muito do carinho que sentiu e estava ansioso pelo próximo encontro com todo mundo em volta da mesa. Mas, igualmente, se preocupava com os nomes dos irmãos. Julião só podia identificar dois de seus sete irmãos: Moema, a segunda irmã que lhe recebeu quando chegou em casa, e José Alfredo, o irmão-caçula com quem Julião ia compartilhar o quarto. Quanto tempo precisaria para identificar todos os rostos com os nomes? E, dos nomes “Ubirajara” e “Jupira”, ambos terminando na letra “a”, qual se referia à irmã mais velha e qual se referia a um irmão? Sem dúvida, os nomes indígenas da família lhe deixaram um pouco aflito. Por fim, ia levar ao menos uma semana para o americano dominar os nomes e apelidos de todos da família naquela casa em Gutierrez.

      Curiosamente, mais tarde, quando estava falando o português muito melhor, ele apelidou a família de “família louca”. No início, esse apelido não foi muito apreciado. Mas Julião insistiu que, nesse caso, o sentido de “louca” era algo positivo que diariamente preenchia a casa com energia, alegria e amor. Embora o menino americano e sua família brasileira não soubessem na época, os dois apelidos – “Julião” e “família louca” – se tornariam parte da história deles.

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    • Novo começo em Minas Gerais

      Posted at 9:11 am by wannabemineiro, on fevereiro 19, 2020

      Oh, Minas Gerais!

      Oh, Minas Gerais!

      Quem te conhece não esquece jamais

      Oh, Minas Gerais!

      (12º canção: “Oh, Minas Gerais!”, José Duduca de Moraes e Manoel Araújo)

      Enfim, depois de uma longa noite confinado no ônibus de São Paulo, o menino chegou em Belo Horizonte, sua nova cidade. Duas pessoas lhe aguardava na rodoviária: David, o presidente do comitê local do AFS, e Paulo, um recém-bolsista no estado de Iowa. Ambos falavam inglês fluentemente, um fato que diminuiu a apreensão do menino.

      Os três prosseguiram a um Fusca estacionado em frente da rodoviária. O carro era de David mas não combinava com ele. De descendência holandesa, David media quase dois metros de altura e era meio gorducho. Quando se sentou atrás do volante, o carro se inclinou visivelmente à esquerda. E assim que ficou o menino com sua mala grande no banco de trás e Paulo no da frente, o carro parecia gemer de peso. David ligou o motor. Depois de alguns trancos, o Fusca sobrecarregado entrou no tráfego da Avenida Afonso Pena.

      Antes de ir à nova colocação do menino, se decidiu fazer um pequeno passeio na cidade. Naquela manhã o centro de Belo Horizonte estava muito movimentado e barulhento e o menino se deu conta imediatamente que os espaços abertos da fazenda tinham ficado para trás. Aparelhos de ar condiconado, colocados nas janelas de altos prédios, pingavam água fria sobre os pedestres embaixo. Via-se pessoas fazendo o sinal da cruz enquanto passavam por uma igreja, na qual as escadas dianteiras estavam ocupadas por pedintes. Subindo a Afonso Pena, vários ônibus, lentos e barulhentos, deixavam densas nuvens de fumaça. Até certo ponto, as ruas íngremes de Belo Horizonte lembravam as de São Francisco na Califórnia. Só faltavam os bondes e o mar.

      Ao chegar à Praça Milton Campos, o Fusca virou a direita na Avenida do Contorno. Paulo falou para o menino sobre a nova colocação:

      – Vamos chegar à sua nova casa daqui a pouco. Fica no bairro de Gutierrez. Sua família é grande.

      David assentiu – Sim, você vai morar numa família bem grande. São quantas pessoas mesmo, Paulo?

      – No total, nove pessoas: a mãe, o pai e sete filhos. Oh, e eu quase esqueci de dizer que todos os filhos têm nome de índio.

      – Como é que é? Nome de índio? – indagou o menino, incrédulo.

      – Não é brincadeira, não, cara. Todos têm, sim. – Paulo continuou – Eu só conheço as suas “irmãs”, Moema e Jupira. Elas estão estudando inglês comigo e são muito gentis. Tenho certeza que você vai gostar da família inteira.

      – Sim, vai ser uma família muito boa para você. – acrescentou David. – Mas, se tiver qualquer problema, eu e o Paulo podemos te ajudar. É só nos chamar.

      – Obrigado, David. – respondeu o menino sinceramente. Estava aliviado de ouvir que a nova colocação consistia de tantas pessoas porque isso queria dizer que ele podria evitar a solidão profunda que sentia na fazenda.

      O Fusca parou numa rua íngreme e estacionou ao lado duma casa com duas garagens. Os três sairam do carro e se aproximaram do portão gradeado do imóvel murado. Paulo apertou um botão e em breve uma jovem voz feminina se ouviu no alto-falante do portão:

      – Quem é?

      – Oi, Moema. Sou eu, Paulo. Estou com David e – dando uma risada – seu irmão americano.

      Outra risada se ouviu no alto-falante e o portão se abriu com um clique.

      Passando pelo portão, os visitantes subiram uma pequena escada de granito até o terraço dianteiro da casa, onde duas mulheres, mãe e filha, estavam esperando. Paulo apresentou o menino a Dona Júlia e Moema. Apesar de Paulo ter traduzido algumas palavras, o idioma mais importante naquele encontro memorável no terraço foi o de abraços e beijos, de sorrisos e risadas. Dentro de alguns minutos de leve conversa, cheia de desentendimentos, repetições e risadas, era óbvio que havia uma conexão imediata entre os membros desse novo grupo familiar. Ao ver essa química, David e Paulo se despediram das três, voltaram ao Fusca e partiram.

      Agora sozinho no terraço com sua nova mãe e irmã, o menino se sentiu completamente à vontade. Pegou a mala dele e, seguindo “Mamãe” e Moema, entrou na casa onde passaria o resto de seu ano AFS no Brasil.

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    • Conversas

      Posted at 8:15 am by wannabemineiro, on fevereiro 10, 2020

      A morte vem, sem ninguém esperar

      Enquanto estamos vivos, vamos aproveitar

      O tempo passa, vamos ver o que vai dar

      Toda essa vida, que um dia vai terminar

      (11º canção: “Tudo Bem, Tudo Bom”, Oswaldo Vecchione Jr.)

      – Aquele show do Made in Brazil foi demais! Também gostou, Peter?

      – Sim eu gosto.

      – Que bom que gostou. Já assistiu a um show de rock na Califórnia?

      – Quê? Por favor. Deva– mais devagar.

      – Você já assistiu a um show de rock na Califórnia?

      – Eu…hã…assist– desculpe…quê?

      – Ô, Valdir, faça favor. Pergunta pro Peter se ele já assistiu a um show na Califórnia.

      – She wants to know if you ever went to a rock concert in California.

      – No, never. Nunca. Made in Brazil é a primeira vez…primeira show. Eu gosto muito.

      ………..

      – Cadê o Fusca? Deve estar estacionado por aqui.

      – Ali está, meu bem.

      – Boa, Jéssica. Vamos embora. Peter, Valdir, rápido! Quero evitar engarrafamento na saída do estacionamento.

      ………..

      – Onde fica a saída dessa maldita cidade?

      – Calma, bem. A saída fica depois daquela avenida ali. Tá vendo? Mas primeiro, que tal uma pizza na cidade? Conheço um bom restaurante no bairro de Cambuí. Fica bem pertinho.

      – Ai, Jéssica, não posso fazer isso, não. Prometi à Senhora Cida que a gente ia levar o Peter para a fazenda logo depois do show. Ela deve estar nos esperando.

      – Mas, Sílvio, eu tenho fome.

      – Sinto muito, meu bem. Estamos voltando agora mesmo. Mas, na próxima vez que estivermos em Campinas, podemos comer pizza em Cambuí. Prometo.

      ………..

      – Ô, cara, fala alguma coisa!

      – Alguma coisa.

      – Para de brincadeira, Peter, e fala alguma coisa.

      – Alguma coisa.

      – Essa foi boa. Uma piada em português. Mas falando sério, você está entendendo o português agora?

      – Sim, mais ou menos. Eu entendo português quando você fala devagar e simple.

      – E falar?

      – Muito difícil, Sílvio. Ainda eu falo justamente um pouco.

      – Usamos “somente” para just. “Somente um pouco.”

      – Hã, sim, obrigado, Valdir. Eu falo somente um pouco.

      – Ô, Valdir, você é como o professor do Peter, né?

      – Professor não sou, não. Mas ofereço qualquer ajuda que puder. E, sem dúvida, o português dele está melhorando.

      ………..

      – Eu quero falar alguma coisa.

      – Sim?

      – Hã…eu…

      – Fala, cara.

      – A seman– next week eu vou a Belo Horizonte. Eu tenho nova família lá.

      – O quê?! Você vai morar em Belo Horizon–

      – Você tá indo embora. Gente, que é isso?

      – Nós I mean Senhora Cida, Eduardo e mim…hã…nós temos…hã…problemas. Eu quero novo– a new start.

      – Peter, what are you talking about? What is the matter?

      –I’m not happy on the farm. We don’t understand each other and there is nothing there for me. Nobody to talk to. It’s just so…so–

      – Take it easy, cara. Take it easy.

      – Ô, Valdir, traduz pra gente. O que é que o Peter falou? Tá indo embora de verdade?

      – Acho que sim. Falou que está bem triste na fazenda. Não entendo exatamente. Parece que ele tem bastante problema com a família. Desentendimentos, brigas…não sei o que.

      – Que pena gente.

      ………..

      – Esse caminho de terra está escuro demais e deve ter muitos buracos, né?

      – Então, anda mais devagar, Sílvio. Se não, vai estragar o carro.

      – Acho que estamos chegando…olha, a Senhora deixou a luz da varanda acesa.

      ………..

      – Muito obrigado esta noite, Sílvio. Eu gosto Made in Brazil. Muito bom.

      – Então tá bom, Peter.

      – Tchau, Jéssica.

      – Tchau, Peter.

      – Valdir, thank you for your help!

      – Que é isso, cara? Não foi nada. Tchau.

      – Tchau.

      ………..

      – Eu sabia que o Peter estava com dificuldades mas nunca imaginei que a situação na fazenda fosse séria assim. Não entendo exatamente o que está acontecendo entre ele e a família.

      – Pois é, Valdir. Também não entendo porque ele precisa ir para Minas. Deve ter outras famílias por aqui, especialmente em Campinas.

      – Você tem razão, cara. Mas, de qualquer maneira, espero que a nova família em Belo Horizonte seja melhor para ele.

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    • Dance, beba, durma, repita

      Posted at 10:28 am by wannabemineiro, on janeiro 31, 2020

      Olha o bloco do sujo, que não tem fantasia,

      Mas que traz alegria, para o povo sambar,

      Olha o bloco do sujo, vai batendo na lata,

      Alegria barata, Carnaval é por lá.

      (10º canção: “Bloco de sujo”, Marchinha de Carnaval)

      O menino não sabia o que esperar naquela primeira noite do Carnaval. Vestido num traje de monge dominicano, ele estava na praça, aguardando sete colegas. Antes, quando modelava a fantasia perante sua família na fazenda, a Senhora lhe explicou que ele estaria festejando na rua num “bloco de sujos”. Isso não queria dizer nada para ele. Mas as risadas da Senhora e do Eduardo sugeriram que esse evento seria algo divertido e, se não se bebesse a mais, inesquecível.

      Dentro de vinte minutos, a turma inteira tinha chegado. Uma garrafa de cerveja apareceu e os monges todos beberam dela. Havia muito movimento e barulho na praça. Pessoas fantasiadas e bateristas falavam, brincavam e, sobretudo, bebiam. Os jovens de vários grupos avaliavam uns aos outros. Parecia que a noite seria, por um lado, uma competição, e, por outro, uma brincadeira.

      Valdir, um colega do colégio, falou para o menino em inglês:

      – OK, daqui a pouco todo mundo vai com aquele grupo de bateristas. Enquanto eles fazem o ritmo a gente vai dançar o samba. Você vai ver que é bem fácil, tá bom?

      Sem palavras, o menino fez um fraco aceno afirmativo. Valdir não apenas falava inglês, mas falava bem! No colégio, Valdir nunca dizia nada, nem em português nem em inglês. Será que a cerveja tinha afrouxado a língua dele?

      Valdir ofereceu mais palavras de encorajamento:

      – Olha, cara. É só trocar os pés. – dançando em frente do menino – Direita, esquerda, direita. Esquerda, direita, esquerda. Um, dois, três. Um, dois, três. Bem fácil, cara.

      Pouco depois, com o começo do ritmo, o menino se encontrou dançando com a turma dominicana. Um, dois, três. Um, dois, três. Os passos não eram tão fáceis quanto Valdir explicava porque, na cadência da batucada, a transferência dos pés era rápida demais. Além disso, enquanto sambavam, os monges passavam um para o outro uma nova garrafa de cerveja. Quando foi sua vez, o menino teve que parar de dançar completamente, pegar a garrafa, beber uns goles, e passá-la à próxima pessoa. O bloco continuava dançando ao redor da praça. Aos poucos, o menino melhorou. Um, dois, três. Um, dois, três. Porém, embora estivesse fazendo os passos mais rapidamente, não conseguia mexer o corpo como os outros.

      Que impressionante eram os foliões. Sambavam perfeitamente ao ritmo da batucada, como se tivessem nascido para dançar. E as mulheres! A sensualidade em seus movimentos cativou a atenção. O menino não conseguia desviar o olhar das dançarinas semi-nuas. Falou a si mesmo:

      – Para de olhar, cara! As pessoas vão achar que você, “o gringo”, é idiota ou, pior ainda, tarado.

      Mas, como qualquer jovem de dezessete anos, não parou de olhar. Será que algumas garotas estavam olhando para ele também?

      Um pouco mais tarde, os monges completaram uma volta na praça. Tirando as suadas vestimentas dominicanas, o menino e seus colegas ficaram de bermuda e camiseta. Atravessaram a rua e entraram num grande salão, lotado de gente bebendo e dançando. Sentaram-se numa mesa retangular. Pediram cerveja, Campari, cachaça, e, para absorver todo esse álcool, pratos de batatas fritas e linguiça. Fazia muito calor no salão ensurdecedor.

      O menino entendeu que o resto das festividades seria no salão. No entanto, meio bêbado, ele não estava completamente a par do que estava acontecendo em volta de si. Sem dúvida, a turma bebia e sambava mais ainda. Havia também conversas embriagadas, vozes altas misturando o português e o inglês, e desentendimentos seguidos por risadas. Alguém tentou lhe ensinar uma marchinha popular, mas o menino, coitado, só conseguia repetir “mamãe eu quero” várias vezes. Dançando numa linha de conga, alguém em frente dele cativou sua atenção. O menino não pegou o nome direito dessa moça bonita. Ana Laura? Ana Clara? Seja como for, dançou mais com ela do que com qualquer outra pessoa naquela noite.

      E daí o dia começou a clarear. Os jovens foram a outro clube social para tomar o café da manhã e nadar, mas sem muita vontade. Era óbviou que todo mundo estava exausto após a longa noite.

      Ao chegar na fazenda, o menino sentiu o começo duma ressaca que ia ser poderosa e inesquecível. Com a cabeça latejando, se lembrou do que seu irmão Eduardo tinha lhe falado sobre o Carnaval:

       – Quando voltar pra cá de manhã, bebe muita água, dorme bastante, e se prepara pra mais uma noite de loucura.

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    • Entendendo nada

      Posted at 11:11 am by wannabemineiro, on janeiro 14, 2020

      Alguma coisa acontece no meu coração

      Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

      É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi

      da dura poesia concreta das tuas esquinas

      (9º canção: “Sampa”, Caetano Veloso)

      A Senhora tinha outra casa no bairro de Ibirapuera em São Paulo. Moderna e segura, servia como base urbana para a família.

      Nessa ocasião, a Senhora e o menino estiveram em São Paulo para tirar uma carteira de identidade para estrangeiros. Cada lugar que tiveram que visitar, fosse a imigração, a delegacia de polícia, ou mesmo o fotógrafo oficial, tinha uma fila longa. Esses locais todos ficavam não muito pertos uns dos outros. Por isso, a Senhora e o menino passavam bastante tempo em fusca-táxis e, uma vez, num ônibus público, indo dum lugar ao outro no centro da cidade. Depois de dois dias cansativos, conseguiram tirar a documentação do processo e o agente da imigração lhes disse que a carteira ficaria pronta e despachada à fazenda dentro de duas semanas.

      Na manhã seguinte, a Senhora decidiu ficar mais um dia em São Paulo. Queria discutir seus próprios negócios com o advogado da família e visitar vários bancos. Terminando seu café com o menino, ela lhe informou em inglês:

      – Vou sair pro centro agora. Quero que você fique em casa. Pode estudar o português ou, se quiser, assistir a televisão. Tá bom?

      – Ok.

      – E a Rosa vai preparar o almoço pra vocé, tá?

      – Ok.

      – Volto pra cá depois das quatro da tarde. Hoje à noite podemos jantar juntos. Tchau.

      – Tchau.

      Enquanto ele continuava com seu café da manhã, a Senhora saiu da cozinha. Logo depois, se ouviu a portão da casa abrir e fechar.

      Num instante, o menino decidiu que ele também iria para a cidade. Se subisse logo no ônibus marcado “Praça da Sé” que passava em frente da casa, poderia dar uma caminhada no centro e voltar para Ibirapuera antes que Rosa servisse o almoço. E, o que era mais importante, se ele partisse e entrasse a casa sem barulho, a empregada e, por sua vez, a Senhora não saberiam nada da sua escapadinha na cidade.

      Meia hora depois, o menino estava no ônibus, rumo ao centro da cidade. Já tinha andado de ônibus com a Senhora, então sabia como entrar pelo portão detrás, entregar ao cobrador um cruzeiro e cinquenta centavos e passar na catraca. Mas ao sentar-se num lugar à janela para que pudesse reparar pontos de referência para a volta, ele começou a ter dúvidas sobre seu plano precipitado. Será que podia realmente chegar ao centro e voltar para o Ibirapuera? E se não conseguisse completar a excursão? Que faria? A cada curva no percurso, com cada subida de passageiro, seu coração pulsava mais rápido e os receios se multiplicavam na sua imaginação. Fugir da casa talvez não fosse uma boa ideia.

      Enfim, o onibus lotado chegou a Praça da Sé, seu ponto final. Ao descer, o menino notou que a linha começava na mesma parada. Ele se tranquilizou um pouco e partiu para sua caminhada.

      Da Praça da Sé, prosseguiu por um calçadão de pedra portuguesa. Dentro de dez minutos, virou à direita, caminhou até um cruzamento de três ou quatro ruas somente para pedestres, e parou.

      Na larga área aberta do cruzamento, havia algumas dúzias de pessoas, indo de um lugar para outro. Um homen de negócios, elegante num terno cinza e agarrando uma pasta de couro, andava com uma aparência séria, como se estivesse preparando-se para o dia. Correndo com as mãos dadas, um moço e uma moça, ambos de uniforme duma escola próxima, desapareceram ao redor duma esquina. Mais serenamente, três freiras carmelitas, vestidas de negro, quase flutuavam através do cruzamento. Um homem albino passou, de cabeça para baixo, evitando as olhadas dos outros pedestres. Tudo isso e mais estava em exibição diante do menino, que ficava em pé, olhando, paralisado de fascinação.

      Sentiu-se um toque insistente no ombro. Virou-se ao ver um homem magro, empurrando uma bíblia esfarrapada na sua cara.

      – Moço, moço! Eu trago a palavra do Senhor.

      Sem entender nada e com muito medo desse homem visivelmente nervoso, o menino replicou com a frase predefinida que tinha usado desde sua chegada no Brasil:

      – Eu não falo português.

      – Eu trago a palavra do Senhor. Jesus Cristo é o Filho de Deus, moço. Somente Ele pode te salv…

      – Eu não falo português. English, only English.

      Ao ouvir outra língua, o homem se calou. Vacilou. Seus lábios começaram a tremer, como se procurasse a língua certa para continuar a doutrinação. Logo depois, e tão repentinamente quanto havia aparecido, o pregador de rua se virou e desapareceu na multidão.

      Assustado, o menino se preocupou novamente. Mas, dessa vez o que lhe angustiava era o povo em volta de si. Devido ao encontro imprevisto, ficou convencido que algumas das pessoas lhe passando na rua pudessem ser esquisitas, até duvidosas mesmo. Arrepiou-se com essa ideia e decidiu regressar para o Ibirapuera.

      A volta no ônibus estava sem problemas. O menino desceu na parada certa, atravessou a avenida, e entrou a casa, bem antes da hora do almoço. Missão cumprida.

      Mas, quando a viu na entrada da casa, o menino sabia que a empregada não apenas sabia do sumiço dele mas também tinha estado bem preocupada por aquilo. Infelizmente, ele não teve o português suficiente para lhe pedir desculpas. Ademais, foi graças a Rosa que a Senhora nunca soube daquele passeio impulsivo ao centro.

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    • Mar de cana

      Posted at 6:37 am by wannabemineiro, on dezembro 18, 2019

      Decepar a cana

      Recolher a garapa da cana

      Roubar da cana a doçura do mel

      Se lambuzar de mel

      (8º canção: “Cio da Terra”, Chico Buarque e Milton Nascimento)

      O menino saiu da casa depois de um grande almoço. Ficou de pé na varanda, escutando as cigarras e sentindo o calor do verão. Em frente à varanda um gramado espesso estendia-se até a piscina ensolarada.  Ao lado esquerda da casa tinha um galpão, estábulos de cavalo, e alguns casebres. Em torno de tudo isso, enxergava-se a cana-de-açúcar. Cana em todas as direções, ondulando na brisa. Um mar de cana.

      Ele se sentou numa cadeira de vime. Enquanto fitava a cana na distância, refletiu sobre seus primeiros dez dias na fazenda.

      A sua “família brasileira” era gente boa. Além de serem simpáticos, a Senhora Cida e seu filho, Eduardo, falavam inglês adequadamente para assegurar que ele se sentisse em casa. No primeiro dia, a Senhora lhe perguntou sobre algumas comidas prediletas e logo depois pediu à cozinheira que preparasse uma macarronada de forno. Ela também descobriu que ele gostava muito de nadar, pois lhe permitiu usar a piscina quando quisesse. Quanto a Eduardo, no segundo dia, levou seu novo “irmão” de caminhonete para ver a fazenda e saber mais sobre a cultura de cana-de-açúcar. Também visitaram um engenho antigo que ficava a alguns quilômetros da propriedade.

      Nos dias seguintes, as rotinas normais recomeçaram aos poucos. Como dona da fazenda, a Senhora tinha que vigiar a gerência e as contas dos negócios da fazenda. Sempre acordava cedinho para enfrentar as tarefas do dia. Ela podia ser achada no seu escritório trabalhando; senão provavelmente estaria com seu motorista indo para algum lugar. Eduardo também trabalhava demais. Fosse em frente da casa, no galpão ou no campo, passava bastante tempo falando com os empregados. Quando não atuava como capataz, estava no estábulo ou a cavalo. Eduardo adorava os quartos de milha que criava na fazenda.

      Devido às obrigações diárias da Senhora e do Eduardo, o menino estava se achando cada vez mais só. Na verdade, tinha sido muito ingênuo sobre as exigências de morar no exterior. Antes de vir ao Brasil, sempre romantizava o ato de viajar pelo mundo. Nunca pensou que viajar podia levar a solidão.

      Certamente havia outras pessoas na fazenda. Mas esse pessoal todo eram trabalhadores que não falavam nada de inglês. Aliás, dois eventos recentes mostraram que, como “membro da família” da Senhora, não se devia passar muito tempo com os empregados. Uma tarde tentou ajudar um homem bronzeado limpando a piscina mas era óbvio que esse homem não queria ajuda nenhuma. O outro evento foi mais sério. Desde o primeiro dia em casa, o menino tinha notado a moça bonita, embora tímida, que servia-lhes os pratos e tirava a mesa depois de cada refeição. Essa jovem parecia ter mais ou menos a mesma idade dele. No quarto dia, ele decidiu se comunicar com ela. Usando gestos e poucas palavras de inglês, tentou lhe perguntar sobre a comida que ela estava servindo. A tentativa fez a jovem corar e dar uma risadinha que, por sua vez, fez ele rir. Mas ao ver o olhar reprovador da Senhora, ele se calou e a moça recuou para a cozinha. Mensagem compreendida: não se paquera com essa pessoa, nem com qualquer outra trabalhando para a família.

      O começo das aulas no colégio na cidade próxima representou sua chance de estar com gente da mesma idade. No entanto, mesmo numa sala cheia de jovens, ainda se sentia só. No primeiro dia, dois rapazes corajosos, talvez fossem irmãos, se apressaram para ele, deram-lhe um sinal de joia, repetiram – Jimmy Carter! Jimmy Carter! – e, antes que ele pudesse responder, se afastaram abruptamente. Os outros estudantes na sala explodiram em risos. Ele também riu, mas sem muita vontade. Esse cenário de “Jimmy Carter” aconteceu várias vezes durante a primeira semana e o resultado era sempre o mesmo. Sem dúvida, a falta de uma língua em comum lhe impediu de se misturar facilmente com as pessoas do colégio. Ele podia dizer apenas algumas palavras em português. Do outro lado, o pessoal da sua “turma” ficava com medo de tentar falar inglês, uma língua que estavam estudando. Até o professor de inglês tinha medo, ou vergonha, de falar com ele. Pois, as aulas matinais estavam inquietas para todo mundo. Por causa disso, às 12 horas, o menino se sentia muito aliviado ao ver o motorista aguardando em frente do colégio para lhe levar de volta à fazenda.

      Então, o que é que ele, sozinho nessa fazenda, tinha feito até agora? Além de curtir as delícias culinárias da cozinheira, passava o tempo nadando, caminhando pelas estradas de terra adjacentes e, sobretudo, tirando soneca. Não estava estudando nada do português, nem das outras matérias do colégio. A única vez que andou a cavalo foi um desastre. Quase caiu da sela, a égua ficou ressabiada, e a Senhora decidiu que ele não deveria cavalgar mais, ao menos por algum tempo.

      Dizendo a verdade, a única experiência divertida nesses dez dias foi quando o menino acompanhou Eduardo para examinar o novo equipamento agrícola à venda em algumas cidades próximas. Naquele longo dia, a visita da região, com Eduardo dirigindo e oferecendo comentários sobre as paisagens, representava um tipo de turismo. Embora o menino estivesse no Brasil, a segurança da caminhonete lhe protegia daquele mesmo país. Foi muito legal aquele passeio.

      Ele acordou de seu devaneio. Olhou para a cana e pensou:

      – Sou um náufrago nesse mar de cana. Esse ano no Brasil vai ser mais difícil do que eu jamais imaginava.

      Sentindo um nó familiar na garganta, o menino entrou na casa para o refúgio de mais uma soneca.

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    • O morro

      Posted at 1:49 pm by wannabemineiro, on novembro 30, 2019

      Vai barracão

      Pendurado no morro

      E pedindo socorro

      A cidade a seus pés

      ( 7º cancão: “Barracão de Zinco”, Luiz Antonio e Oldemar Magalhães)

      No dia final da orientação, os bolsistas tiveram a oportunidade de visitar a escola de samba da Mangueira. O Carnaval estava por chegar e os membros do comitê do AFS juraram que a escola estaria “em plena loucura” fazendo as últimas preparações para o grande desfile na Avenida Presidente Vargas. Os bolsistas também foram informados que, antes de chegar na Mangueira, o ônibus fretado passaria por alguns lugares renomados como Ipanema e Copacabana. Mas conforme as regras até então, o passeio seria rigorosamente controlado a partir do Colégio Santa Marcelina. Teria poucas chances de descer do ônibus. O Rio de Janeiro seria visitado principalmente através da janela.

      Às 15 horas, o ônibus saiu do colégio na direção de São Conrado. Na descida do Alto da Boa Vista, parou no Mirante das Canoas. Os bolsistas desembarcaram do ônibus e aproximaram-se ao gradeamento de segurança do mirante. Embora o sol brilhasse no oeste do horizonte, a paisagem estava deslumbrante. Avistava-se claramente o despenhadeiro abrupto da Pedra da Gávea como se estivesse a apenas alguns passos dos visitantes. Ao pé do monolito granito, estava o bairro abastado de São Conrado. Alguns apartamentos do bairro, situados entre o mar e um campo de golf arrumadinho, pareciam ser bem privilegiados. Muito além desses prédios, se conseguia distinguir a ondulação consistente do mar, com cada onda avançando lentamente até quebrar na praia numa linha branca e silenciosa. Os jovens queriam ficar mais tempo curtindo o panorama mas, depois de alguns minutos, foram conduzidos de volta ao ônibus rapidamente.

      Do Mirante das Canoas o ônibus desceu até São Conrado. De lá, virou esquerda na Avenida Niemeyer rumo ao Leblon. De uma faixa em cada sentido, a avenida serpenteava entre o mar e o Morro Dois Irmãos.

      Num só instante, o menino se deu conta de que estava sentado no lado errado do ônibus. Ou seja, embora tivesse escolhido um lugar à janela, sua janela não dava ao mar, mas sim ao morro. Assim, em vez de ficar com o pescoço duro tentando ver uma vista fragmentada do mar, o menino decidiu estudar o morro que subia abruptamente a sua esquerda como uma alta muralha, cuja cor alternava entre o verde da vegetação espessa e o cinza das grandes extensões de granito.

      De vez em quando, enquanto o ônibus prosseguia na Avenida Niemeyer, o menino tinha vislumbres de umas casas e barracões pendurados nas encostas acentuadas do morro. Cada casinha diferia das outras não apenas no tamanho, contorno e cor mas também nos materiais de construção e nas imediações. Tijolos de argila, muros de estuque multicoloridos, janelas com e sem vidraças, terraços e andares de cima, tanques de agua, roupas diversas penduradas numa corda entre dois barracões…sem dúvida, havia uma beleza inesperada na desordem daquelas casas grudadas no morro.

      O ônibus continuou por avenidas que rodeavam a orla marítima da Zona Sul do Rio: Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo. Com sua vista das praias e do mar ainda em pedaços, o menino se concentrou na cidade. Além dos belos mosaicos de calçada, havia apartamentos e hotéis luxuosos com varandas em frente ao mar. Curiosamente, como era o caso na Avenida Niemeyer, de vez em quando o menino podia entrever outras casas humildes, sempre penduradas em algum morro no fundo da cidade. O acesso a essas casas parecia difícil: em vez de ruas e calçadas, caminhos erodidos e escadarias precárias levavam os moradores ao morro.

      Foi a primeira vez que o menino viu casinhas e barracões assim. Tinha a impressão que no Rio de Janeiro quanto mais alto no morro uma pessoa residia mais pobre ela era. Isso era o contrário da sua cidade na Califórnia onde as casas e apartamentos das classes médias se localizavam numa planície enquanto nas encostas da serra entorno da cidade morava a classe alta.

      Assim que os bolsistas chegaram no grande barracão da Mangueira, o menino aprendeu que o que estava estudando pela janela do ônibus era a favela. Aliás, a guia acompanhante quem os recebeu na Mangueira explicou que toda pessoa que estava fazendo preparações para o próximo Carnaval morava numa favela atrás da escola, simplesmente chamada “o Morro da Mangueira”.

      Como a guia relatou numa voz forte e orgulhosa:

      – Trabalhamos na cidade mas vivemos no morro. Isso quer dizer que nosso dia-a-dia inclui ao menos uma descida e uma subida por dia.

      A visita guiada foi interessante. Exatamente, como os membros do comitê tinham prometido, a escola estava em plena loucura, cheia de antecipação. Todo o mundo da Mangueira tinha uma tarefa específica. Havia costureiras fazendo fantasias, carpinteiros construindo carros alegóricos, mulheres lindas sambando, e, sobretudo, bateristas ensaiando ritmos incansáveis.

      Passariam anos antes que o menino entendesse a rica influência da favela no Carnaval e na música e cultura brasileira. Por enquanto, além de ficar na sua mente uma imagem indelével de casas penduradas no morro, aquela visita guiada à Mangueira lhe permitiu conhecer, pelo menos um pouco, algo das pessoas morando naquelas casas.

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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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