Talvez eu morra jovem
Alguma curva no caminho
Algum punhal de amor traído
Completerá o meu destino
(16º canção: “Coração selvagem”, Belchior)
Poucos dias depois de que foi diagnosticado com câncer, meu pai chamou todos da família para se reunir em seu quarto no hospital. Queria falar sobre a resolução final de seus bens após a sua morte. Felizmente, o pedido foi prematuro pois meu pai viveria mais alguns anos. Mas o que sempre vou lembrar daquele dia melodramático é que foi a primeira vez que encontrei o advogado da família. Ao chegar no quarto do meu pai, esse homem, grandalhão e mal vestido, nos cumprimentou e começou sua fala assim:
– A vida é um risco.
Enquanto conversava amistosamente com meu pai e coletava informações minhas e de meus irmãos, o advogado reiterava essa declaração brusca várias vezes.
No dia seguinte, minha irmã e eu trocamos ideias sobre a reunião no hospital. Tivemos a mesma impressão geral. Achamos assustador aquele advogado falando sobre os riscos de vida diante de uma família enfrentando o câncer. Ele tinha repetido “a vida é um risco” tantas vezes que pensamos que talvez fosse agente de seguros ao invés de advogado. Porém, mais tarde, aprendemos que o advogado, alguém que agora respeitamos muitíssimo, teve, e ainda tem, toda razão em repetir aquela frase quantas vezes ele quisesse. Ou seja, em 1969, quando ele era estudante numa universidade perto de São Francisco, sobreviveu a um esfaqueamento repetido de um assassino em série que matou pelo menos 30 pessoas, inclusive a namorada dele.
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A vida é um risco. Recentemente, tenho pensado muito nas palavras do advogado. Mas desta vez o estímulo deste mantra envolve outra “palavra-C”: o coronavírus. Todo dia mais e mais pessoas em mais e mais países estão ficando doentes ou morrendo. Sem dúvida a crise do coronavírus está por chegar na Nova Zelândia, onde, até agora, há cinco casos do vírus. Será que o país está preparado para isso?
Cada pessoa tem suas próprias preocupações sobre o maldito vírus. Para JJ e eu a questão imediata talvez pareça superficial. Nós devemos ou não devemos viajar para a Califórnia e o Texas na semana que vem? Em janeiro deste ano, por impulso, compramos passagens baratas para Los Ángeles. Infelizmente, não se permite reembolso nenhum das passagens. Podemos adiar a viagem, mas, mesmo para fazer isso, teremos que pagar uma multa pesada. Além disso, já pagamos três noites num hotel em San Antonio, Texas. Como as passagens aéreas, essas noites não são reembolsáveis. Sempre viajamos com seguro de viagem mas, neste caso, nossa apólice não cobre reclamações provocadas pelo vírus. Afinal de contas, se não formos nesta viagem, vamos perder bastante dinheiro.
A outra escolha é acompanhada por outros riscos. Se nós formos aos Estados Unidos daqui a uma semana, é óbvio que o risco de contrair o vírus vai aumentar bastante. Ainda bem que JJ e eu temos boa saúde. Todo dia praticamos atividades físicas como a natação e o ioga e temos uma dieta balanceada. Mas não somos exatamente jovens e, do que se sabe do vírus até agora, parece que os efeitos são mais danosos para pessoas de nossa idade. Há outro cenário possível: não adoecer do vírus efetivamente mas o contrair e infectar alguém pelo caminho. Se isso aconter, eu ficaria horrorizado por saber que eu tivesse transmitido o vírus. E se a pessoa infectada fosse um membro de minha família, como minha querida mãe que mora num asilo na Califórnia…nem quero imaginar. A última consequência que podia provir da decisão de viajar na semana que vem é que nós não poderíamos voltar à Nova Zelândia durante algum tempo. Por exemplo, nós poderíamos estar sujeitos a algum bloqueio nos Estados Unidos, esperando obter liberação para viajar novamente. Ironicamente, é possível que essa situação de limbo, se durasse por muito tempo, custaria mais do que as passagens e as noites no hotel em San Antonio.
Pois então, a pouco mais de uma semana de embarcar para Los Ángeles, JJ e eu precisamos decidir se viajamos como planejamos ou se ficamos na Nova Zelândia e perdemos bastante dinheiro. Enquanto eu pondero as vantagens e desvantagens de tomar uma decisão ao invés da outra, cinco palavras insistentes ecoam na minha mente: a vida é um risco.
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Posfácio:
Hoje é o dia 20 de Março de 2020, a data de nossa viagem. Às 22 horas, nosso avião, um dos últimos ainda voando na frota da Air New Zealand, vai decolar para Los Ángeles. No avião vão faltar, pelo menos, dois passageiros.
