Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos meus livros e nada mais
( 2º canção: “Casa no campo”, Zé Rodrix e Tavito)
Cara Elis
Já faz muito tempo que queria te escrever esta carta. Quando morei no Brasil, te vi várias vezes na televisão. Não entendia tudo do que você cantava mas a sua voz e presença no palco me tocaram profundamente. Seja “Romaria” ou “Atrás da porta”, “Madalena” ou “Casa no campo”, eu sempre tinha a impressão de que você estava cantando só para mim. Ao ouvir sua voz minha mente vagueava por locais distantes, encontros imaginados. Confesso que, naquela época, minha fascinação por você beirou a paixão. Até me lembro pensando em você quando passei por Porto Alegre numa longa viagem de ônibus: foi aqui onde Elis Regina nasceu!
Mas já basta de divagações do passado.
Quero te falar um pouco de hoje em dia. Não sei se você sabe mas o mundo mudou muito desde quando você cantava da alegria de estar numa simples casa no campo com seus amigos, seus discos, seus livros e nada mais. O mundo de hoje oferece contato com qualquer pessoa, música ou livro que quiser. De fato, oferece você. Ou seja, duas ou três palavras tecladas, um “clique do mouse” e, voilà, você aparece na telinha, sentada numa cadeira de balanço, cantando “Casa no campo”. Outras duas ou três palavras no teclado e mais um clique e se pode ler sobre a historia de sua vida ou mesmo a da Maria Rita que atualmente faz sucesso no Brasil. É só uma questão de procurar as informações que quiser. Cada busca nos leva a possibilidades sem fim.
Mas há outro mundo que nós, das gerações mais velhas, tivemos o privilégio de conhecer. Isto é o mundo da sua canção. Ao ouvir os simples versos acima, surgem em mim recordações e sensações que são quase proustianas:
A garoa fina que cai em silêncio fora duma casa no interior mineiro. Ao lado da casa, o Fusca e o Corcel, cobertos de lama depois da longa viagem de BH. Livros, concentrados em vários lugares, da entrada da casa até o banheiro. O cheiro de lenha queimada. Um disco predileto entre as pontas dos dedos antes de colocá-lo suavamente no prato do toca-discos. O silêncio crepitante que antecipa as vozes de Mercedes e Milton cantando em espanhol. A cozinha com o fogão à lenha e uma seleçao de cadeiras e banquinhos. Uma cesta cheia de mexerica e caqui. Empadão de frango e pão de queijo, fresquinhos do forno. Café de pano, copos de vidro e colheres, e, meio invisível na mesa, uma linha de formigas pequeninas rumo ao açucareiro. O ritmo da conversa em volta da mesa. Livros entreabertos. Trechos lidos, discutidos, relidos. Cigarros Hollywood, cinzeiro e mais um cafezinho. Sobretudo, o prazer de estar com amigos, frente a frente, sob o mesmo teto enquanto a garoa continua caindo.
Na época da sua canção, a casa no campo era muito mais do que um abrigo. Era um lar cheio de calor humano. Mas hoje em dia não sei se continua assim.
É isso que provoca em mim o desejo de falar com você, Elis. Se já não tivesse se despedido de nós, será que você se importaria de ver computadores e smartphones, e tudo o que é permitido pela tecnologia hoje, em sua casa no campo? Usaria o Uber para chegar àquela casa? Uma pesquisinha no Google ajudaria você e seus amigos a interpretar a canção que acabam de ouvir pelo YouTube? Ou, no caso de não estiver satisfeitos com os resultados da pesquisa, chamariam outros amigos no Whatsapp para saber outra opinião? E, afinal, se a casa no campo não tivesse acesso à internet? Será que quereria mesmo?
Cordialmente,
Julião
