Posted at 2:13 pm by wannabemineiro, on dezembro 24, 2025
…mesmo que hoje a gente esteja um pouco longe
Estamos sempre juntos
Estamos juntos sempre
(73ª canção: Minha irmã, Luiz Gabriel Lopes)
Em outubro deste ano, JJ e eu passamos duas noites num resort hotel à beira-mar na Península de Izu no Japão. O restaurante do hotel não estava lotado então podíamos sentá-nos numa mesa que dava ao mar. A vista daquela mesa era maravilhosa. A arrebentação de ondas estava impressionante e além das ondas se avistava umas ilhas volcánicas.
Na segunda noite de nossa estadia, porém, meu olhar saiu da janela para se focalizar num grupo de seis mulheres jantando juntas no outro lado do restaurante. Estavam numa mesa longe de mim e eu não consegui distinguir os detalhes dos rostos delas. Mas era óbvio que essas mulheres apreciavam a comida e a companhia umas das outras. Saí do restaurante pensando, “Que legal! Seis amigas viajando juntas. Pergunto-me onde que é que elas se conheceram?”
Na manhã seguinte desci do nosso apartamento para procurar uma xícara de café. Café na mão, entrei numa área comum do hotel e vi as mulheres novamente. De fato, uma delas me pediu para tirar uma foto de todas elas sentadas numa sofa.
Foi então que aprendi que as seis mulheres eram irmãs. Uma delas que morava no Canadá me explicou em inglês que de vez em quando fizeram reuniões no Japão ou fora do Japão mesmo. Continuando, ela me disse que, na verdade, elas eram sete irmãs, mas a irmã mais velha, que morava na Califórnia, não podia vir para a reunião aquele ano. As outras cinco irmãs moravam todas em Tóquio ou Chiba.
Um pouco mais tarde, a JJ chegou e eu a apresentei às irmãs. Ela ficou encantada com esta família! Começou a bater papo com elas. Eu não entendia muito do que essa mulherada falava mas vi que a JJ fez uma conexão imediata com as seis irmãs. Para ser honesto, acho que o amor e alegria mostrados entre as seis irmãs foram infectuosos. Sorrisos, risadas, olhares, toques – o calor humano que se sentia nesta turma fraterna era muito legal.
O nosso encontro com as seis irmãs durou só uns minutos mas tinha uma influência duradoura sobre nós dois. Até hoje, nós falamos com carinho das irmãs que encontramos naquele hotel no Japão.
Posted at 3:38 pm by wannabemineiro, on dezembro 18, 2025
A amizade sincera
É um santo remédio
É um abrigo seguro
(72ª canção: Amizade sinceira, Renato Teixeira)
Maíne é a primeira pessoa da Bahia que conheci de verdade na minha vida. Até o momento em que eu encontrei a jovem baiana em 2019 através do Italki, um site de aprendizagem de línguas, a única Bahia que podia visualizar era aquela Bahia romantizada nas obras de Jorge Amado ou em canções como “O que é que a baiana tem?”, “Você já foi a Bahia?”, ou “Tarde em Itapuã”.
Durante horas e horas de conversas no Skype, especialmente no período da pandemia, Maíne me mostrou que a Bahia é mais do que isso. Falou-me do interior baiano, da vida universitária em Salvador, da comida cotidiana de sua família, dos problemas de transporte e segurança na capital, das belezas do Farol da Barra e da Chapada Diamantina.
Em suma, aprendi muita coisa sobre a Bahia graças a Maíne. Durante nossas conversas me lembro pensando, “Que bacana seria visitar Maíne na Bahia.”
Após cinco anos de amizade, tive a oportunidade de visitar Salvador em 2024. Mas, Maíne não estava lá porque já tinha se mudado ao Canadá para fazer o doutorado em Sociologia. Mesmo não estando comigo, cada lugar que visitava naquela linda cidade me lembrava dela e das nossas conversas: o Pelourinho, a Barra, o Largo de Santo Antônio, o Museu da Gastronomia Baiano, o Elevador Lacerda. Gostei muito de minha breve visita a Salvador mas foi uma pena que não pude fazer a visita com Maíne, pois queria conhecer a Bahia junto com esta baiana raíz.
Por fim, JJ e eu encontramos Maíne em Ottawa, quando estávamos viajando no Canadá no mês de julho em 2025. Ela nos esperava em frente de nosso hotel. Abraçamos-nos e imediatamente começamos a falar em inglês e português. Como o caso de outros parceiros de língua virtuais que tive a oportunidade de visitar mais tarde, o encontro com Maíne foi natural, como se fosse uma conversa de vizinhos. Foi mais uma prova das fortes amizades possíveis através da Internet.
Passamos dois dias com Maíne. Fazia bastante calor naquela época do ano, mas deu para fazer caminhadas em Ottawa e, mais tarde, num parque florestal na província vizinha de Québec. Fizemos refeições deliciosas em vários restaurantes. Também visitamos, claro, uma sorveteria para fugir do calor. E durante toda a visita, falamos de muita coisa. Alguns assuntos foram bastante sérios como eventos atuais na Bahia e no Brasil, a história dos afro-americanos escravizados que escaparam para o Canadá antes da Guerra Civil nos EUA, e a política no Canadá, Brasil e Nova Zelândia. Outros assuntos foram muito mais leves: como sobreviver ao inverno canadense, incluindo evitar quedas nas ruas congeladas de Ottawa; a péssima qualidade do café no Canadá, um fato difícil para brasileiros morando lá; e como sentimos depois de comer la poutine – um prato distinto e pesado de Québec – pela primeira vez.
Sim, falamos de muita coisa. Mas o que vou lembrar mais da nossa visita foi uma pequena caminhada que fizemos depois de jantar a primeira noite em Ottawa. Saímos do restaurante e Maíne nos mostrou a Colina do Parlamento, uma coleção dos prédios majestosos do governo canadense. Ou seja, em vez de nos mostrar sua terra natal, ela nos fez um passeio da capital canadense. Durante todo o passeio na Colina, não pude deixar de pensar que essa jovem mulher saiu sozinha do interior da Bahia para completar seu sonho de fazer o doutorado no Canadá. Admiro o que a Maíne conseguiu fazer até agora. Não tenho dúvida alguma que ela vai ter mais sucessos nos próximos anos.
Para terminar esta postagem, quero responder a uma pergunta do letrista Dorival Caymmi: “O que é que a baiana tem?” No caso da minha amiga Maíne:
Tem coragem, tem / Tem empenho, tem / Tem integridade, tem / etc. etc. …
Posted at 10:28 am by wannabemineiro, on novembro 5, 2025
Agora está tão longe, vê
A linha do horizonte me distrai
(71º canção: Vento no litoral, Legião Urbana)
A chegada
Chegamos à Ilha Manatoulin de Sudbury, Ontário, na véspera da nadada. Fomos diretamente à casa de Dianne e Neil. Foi bom demais encontrá-los depois de mais de um ano de emails. São gente boa, um casal bem enraizado na ilha.
A casa deles fica na beira do Lago Mindemoya. Neil e Dianne nos acompanharam até a doca deles da qual podiamos avistar a Ilha do Tesouro na distância. Que emoção que senti quando a vi pela primeira vez. E a água do lago estava calma, quase lisa. Essa água estava tão atraente que foi difícil não tirar minha roupa e dar uma nadada lá mesmo!
Nós sentamos ao terraço da casa de Dianne e Neil e discutimos a nadada. Neil nos encontraria na doca de nosso hotel entre às 5:30 e 6:00 horas. Sua filha, Aspen, que por acaso trabalhava como salva-vidas, estaria com ele. Utilizando o motor elétrico do seu barco, Neil estaria ao meu lado direito, o lado do qual eu geralmente respiro quando nado. Assim, poderia me guiar facilmente.
Neil também nos ensinou que o nome local da Ilha do Tesouro é Mndimoowenh M’nis (‘A Ilha da Velha Mulher’). Vem de uma lenda Ojibwe na qual a ilha é a personificação de uma velha mulher fugindo da região sul de Ontário. Não sei se a história que contou é verdade ou não, mas, aos meus ouvidos, a Ilha da Velha Mulher soa mais intrigante do que o nome banal de Ilha do Tesouro.
Após nossa visita com Dianne e Neil, fomos ao hotel Rock Garden Terrace Resort. No alto de um penhasco na beira do lago, o hotel servia como mirante oportuno do desafio que me aguardava o dia seguinte. O morro que podia ver na distância era a ilha.
Segui a trilha íngreme que descia o penhasco até a doca do hotel. Era daqui que começaria a nadada.
Dei uma mergulhada só para ver como estava a água. Que delícia! O Lago Mindemoya era, sem dúvida, um dos lagos mais lindos em que já nadei na minha vida.
Saindo da minha pequeninha nadada, falei com uma mulher de Toronto tomando sol na doca. Quando ouviu que eu vinha da Nova Zelândia, ela exclamou:
– Nossa! O Canadá tem tanto lugar para conhecer e você decidiu visitar Mindemoya? Por que?
Como responder? Hesitei um momento, pensando, si eu lhe dissesse a verdade será que estaria tentando o destino da prova amanhã? Será que alguém do hotel ou da polícia me diria que era proibido nadar através do lago? Por fim, apontei para a ilha e expliquei que faria uma grande nadada no dia seguinte. A mulher me escutou, boca aberta de incredulidade. Ela me parabenizou pela idéia e me desejou sucesso no desafio.
No restaurante do hotel naquela noite, vi a mulher de Toronto jantando com sua família. Ouvi ela dizendo que “aquele cara na outra mesa” ia nadar até a ilha. A partir desse momento, todo mundo do hotel soube do meu plano. Saí do restaurante pensando, “Ok, Peter, agora é pra valer.”
A nadada
Infelizmente, dormi muito pouco. Tínhamos chegado da Nova Zelândia dois dias antes e estava enfrentado um jet-lag forte. O fuso horário entre Nova Zelândia e Ontário era de 17 horas; ou seja, àquela noite, quando fui para a cama às 10 horas, meu ritmo circadiano ainda foncionava como se fosse 3 horas da tarde. Fiquei na cama, então, bem acordado, pensando sobre cada detalhe da nadada que me aguardava. Daí, me dei conta de outra preocupação, bem mais séria do que o sono. Não tinha nenhuma comidinha comigo. Geralmente, antes de nadar cedinho de manhã, como uma banana e um punhado de nozes. Mas tinha esquecido de comprar esse alimento! A única coisa que tive? Uma pequena barra de chocolate. Será que me daria a energia necessária para a prova? Enquanto eu ficava acordado na cama, um receio persistente me vinha: não preparei muito bem essa nadada até a ilha.
Às 5:30 de manhã, JJ e eu estávamos na doca, esperando Neil e sua filha. Eu já estava exausto e nem tinha começado a nadar ainda. Além disso, estava ventando naquela manhã, o que era raro no Lago Mindemoya no verão. Por isso o lago não estava liso como o dia anterior. Havia pequenas ondas, mas, pelo menos, sem arrebentação. Dentro de alguns minutos, Neil e Aspen chegaram na lancha. Repetimos um pouco a estratégia para alcançar a ilha. Neil pilotaria a lancha até a ilha numa linha reta e se ele precisava me comunicar algo, ficaria na proa, acenando. Combinado!
JJ entrou na lancha que se afastou da doca. Eu entrei na água e comecei a nadar. Com a lancha ao meu lado direito, podia avistá-la a cada respiração, exatamente como planejamos.
Logo percebi que sentia calor. A água do lago estava quase morna e eu estava nadando em roupa de neoprene. Pensei que a água estaria bem mais fria – outro exemplo de minha má preparação para o desafio. Tanto faz. Teria que aguentar minha decisão de equipamento e continuar nadando. Por acaso, JJ me contaria mais tarde que enquanto eu suava no lago, ela tremia de frio na lancha.
Também aprendi que podia sincronizar cada braçada com as ondas que estavam me batendo. Isto é, em vez de nadar através das ondas, consegui começar a braçada enquanto subia a onda e terminá-la enquanto a descia. Pelo menos, eu acho que nadava assim. Apesar desse ritmo eficaz, engoli um bocado d’água quando uma onda aleatória me bateu. Na verdade, o gosto da água de Mindemoya era saboroso e refrescante, completamente diferente da água do mar neo-zelandês.
Depois de uns 25 minutos nadando, o sol nasceu na minha frente. A partir daquele momento, não podia avistar a ilha.
Eu nem conseguia sentir para onde estava nadando, mas, felizmente, Neil estava ao meu lado direito, me guiando. Duas ou três vezes, ele me sinalizou de virar um pouco à direita para manter a linha reta à ilha. Que bacana ter um piloto particular! Era como se fosse uma travessia do Canal da Mancha.
Continuei nadando. Foquei minha atenção no ritmo da minha técnica e na lancha: dar uma braçada e pernada, outra braçada e pernada, respirar e avistar a lancha, uma vez e outra.
Pensei nisso. Mas, sinceramente, tinha outras questões circulando na cabeça. Rabanadas com xarope de bordo canadense? Ovos fritos com bacon e torrada? Tive fome e queria tomar o café da manhã no hotel.
De repente senti o começo de uma cãibra na panturrilha da perna direita. Comecei a nadar só de braçadas, esperando que se parasse as pernadas, o musculo da panturrilha se relaxaria. Mas não deu certo. A panturrilha endureceu como uma pedra e eu tive que parar completamente. Numa voz alta, expliquei aos outros que estava com cãimbra. Pensei, “Ai meu Deus, se eu tivesse comido uma banana antes, eu não estaria sofrendo!” Massageei minha panturrilha e o nó do músculo soltou um pouco. Neil me encorajou, dizendo que eu já tinha nadado mais do que a metade da travessia. Comecei a nadar novamente com pernadas bem suaves e, dentro de cinco minutos, eu podia voltar a meu ritmo normal. A cãibra já tinha passado.
Novamente foquei a atenção. Braçada e pernada, outra braçada e pernada, respiração, localização da lancha, uma vez e outra. Não tinha nenhuma ideia para onde estava nadando porque o sol batia muito forte diretamente na minha frente. Era só uma questão de continuar. Braçada e pernada, outra braçada e pernada, respiração… Mesmo assim, estava ficando meio desiludido, porque a nadada me parecia interminável. Sofria da insónia da noite anterior e tinha uma fome imensa.
Apenas quando pensei que não poderia dar mais uma braçada, o momento mais mágico de qualquer nadada de água aberta aconteceu: vi o fundo abaixo de mim, ficando mais e mais perto. Depois de uma dúzia de braçadas, estava quase dentro do alcance. E daí, num instante, eu estava a pé na beira da ilha. Nadei até a ilha!
Passei somente alguns momentos à beira da ilha. Entrei na água novamente, nadei até a lancha e subi. Neil me disse que fiz a nadada de cinco quilômetros em mais ou menos uma hora e quarenta e cinco minutos. Estava bem feliz com esse resultado.
Neil nos levou – rapidinho comparado à nadada! – de volta à doca do hotel. Agradeci Neil e Jasmine e nós nos despedimos.
JJ e eu fomos ao nosso apartamento no hotel e eu troquei de roupa. Quando entramos no restaurante, os hóspedes e funcionários do hotel me felicitaram com uma salva de palmas. Evidentemente, me tinham visto nadando no lago e voltando de lancha. Eu estava grato pela atenção.
Por fim, pedi o café da manhã: rabanadas com xarope de bordo canadense. Uma delícia!
Posted at 10:25 am by wannabemineiro, on novembro 5, 2025
Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber? A vida é tão rara
(70ª canção: Paciência, Lenine)
O descobrimento
Faz alguns anos que eu nadei num lago pequeninho chamado Arethusa Pool (‘a Piscina de Aretusa’). Com apenas 0.05 quilômetros quadrados, o lago estava lindo demais e a água fria e bem clara. Mas o que mais me impressionou foi o fato da Piscina de Aretusa ficar na pequena ilha de Mou Waho que, por sua vez, fica num outro lago chamado Lake Wanaka. Ou seja, nadei num lago num lago!
Segundo a Wikipedia, a Piscina de Aretusa é um “lago recursivo”. O encaixamento de um lago dentro de outro lago não é tão raro. Há vários exemplos no mundo. O país com o maior número de lagos recursivos é o Canadá. Este fato não é surpreendente, pois o Canadá tem a maior quantidade de água doce no mundo.
Pouco depois da nadada na Piscina de Aretusa, utilizei o Google Maps para procurar lagos recursivos do Canadá. Dentro de alguns momentos, avistei o Lago Mindemoya situado na Ilha Manatoulin no Lago Huron na província de Ontário. A imensidade da situação recursiva é notável. A área do Lago Mindemoya é 38.7 quilômetros quadrados, mais de 700 vezes maior do que a Piscina de Aretusa. Quanto à Ilha de Manatoulin, a maior ilha num lago no mundo, ela mede 2,766 quilômetros quadrados, o mesmo tamanho do estado de Rhode Island nos Estados Unidos. E a área do Lago Huron, a 60,000 quilômetros quadrados, é maior do que o estado do Rio Grande do Norte no Brasil. Além destes fatos de superfície, o Lago Mindemoya há até uma “ilha recursiva”, inimaginavelmente chamada Treasure Island (‘a Ilha do Tesouro’). Então, resumindo o encaixamento geográfico, a Ilha do Tesouro fica dentro do Lago Mindemoya que fica na Ilha de Manatoulin qui fica dentro do Lago Huron.
Assim que eu vi o Lago Mindemoya no Google Maps, me prometi que algum dia nadaria lá.
A preparação
A primeira coisa que fiz para preparar minha nadada no Lago Mindemoya foi procurar alguém familiar do local. Utilizando o Google Maps como sempre, mandei emails aos alojamentos que ficam à beira do lago. No email mencionei meu desejo de nadar até a Ilha do Tesouro. A única pessoa que me respondeu foi a Dianne. Ela me deu informações úteis sobre o Lago Mindemoya e onde ficar. Aliás, a Dianne me encorajou, escrevendo que a ideia de nadar até a ilha era um objetivo muito legal e que se precisasse de mais ajuda era só lhe pedir.
Essa troca inicial de email foi em janeiro 2024. Pouco depois, JJ e eu decidimos de visitar o Canadá no verão de 2025. Compramos as passagens aéreas e reservamos um quarto no Rockgarden Terrace Resort, um belo hotel à beira do Lago Mindemoya.
Quatro meses antes da nadada, comecei meu treinamento. A preparação na piscina não foi muito difícil porque geralmente nado entre seis e doze quilômetros por semana. Estimei a distância da nadada do Rockgarden Terrace Resort até a Ilha do Tesouro de ser entre quatro e cinco quilômetros. Com isso na mente, a semana antes de partir, eu nadei seis quilômetros sem parar. Nadar numa piscina não é o mesmo do que nadar num lago mas eu me sentia bem, confiante que estava em forma para a nadada.
A última preparação era achar alguém que podia me acompanhar num barco a motor para a segurança e orientação na água aberta do lago. Mandei mais um email a Dianne e ela respondeu que, por acaso, seu esposo, Neil, fazia excursões no Lago Mindemoya para pescadores e turistas. Perfeito!!
Posted at 10:13 am by wannabemineiro, on agosto 19, 2025
Melhor do que a subida, só mesmo assistir à queda
(69ª canção: A queda, Gloria Groove)
24 de julho, Ottawa, Canadá
Ano passado eu vi um homem cair. Ele tropeçou na calçada, perdeu o equilíbrio, tentou re-equilibrar-se, mas, afinal, caiu. Bateu o rosto no calçamento e, se não me engano, perdeu alguns dentes. Sangrando no chão, tentou levantar-se, mas obviamente atordoado, não conseguiu. Duas ou três pessoas vieram para ajudá-lo. Alguém fez uma chamada. Depois de algum tempo, o filho desse homem veio, o colocou no carro, e partiu, presumo, para o hospital.
A queda do homem me assustou. Ele devia ter uns setenta anos. Na verdade, não era muito mais velho do que eu. Ao ver o acidente, lembro me dizendo, “Peter, você precisa tomar muito cuidado quando anda na cidade. Você é da mesma idade desse homem. Uma queda dessa pode te acontecer.”
Durante muito tempo, eu me dizia isso cada vez que andava na cidade. Concentrava-me enquanto caminhava para evitar qualquer obstáculo.
Mas hoje eu caí, e caí mesmo!
Andava no Byward Market em Ottawa, a cidade capital do Canadá. Estava encantado pela animação em volta de mim. De repente, tropecei num patinete elétrico e me senti caindo. Infelizmente, não pude re-equilibrar-me e bati o calçamento. A pancada não foi tão grave quanto a do homem que vi cair, mas mesmo assim me machuquei o ombro e o queixo. Sangrava. Felizmente, não bati a cabeça.
A minha queda foi vista pela multidão no Byward Market. Uma família francofona veio me ajudar. Gente boa, bem simpática comigo e a JJ, me ofereceu água e lenços de papel. E o que achei interessante – há males que vem para o bom – consegui falar francês com as pessoas nos ajudando. Tentei lhes explicar o que aconteceu. Agradeci a família sinceramente. Depois de alguns minutos sentado com a JJ na sombre de uma árvore, voltamos para o hotel.
A minha queda poderia ter sido muito pior. Graças a Deus não quebrei nada, não fiquei com concussão, não perdi nenhum dente!
Sem dúvida, preciso prestar muita mais atenção enquanto eu caminho.
A primeira vez que subi Foi na época de chuva “O tsuyu já chegou” Ela lamentou Ficamos a pé com os outros Todos pingando, quase colados Bem cientes dos espaços cheios Numa lenta dança de passageiros
Olhares desviados Ninguém de nós quis quebrar O silêncio encharcado Vi um homem lendo a pé Olhos descendo e subindo Descendo e subindo Até que a página se vire à direita Sentidos esquisitos da língua japonesa
Preso atrás janelas condensadas Senti-me frágil, exposto O gaijin iletrado Seguindo rumo desconhecido Mas senti ela ao meu lado E o nó de pânico se desatou Eu estava aqui para ela E ela estava aqui para mim
“Nós somos a próxima” Shimojuku Última parada De uma longa viagem Até a casa dela O coração batendo forte Eu desci e a segui Em busca da benção cobiçada
Já faz quarenta anos Que subi com tanta apreensão Os sogros já partiram Os vizinhos também Vencidos pelo tempo Mas o ônibus ficou Para sempre nos levar A Shimojuku
Agora conheço tudo do que Se vê pela janela As lojas de sushi e sobá, salões De beleza, a pequena igreja Católica, o posto de bombeiros Gojira vigiando os Tohei Studios O supermercado que nós—
Uma luzinha piscante Chata, insistente Quebra o devaneio
Vejo uma telinha perto de mim E dentro dela outra telinha E dentro dela uma menina, bonitinha Dança para ganhar joinhas Mas outro polegar, impaciente, a apaga Aparece outra menina dançando Ela também some em breve Trocada por uma nova dançarina
Levanto meus olhos da telinha Para entender quem a manobra É uma menina, vendo Outra menina dançando Parece entediada pelo conteúdo Pois o polegar continua a procura A passageira entrou naquele outro mundo De olhar fixado, viciado na telinha
Não está sozinha Olhos baixados Ouvidos entupidos Pescoço inclinado Polegares sobrecarregados Muitos passageiros de hoje Inconscientes do que está—
“Ei, meu bem, chegamos!”
Outro devaneio quebrado
Pela enésima vez Desço do 07 A Shimojuku
*A música perfeita para esta 68º postagem: “A menina dança” dos Novos Baianos
Recentemente vi “Um completo desconhecido” (A complete unknown) sobre Bob Dylan e “Monsieur Aznavour”, produção francesa sobre Charles Aznavour. Comparando as representações dos dois cantor-poetas nestes filmes biográficos, é fácil observar uma grande diferença em relacão à questão de fama. No caso do norte-americano, Dylan não se preocupa com isso, mas, apesar da sua indiferença, vira-se sucesso quase de um dia para o outro. Por outro lado, Aznavour ansia demais por ser sucesso na França; contudo, vai esperar bastante tempo antes de ser reconhecido como grande artista. Por fim, embora os trajetos no palco e pontos de vista sobre a fama sejam diferentes, ambos se tornarão astros ao redor do mundo.
Em várias cenas nos dois filmes se vê algo ubíquo na vida de cantor-poetas da época: o caderno no qual se esboçam ideias, letras, e melodias. Na primeira cena de “Um completo desconhecido”, por exemplo, vemos um jovem Dylan (interpretado por Timothee Chalomet) escrevendo num caderno. Ao longo do filme, o caderno, e o violão, claro, estão ao seu lado e ele compõe músicas noite e dia. Aznavour (interpretado por Tahar Rahim) também se vê com caderno. Neste caso é um caderno vermelho em pele. Quase no final do filme, vemos o cantor francês sentado ao piano em cima do qual há vários cadernos vermelhos. Estes contêm, aparentemente, rascunhos das centanas de canções que ele escreveu durante sua vida.
Eu não sei se os filmes descrevem exatamente as trajetórias de Dylan e Aznavour. Será que alguns fatos, incluindo os tais cadernos, foram exagerados ou mesmo falsos? Não sei e nem quero saber. Quaisquer que sejam os detalhes, os filmes me lembraram que, não faz muito tempo, obras criativas se realizavam sem as tecnologias de hoje. No caso de Dylan e Aznavour, as letras da maioria das canções deles foram escritas à mão, ou quiçá, numa máquina de escrever.
Escrever canções, roteiros, poemas, romances sem qualquer apoio da nossa tecnologia de hoje em dia? É isso que fez Clarice Lispector nas suas queridas máquinas de escrever. É isso que fez Marcel Proust, escrevendo e re-escrevendo seu imenso romance em cadernos, cada página cheiíssima de palavras. É isso que fez Emily Dickinson que nos deixou vários poemas e ideias artísticas simplesmente rabiscados em pedaçinhos de papel.
Para mim, é difícil imaginar escrever assim, pois tenho escrito no computador durante toda minha vida acadêmica. Então, quando comecei esta postagem, decidi de fazer algo novo. Escreveria o primeiro rascunho todo num caderno, exatamente como faria Dylan ou Aznavour. Eu usaria a internet só para buscar sinônimos ou, se precisar, pesquisar usagens corretas. (Note bem que nunca uso a internet para traduzir inglês em português diretamente. Lhes juro!) Ao terminar o rascunho, voltaria ao computador, porque enfim o objetivo é de carregar a postagem para o blogue.
Isso foi meu plano e eu falhei.
Inspirado, comecei a escrever com caneta e caderno. Após muito tempo e energia, terminei o primeiro parágrafo, mais ou menos o que lhes ofereço acima. Exausto, fiquei assustado pelo desafio diante de mim. O que escrevi naquele primeiro parágrafo parecia rabiscos ilegíveis. Foi até difícil segurar e manobrar a caneta diretinho. Senti como se fosse um menino re-aprendendo a escrever. Além disso, não consegui planejar os próximos parágrafos, e muito menos imaginar a estrutura da postagem inteira. Basta dizer que, dentro de pouco tempo, abandonei o grande plano meu. Voltei ao computador para escrever a postagem que você está lendo.
Mas não quero desistir da ideia de escrever num caderno. No final das contas, minha geração precede a maioria das tecnologias digitais que usamos hoje. Quando era menino, eu tive aulas de caligrafia e lembro manuscrevendo no quadro negro com muita atenção. E durante meu ano de intercâmbio no Brasil em 1977, eu mantinha um diário no qual escrevia todo dia. Até hoje lembro bem o orgulho que senti ao ver letras bem feitas – especialmente, as letras “j” e “f” – na página. O conteúdo do diário não era notável mas as letras sempre me agradavam.
Eu entendo agora que escrever uma postagem inteira à mão é, por enquanto, demais. Em vez disso, então, vou tentar escrever poemas. O primeiro poema, “Dentro do 07”, segue esta postagem. Ofereço evidência dos meus primeiros rascunhos abaixo. Escrever num caderno continua como projeto em andamento.
Minha casa fica a três quilômetros e meio do centro da cidade. Se não está chovendo, vou lá a pé. A caminhada é bem agradável. As ruas são arborizadas e ladeadas de casas. Eu passo por casas grandes e pequenas, casas velhas e modernas…tem um pouco de tudo. Gosto de estudar os detalhes de cada propriedade. Os donos de uma casa, por exemplo, hasteiam o que eu chamo “a bandeira da semana”; uma semana é a da Nova Zelândia tremulando na brisa, outra semana é a da França ou de Fiji ou mesmo do Brasil. Perto da casa com as bandeiras tem outra casa rodeada de figueiras e pereiras; cheias de fruta no verão, as árvores me encantam. Enfim, sempre há alguma coisa para eu ver quando vou a pé ao centro.
No entanto, o que mais me interessa da caminhada, o que me fascina cada vez que passo, é uma casa humilde que fica do outro lado da rua do McDonalds. Muitas tábuas da casa estão tortas ou quebradas e sem tinta. A varanda e a porta da frente, igualmente precisando de uma camada de tinta, estão se desmoronando aos poucos. As janelas estão sujas e, atrás delas, se pode ver que as cortinas todas estão rasgadas e descoloridas. Pior ainda, o telhado da casa parece muito suspeito; provavelmente têm goteiras quando chove. Na verdade, o prédio inteiro deve ser reformado ou até demolido.
Mas apesar das péssimas condições, alguém mora nessa casa. Às vezes vejo um carro na entrada ou algumas roupas no varal. Entre a casa e a calçada há um canteiro arrumadinho com cebolinhas de um lado e abóboras do outro. Sim, é óbvio que esse lugar, degragado e frio demais no inverno, serve como casa de alguém.
Não sei quantas vezes eu tenho passado por essa propriedade ao longo dos anos. E, cada vez as mesmas perguntas surgiam na minha cabeça: “Quem é que mora lá? Alguém que é muito solitário? Tímido? Excêntrico? Será que um dia vou enxergar a pessoa da casa?”
Ano passado o mistério do morador se revelou aos poucos. O primeiro indício da sua identidade foi uma planta. Bem tratada, exatamente como os legumes do canteiro, a planta parecia valiosa, mas eu não a reconhecia. Tinha folhas grandes que me lembravam um pouco orelhas de elefante. Cada dia que passava, podia ver que a planta florescia. Até que um dia eu notei que quase todas as folhas grandes foram cortadas. Estava um dia chuvoso e a casa, junta com seu jardim e a planta desnuda, pareciam bem tristes. “Porque cortaram tantas folhas?”, perguntei-me.
Aproximadamente uma semana mais tarde, num dia ensolarado, a resposta estava me esperando: penduradas no varal ao lado da casa haviam as grandes folhas recentemente cortadas. Todas essas folhas estavam ficando secas e marrons sob a forte luz do sol. E daí, eu entendi. A pessoa que morava nessa casa cultivava seu próprio tabaco. Estudando as dezenas de folhas no varal, estimei que o dono da propriedade colhia mais tabaco do que aquela planta perto do canteiro podia produzir. Devia ter outras plantas atrás da casa, escondidas da vista pública.
Na Nova Zelândia, um maço de vinte cigarros custa por volta de 23 dólares americanos. Este preço altíssimo reflete uma tentativa do governo para combater o tabagismo. As folhas quarando no varal daquela casa humilde refletiam um esforço de evitar a campanha do governo.
Enfim, a próxima vez que passei pela casa eu vi o morador. Bem magro, ele se vestia em jeans e uma camiseta manchada. Estava examinando um monte de folhas quarando no sol. Algumas delas penduravam no varal e outras ficavam em bandejas de palha colocadas diretamente no asfalto da entrada. De vez em quando, o homem se agachava e tocava e virava as folhas nas bandejas. E sem surpresas, enquanto cuidava da sua safra, o magrinho fumava um cigarro enrolado a mão.
De repente, o homem sentiu minha presença, se levantou e virou para mim. O rosto dele era enrugado e os dentes manchados de fumar. O tabaco o envelheceu tanto que eu não pude estimar sua idade. Quarenta anos? Cinquenta? Sessenta? Tive nenhuma ideia.
O homem me acercou. Orgulhoso da sua safra, ofereceu-me um cigarro. Abanei a cabeça e expliquei que embora não fumasse eu estava fascinado por sua plantação de tabaco. Num instante, porém, foi óbvio que não compartilhávamos uma língua comum. Ficávamos parados por um tempo, nos olhando, sorrindo, dois imigrantes incapazes de falar um com o outro.
Isso faz mais ou menos seis meses. Recentemente, eu passo pela casa humilde uma ou duas vezes por semana. Às vezes o homem, cigarro na boca, está em frente da casa, quarando as folhas do seu querido tabaco. E cada vez que o vejo, fico fascinado por sua paixão e habilidade para cultivar tabaco, a planta que, provavelmente, vai lhe levar a vida.
Faltava algo no livro do francófono vogal caída, uma voz largada, roubada, calada mas o livro ficou bom, visionário, abrindo outros caminhos inovadora, a vogal sumida soava, pois afinal não faltava nada
Faltava algo nas palavras dos políticos cada proposta avançada inútil, um sonho vazio do mandato falso, injusto, corrupto lado a lado, os amiguinhos ficavam roubando toda nação ao povo, faminto, faltava o pão do dia
Faltava algo nas ruas áridas do bairro os golaços da moçada jogando bola carinhos sussurrados nos cantinhos da praça dois idosos tomando chá com solzinho só os corvos não faltavam nas ruínas da dor humana
Faltava algo na harmonia climática do dia-a-dia urso polar procurando, sonhando do branco frio gafanhotos apagando o sol do sul global água salgada invadindo o limiar das ilhas pacíficas faltas d’água para jogar nas chamas da Califórnia
Faltava algo no nosso globo aflito girando circulando passando outros na vastidão faltava solução
*Ce poème-post est dédié à l’écrivain français, Georges Perec. Je voudrais également remercier Marianne, la professeure qui me l’a fait connaître.
Posted at 4:31 am by wannabemineiro, on dezembro 23, 2024
É melhor ser alegre que ser triste Alegria é a melhor coisa que existe É assim como a luz no coração
(64ª canção: Samba da Benção, Vinícius de Moraes)
A primeira vez que falei com Vivi pelo Skype, meu português soava quase fluente. Ela ficou impressionada. Eu expliquei que foi graças a ela porque me senti relaxado na conversa. Não houve nenhum estresse entre nós dois. Sempre sorrindo, sempre positiva, Vivi, a jovem mulher de Brasília, era a pessoa perfeita para eu treinar o português.
Nós nos falávamos uma ou duas vezes por semana. Aprendi muito da sua vida e ela aprendeu muito da minha. Já viajou na Europa, América do Norte e Venezuela. Ela teve muito interesse na política e nas relações internacionais. Até então, eu não gostava de abordar a política com brasileiros pois é um assunto que fica mais e mais polarizado. Mas com Vivi podia falar sobre a política, e até brincar sobre o assunto. Por exemplo, numa discussão das próximas eleições presidências no Brasil em 2017, Vivi me reclamava que só houve dois candidatos principais, ambos dos quais eram, na suas palavras, “shit”. Disse-me que estava bem desiludida com essas escolhas shit. Respondi que na verdade o dever dela ficava claro: teve que votar para o candidato shit e não votar para o candidato shitão. Até hoje, rimos muito dessa distinção entre shit e shitão.
Eu me senti tão confortável com Vivi que ela foi a primeira pessoa, além da JJ, a saber de minha vontade de escrever um blogue em português. Ela gostou da ideia e me encorajou a escrever. Levaria mais dois anos até que eu decidisse começar o blogue, mas, pelo menos, o encorajamento dela me fez pensar nas possibilidades do projeto.
Assim, a amizade virtual com Vivi era perfeita.
Mas em novembro de 2018, após um papo agradável, as conversas se pararam. Nem sei como aconteceu. Não houve nenhum motivo para pararmos de conversar, mas imagino que nós estávamos ocupados e sem tempo para falar. No meu caso, estava preparando minha aposentadoria ao final do ano. De qualquer maneira, o contato entre nós dois se rompeu. Sumimos um do outro. Uns meses depois, eu sentia falta de nossas conversas mas fiz nenhum esforço de entrar em contato com Vivi. Apenas fiquei pensando, “Que sorte que tive de conhecer Vivi! Provavelmente, nunca mais falarei com ela.”
Tinha quase dois anos de silêncio entre nós. No entanto, no meio da pandemia, aquele evento horrível que assustou e mudou o mundo inteiro, Vivi me mandou uma mensagem. Umas horas depois, estávamos falando novamente.
Recomeçamos as ligações. Francamente, daí em diante cada conversa foi terapêutica, um tipo de normalidade, pois todo mundo estava em pânico. Vivi estava em confinamento. Na Nova Zelândia, porém, a situação ia melhor. Por esse fato, ela queria falar da Jacinda Ardern, nossa então primeira ministra, que guiou o país com sucesso durante a pandemia. Além da Covid e da geopolítica, falamos de muita coisa. Na verdade, devo dizer que falamos de qualquer coisa pois, apesar da diferença de idade, gênero e cultura, nós podíamos falar de tudo, sem limites. As vezes nós rimos demais, até mesmo chorar, de uma besteira ou outra. Enfim, a pandemia foi bem ruim, sim, mas com Vivi – e alguns outros amigos de Skype – eu podia esquecer o que estava passando fora da casa.
Nessa época eu já tinha começado o blogue e Vivi se tornou minha revisora principal. Embora nunca fosse professora de Português como Língua Estrangeira, ela sabia exatamente como me ajudar. Fiquei satisfeito que ela tinha me ajudado, sem silenciar minha voz de autor. Aprendi muito português com Vivi!
Em agosto deste ano, sete anos depois de nossa primeira conversa pelo Skype, encontrei Vivi pessoalmente em Brasília. Quando a vi me esperando no saguão do meu hotel, não foi nada estranho, não. Foi apenas um encontro de amigos perdidos. Nós nos reconhecemos imediatamente. Abraçamos. Pela primeira vez, uma telinha não nos separava.
Dois dias depois, jantei com sua família numa pizzaria. Ao redor da mesa, Vivi, sua irmã, Cecília, e seus pais, Cida e José, me aceitaram como se eu fosse um velho amigo. Foi uma noite maravilhosa, cheia de sorrisos e risadas.
Pensando nesse ano de 2024 que termina-se em breve, a oportunidade de passar um tempinho com Vivi foi um destaque. Estou muito grato por sua amizade.
Posted at 7:33 am by wannabemineiro, on outubro 24, 2024
Eu só peço a Deus Que a dor não me seja indiferente Que a morte não me encontre um dia Solitário sem ter feito o que eu queria
Solo le pido a Dios Que el dolor no me sea indiferente Que la reseca muerte no me encuentre Vacía y sola, sin haber hecho lo suficiente
(63ª canção: Eu Só Peço a Deus (Solo Le Pido a Dios),
Beth Carvalho e Mercedes Sosa)*
Imagino que muitas pessoas tentaram fazer algo novo durante a pandemia. No meu caso, voltei a estudar o francês. Embora fosse minha especialização na universidade, não tinha realmente falado o francês durante quase quarenta anos. Ao recomeçar, descobri um monte de recursos que não tinha antes, que nem se imaginava. Vídeos francófonos no YouTube, podcasts, jornais da França ou do Québec… O desafio esta vez seria limitar, escolher e enfocar.
O que decidi fazer então foi utilizar as redes sociais para falar francês com pessoas francófonas. Inscrevi-me no Tandem, uma plataforma digital que ajunta estudantes de línguas querendo praticar os idiomas um do outro.
Patrick foi uma das primeiras pessoas de Tandem que falou francês comigo. Uma semana mais velho do que eu, Patrick mora na Bretanha, no oeste da França. Ele estuda o inglês e o espanhol.
Nosso objetivo foi bem simples: falaríamos por Skype uma ou duas vezes por semana, passando a metade do tempo praticando inglês e a outra metade praticando francês. Mas, após, talvez dois meses, começamos a falar mais e mais francês. Patrick queria focar mais no espanhol do que no inglês porque estava preparando uma estadia na Espanha. Eu não pude ajudá-lo com o espanhol mas ele estava feliz de continuar a ajudá-me com o francês. Então, falamos muito francês, o que foi ótimo para mim. Agradeço-o pelas oportunidades de praticar com tanta frequência!
Falando com Patrick, eu aprendi mais do que apenas o francês. Ele me explicou seu interesse na língua espanhola. Na verdade, faz parte da sua identidade, pois ele é de descendência espanhola. Lembrava-se das visitas com uma avó que lhe falava em espanhol. Então, Patrick foi exposto ao espanhol mas não falava muito como menino. Mas seus ancestrais não vieram à França direitamente da Espanha, não. Vieram da Argélia. De fato, Patrick nasceu na Argélia e, quando tinha mais ou menos três anos, veio para a França com seus pais. Achei a história da família do Patrick muito interessante. Eu me lembrei que a França – como qualquer país “colonizador” – tem uma história complicada e disputada. Durante nossas discussões pensei imediatamente nas obras de Albert Camus que li na universidade: L’Étranger (O Estrangeiro) e L’Exil et le Royaume (O Exílio e o Reino). Mais recentemente, li Ce que le jour doit à la nuit (O que o dia deve à noite) um romance do escritor argelino Yasmina Khadra sobre a Argélia colonial até sua independência da França. O livro de Khadra, que li após de ter conhecido Patrick, foi fascinante porque falava bastante da comunidade hispanofalante na Argélia. Quando estava lendo o livro e aprendendo das dificuldades que todos – seja muçulmano, cristão, ou judeu – experienciavam naquela época não parava de pensar na odisseia da família do Patrick.
Aprendi outra coisa fundamental do Patrick: o valor de pensamentos positivos. Hoje em dia, seja na Nova Zelandia, na Francia, ou em qualquer outro país, é muito facil se sentir deprimido com a situação do mundo. Guerras desnecessárias, alterações climáticas, políticos mentirosos…há uma lista de ameaças nesse mundo para nos preocuparnos. Sem dúvida, Patrick está consciente de todo isso; já tínhamos falado das tristezas que estamos assistindo. Mas, embora esteja informado e sensível aos problemas do mundo, não se alonga sobre eles. Em vez disso, Patrick sabe como ficar na positividade. Recebe a promessa de cada dia com um sorriso. Alegre, generoso, grato, sincero…estes todos são descritores adequados para meu amigo francês.
Em abril deste ano JJ e eu tivemos a boa sorte de visitar Patrick e sua encantadora esposa, Patricia.
(Infelizmente, não pudemos encontrar suas duas filhas. L) Passamos pouco tempo com Patrick e Patricia mas a visita foi maravilhosa. Foram muito simpáticos e nos sentimos em casa com grandes amigos. Nós os agradecemos pela visita e esperamos que um dia possamos recebê-los em casa aqui na Nova Zelândia.
O teu presente diz tudo Trazendo à torcida alegres emoções
(62ª canção: Celeiro de ases, Nelson Silva)
Numa estadia recente no Brasil, visitei Goiânia pela primeira vez. Quando ouviram mais tarde essa notícia, meus amigos em Minas ficaram surpresos, “Goiânia? Tem muita coisa pra ver lá?” Foi uma pergunta justa. O turista estrangeiro tipicamente quer visitar Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Amazonas e talvez outros. Mas Goiânia? Não. A capital do estado de Goiás não aparece na lista de lugares imperdíveis do Brasil.
Como é que eu acabei ficando lá? Foi bem espontâneo. Estava visitando minha amiga Vivi em Brasília. Tivemos a ideia de passar o fim de semana em Alto Paraíso de Goiás, aquele lugarzinho “new age” que, além de cachoeiras e piscinas naturais, oferece comida vegana, yoga, cogumelos mágicos e, segundo várias pessoas, extreterrestres. Mas, infelizmente, imprevistos obrigaram Vivi a ficar em Brasilia naquele fim de semana. Então, decidi de visitar Goiânia, só três horas de Brasília de ônibus.
Como já tinha viajado por três semanas no Brasil, eu disse a mim mesmo que a estadia em Goiânia representaria uma chance de descansar. Aliás, esses dois dias de tranquilidade me preparariam para minha última semana no Brasil que, sendo na “minha terra” em Minas Gerais, seria sem dúvida cheia de compromissos.
Neste sentido, fiz uma reserva no Castro’s Park Hotel, um dos melhores hotéis em Goiânia. Segundo o seu website, o Castro’s Park teve tudo que eu procurava: apartamento confortável, piscina aquecida, academia e restaurante com comida típica de Goiás.
Depois de fazer o check-in no dia 16 de agosto, eu pude confirmar que o hotel não exagerou no website. Meu quarto, no 7º andar, era limpo, quieto e, sobre tudo, cômodo. O ambiente da piscina também me agradou muito, salvo a música sertaneja demasiada alta. A água da piscina estava limpa e o deck acolhedor. Haviam outros hóspedes aproveitando a chance de nadar e relaxar. Naquela primeira tarde na piscina, porém, todos nós nos arrepiamos quando dois urubus vieram a empoleirar-se ao lado da piscina. Cinco minutos depois, se foram embora e nós soltamos um respiro de alívio. Será que os urubus reconheceram que a gente estava nos bronzeando nas espreguiçadeiras e que não éramos cadáveres? (Pensar nisso agora ainda me faz estremecer.) A academia do hotel eu nunca frequentei, pois por fim entendi que qualquer academia seria contrário a meu objetivo principal que era relaxar. Com relação ao restaurante, eu não perdi a oportunidade de aproveitar as excelentes refeições. Adorei o buffet de feijoada no sábado à tarde. Nunca soube que tinha tantas variedades de carne na feijoada. Nos cafés da manhã haviam muitas frutas tropicais, outra comida brasileira cobiçada por este viajante da Nova Zelândia.
O website do Castro’s Park Hotel se anuncia com uma dica tentadora: “Viva uma experiência única em Goiânia”. Considerando o que escrevi acima, especialmente sobre os urubus na piscina, serve como prova, suponho, que o hotel satisfaz a dica. Mas, no meu caso, a experiência “única” que eu vivi e que nunca vou esquecer aconteceu, curiosamente, em frente do elevador do hotel.
Às três horas da tarde saí do meu quarto no sétimo andar. Estava meio tonto, pois acabei de acordar de uma cochilada que foi induzida pelo excesso da feijoada que comi no hotel. Querendo dar uma pequena caminhada na vizinhança, entrei no elevador e apertei o botão para descer. Eu esfregava os olhos quando a porta do elevador se abriu ao saguão do hotel. Logo que saí do elevador, senti algo esquisito. Levantei meus olhos e reparei que o lobby principal foi bloqueado do elevador. Atrás um tipo de barreira móvel, umas quarenta pessoas, algumas de camiseta vermelha, me olhavam com ansiedade. Enquanto me aproximei à multidão, houve um silêncio tenso seguido em breve por sussurros de desilusão. Obviamente eu não era a pessoa que estavam aguardando. Pedindo desculpas, eu passei a barreira e saí pela porta principal do hotel.
Após uns quinze minutos caminhando na rua, voltei ao lobby. A multidão ainda estava lá, aguardando em frente do elevador. Eu me sentei numa cadeira no lobby para ver e entender o que estava acontecendo. Tirei uma foto.
As pessoas aguardavam e aguardavam. De repente houve uma alegria audível. Três homens com a mesma camiseta vermelha do multidão saíram do elevador. Houve um corre-corre na barreira, algumas pessoas querendo fotos, outras autógrafos. Houve apertos de mão e sorrisos. Vi um pai e seu filho pequeno, os dois de camiseta vermelha, agradecendo um dos três homens.
Ainda inconsciente do que estava acontecendo em frente de mim, perguntei o porteiro quem eram esses três homens. Ele me olhou, incrédulo, e respondeu: “Eles jogam para o Internacional.” Uma pesquisa rapidinha no Google me informou que o Internacional era um time de futebol de Porto Alegre. Naquela noite mesma íam jogar contra o Atlético Goaianiense.
No dia seguinte durante o café da manhã ouvi que o Internacional foi superado pelo Atlético. O resultado não dizia nada para mim. Mas, ao mesmo tempo, não podia parar de pensar naqueles dois ou três segundos em frente do elevador. Será que eu fui confundido com futebolista brasileiro?
Quando nos conhecemos pela primeira vez por Skype em 2018, nenhum de nós dois imaginou que um dia íamos nos encontrar de verdade. O motivo daquela primeira reunião virtual foi bem simples: praticar o idioma de cada um. Tatsuo me ajudou com o japonês e eu o ajudei com o inglês. Deu certo. Foi aí o começo de uma parceria de aprendizagem benéfica e enriquecedora.
A história de Tatsuo é inspiradora. Trabalhava numa empresa em Tóquio, o clássico sarariman (‘homem de negócios’) japonês. Quando ele se aposentou, uns quinze anos atrás, voltou com sua esposa para sua terra natal, a pequena cidade de Tsuyama na província de Okayama. Ali, “recomeçou” seus estudos do inglês, uma língua que estudava na universidade. Como ele me explicou, estudar uma língua estrangeira hoje em dia é muito diferente do que quando era estudante. Naquela época, aprender outra língua queria dizer assistir à aula, escutar o professor, repetir frases padrões, estudar o livro de texto e fazer exercícios. A língua de estudo ficava na sala de aula e, na hora de fazer trabalhos, em casa. Era um sistema de comunicação limitado e meio abstrato. Mas na sua segunda vez de estudar o inglês, Tatsuo descobriu como a tecnologia e a Internet podem ajudar com a aprendizagem de uma língua estrangeira. Ele as aceitou com entusiasmo. Utilizando o Skype, estuda e fala inglês com anglófonos de vários países. Aliás tem um pequeno canal no You Tube com vídeos bilíngues sobre sua cidade e casa, a cultura japonesa e outros interesses. O que eu acho mais impressionante desse octogenário é que também estuda duas outras línguas: o vietnamita e o chinês. Tatsuo é realmente uma inspiração para qualquer pessoa que estuda (ou que pretende estudar) outra língua!
A nossa parceria já tinha durado cinco anos quando disse a Tatsuo que JJ e eu queríamos visitar ele e sua esposa por um tempinho em 2023 quando estaríamos viajando no Japão. Planejamos então uma visita de dois dias em maio. Antes de nós tivermos partido da Nova Zelândia, o Tatsuo já nos tinha preparado uma programação detalhada da visita. Ele nos encontraria na estação de trem e daí nos levaria para visitar vários lugares em Tsuyama. A programação que nos mandou refletia exatamente o Tatsuo que conhecia pelo Skype: um homem bem atencioso e organizado.
Finalmente, a data da nossa visita chegou. Quando descemos do trem em Tsuyama, eu vi Tatsuo imediatamente. Nós nos aproximamos, apertamos a mão enquanto, ao mesmo tempo, nos inclinamos ao estilo japonês. Havia sorrisos e risadas. Nós sentimos realmente à vontade pois, na verdade, a nossa situação consistia num reencontro em vez de um encontro.
Tatsuo nos preparou uma programação para dois dias maravilhosas. Passamos a tarde na casa dele falando com sua esposa e tomando chá japonês. Aquela noite depois do jantar JJ e eu fomos passear até um pequeno rio onde se podia ver vagalumes. Nós não tínhamos visto vagalumes desde nossa infância. Foi muito legal! No dia seguinte, visitamos o castelo da cidade, o lugar mais famoso de Tsuyama.
Mas, falando sério, o destaque da minha visita com Tatsuo foi a chance de ver o quarto onde ele estuda o inglês e faz suas chamadas de Skype com pessoas no mundo inteiro.
Eu gostei demais porque foi aqui o lugar onde Tatsuo estava cada terça-feira, semana após semana, para falar comigo pelo Skype. Até hoje, nós continuamos conversando; ele conversa desse quarto e eu da sala da minha casa. E no seu quarto as duas bandeiras estão sempre visíveis, prova da forte amizade bilingue que construímos ao longo desses anos.
(60ª canção: Como tudo deve ser, Charlie Brown Jr.)
Comecei este blogue em 2019. O objetivo principal era de manter e melhorar meu português. Com cada postagem, queria aumentar meu vocabulário, praticar formas gramaticais difíceis e, ao mesmo tempo, explorar as riquezas da música brasileira.
Seis meses depois do começo, o mundo se fechou. Ironicamente, a ameaça da Covid foi um benefício para mim, pois, preso em casa, eu pude escrever bastante. Durante dois anos e meio de confinamento, consegui escrever até quinze postagens anualmente. Dia após dia, passei a pandemia em frente do computador, escrevendo, escutando música brasileira e falando com amigos no Brasil por Skype. Meu português melhorou demais!
No entanto, quando a Nova Zelândia se abriu ao mundo no final de 2022, a vontade de escrever diminuiu. Aqui estamos em 2024, a primeira metade do ano quase acabada, e eu só escrevi três postagens. Tenho um pouco vergonha disso. O fato é que voltei para aquela vida aposentada que sempre queria depois do ritmo frenético da minha carreira na universidade. Agora há suficiente tempo para nadar, ler, falar outras línguas com amigos na cidade, e, sobretudo, viajar.
Mas de jeito nenhum vou desistir com este blogue. Quero continuar escrevendo-o até chegar ao objetivo de completar cem postagens. No final das contas, o blogue representa um desafio importante que quero realizar durante a aposentadoria. Tanto faz se precisar três ou quatro anos mais do que imaginava ao começo.
Tudo isso me levou a uma ideia de criar uma nova categoria de postagem. Visto que estou viajando muito recentemente, quero escrever umas postagens sobre as pessoas que encontro pelo caminho. Algumas dessas pessoas serão os amigos e amigas que conheci pelo Skype durante a pandemia, e que, finalmente, tenho a oportunidade de encontrar de verdade. Mas quero que esta categoria também inclua postagens sobre novas pessoas que vou conhecer daqui por diante. De qualquer maneira, a categoria “Encontros” vai me incentivar de não apenas escrever em português mas também de falar ativamente com pessoas de uma cultura e língua diferente.
Há de mudar os homens Antes que a chama apague (59ª canção: Antes que seja tarde, Ivan Lins)
Embora tivesse morado numa cidade pertinha, nunca visitei Marselha. As três ou quatro vezes quando ia de trem para Paris ou Nice, passava pela Estação de St. Charles, mas nunca saí para explorar. Nos anos 80, a cidade teve reputação ruim: cheia de drogas, corrupção, mafiosi. Provavelmente, essa má fama era exagerada; de fato, me pergunto se veio, ao menos em parte, de The French Connection, um filme hollywoodiano que tratava do tráfico de heroína entre Marselha e Nova Iorque. Seja como for, naquela época fiquei desanimado com a ideia de visitar Marselha.
Mas dez meses atrás, quando preparávamos uma viagem para a França em maio deste ano, eu disse a JJ que, antes que seja tarde, era preciso visitar Marselha. Planejamos então ficar três noites num hotel situado ao Porto Velho de Marselha.
Saindo da Estação de St. Charles de táxi no dia 7 de maio, a primeira coisa que notei era o monte de polícia, todas bem armadas. Parecia que tinha agentes da polícia em cada esquina do bairro portuário. No meio do porto, entre os veleiros dos Marseillais, haviam lanchas da polícia. Até vi um par de policiais a cavalo. Puxa! Nunca vi tanta polícia na minha vida.
Comecei a duvidar desta decisão de vir a Marselha. Será que a cidade continuava com os problemas dos anos 80? Drogas? Gangues? Violência?
Perguntei ao motorista do táxi sobre a presença da polícia. Em poucas palavras, ele me acalmou: no dia seguinte às 19 horas, a chama olímpica ia chegar. Ou seja, o Belem, nau francêsa de tres mastros e, curiosamente, nome brasileiro, chegaria a Marselha depois de uma viagem simbólica da Grécia. A chama olímpica estava a bordo e seria desembarcada numa ceremônia grandiosa no Porto Velho. A prefeitura estimava que 150,000 pessoas – incluso, Emmanuel Macron, o Presidente da República Francesa – estaria presente para assistir às festividades. Havia seis mil policiais na área para assegurar a proteção de todo mundo.
O táxi chegou. Segundo o motorista, o nosso hotel era ótimo para ver o espectáculo. Expliquei-lhe que quando fizemos a reserva nem sabíamos que a chama estaria chegando durante nossa visita. Dando-nos uma cara de incredulidade, o motorista disse que tínhamos muita sorte de ter acomodação com a vista do Porto Velho neste momento.
Para ser honesto, não estava feliz com a situação. No ano passado, quando planejei a estadia em Marselha, tinha imaginado algo meio tranquilo. Mas vendo as preparações diretamente em frente ao hotel e a multidão de pessoas que já estava no Porto Velho, entendi que esse negócio da chama olímpica seria grande demais. Pensei que talvez fosse melhor passar o dia seguinte fora da cidade. Fomos ao centro de informações turísticas para ver se tinha uma aldeia pitoresca próxima. Tinham várias aldeias que valiam a pena ver sim, mas o funcionário nos avisou que, nos próximos dias, o trânsito em Marselha seria um pesadelo. Ele nos aconselhou para ficarmos na cidade e curtir as festividades.
No dia seguinte, então, ficamos. E, como o funcionário nos disse, valeu a pena.
Passamos o dia da chegada no Porto Velho, dentro e fora da cerca de segurança que se estendia de um ao outro extremo do porto. Saíndo deste perímetro era bem fácil mas entrando nele ficou mais e mais difícil. Depois de almoçar tarde num restaurante libanês uns 500 métros além da cerca, levava mais de quinze minutos para entrar no setor protegido. Tínhamos que mostrar nossa indentidade, abrir as mochilas e, no meu caso, me submeter a uma inspeção manual. Será que foi meu cabelo que levantou suspeitas?
Depois da inspeção, resolvemos ficar dentro do perímetro pelo resto do dia. Voltamos ao hotel para assistir a chegada do Belem do conforto de nossa pequena varanda privada. Podíamos ver a metade do Porto Velho quase até sua abertura estreita ao Mar Mediterrâneo. Infelizmente, não podíamos ver o palco da cerimônia.
Faltava uma hora até a chegada mas a multidão nos cais estava aumentando já, com todo mundo ansioso a ver o espectáculo. Era como se houvesse um mar de humanidade perante os nossos olhos.
Por volta das 19:00 horas, a multidão começou a cantar LaMarseillaise, o hino nacional da França. Não sou grande fã de hinos nacionais. Por exemplo, Kimi Ga Yo, o hino do Japão, é muito sóbrio, perfeito para um funeral; o Star Spangled Banner é tão complicado que ninguém sabe como cantá-lo direitinho; e o Hino Nacional Brasileiro parece interminável. Mas La Marseillaise tem um certo encanto, e quando ela é cantada por 150,000 pessoas é de tirar o fôlego.
A multidão teve razão para cantar, pois, à distância, o Belem já tinha entrado no porto. Em alguns minutos a nau estava quase no embarcadouro e a multidão começou a gritar e aplaudir. De repente, um som trovejante por cima anunciou outra chegada – a da Patrouille Acrobatique de France (‘Patrulha Acrobática Francesa’). Os aviões, soltando rastros das cores nacionais francesas, voaram em direção do Mediterrâneo.
Logo após os espectadores tinham recuperado o fôlego, os aviões voltaram para fazer mais uma série de manobras acrobáticas sob o Porto Velho.
Suas manobras terminadas com sucesso, os aviões foram embora. Um silêncio surgiu na multidão. Estava o tempo para discursos de políticos e celebridades, e finalmente, a transferência da chama olímpica para a terra firme. Ao ver a chama, os espectadores gritavam com alegria. A noite se terminou com música ao vivo e uma exibição impressionante de fogos de artifício.
Na manhã seguinte, era difícil imaginar que tivemos visto aquele evento tão emocionante. Da nossa janela podíamos ver que a cerca de segurança já foi desmontada e removida. Os 150.000 mil espectadores sumiram. Mas tinha ao menos um indício da grande festa da noite anterior: por todo o cais haviam equipes de varredores restituindo o Porto Velho à normalidade.
Ontem recebi a triste notícia que José Vieira de Mendonça Sobrinho faleceu. Ele era companheiro carinhoso de Ana Júlia desde 1951; pai de Jupira, Moema, Iberê, Ubirajara, Ubiratan, Tibiriça e José Alfredo; engenheiro reconhecido em Minas Gerais; amigo de muitas pessoas…no final, um grande homem que tocou as vidas de inúmeras pessoas.
Eu tive o privilégio de chamá-lo de “Papai” e de ser chamado de “filho” por quase cinquenta anos. Papai e Mamãe me adotaram como seu filho americano quando fiz um intercâmbio de estudos no Brasil em 1977.
Com meus pais brasileiros em 2007
Eu te agradeço por tudo, Papai. Se não fosse por você e Mamãe, e a multidão de pessoas naquela casa calorosa na Rua Almirante Alexandrino, eu não seria o homem – meio mineiro – que sou hoje.
Peter
PS: Também te agradeço por ter me introduzido às músicas de Pixinguinha!
Da janela lateral do quarto de dormir Vejo uma igreja, um sinal de glória Vejo um muro branco e um voo pássaro Vejo uma grade, um velho sinal
(57ª canção: “Paisagem da janela”, Lô Borges e Milton Nascimento)
Quando viajo de avião, geralmente prefiro assento no corredor. Acho mais espaçoso e assim posso evitar qualquer sensação de claustrofobia. Aliás, se eu quiser visitar o banheiro ou me espreguiçar um pouquinho é só levantar e ficar no corredor.
A única vez que quero assento na janela é no vôo entre minha cidade e Auckland. O vôo dura só uma hora, então nunca me sinto preso. De fato, já fiz esse vôo tantas vezes que decorei a paisagem da janela dos dois lados do avião. Se o tempo estiver bom, passo a hora inteira olhando pela janelinha e localizando exatamente onde o avião está no trajeto. Há uma espécie de conforto nessa navegação de cima. É como se eu estivesse pilotando o avião.
Depois de decolar pelo oeste e virar ao norte rumo a Auckland, os pontos de referência são super familiares. Se eu estiver sentado ao lado direito do avião, as primeiras coisas a ver pela janelinha são pequenas fazendas, propriedades bem arrumadinhas. Às vezes avisto uma pastagem fervendo de centenas de ovelhas, uma imagem que sempre me lembra larvas curtindo um pedaço de carne podre. Depois de alguns minutos, as fazendas abaixo diminuem e a paisagem vira mais montanhosa. Na distância erguem-se os vulcões de Ruapehu, Ngauruhoe e Tongariro; no inverno, suas ladeiras rochosas estão amolecidas por uma camada de neve. Logo após os vulcões, vejo o Lago Taupo. É azulzinho e imenso, do tamanho da ilha de Singapura. No momento que o Lago Taupo desaparece do canto inferior direito da minha janelinha, percebo que o avião está começando a longa descida para Auckland. Debaixo do avião, a região hortícula de Pukekohe aparece, mais e mais limitada a norte pela urbanização crescente de Auckland. Alguns minutos mais e o avião está no portão do terminal.
Por mais lindo que seja essa paisagem da janelinha do lado direito, eu prefiro sentar à esquerda, pois deste lado do avião o mar é quase sempre visível. Na exceção da decolagem imediata e um período quando o avião passa para a leste do bonito vulcão Taranaki, o que chama minha atenção é a deslumbrante costa da Ilha Norte. O Mar Tasman, separando a Nova Zelândia da Austrália, estende-se até o horizonte. A tranquilidade do azul desse mar é enganosa. Na verdade, o Tasman é reconhecido como uma extensão de água bem brava. Mesmo assim, várias pessoas já fizeram a travessia de caiaque ou de barco a remo, o que eu acho inimaginável. O melhor trecho do voo é quando o povoado de Raglan aparece. Antigamente uma aldeia de pesca, o Raglan de hoje é um centro de surfe renomado. Se faz bom tempo, consigo ver a ondulação e arrebentação de cada onda chegando às praias de Raglan. E se eu tivesse a visão do gavião? Até avistaria os surfistas nas suas pranchas! Poucos minutos após Raglan, a longa descida para Auckland começa; ao meu lado esquerdo, o mar me acompanha até o aeroporto.
A última vez que fui para Auckland, sentei ao lado esquerdo do avião. Enquanto esperávamos a liberação para decolagem, o piloto nos informou que, além de um pouquinho de turbulência na subida, o voo seria tranquilo. Ouvindo isso, eu estava ansioso pela promessa de vistas desobstruídas da costa da Ilha Norte por todo o percurso.
Mas logo que decolamos, alguma coisa esquisita aconteceu: não senti nenhuma virada ao norte para Auckland. Pelo contrário, parecia que estávamos continuando em direção oeste. De fato, poucos minutos depois, eu vi a costa da Ilha Norte passar sob o avião. Continuávamos assim, para oeste, na direção da Austrália. No canto inferior esquerdo da janelinha, a costa da Ilha Norte ficava mais e mais distante. Pensei, “O quê é que esse piloto tá fazendo? Pra onde estamos indo?” Debaixo de nós, a vastidão azul me causou um pouco de mal-estar. Daí comecei a imaginar o pior. “Será que alguma coisa está acontecendo na cabine?” Lembrei do avião de Malaysia Airlines que sumiu no Oceano Índico, supostamente nas mãos de um piloto descontrolado. Discretamente, olhei para outros passageiros perto de mim para ver se eles estavam ciente de nossa posição sobre o Tasman. Aparentemente não. Será que só eu estava assistindo ao nosso percurso? Devo alertar alguém dessa anomalia?
Ironicamente, no momento que notei o suor frio na minha testa, senti uma leve mudança de direção. Estávamos virando para o norte! Podia ver que o avião estava retomando o rumo certo. Dentro de alguns minutos, o perfil inconfundível do lindo vulcão Taranaki apareceu na minha janelinha. Aleluia!
Taranaki da janelinha (agradeço C. Sato pela foto)
Por fim o tempo de voo a Auckland era mais ou menos o mesmo. O piloto nunca nos explicou aqueles minutos sobre o Mar Tasman. Talvez foi por causa de alguma turbulência logo após a decolagem. Nunca vou saber. Mas pelo menos aprendi algo importante: eu preciso parar de pilotar o avião da janelinha.
Posted at 5:22 am by wannabemineiro, on novembro 30, 2023
Não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer Eu quero é viver pra ver qual é, e dizer venha pra o que vai acontecer
(56ª canção: “Envelhecer”, Marcelo Jeneci Da Silva, Arnaldo Antunes, e Ortinho)
Qual o segredo de uma vida longa?
Essa questão tinha nos preocupado desde o começo da história humana. Incentivou-nos a procurar inúmeras maneiras de prolongar a vida. Nas lendas antigas, o segredo era supostamente uma fonte da juventude enquanto, agora, outros tratamentos rejuvenescedores – vitaminas e cremes, yoga e silvoterapia, poções e cristais – se veem na televisão ou online. Até lembro nos anos 80 em Taiwan uma marca de cigarro chamada “Vida Longa”:
A ilustração na capa do maço mostrava um ancião sábio tomando conta de seu grou, símbolo chinês de longevidade. A mensagem? Fumar cigarro para prolongar a vida. Imagina?
Gerontologistas de hoje dizem que não tem um segredo mágico para a longevidade. Pelo contrário, se seguirmos oito práticas simples podemos aumentar nossa chance de aniversariar oitenta, noventa, até cem anos. O necessário é
seguir uma dieta de comida fresca e saudável
abster-se de comer demais
manter-se em movimento
diminuir a ansiedade e evitar o estresse
manter laços com família e amigos
viver em comunidade
respeitar os idosos e o processo de envelhecer
sentir algum senso de espiritualidade
Os gerentologistas acham que, salvo para indivíduos sofrendo de condições hereditárias como alguns cânceres ou hipertensão arterial, essas práticas podem prolongar a vida para muitos. É só uma questão de mantê-las desde tenra idade.
Recentemente tive a oportunidade de passar alguns dia na ilha de Okinawa, lugar com a maior percentagem de centenários no mundo. Okinawa é uma das cinco “zonas azuis” identificadas como centros de longevidade. As outras são Ogliastra na Sardegna, a ilha de Ikaria na Grécia, a Península de Nicoya na Costa Rica, e a cidade de Loma Linda na Califórnia. Segundo gerentologistas, as práticas acima se destacam em cada zona azul.
Realmente não sei se eu vi centenários ou não durante minha visita em Okinawa. Mas posso dizer que nas cidades de Naha e Ginowan, havia certamente anciões nas ruas e nos parques. Embora alguns deles fossem curvadas e andassem com bengala, tinham uma vitalidade admirável. Por exemplo, vi este casal fazendo exercícios numa banca no Parque de Ginowan:
e dois jovens ajudando uma mulher idosa com um treinamento de caminhar de costas:
Também encontrei anciões nos restaurantes e no mercado municipal. Nesses dois lugares era óbvio que a comida é bem saudável. No mercado, por exemplo, muitas pessoas pediram goya champuru, um salteado de tofu, melão-de-são-caetano e um poquinho de carne de porco:
As pessoas idosas saboreando este e outros pratos de baixa caloria estavam conversando, rindo, e valorizando cada momento juntos. Atrevo-me a dizer que a vitalidade e alegria, essa razão de viver, que os anciões okinawenses, seja na praia ou no mercado, demostram seriam cobiçadas de muitos de nós.
Durante minha visita a Okinawa, eu celebrei meus 64 anos com amigos okinawenses. Eu sei, eu sei: comparado com os anciões de Okinawa, sou ainda bem jovem! Mas com cada aniversário fico pensando na longevidade e na razão (ou razões) de viver. Isso não quer dizer que estou cismando com minha idade e com o envelhecimento. Tampouco penso em situações hipotéticas como “se eu tivesse feito isso em vez de aquilo seria mais _____ [preencha com qualquer adjetivo]”. Não faço nada disso, não. O que faço é refletir um pouco sobre os anos que eu já vivi e sobre os anos que me sobram. Coisa natural eu acho.
Estou tentando aproveitar cada momento agora, achar diariamente algo positivo que me traz alegria e satisfação. Quero manter e fortalecer meus vínculos com amigos, família e a comunidade. Quase todo dia, consigo ficar na positiva e por isso estou muito grato.
Quero fechar esta postagem, se me permitem, com algumas palavras sobre meus pais brasileiros que se vêem abaixo celebrando setenta anos juntos:
Quando tinha 17 anos passei quase um ano com esse casal maravilhoso e seus sete filhos. Foi, e ainda é, um privilégio de ser o oitavo filho!
Se alguém analisar a vida deles será bem evidente que estão seguindo as práticas para longevidade mencionadas acima. Ou seja, meus pais brasileiros construíram sua própria zona azul em Belo Horizonte. Mas cada vez que lhes pergunto sobre a longevidade o segredo deles é bem mais simples:
Peter: Por favor, qual é o segredo de uma vida longa?
(55ª canção: “Sonho impossível”, Francisco Buarque
De Hollanda, Mitch Leigh, Joseph Darion)
Minha querida amiga,
Foi um prazer receber notícias de você hoje. As fotos do seu novo lugar são bonitas demais. O Canadá deve ser um país lindo.
Sua mensagem me fez pensar sobre nossa amizade. É difícil acreditar que já faz quatro anos que nós nos conhecemos.
Você lembra da primeira vez que falamos pelo Skype? A ideia era simples: praticar o inglês e o português num intercâmbio virtual. Nossos primeiros encontros foram mais ou menos assim. Bom, na verdade, falávamos mais português do que inglês porque você estava um pouco tímida de falar inglês comigo. Então, usávamos o português para discutir artigos do jornal The Guardian. Por ser franco, esse desequilíbrio fortaleceu minhas competências em português, e, sim, aproveitei da situação. Mas te juro que na época esperava que, ao momento certo, você se sentiria mais confortável e falaria inglês comigo.
No entanto, pouco tempo depois, aquele maldito vírus mudou o mundo….
Por muito tempo estávamos presos em casa, com medo de pegar a temida doença que ninguém entendia. Por isso, nossas conversas se transformaram. Conversávamos mais para apoiarmos uns aos outros do que para praticar línguas. Sem dúvida, a situação com a Covid em 2020 e 2021 foi menos difícil na Nova Zelândia do que no Brasil. Para nós kiwis, depois o primeiro confinamento, tivemos a liberdade de viajar no país inteiro durante bastante tempo. Pelo contrário, vocês no Brasil viram o vírus surgir por meio de várias ondas e muita gente sofreu.
Nunca vou esquecer como você, no auge da pandemia, conseguiu organizar uma carona da capital até a casa da sua mãe no interior da Bahia. Você me explicou que sentia medo naquele carro. Não apenas estava num lugar fechado, onde o vírus podia se propagar, mas os outros viajantes no carro eram completos estranhos. Você estava aflita também durante o confinamento de duas semanas que fez no seu quarto para não comprometer a saúde da sua mãe e da sua avó. Enquanto me contava a história da viagem e da chegada em casa, fiquei impressionado por sua resistência, determinação e compaixão.
É óbvio que a mudança foi a decisão correta. Enquanto estava em casa você terminou seu mestrado e continuou seus estudos de inglês e francês. Começou a planejar a próxima etapa de seu trajeto, ou seja, fazer o doutorado no Canadá. Durante o confinamento, seu único contato com o mundo fora foi pelo Skype ou Zoom. Sou muito feliz que fui uma das pessoas que podia falar frequentemente com você.
Como jovem mulher do interior nordestino, você me ajudou tomar consciência de um Brasil que realmente não conhecia antes. Tivemos tantas conversas! Discutimos assuntos como a escravidão, os quilombos, e a herança africana no Brasil de hoje em dia. Tocamos casos tristes como o da Marielle, do pequeno Miguel e dos meninos massacrados em frente da Igreja de Candelária. Graças a essas difíceis e às vezes delicadas conversas com você, eu aprendi a refletir mais profundamente sobre as injustiças presentes não só no Brasil, mas ao redor do mundo.
Também fiquei impressionado pelas riquezas da Bahia que compartilhou comigo. Você me falou dos petisquinhos do Mercado Modelo, dos blocos de rua no Pelourinho, do Farol da Barra, e, no interior, de belas cachoeiras e piscinas naturais onde se pode nadar. Você foi uma guia virtual para mim e agora que posso viajar novamente, tenho muita vontade de visitar a Bahia. Espero ir para lá com a JJ um dia. Talvez podemos nos encontrar em Salvador, né?
Em 2022, com a situação da Covid melhorando, não nos falamos com tanta frequência. Mas o que achei impressionante é que quando fizemos um Skype, falamos em três línguas: português, inglês e francês. Graças ao seu foco e dedicação às línguas durante o confinamento, seu sonho impossível – fazer o PhD no Canadá – se tornou realidade. Você é realmente uma inspiração!
Enfim, minha amiga, acho que ninguém de nós dois imaginava que nosso iniciativo de trocar idiomas desenvolveria numa amizade tão especial. Se Deus quiser um dia nós nos encontraremos, seja no Canadá, no Brasil ou… Até então eu te desejo mais sucessos na tua carreira acadêmica.
Posted at 6:32 pm by wannabemineiro, on setembro 21, 2023
…eu não tenho nada a te dizer Mas não me critique como eu sou Cada um de nós é um universo
(54ª canção: “Meu amigo Pedro”, Raul Seixas)
Acabo de chegar da Nova Caledônia, ilha francofona no Mar de Coral, onde eu tentava escutar, falar, ler e escrever só em francês durante três semanas. Ofereço abaixo um dos frutos da minha estadia lá, um pequeno trabalho que escrevi. Agradeço a minha professora, Claudie, por ter me ajudado com alguns errozinhos. 🙂
Chamado, “L’homme au chapeau violet” – ‘O homem de chapéu violeta’ – o texto fala de uma pessoa que me fascinava em Nouméa. (O texto em francês é seguido por uma tradução simples em português.)
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L’homme au chapeau violet*
Il y était quand j’ai visité la plage d’Anse Vata pour la première fois. Un homme barbu presque nu sur le trottoir. Évidemment, il adorait se fait bronzer parce que, même à deux heures de l’après-midi, il était là, assis en plein soleil. Il ne faisait presqu’aucun effort pour s’en protéger. Un petit maillot de bain, des lunettes de soleil, un chapeau violet : ceux-ci étaient ses seules formes d’abri.
J’aurais dû être troublé par l’état de sa peau brûlée, ou par le fait que quelque chose s’était passé dans sa vie et l’avait mis dans la rue. Mais je n’y ai pas pensé. C’était le chapeau melon en papier violet qui m’a touché. Cela m’a rappelé des chapeaux que je portais aux fêtes du nouvel an ou du jour de la Saint-Patrick. << C’est quoi l’histoire de son chapeau violet? >>, je me suis demandé.
Un ou deux jours plus tard je me suis rendu compte que l’homme au chapeau violet était à cet endroit depuis longtemps. Il s’y était bien installé. De l’autre coté de la rue, à peut-être cent mètres d’où il s’assoit pour prendre le soleil, on peut voir ses choses, bien rangées: quatre valises à roulettes, quelques sacs de sport, un lit pliant à roulettes et, curieusement, une paire de palmes bleues pour plonger. Toutes ces choses, comme le chapeau violet, doivent avoir leur propre histoire, témoignage d’une vie.
Tous les jours ses actions sont prévisibles. Pendant la journée tandis qu’il prend son bain de soleil, ses affaires se trouvent en face d’un magasin vide. Tout est en pleine vue de la terrasse d’un restaurant tout près mais, apparemment, ce n’est pas un problème. En effet, il est possible que les serveurs sur la terrasse surveillent ses affaires pour lui. Quand le soleil commençe à toucher l’horizon, il enfile une veste légère et se déplace à l’autre cotê de la rue où il passera la nuit. Mais ce déplacement n’est pas facile. Il doit enlever toutes ses affaires du trottoir et les emporter à une centaine de pas à un autre endroit plus abrité. En faisant ça, l’homme, valises à la main et toujours au chapeau violet, passe et repasse sous les yeux des clients assis à la terrasse du restaurant.
Il semble qu’il y ait un accord tacite entre lui et les propriétaires des entreprises de son territoire. Ils se saluent chaque jour, souvent en se posant une main sur l’épaule de l’autre. Parfois, l’homme échange quelque mots avec les éboueurs et autres qui travaillent à l’extérieur. Une ou deux fois par jour on le voit avec un café ou un petit plat, nourriture qui, peut-être, lui a été donnée par un des propriétaires. Sans doute, ils se respectent l’un à l’autre.
Un matin je marchais au bord de la mer et l’homme au chapeau violet m’a souhaité une bonne journée. Je lui ai souhaité la même chose et je me suis senti très content. Puis, en réfléchissant sur cette petite rencontre, je me suis dit, << Peter, tu dois parler avec ce mec. Il faut apprendre l’histoire du chapeau violet. >> Alors, c’était mon intention la fois suivante où je l’ai croisé sur le trottoir. J’ai commencé en lui disant << Bonjour monsieur! >>. Mais, malheureusement, son << Bonjour >> en retour était méfiant, même craintif. J’ai toute de suite compris que c’était lui qui initiait n’importe quelle conversation, pas inverse, et j’ai continué ma promenade en ne voulant pas l’inquiéter davantage.
Connu de tout le monde, l’homme au chapeau violet fait partie d’Anse Vata. Je suis sûr que je ne l’oublerai jamais. L’histoire de son chapeau, hélas, me restera un mystère.
*une trace de mon passage sur la Grande Terre
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O homem de chapéu violeta*
Ele estava lá a primeira vez que visitei a praia de Anse Vata. Um homem barbudo quase nu na calçada. Obviamente, adorava se bronzear porque, mesmo às duas horas da tarde, ele estava lá, sentado, diretamente no sol. Fazia quase nenhum esforço para evitá-lo. Uma sunguinha, óculos escuros, um chapéu violeta: esses eram o único abrigo que tinha.
Eu devia ter se preocupado com a condição da sua pele queimada, ou com o fato de que alguma coisa que aconteceu na vida dele o deixou na rua. Mas eu nem pensei nisso. Foi o chapéu-coco violeta de papel que me impressionou. Lembrou-me dos chapéus que eu usava nas festas de Réveillon ou do dia de Saint Patrick. Perguntei-me: “Qual é a história desse chapéu violeta?”
Um ou dois dias mais tarde, percebi que fazia muito tempo que o homem de chapéu violeta estava naquele lugar. Estava bem estabelecido. Do outro lado da rua, talvez cem metros de onde sentava para tomar sol, estavam suas coisas, muito organizadas: quatro malas com rodinhas, alguns sacos de esporte, uma cama dobrável de rodas e, curiosamente, um par de nadadeiras azuis para mergulho. Certamente, todas essas coisas, como o chapéu violeta, têm sua própria história, evidência de uma vida.
As ações quotidianas do homem de chapéu violeta são previsíveis. No dia, enquanto está tomando sol, suas coisas estão guardadas em frente a uma loja vazia. Ficam à vista do pátio de um restaurante pertinho mas parece que isso não tem problema. De fato, é possível que os garçons no pátio tomem conta dos pertences dele. Quando o sol começa a tocar o horizonte, o homem veste um casaco leve e se muda para o outro lado da rua onde vai passar a noite. Mas essa mudança não é facil. Ele precisa pegar todas as suas coisas da calçada e carregá-las a uns cem passos para outro lugar mais protegido. Fazendo isso, o homem, com as malas na mão e sempre de chapéu violeta, vai e volta sob os olhares dos clientes sentados no pátio do restaurante.
Parece que há um acordo entendido entre ele e os donos dos negócios no seu território. Eles se saudam todo os dias, frequentemente colocando uma mão no ombro da outra pessoa. De vez em quando, o homem troca algumas palavras com os lixeiros e outros que estão trabalhando fora. Uma ou duas vezes por dia ele é visto com um café ou pequeno prato na mão, comida que, talvez, ele ganhou de um dos donos. Sem dúvida, eles se respeitam.
Uma manhã eu estava andando à beira-mar e o homem de chapéu violeta me desejou um bom dia. Desejei a mesma coisa a ele e me senti muito feliz. Pouco tempo depois, pensando sobre esse pequeno encontro, eu me disse: “Peter, você deve falar com esse cara. É preciso aprender a história do chapéu violeta.” Então, essa foi a minha intenção no dia seguinte quando o vi na calçada. Comecei por dizer: Bom dia senhor!” Mas, infelizmente, seu “Bom dia” em troca era suspeito, receoso mesmo. Entendi num instante que ele iniciava qualquer conversa, não o contrário, então eu continuei minha caminhada sem querer lhe assustar mais.
Conhecido por todo mundo, o homem de chapéu violeta faz parte de Anse Vata. Tenho certeza que nunca vou esquecer dele. A história do chapéu violeta, porém, será um mistério para mim.
*um rastro da minha passagem na Grande Terre (‘apelido por a maior ilha da Nova Caledônia’)
Ton soleil, ta braise Quem me enfeitiçou O mar, marée, bateau Tu as le parfum De la cachaça e de suor Geme de preguiça e de calor
(53ª canção: “Joana francesa”, Chico Buarque)
Esta postagem de agosto vai ser curta demais porque estou começando um grande experimento cognitivo que não inclui a língua portuguesa. Explico.
Ao final do confinamento na Nova Zelândia em 2022, tomei a decisão de estudar o francês. Já tinha estudado o francês na universidade e naquela época falava mais ou menos bem. Depois disso, porém, não usei a língua durante quase 40 anos. Agora faz um ano que estou revisando o francês e, bom, posso dizer que estou aprimorando aos poucos. Mas ainda não falo suficientemente.
Por isso, tomei outra decisão: vou dedicar o mês de agosto à língua francesa. Um mês sem o português e sem o japonês, duas línguas que geralmente estudo todo dia.
Para profitar dessa decisão, vou passar três semanas na Nova Caledônia, uma ilha francesa a três horas daqui. A primeira semana vou estar de passeio com a JJ. As outras duas semanas vou fazer um curso intensivo de francês. Vou tentar estudar como se fosse estudante na universidade. Quero aumentar meu vocabulário e melhorar a pronúncia para ser capaz de usar a língua francesa em mais e mais situações. Se eu me cansar dessa dedicação a estudar – o que, sem dúvida, vai acontecer – vou descansar num ambiente francês, ou seja, vou nadar na piscina pública ou na praia, assistir um filme francês no cinema, tentar bater papo nos cafés ensoleirados de Nouméa.
É isso meu plano. Não sei o que vai acontecer…
Será que consigo fazer isso? Meu francês realmente vai melhorar? E quê vai acontecer com meu português? Espero que eu volte da Nova Caledônia falando francês bastante bem, sem afetar meu português. Mas quem sabe? Talvez volte en parlant une mélange des duas línguas, mais ou menos como a chanson au-dessus.
As lembranças me chegam sempre em noites tão vazias E mexem tanto com minha cabeça Que quando o sono vem o dia já nasceu
(52ª canção: “Vivendo por viver”, Márcio Greyck e Roberto Carlos)
Moema acha que tenho ótima memória. Ela fica surpreendida dos detalhes que consigo lembrar de quando morei com sua família em Belo Horizonte. Naquela época, por exemplo, Moema sempre atendia o telefone com “3-3-5-0-5-3-3”, enquanto Iberê atendia com “Pronto?” Lembro exatamente quando Mamãe me ensinou a palavra lusco-fusco: estávamos no carro com Papai, atravessando a escuridão crescente do sul de Minas. Aliás, foi Ubirajara que me explicou o sentido de não tem grilo. Sim, de fato, lembro muito daquele ano no Brasil.
Mas isso não quer dizer que já tinha essas memórias na cabeça quando me despedi da minha família brasileira em 1978. Não foi assim, não. Muitos detalhes do meu intercâmbio me vieram anos depois.
O autor francês, Marcel Proust, notou que às vezes as memórias são involuntárias, desencadeadas por uma sensação. No mais famoso episódio do seu romance Do lado de Swann, a sensação foi o sabor de uma madeleine, um bolinho francês em forma de concha. Quando o narrador, nos seus últimos anos, a provou, foi levado a sua infância. Acreditou que a sensação gustativa do bolinho lhe servia como uma janela, através da qual o passado foi visto, revivido mesmo, embora fugazmente. Certas boas lembranças que guardo do Brasil foram evocadas nesse jeito. O incidente que mais provocou uma cadeia de memórias aconteceu talvez trinta anos atrás na Califórnia quando, ao ligar o rádio, ouvi um solo de piano na canção “School” de Supertramp*. Hipnotizado pelas notas do trecho, comecei a reviver uma manhã quente em 1977:
Entramos na Belina e sentamos no banco de atrás. Jupira, que ía ao trabalho, entrou e se sentou em frente. Baixamos as janelas para aliviar o calor sufocante dentro do carro. Iberê ligou o motor, colocou uma fita e entrou na Rua Almirante Alexandrino. O ar entrava pelas janelas e circulava, misturado com a fumaça dos Hollywoods de Iberê e Jupira. Além da música e do som repetido dos pneus contra o asfalto, eu ouvia, sem entender muito, a conversa dentro do carro. Descemos a rua. De repente, umas notas decrescentes de piano chamaram-me a atenção. Foquei na música e pensei, “Que grupo é esse? Nunca ouvi na Califórnia. Que estranho ouvir alguma coisa nova, bacana, até cantada em inglês, aqui no Brasil.” E naquele momento, o trecho de piano se acabando, reconheci algo importante: eu estava contente de ser “irmão” dessas pessoas legais. Finalmente, após quase três meses cheios de saudades da Califórnia, estava sentindo-me feliz no Brasil!
Igual ao caso da madeleine de Proust, o episódio com o trecho de Supertramp me permitiu quase tocar o passado, nesse caso de estar sentado com Zé Alfredo no carro, sentindo-me confortável e seguro com minha família brasileira e a vida que estávamos levando juntos. Mas, novamente como a da madeleine, minha experiência de reviver o passado aconteceu só aquela vez e sumiu rapidinho. Se eu escutar “School” agora, não consigo sentir o que sentia.
O trecho de piano também me fez reconhecer que o ato de escutar música na Belina não teria sido possível sem o Marantz, o toca-fitas americano que, recentemente comprado, era bem valorizado pela família. De fato, quando cheguei em Belo Horizonte, não havia toca-fitas em casa. Mas, um dia na hora do almoço, a família discutiu a possibilidade de comprar um Marantz para complementar o toca-discos na sala de estar. Não entendi tudo da conversa em redor da mesa mas parecia que o aparelho custaria menos em dólares americanos na Zona Franca de Manaus do que em cruzeiros em Belo Horizonte. Por isso, Papai me perguntou se podia lhe emprestar alguns dólares – eu tinha 200 comigo – para comprar um Marantz. Falei que emprestaria. Por fim, entretanto, meus dólares não foram precisos – não sei exatamente porquê – e poucos dias depois um toca-fitas Marantz apareceu em casa.
Embora os detalhes exatos da compra fiquem imprecisos para mim, a consequência imediata do Marantz era clara: a sala de estar virou estúdio de gravação. Ubiratan gravou canções de Milton Nascimento. Moema fez uma fita de Stevie Wonder, Leo Sayer e outros nomes de disco music. Para Tibiriça foi o grupo Genesis da Inglaterra enquanto Papai gravou o querido saxofone de Pixinguinha. Todo mundo queria gravar fitas de seus sons favoritos. Não foi só a família que usava o Marantz. Vários amigos dos meninos, levando discos sob o braço, frequentavam a sala de estar para gravar algum som. Uma vez num domingo, quando desci do carro com Mamãe e Papai, vi Alexandre, grande amigo dos meninos e aspirante roqueiro, esperando na calçada em frente de casa. Ele segurava alguns discos na mão. Até hoje posso citar o papo entre Alexandre e Papai:
– Bom dia, senhor. Tem grilo pra gravar?
– Acho que tem, sim – respondeu Papai, indicando, ao lado da casa, um terreno baldio coberto de vegetação.
Demos uma risada e entramos em casa juntos. Alexandre foi diretamente para a sala de estar.
Sem dúvida, o Marantz atraiu muitas pessoas, especialmente os meninos. Será que uma musiquinha no carro prometia mais possibilidades com a namorada? Talvez isso fez parte do fascínio pelo Marantz. Seja como for, tenho certeza de uma coisa: se não fosse por aquele trecho de Supertramp, eu nunca poderia ter escrito esta postagem.
*Se quiser, o trecho de Supertramp fica entre 3:15 e 4:12 dessa gravação no YouTube:
Adoramos comidas recheadas. Pastéis, tamales, crepes, samosas (Índia), empanadas, perogies (Ucrânia), oniguiris, nêns (Vietnã)…parece que cada país tem alguma coisinha recheada. São todos pequenos pacotes de dar água na boca. Ademais, se come a embalagem também. Quem é que não gostaria disso?
A comidinha recheada favorita da JJ é a guioza. De origem chinesa, a guioza japonesa é um pastel de massa fininha.
guioza de um restaurante pertinho da casa da JJ em Tókio
O recheio tradicional é carne de porco moída, repolho ralado, cebolinha, alho e gengibre. O que distingue a guioza do jiazi, seu primo chinês, é a moda de cozinhar. Nos restaurantes chineses o cardápio têm duas opções para o jiazi: frito ou cozido a vapor. A guioza japonesa combina com os dois, ou seja, o fundo do pastel é frito até que esteja um marrom dourado crocante e, depois de botar um pouco de água na frigideira e tapá-la, o outro lado do pastel é cozido a vapor. O resultado é divino, especialmente com um molho de vinagre de arroz, soja e layu (‘azeite apimentado’).
Embora se pode encontrar guioza no país inteiro, duas cidades se consideram como “capitais de guioza”. Utsunomiya, a maior cidade da província de Tochigi, tem se identificado como o centro de guioza já faz tempo. Por outro lado, Hamamatsu, na província de Shizuoka, é um recém-chegado nesse palco de fama culinária.
Todo ano um grupo de críticos gourmet identificam o restaurante que faz a melhor guioza no Japão. Invariavelmente, o campeão é alguém de Utsunomiya ou de Hamamatsu.
Embora eu respeite as avaliações dos críticos, qualquer designação de melhor guioza é, ao menos um pouco, subjetiva. Por isso, a JJ e eu, na última visita ao Japão, fizemos um “guioza tour” para nós mesmo decidirmos quem tem a melhor guioza: Utsunomiya ou Hamamatsu?
Começamos em Utsunomiya. É óbvio que a cidade valoriza a guioza, pois, saíndo da estação ferroviária às 11 horas, a primeira coisa que vimos foi uma estátua de guioza:
Mas será que a guioza de Utsunomiya é gostosa mesmo? Querendo averiguar isso, entramos no “Kouran Utsunomiya”, o primeiro restaurante pertinho da estátua. Infelizmente, as guiozas desse pequeno restaurante não foram boas, não.
guioza de Kouran Utsunomiya (香蘭 宇都宮)
O recheio era adequadamente saboroso, mas a massa nos desapontou. Faltou uma crocância no fundo e, no outro lado, uma maciez delicada. Além disso, as guiozas ficaram grudadas entre si. Ao pegar uma guioza com os pauzinhos, a massa se rasgou. Saímos do restaurante meio escandalizados, pensando que Utsunomiya nem sequer merecia ser considerado um lugar para almoçar.
Mais tarde, porém, conhecemos uma outra Utsunomiya. Entramos numa ruela pitoresca. Antigamente chamada Rua de Miyajima, a preifeitura de Utsunomiya afetuosamente a renomeou “Gyouza Douri” (‘Rua de Guioza’). Cada poste de luz nesta rua tem uma placa que celebra a fama culinária da cidade:
Mesmo a lâmpada por cima desta sinalização reflete o tema de guioza:
Na Gyouza Douri vimos vários restaurantes de guioza. Escolhemos “Utsunomiya Minmin”. Em frente desse lugarzinho tinha bancos de espera e cones de sinalização para controlar a fila de clientes famintos. Isso era um bom sinal e, felizmente, tínhamos chegado antes do horário de pico então podíamos entrar sem esperar.
A guioza de Utsunomiya Minmin era muito melhor do que a guioza do almoço.
guioza de Utsunomiya Minmin (宇都宮みんみん)
O prato era simples mas perfeito. Doze guiozas bem douradas e crocantes de um lado e molezinhas do outro. O recheio nos agradou também, pitadas bem equilibradas de gengibre e alho em cada mordida. A guioza era tão gostosa que nós pedimos outra porção.
O dia seguinte voltamos a Tóquio felizes. Nunca esqueceremos daquela visita à Rua de Guioza! Sem dúvida, a cidade de Utsunomiya era abençoada com guioza deliciosa.
Mas uma questão persistia para nós: como seriam as guiozas de Utsunomiya comparadas às de Hamamatsu. Saberíamos a resposta disso dez dias mais tarde quando a JJ, o irmão dela e eu fomos a Hamamatsu para visitar parentes da JJ.
Quando chegamos de trem bala, eu notei que Hamamatsu não divulgava a guioza tanto quanto Utsunomiya. Só vi um cartaz na estação motivando visitantes a provar a guioza da cidade. E na vitrina da oficina de turismo havia uma etiqueta de guioza ao lado de uma outra imagem, bem maior, de peixe enguia, o símbolo duradouro de Hamamatsu. No mapa da cidade tampouco tinha estátua ou específica rua de guioza.
“Kinka”, o primeiro restaurante que entramos, não foi programado por nosso tour de guioza. Fomos lá porque dois primos da JJ, Naru-kun e You-chan, nos convidaram. O banquete que Naru-kun selecionou foi muito gostoso e, por sorte, incluía guioza:
guioza de Hamamatsu no restaurante Kinka (錦華)
Gostamos dessa guioza, sim. O recheio estava saboroso e a cor e consistência da massa como devem ser. Aliás, qualquer guioza em Hamamatsu vem com moyashi (‘brotos de feijão’), um acompanhamento ideal. O único problema da guioza do restaurante Kinka foi que Naru-kun pediu tanta coisa gostosa para nós provar – camarões apimentados, uma refogada de pimentão e carne, etc. – que foi difícil concentrar adequademente sobre nossos pratinhos de guioza.
Dois dias após o banquete no Kinka, queríamos terminar nosso tour por “Mutsugiku”, um restaurante que a JJ já tinha visitado várias vezes. Ela nos disse que o restaurante merecia consideração. Mas também nos informou que precisaríamos chegar bem antes do horário de pico, senão teria uma fila. Infelizmente, chegamos às 11:45 e tivemos que esperar 45 minutos:
A espera na rua valeu a pena, porque as guiozas eram divinas:
guioza de Hamamatsu no restaurante Mutsugiku (むつぎく)*
Sabíamos com a primeira prova que essas guiozas, arranjadas artisticamente no prato, eram especiais. A massa do pastel estava equilibrada perfeitamente: crocante de um lado e molinha do outro. E o recheio? Estou sem palavras para descrevê-lo. Desfazia-se na boca, deixando um sabor inconfundível de umami. Guiozas divinas mesmo, as melhores que já provei na minha vida.
A JJ e eu concordamos que Mutsugiku em Hamamatsu é o melhor lugar para guioza no Japão – ao menos dos quatro restaurantes que visitamos em 2023. Talvez na próxima visita ao Japão, acharemos outro restaurante que será melhor ainda.
Satisfeito com minha peregrinação no mundo de guioza japonesa, uma outra pergunta me preocupa agora, “Quem é que faz a melhor coxinha no Brasil?”
*Agradeço a Naru-kun por esta foto. Ele é excelente fotógrafo! (A julgar pelas outras fotos nesta postagem, eu sou péssimo.)
Finalmente estou a meio caminho. Se meu blogue fosse uma montanha, eu estaria agora no cume dela. A longa descida até a centena postagem está me aguardando. Seja qual for a maneira de dizer, a viagem até este momento tem sido divertida. De vez em quando, tem sido frustrante também, pois sou um cara preguiçoso.
Quando comecei este blogue em 2019 queria escrever sobre meu ano intercâmbista no Brasil em 1977. Escrevi uma dúzia de postagens seguidas sobre este tema, sob a categoria “A história do menino/Julião”. Pretendo continuar com isso porque ainda não terminei esta história. Mas daqui por diante, as postagens sobre o menino, em vez de ser contínuas, serão esporádicas e sem ordem específica. Se eu quiser escrever algo sobre aquele ano, vou fazer; se não, vou escrever outra coisa. Aliás, vou usar a primeira pessoa em vez da terceira pessoa, a forma que, só para praticá-la, eu usei na primeira dúzia de postagens. De qualquer maneira, espero que as postagens mostrem como aquele ano no Brasil foi um dos períodos mais formativos na minha vida. Se não fosse pela família carinhosa que me recebeu tantos anos atrás em Minas Gerais, eu não seria capaz de escrever este blogue em português nem teria tantas experiências para relatar.
Além da história do menino, já escrevi postagens sobre outros assuntos incluindo a JJ, minha família na Califórnia, a Nova Zelândia, viagens em vários lugares no mundo, a Covid, e, claro, minha relação de amor e ódio com a tecnologia de hoje em dia. Vou continuar escrevendo sobre estes temas mas imagino que outros vão me interessar e estrear nesse blogue.
Até agora tenho incluído letras de cinquenta músicas diferentes. Às vezes, a conexão entre as letras e a postagem foi bem clara e outras vezes, como esta “Metamorfose ambulante” de Raul Seixas, a relação fica mais duvidosa. Mas tanto faz. O motivo inicial do blogue foi de escutar mais músicas, estudar as letras delas e, sobre tudo, escrever em português. Nos quatros anos que faço este trabalho tenho certeza que meu português melhorou e que continua melhorando. Então missão comprida!!
Não vou mentir: este blogue não tem muitos leitores. Se eu tivesse divulgado o conteúdo no Instagram ou Twitter talvez teria mais seguidores. Mas, na verdade, isso não me importa, pois nunca quis ser influenciador digital. O mais importante para mim sempre foi praticar e manter a língua portuguesa. No entanto, quero terminar esta postagem para agradecer todos vocês que estão lendo meus escritos em português. Espero que continuem o percurso comigo.
A última ficha caiu Eu penso em vocês night’n day Explica que tá tudo ok
(49ª canção: “Bye bye Brasil”, Chico Buarque)
Dois anos depois de fazer intercâmbio em Minas Gerais, eu tive a oportunidade de viajar de novo. O destino essa vez foi Aix-en-Provence (ou “Aix”), uma pequena cidade onde estudei o francês.
Diferente da experiência no Brasil, quando estive na França em 1980 telefonava várias vezes aos meus pais nos Estados Unidos. Não foi minha intenção de fazer assim, pois naquela época qualquer chamada internacional custava demais. No entanto, pouco tempo após que cheguei em Aix, minha família sofreu um choque enorme na Califórnia: a casa foi destruida num incêndio.
Lembro claramente como recebi essa má notícia. Saía do meu apartamento para a universidade. Estava inquieto porque teria uma prova de francês em breve. No saguão de meu prédio, passei pela caixa do correio e vi uma carta de minha mãe. Pensando que qualquer notícias da família íam me acalmar um pouco, abri o envelope. Comecei a ler: “Peter, só algumas palavras para dizer que perdemos a casa no incêndio florestal…”
A carta me assustou tanto que matei a aula de francês. Custe o que custar, faria imediatamente uma chamada para a Califórnia. Fui ao correio onde se faziam as ligações internacionais. Depois de pagar um preço exorbitante, consegui falar por alguns minutos com meus pais. Suas vozes, tão longe de mim, estavam calmantes, sua mensagem simples. Tudo estava sob controle. Estavam bem e morando num trailer no quintal enquanto a nova casa fosse construída. Queriam que eu ficasse tranquilo em Aix e que aproveitasse ao máximo meu ano na França.
Aliviado pelas palavras de meus pais, eu aproveitei mesmo o que Aix me ofereceu. Mas nunca parei de pensar no que acontecia na Califórnia. De fato, me sentia meio culpado por estar curtindo a vida na França enquanto meus pais e meu irmão, apertados num trailer no bairro incendiado, esperavam a construção da nova casa.
Um dia eu estava com tanta saudade que decidi ligar à família novamente. Mas dessa vez usaria um orelhão. Coloquei algumas moedas no telefone.
As moedas apareceram nos recipientes transparentes debaixo das aberturas. Disquei o número e depois de alguns toques minha mãe atendeu. Que alegria em ouvir as vozes um do outro! Uns dois ou três minutos mais tarde, quando ela estava me falando sobre o progresso da construção, uma luzinha piscou no telefone. Levei alguns segundos para perceber o que estava sinalizando: as moedas já tinham caído dos recipientes e a ligação iria terminar! Rapidamente, tirei os últimos francos de meu bolso e os coloquei no telefone. As moedas entraram nos recipientes e a luzinha sumiu. Eu foquei na voz da minha mãe. A conversa abordou o assunto de outras casas em construção na vizinhança, mas novamente reparei a luzinha intermitente. Infelizmente, a ligação se cortou antes que pudéssemos nos dizer adeus.
Não sei exatamente quanto custou esse telefonema nem por quantos minutos falei. Mesmo que pudesse ouvir a voz da minha mãe, fiquei meio frustrado com a experiência de fazer telefonemas na França. Decidi que, daí por diante, não faria mais ligações. Escreveria cartas, como fazia no Brasil.
Algumas semanas depois, não obstante, ouvi duas australianas na aula falando de um orelhão “mágico” na Avenida Malherbe. O telefone foi sabotado de tal maneira que você podia fazer uma chamada internacional por só um franco. Aparentemente, a moeda não se caía do recipiente até que você desligasse o telefone. Pensei que isso fosse bom demais para ser verdade mas resolvi investigar esse orelhão depois.
Quando cheguei à Avenida Malherbe às três horas da manhã, vi umas oito ou dez pessoas esperando sua vez de usar o telefone!
Eu entrei na fila. Um senegalês que estava na minha frente explicou as “regras” do telefone. Cada pessoa tinha dez minutos por seu franco, o que era bem melhor do que um orelhão normal. A pessoa atrás de quem estava telefonando marcaria o tempo e diria quando já tivesse passado os dez minutos. Se você quisesse falar mais tempo ou falar com outra pessoa, era preciso desligar e ir para o fim da fila.
Do que eu podia ver em volta de mim, todo mundo seguia as regras. Enquanto esperava minha vez, falei com o senegalês e, chegando logo depois, um missionário mórmon do Colorado e uma uruguaiana. Parecia uma festa na rua, com todo mundo conversando em várias línguas.
Finalmente, depois que o senegalês falou por seus dez minutos, foi a minha vez. Coloquei meu franco e disquei o número. Meu irmão atendeu. Disse que naquele momento estava sozinho em casa. Também explicou que a família estava bem e a construção da casa estava no prazo. Daí falamos do assunto que mais lhe agradava: os Lakers, o time de basquete de Los Angeles. De repente senti um leve toque no meu ombro. Expliquei para meu irmão que ia desligar, pois meus dez minutos já tinham passado. Nós dissemos adeus e desliguei.
Satisfeito, eu saí do orelhão. O mórmon entrou, a uruguaiana começou a contar os minutos dele, e os outros na fila avançaram. Tudo funcionando como devia.
O orelhão mágico da Rua Malherbe durou pouco tempo. A companhia telefônica identificou essa falha em dois dias. Mas, a partir daí, outros orelhões em Aix seriam sabotados, sempre com o mesmo resultado: camaradagem multilíngue na fila enquanto todos aguardavam os preciosos dez minutos no telefone. Como Banksy, o artista de hoje-em-dia deixando imagens na Europa, a pessoa que sabotava as cabines telefônicas era um grande mistério. Seja quem fosse, foi um héroi para nós da comunidade internacional de Aix-en-Provence.
(48ª canção: “O correio já chegou”, Francisco Alves)
Enquanto escrevo esta postagem, a JJ está em Tóquio visitando a família dela. Todo dia trocamos pequenas mensagens pelo WhatsApp. Ela me fala do tempo, do seu irmão, do trânsito. Às vezes, me atormenta com fotos de alguma delícia que acabou de saborear. É simplesmente incrível como esta troca de mensagens instantâneas pode nos ligar como se fôssemos juntos no mesmo lugar.
Mas a comunicação não foi sempre assim. Sou bastante velho para lembrar a época de cartões postais e cartas. Como intercambista no Brasil em 1977, a primeira coisa que fiz quando desci do avião no Rio de Janeiro foi comprar um cartão postal e o mandar para meus pais na Califórnia. Não lembro exatamente o que escrevi mas devia ter sido algo como, “Cheguei. Estou bem. Mando notícias em breve.” Imagine isso: meus pais tiveram que esperar uns dez dias ou mais para receber a notícia que eu tinha chegado no Brasil direitinho. O contato instantâneo de hoje não existia e qualquer chamada de longa distância ou telegrama internacional custaria demais. Naquela época, então, a filosofia era simples: “a falta de notícias é um bom sinal.”
Toda semana durante minha estadia no Brasil, escrevi uma carta para meus pais. E toda semana eles escreveram para mim. Lembro bem os aerogramas que meu pai mandava. Custando 22 centavos americanos, consistiam de uma folha de papel que se dobrava em envelope selado. Sempre os abria com muita atenção porque se não, eu riscava “cortar” palavras. Era impressionante como meu pai podia encher uma página e meia com tantas notícias. Ele me falava da família – incluíndo os cachorros – do tempo na Califórnia, dos meus amigos. Mesmo contava piadas.
Não sei exatamente como evoluiu, mas os aerogramas do meu pai sempre chegavam à minha casa em Belo Horizonte na sexta-feira na hora do almoço. Durante o resto do dia, eu ficava feliz de ter as notícias da família mas também sentia muitas saudades da Califórnia. No dia seguinte eu iria ao correio na Avenida Afonso Pena para mandar uma carta para meus pais. Nunca lhes perguntei sobre essa correspondência mas suponho que a minha carta, reconhecível por seu envelope de listras verdes e amarelas, chegava na casa deles com a mesma regularidade do que eu recebia os aerogramas.
Naquele ano de intercâmbio, o Natal era bem difícil. Embora estivesse rodeado de uma família carinhosa em Minas Gerais, eu tinha tantas saudades da Califórnia. Passei o dia inteiro pensando em meus pais e irmãos e nas nossas tradições natalinas. Tinha lágrimas aos olhos e um nó na garganta, pois estava sofrendo mesmo. Acho que Papai (meu pai brasileiro) percebeu minha aflição. De repente na hora do almoço, ele me disse que podíamos telefonar aos meus pais nos Estados Unidos para lhes desejar um “Merry Christmas”. Que oferta generosa! Nos anos 70 no Brasil, o telefone era um dos maiores bens da família e ligações internacionais eram quase inimagináveis. Por fim, recusei a oferta do Papai. Lembro inventando alguma razão por isso mas na verdade recusei porque eu teria caído em prantos se ouvisse as vozes da minha família na Califórnia. Preferia sofrer o Natal em silêncio e esperar o próximo aerograma do meu pai.
Posted at 7:22 am by wannabemineiro, on fevereiro 1, 2023
O Nordeste é poesia
Deus quando fez o mundo, fez tudo com primazia
Formando o céu e a terra cobertos com fantasia
Para o sul deu a riqueza, para o planalto, a beleza
Pro nordeste, a poesia
(Trecho de Patativa do Assaré na 47ª canção:
“Norte Nordeste me veste”, RAPadura)
Não sei exatamente como foi que ouvi falar do livro Vidas Secas. Talvez fosse numa reportagem, talvez fosse do meu amigo Marcus. De qualquer jeito, quando vi a obra-prima de Graciliano Ramos numa livraria na Avenida Paulista a comprei. Lembro bem a moça no caixa que, ao ver o livro, me disse que valeu a pena. Ela o leu no colégio e adorou. Disse-me os nomes das personagens principais do livro: Fabiano, sinha Vitória, seus dois meninos – nunca nomeados – e o cachorro, Baleia. Desde então, outros amigos me disseram que tinham estudado Vidas Secas no colégio e imaginei que esse pequeno romance nordestino seria um pouco como As vinhas de ira de Steinbeck, o que li no high school na Califórnia.
Alguns meses depois, tirei Vidas Secas da minha estante. O desenho simples na capa do livro era cativante.
Com trouxa de roupa no ombro, um homem e seu cachorro atravessavam uma planície rala. Os dois eram magrinhos, o sol sob eles implacável. Quanto à capa, pensava que o livro ia ser super interessante.
Abri o livro e comecei a ler. Logo depois, fiquei decepcionado. Havia muito vocabulário difícil. Juazeiro, alargar, mancha, galho, escanchado, aió, e pederneira eram palavras novas para mim, e todas apenas na primeira página. Suspirei, fechei Vidas Secas e coloquei novamente na estante onde ficaria por muito tempo.
Na verdade, tentei ler o livro várias vezes e o resultado era sempre o mesmo. Dentro de quatro ou cinco páginas, desistia e devolvia o livro ao seu lugar na estante. Com cada tentativa me sentia como se não soubesse o português ou, pelo menos, como se meu vocabulário consistisse só em algumas dúzias de palavras.
Ano passado resolvi ler Vidas Secas sem falha. Comecei como sempre, procurando o monte de palavras que não entendia. Usei este método até terminar o segundo capítulo. Mas já estava chateado por ter que procurar tantas palavras. O que mais me incomodou foi o fato de achar a palavra no dicionário não entender o sentido dela no texto. Isso geralmente não acontece quando leio outros textos em português. Procuro palavras desconhecidas, as entendo e continuo lendo. Vidas Secas, porém, era escrito como poesia, ou seja, mesmo com uma tradução ou definição de palavras desconhecidas não consegui entender o texto exatamente. Às vezes fiquei perdido mesmo.
Mas dessa vez eu não desisti com a leitura. Persistiria até o fim. Também decidi que não procuraria nenhuma palavra mais. Assim, leria o resto do romance e entenderia o que entenderia.
Com esse novo método, comecei o terceiro capítulo. O título dele, “Cadeia”, me parecia bastante interessante. Como era de esperar, Fabiano ficou preso numa cidadinha no Sertão. O delito que ele fez? Isso não entendi exatamente. Sei que em vez de voltar para a roça com os mantimentos que sua pobre família estava esperando, começou a beber aguardente e jogar algo chamado trinta e um. Por fim, ficou bêbado, perdeu dinheiro e ofendeu o chamado Soldado Amarelo. Mais tarde, caído na rua, Fabiano foi espancado e levado para a cadeia da cidade. Dentro da cela, se preocupava com a família.
Minha compreensão daquela noite miserável era claramente incompleta. Nem sei como que Fabiano saiu da cadeia. Tanto faz, eu continuei lendo, capítulo após capítulo. Finalmente cheguei ao fim e fechei o livro. Senti algum alívio e o coloquei na estante.
Agora tenho uma ideia do enredo desse romance famoso. Quando vejo o título, lembro bem as misérias que a pobre família sofreu no Sertão. Além disso, acho que o livro me permitiu entender porque tanta gente saiu do Nordeste nos anos 60 e 70 para buscar emprego nas grandes cidades do Sudeste e do Sul.
Mas será que eu posso dizer que realmente li Vidas Secas? Isso eu não sei. A poesia do Nordeste me escapou.
(46ª canção: “Quanto ao tempo”, Carlinhos Brown & Michael Sullivan)
Quando criança aprendi na escola que a Terra é redonda. Em cada sala havia um globo rotativo que girávamos com prazer. Lemos sobre Cristóvão Colombo e Fernão de Magalhães, dois navegadores que ousaram questionar a crença que a Terra era plana. E claro, seguimos as missões espaciais de Apollo e vimos suas fotos de nosso planeta – muito azul e sempre curvado.
Mas o que mais me cativou da nossa Terra redonda foi minha primeira experiência com um simples fuso horário. Nós estávamos indo de carro para o Grand Canyon. Quando atravessamos a ponte sobre o Rio Colorado, a divisa entre a Califórnia e a Arizona, meu pai nos falou que era preciso adiantar o relógio uma hora. Achei isso estranho porque senti nenhuma diferença de tempo. O sol estava a pino nos dois lados do rio. Até lembro pensando, se dois carros se chocassem nessa ponte, quando aconteceria esse acidente? Na hora da Califórnia ou na hora da Arizona? Uma pergunta boba, talvez, mas efetivamente capturou a imprecisão de fusos horários para mim.
Hoje em dia, sou viajante experiente. Já tive muita sorte de visitar mais de quarenta países. Até fiz uma longa viagem à volta do mundo. Mas a relação entre a redondeza da Terra e o tempo ainda me parece meio esquisita. Às vezes acho que a sensação de desembarcar do avião depois de um voo de longa distância é quase como viajar no tempo.
Sinto isso, especialmente, após qualquer voo que atravessa a Linha Internacional de Data, aquela linha imaginária no Pacífico que delimita um dia do outro. Quando viajo da Nova Zelândia para Califórnia, o avião de Air New Zealand decola do Aeroporto Internacional de Auckland às 22:15 e, depois de 12 horas de voo, pousa em Los Angeles às 13:45 do mesmo dia. Passageiros no voo então têm a impressão de voltar no tempo, ao menos algumas horas. Se sempre fosse assim, você nunca envelheceria. Infelizmente, porém, a volta para Nova Zelândia parece, de algum modo, acelerar o envelhecimento: o avião sai de Los Angeles às 23:15 e, depois de 13 horas no ar, chega em Auckland às 07:00, dois dias depois! Você sai da Califórnia, por exemplo, num sábado de noite e chega na segunda-feira de manhã; o domingo sumiu. De fato, em 2003 minha irmã e seu marido perderam seu vigésimo segundo aniversário de casamento no avião quando vieram nos visitar. Será que cada vez que volto de Los Angeles para Auckland eu estou perdendo um dia de vida?
Mais estranho ainda são os voos curtos que atravessam a Linha. Recentemente, fomos com Air New Zealand à Polinésia Francesa. Partimos de Auckland às 18:40 numa terça-feira e, cinco horas mais tarde, pousamos em Tahiti à 01:40 na segunda-feira, ou seja, voltamos de hoje para ontem. Viajamos no tempo, pelo menos por um dia. A volta de Tahiti para Nova Zelândia é menos interessante: o avião sai cedinho da madrugada e chega de manhã no dia seguinte.
As ilhas pacíficas que ficam perto da Linha de Data aproveitam ao máximo essa designação geográfica. Por exemplo, o arquipélago das Ilhas Chatham, 800 quilômetros da Nova Zelândia, é supostamente o primeiro lugar de ver o sol nascer cada dia, pois a Linha fica justamente a leste. Em 1999, as 750 habitantes das Ilhas tentavam o público com anúncios auspiciosos como esse: Venham para as Ilhas Chatham e sejam os primeiros de entrar no novo milênio! Por fim, pouquíssima gente veio porque a viagem era complicada e a infraestrutura para turistas quase não existia. Em vez disso, muitas pessoas, incluindo David Bowie, saudaram o primeiro sol do milênio na cidade de Gisborne, que fica no extremo oriental da Ilha Norte na Nova Zelândia.
O ano passado, a JJ e eu tivemos nossas próprias experiências ao longo da Linha de Data. Visitando as Ilhas Chatham, fomos (talvez) as primeiras pessoas do mundo a ver o amanhecer no dia dez de março em 2022:
E no dia quinze de novembro, quando estávamos numa ilha da Polinésia Francesa, que fica justamente do outro lado da Linha, fomos umas das últimas pessoas a nos despedirmos ao sol:
A esses (ridículos) momentos de fama, quero acrescentar mais um. Visto que esta postagem vai aparecer no meu blogue à 01:00 do primeiro dia de 2023 na hora neozelandesa, permitam-me ser a primeira pessoa do ano de desejar-lhes um feliz e próspero ano novo!
Posted at 2:17 pm by wannabemineiro, on dezembro 8, 2022
São meus filhos que tomam conta de mim
(45º canção: “Pais e filhos”, Legião Urbana)
Com os restos mortais misturados e num só recipiente, foi a hora de soltá-los. Como expliquei na postagem anterior, meus pais queriam que suas cinzas fossem espalhadas à beira de dois lagos onde gostaram de pescar por muitos anos.
O Lago GV, o lugar preferido de minha mãe, foi um pedido simples, pois ficava pertinho da casa de minha irmã.
Antigamente, a família teve uma casa à beira desse pequeno lago. Era o lugar perfeito para escapar da cidade nos fins de semana. Minha mãe passava mais tempo lá do que meu pai. Muitas vezes ia sozinha mesmo para pescar e, no verão, nadar. O Lago GV também lhe agradou porque foi lá onde eu e a JJ nos casamos, mas isso já é outra história.
Num dia lindo de setembro, eu, meu irmão e meu cunhado fomos ao Lago GV com uma porção das cinzas. Ao redor do lago estava quase deserto, o que era ideal para nós, prestes a quebrar a lei que proibe espalhar restos mortais. Deixamos as cinzas em vários lugares. Perto do lago, por exemplo, visitamos umas rochas altas onde meus pais curtiam, primeiro, o pôr-do-sol e, pouco tempo depois, as luzes de uma cidade longínqua no Deserto Mojave. Também jogamos uns punhados de cinzas perto da casa. Isso foi algo estranho para mim porque era onde se esperava ver minha mãe abrir a porta para me dizer que o almoço estava pronto. O último lugar que recebeu meus pais foi o lago mesmo. Nós os deixamos num lugar arenoso e isolado onde pegaram muita truta.
O Lago T*** Nº 4, o desejo do meu pai, era mais complicado. Estudando o mapa, nos demos conta de que não apenas levaria quatro horas de carro até chegar nas montanhas Sierra Nevada, mas também teríamos que caminhar sete quilômetros numa trilha íngreme para chegar ao lago que ficava a 3600 metros acima do nível do mar. Depois de uma discussão séria, resolvemos que este trajeto seria demais para nós. Afinal de contas, nem mesmo nosso pai faria esta caminhada desafiadora à nossa idade. Por isso, decidimos espalhar as cinzas à beira de lagos e riachos mais acessíveis na mesma área do Lago T*** Nº 4.
Alguns dias depois, saímos da casa da minha irmã para Bishop. Essa pequena cidade, localizada no fundo do vale do Rio Owens, tem uma vista impressionante. A serra de Sierra Nevada a oeste da cidade alcança quase 4,500 metros. E a leste, no outro lado da cidade, se vêem as montanhas da Serra Branca, a divisa entre a Califórnia e o estado da Nevada. Ao chegar a Bishop, notamos que a cidade tinha crescido bastante de quando íamos lá como meninos. Mas entre os novos restaurantes e alojamentos, todos desconhecidos a nós, vimos um negócio bem querido da família: a Padaria Schatt’s. Aliviados, entramos na padaria e pedimos uns sanduíches excelentes.
Queríamos visitar o Riacho de Bishop depois do almoço. Nós acampávamos lá nos verões de nossa infância. A caminho, discutimos estratégias para realizar a espalhada às escondidas. Quando chegamos no camping, vimos gente aqui e ali ao longo do riacho. Estacionamos e meu cunhado ficou com o carro. Ele seria o sentinela da operação. O resto da família desceu o declive até a água para jogar uma porção dos restos mortais. Enquanto observávamos as cinzas desapareceram nas águas rápidas do riacho, ficamos satisfeitos pois os nossos pais gostavam tanto desse lugarzinho. Após a espalhada e um momento de reflexão, subimos o declive e vimos meu cunhado falando com um casal. Como era de esperar, ele tinha que manter uma conversa prolongada para distrair o casal do delito sendo cometido abaixo.
As últimas espalhadas no dia seguinte foram mais tranquilas. Fomos de carro até o fim da estrada do Riacho de Bishop. Daí seguimos uma trilha íngreme que entrava nas terras altas da Sierra Nevada. Eu carregava uma bolsa de tiracolo com as cinzas restantes. Enquanto caminhávamos na trilha, eu deixava punhados de cinzas em lugares com vista deslumbrante de um lago ou ribeiro a distância.
Subindo mais e mais, minha irmã e eu lembrávamos quando éramos pequenos nessa mesma trilha. Parecia que nossos pais, as varas de pescar na mão, nunca se fadigaram, pois para eles havia sempre a promessa de truta cozida na fogueira depois da caminhada. Entretanto, eu e meus irmãos reclamávamos muito. Reclamávamos do cansaço, das subidas, do calor, dos mosquitos… A beleza em volta de nós ficava invisível.
Finalmente, depois de quatro quilômetros na trilha, chegamos ao nosso destino, o Lago L***. Embora meu pai declarasse outro lago como seu preferido, o Lago L***, numa altitude de 3265 metros, foi o lago que ele mais frequentou, especialmente nos seus últimos anos. Subi uma colina rochosa ao lado do lago e deixei o resto das cinzas. Tive certeza que meus pais gostariam desse último lugar pois a vista deu para a bacia inteira do Riacho de Bishop.
Antes de começar nosso regresso até o carro, falei para minha irmã que queria nadar no Lago L***. Tinha trazido a sunga e óculos de natação justamente por isso. Pensei em minha mãe: se fosse viva, ela nadaria comigo. Meu pai, ao contrário, me diria que sou doido.
Tirei a roupa. Enquanto caminhantes e pescadores me olhavam com incredulidade, entrei no lago e nadei uns 200 metros da margem. Flutuava lentamente com as ondinhas no meio do lago. A água era uma delícia, cristalina e gelada. De repente, vi perto de mim um par de trutas reluzindo sob o sol da tarde. Eu me senti completamente em paz.
Posted at 2:56 pm by wannabemineiro, on outubro 13, 2022
Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor
(44º canção: “Amor cinza”, Mateus Aleluia)
Dizem que é proibido mas conheço pessoas que já fizeram. Um amigo de meu irmão até diz que talvez seja o único delito que todo mundo pode fazer sem ser processado. Afinal, não tem polícia vigiando por cada lugar, pensando, “será que aquela pessoa está espalhando as cinzas de um querido”?
*****
Em 2006 meus pais nos falaram sobre seus últimos desejos. Francamente, além do testamento, não tinham pensado muito no assunto, um fato que tornou a vida da minha irmã bem difícil mais tarde.
O que eu lembro distintamente daquele dia de família, porém, era a discussão sobre o que fazer com os restos mortais. Meu pai nos explicou:
– Queremos ser cremados. Guardem os restos da primeira pessoa que falecer e quando a segunda falecer, nos espalhem juntos, à margem do Lago T*** Nº 4.
– Lago T*** Nº 4? Pensei que tivéssemos decidido ser espalhados no Lago GV?
Daí começou uma pequena quezília entre meu pai e minha mãe. Enquanto avaliavam os méritos e desvantagens desses e outros lugares favoritos para pescar truta, meus irmãos e eu trocamos olhares. Tanta discussão sobre meros detalhes!
Mais tarde decidiríamos espalhar as cinzas de nossos pais às margens de vários lagos e riachos onde gostavam de pescar.
*****
Meu pai faleceu primeiro em 2015 e minha mãe seis anos depois. Mas, a pandemia não me permitiu sair da Nova Zelândia durante bastante tempo. Só em setembro 2022 que pude viajar à Califórnia e cumprir os desejos dos pais. Quando cheguei, assumi a responsabilidade de preparar as cinzas e pesquisar os melhores lugares para todo mundo da família – minha irmã, meu irmão, meu cunhado e minhas sobrinhas – espalhar os pais/avós. Era o mínimo que eu podia fazer, pois nos difíceis últimos anos dos nossos pais foi principalmente minha irmã que teve que tomar conta de tudo.
Enquanto pegava os restos mortais, guardados em duas caixas de plástico no apartamento do meu irmão, eu pensei o quão estranho ter os pais nas mãos. Mais estranho ainda, a caixa com meu pai pesava bastante mais do que a da minha mãe. Será que isso podia ser explicado? Densidade óssea na hora de morrer? Curiosamente, como criança, nunca considerava uma grande diferença de peso entre os pais. Eram só duas pessoas enormes que cuidavam de mim.
Abri as caixas e vi outra surpresa. Os restos mortais eram diferentes não apenas em peso mas também em cor. As cinzas da minha mãe eram menos escuras das do meu pai. Quando comecei a misturá-las num saco grande, lembrei do Encontro das Águas, aquele lugar perto de Manaus onde o Rio Negro encontra o Rio Solimões. Com os primeiros movimentos de meus dedos, linhas de cinza claro apareceram dentro do cinza escuro. Pouco depois, as linhas sumiram. Meus pais estavam juntos para sempre.
Coloquei os restos misturados em vários saquinhos de plástico para que pudéssemos carregá-los mais facilmente. Aliás, esses saquinhos nos ofereceriam a possibilidade de espalhar as cinzas secretamente, sem que as pessoas soubessem que estávamos “quebrando a lei” às beiras dos lagos favoritos de nossos pais.
Posted at 12:08 pm by wannabemineiro, on setembro 1, 2022
Eu preciso respirar O mesmo ar que te rodeia
(43º canção: “Um dia de Domingo”, Paulo Massadas e Michael Sullivan)
“Um dia de Domingo” sempre me agradou. A harmonia que fazem Tim Maia e Gal Costa é sem defeito. O dueto é de tal perfeição que a canção arde de sensualidade mesmo. Mas, recentemente, quando ouço as linhas acima, abano a cabeça. Tenho que dar uma risadinha. Neste mundo, virado do avesso pela pandemia, será que queremos respirar o mesmo ar que rodeia alguém?
Seja fã de máscara ou não, seja a favor ou contra as vacinas, é óbvio que a Covid 19 tocou as vidas de todo mundo no mundo todo. Até me faz questionar as íntimas imagens sugeridas por uma canção de amor. O poder do vírus é um fato inescapável e duradouro.
Na Nova Zelândia, o primeiro caso de Covid foi registrado no 28 de fevereiro em 2020. Um homem de cinquenta anos, voltando do Irã, testou positivo para o vírus. Pouco menos de um mês depois, nós estávamos em confinamento total. Após seis semanas, o governo relaxou o confinamento aos poucos. A vida neo-zelandesa regressou a um “novo normal” mas o país permaneceu fechado durante mais de dois anos. Era dificilíssimo entrar ou sair da Nova Zelândia.
Quando 90% da população da Nova Zelândia tinha sido vacinada, a maioria das restrições do governo se terminaram. Hoje em dia, podemos visitar amigos, assistir a um match dos All Blacks, dançar numa rave, e, o mais importante para mim, viajar fora do país.
Mesmo assim, a variante omicron continua circulando. Já infectou mais de 1,5 milhão de pessoas aqui. Até agora, quase 1800 neo-zelandeses morreram desse maldito vírus. Isso é uma estatística lamentável. Mas, francamente, a Nova Zelândia foi bem mais eficaz em controlar o vírus do que outros lugares. Para dar apenas um exemplo, o estado norte-americano do Alabama, com aproximadamente a mesma população da Nova Zelândia, já sofreu mais de 20,000 mortes pela Covid 19. É horrível como o vírus se espalhou em países como os Estados Unidos e o Brasil.
Embora sejamos livres das restrições severas que vivíamos em 2020 e 2021, muitos de nós seguimos evitando compartilhar o mesmo ar de quem estiver perto. Além da vacina, o distanciamento social e a máscara se tornaram comuns, especialmente em lugares internos. Obviamente, o povo ainda fica atento à infecção ou à reinfecção e a temida “Covid longa.”
Para mim, o distanciamento social é difícil. Acho triste ver alguém entrar num restaurante e escolher uma mesa bem longe dos outros clientes. Mais triste ainda é que eu faço isso também! O tempo de todo mundo fraternizar nos lugares públicos sem pensar na possibilidade de cair doente já era, pelo menos por enquanto.
Por outro lado, além dos óculos ficarem embaçados de vez em quando, usar máscara não me desagrada. Já tinha me acostumado porque morei sete anos no Japão onde é commun andar de máscara quando estiver gripado. Respiro facilmente apesar da máscara e até esqueço que o nariz e a boca estão cobertos. Aliás, sempre achava que há várias vantagens em usar máscara. Tem alguma coisa verde nos seus dentes? Hálito de alho depois de comer o kim chee? Uma catota pendurada na narina? Se você estiver de máscara, ninguém vai saber!
Apesar de usar a máscara fielmente durante a pandemia, peguei o vírus em abril. Realmente não sei onde ou como aconteceu. Talvez na piscina pública mas mesmo lá eu tomava bastante cuidado. Nadava sozinho e falava pouquíssimo com os outros nadadores. No balneário tomava banho, sem máscara, claro, mas ao sair do chuveiro, a primeira coisa que fazia era enxugar o rosto e pôr a máscara. Foi somente depois que pensava em cobrir meus “documentos”. Mas, afinal de contas, tudo foi em vão e eu caí doente.
Felizmente, minha experiência com o vírus foi nada grave. Sem dúvida, as medidas rigorosas que o governo neo-zelandês fez durante dois anos me permitiram a enfrentar e superar a Covid 19. Sou muito grato por isso. Mesmo assim, fico inquieto de respirar o mesmo ar dos outros.
E assim ela se foi E nem de mim se despediu A Chalana vai sumindo Lá na curva do rio
(42º canção: “Chalana”, Almir Sater)
Depois de aposentar-se, Okaasan (‘Mamãe’) dava um passeio toda manhã à margem do Rio Tamagawa em Tóquio. Nascida na ilha norte de Hokkaido, onde ela morou até seus vinte e cinco anos, imagino que o Tamagawa lhe lembrasse dos grandes espaços do interior. De fato, quando não tiver neblina ou poluição, do dique do rio se vê a distância o Monte Fuji, um dos principais símbolos do Japão. Como Okaasan gostava de dizer: “Se vir o Fuji de manhã o meu dia vai ser ótimo.”
O Tamagawa não era sempre tão limpo. A primeira vez que visitei o rio, tinha lixo na água e o ar do bairro estava bem poluído. Mas isso não importava. A beira do rio era especial para mim e JJ. Só a 300 metros da casa, o lugar foi perfeito para jovens amantes roubarem beijos.
Ao longo dos anos, voltamos ao Rio Tamagawa frequentemente. A qualidade da água e do ar de Tóquio é muito melhor do que nos anos 80. Há mais e mais pássaros – garças, martim-pescadores, vários tipos de pato e gaivota – e do capim ribeirinho se ouvem cantos de outros passarinhos escondidos. E, claro, há muita gente também. Vêem-se pessoas caminhando, andando de bicicleta, namorando, jogando esportes ou soltando pipas nos parques ribeirinhos. Parecido às praias cariocas, então, as margens do Tamagawa representam um tipo de quintal, um playground mesmo, para os habitantes urbanos de Tóquio.
A atividade que mais nos agrada quando estamos em Tóquio é fazer piquenique ao lado do rio. Andamos três quilômetros pelo dique fluvial até chegarmos no bairro luxuoso de Futako-Tamagawa. Prosseguimos à praça de alimentação no shopping e compramos comida para levar. Quinze minutos mais tarde, estamos novamente à beira do rio, sentados num lugarzinho ensolarado onde saboreamos delícias como o sushi, yakitori (‘espetinhos de frango’) e pastelarias francesas. Mesmo que estejamos numa zona urbana de milhões de pessoas, é fácil esquecer da cidade durante o piquenique. No inverno, estamos frequentemente acompanhados por umas pastorinhas cantando e abanando suas caudas, não muito longe de nossa manta. Nos meses mais quentes são as libélulas e cigarras que nos entretêm. Depois do almoço, sempre jogamos pedrinhas, tentando atingir alguma rocha visível na corrente.
Uma vez a JJ me falou que gostaria de procurar a nascente do Rio Tamagawa. Ao estudar o mapa metropolitano de Tóquio, descobrimos que a Linha Ōme ia para a área da nascente. Então, uma manhã de dezembro, saímos da casa para pegar o trem. Após uma viagem de quase duas horas, descemos em Sawai, uma aldeia serrana a oeste de Tóquio. Da estação, uma rua estreita e íngreme nos levou ao Tamagawa.
Foi difícil acreditar que esse riacho fosse o mesmo rio que passa perto da casa da JJ! A água em Sawai estava mais clara do que a da várzea urbana. A corrente também parecia forte, mesmo perigosa. Além das garças e patos, vimos outros pássaros como pica-paus, chapins-reais e andorinhas. Como estávamos no fundo de um barranco, era impossível ver o Fuji, só ladeiras de pinheiros e áceres desnudos. Mas o que mais faltava era a multidão. Tecnicamente, Sawai faz parte da Metrópole de Tóquio. Na verdade, é outro mundo, despovoado e prístino. Estávamos gratos por conhecer essa região onde fica a nascente do Rio Tamagawa.
Infelizmente, Okaasan não pôde nos acompanhar à nascente. A essa altura morava numa casa de repouso onde passava seu tempo na cama ou numa cadeira de rodas. Quando a visitei nesse local pela primeira vez, vi ela olhando com saudades pela janela de seu quarto. Desde então, decidi tirar uma foto do Rio Tamagawa e, se não estiver coberto de nuvens, do Fuji antes de visitá-la. Embora Okaasan e eu nunca pudéssemos falar muito sem a ajuda da JJ, acho que cada foto nos aproximou nos últimos anos da sua vida.
Já faz cinco anos que Okaasan se despediu de nós. Penso nela cada vez que ouço a voz aconchegante do seu querido Rio Tamagawa.
Não se esqueçam da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária A rosa radioativa, estúpida e inválida
(41º canção: “Rosa de Hiroshima”,
Gerson Conrad e Vinícius de Moraes)
Fazendo o check in no hotel com a JJ e sua mãe, pensei que Hiroshima fosse como qualquer cidade japonesa. O hotel ficava num bairro cheio de lojas, restaurantes e botecos. Tínhamos visto pessoas trabalhando, jogando pachinko, festejando, correndo para pegar trens suburbanos. A palavra chave que surgiu em mim era movimento. Mas na manhã seguinte, visitamos a outra Hiroshima, aquela cidade que sofreu grande tragédia em 1945, a cidade que emociona e que faz refletir.
O dia amanheceu frio e nebuloso. De certo modo, o tempo sombrio, típico de janeiro, era apropriado para uma visita no Parque Memorial da Paz (平和記念公園). Não tinha muita gente no parque, só algumas pessoas que, como nós, passeavam sem rumo. Às vezes o silêncio da bruma foi furado pelo grasnar de corvo empoleirado nas árvores adjacentes. Será que muito corvo sobreviveu a bomba atômica em Hiroshima? Provavelmente tinha mais possibilidades do que outras criaturas, pois, igual ao rato, igual à barata, o corvo japonês é onipresente e adaptável. Tal foi meu primeiro pensamento enquanto explorávamos o que era o epicentro da explosão.
Da neblina apareceu a silhueta do único prédio que não tinha sucumbido à bomba: a Cúpula Genbaku (原爆ドーム), literalmente ‘a cúpula da bomba atômica’. (Antes da bomba o prédio se chamava Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima.)
Em 1966 a Prefeitura de Hiroshima resolveu deixar intacta a ruína da cúpula como prova principal do pavoroso poder das armas nucleares. A decisão deu certo. A carcaça de tijolos e argamassa, ressaltada, novamente, pelo grasnar sinistro de corvos, nos sugeriu o horror daquela manhã estival. Ao mesmo tempo, todavia, a Cúpula Genbaku, delineada sob o céu plúmbeo, tinha sua própria, senão severa, beleza.
Da Cúpula Genbaku nós caminhamos através do parque até chegarmos ao Museu Memorial da Paz (平和記念資料館). Esse museu têm três objetivos. Primeiro, claro, é mostrar o que aconteceu no 6 de agosto em 1945. Para esse propósito, exibições retratam a cidade de Hiroshima antes, durante e depois da bomba. Há pertences de cidadões mortos na explosão, fotos de pessoas queimadas e irradiadas, e vídeo-testemunho arrepiante das que sobreviveram. Outro objetivo é explicar como desenvolveram as armas nucleares, começando com os esforços de cientistas, militares e políticos nos Estados Unidos e Europa até a situação de hoje com os enormes estoques de armas nucleares nos EUA e na Rússia. Por fim, o museu tenta oferecer uma mensagem de esperança com várias exibições sobre movimentos de desarmamento e paz.
Na verdade, essa mensagem era difícil para mim. Achei as exibições sobre a explosão tão carregadas de tristeza que estava estremecido pela destruição insensata da cidade. O que mais me impressionou foi um simples painel mostrando o trajeto do Enola Gay, o bombardeiro norte-americano, à medida que, de baixo do avião, os cidadãos da cidade-alva começaram seu dia. Aliás, durante toda a visita do museu, senti um silêncio desconfortável entre eu, JJ e a mãe dela, pois toda essa destruição, toda essa morte, aconteceu por causa de uma guerra entre nossos países. Era incrível pensar que em 1945 seria impossível nós sermos a família que somos hoje em dia.
Saímos do museu calados. Em seguida, visitamos o Cenotáfio Memorial (広島平和都市記念碑) que abriga a Chama da Paz (平和の灯). A chama foi acesa em 1964 e vai ficar acesa até o dia quando não tiver mais armas nucleares. Perto da chama, encontramos um par de jovem ativistas da paz. Assinamos uma petição para o desarmamento nuclear mas não tivemos muita vontade de falar com os ativistas. Sem dúvida, estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos, cada um de nós tentando processar o que acabamos de ver no museu.
O tempo cinza, acentuado por grasnada de corvo, continuou. Com esse ambiente tristonho no parque, não pude deixar de pensar no inverno nuclear que a cidade de Hiroshima deve ter sofrido. Que terrível tragédia aquele dia da exposão! E então, caminhando, avistei umas cores a distância. Aproximei-me. Ao lado de um pequeno monumento para os jovens que morreram na explosão alguém tinha colocado correntes de grous de origami (‘papel dobrado’).
Isso me lembrou da história emocionante dos primeiros 1000 grous de origami de Hiroshima. A menininha, Sadako Sasaki, os dobrou no hospital onde morreu de leucemia dez anos após a explosão. Sadoko pensava que cada grou que fez representaria um voto de paz. Enquanto me aproximava, contemplava os grous de toda cor e comecei a sentir um pouco de esperança.
Os sogros se encontraram pela primeira vez no casamento. Dois casais unilíngues – um do Japão e outro dos Estados Unidos – reunidos na Califórnia. Com certeza, nunca imaginaram que seus filhos se casariam com alguém do outro lado do mundo. Nos sete dias que estávamos todos juntos, havia muita oportunidade para se conhecer. Mas sempre com uma restrição: a JJ tinha que estar presente para qualquer conversa. Ser noiva e intérprete para os sogros ao mesmo tempo foi cansativo, até estressante. Que alívio deve ter sentido ao despedir-se de seus pais no aeroporto em Los Angeles!
Três anos depois, quando morávamos no Japão, foram meus pais que decolaram de Los Angeles para Tóquio. Foi muito bom os ver mas, na verdade, o que mais me lembro daquela visita foi como eles chegaram do aeroporto à nossa cidade ao norte do país.
Quando meu pai nos telefenou para dizer que pretendiam nos visitar, estávamos felizes. No entanto, ao saber o dia previsto de seu vôo de Los Angeles, lhes falei que, infelizmente, estaríamos trabalhando. Visto que nenhum de nós dois poderíamos buscá-los no aeroporto de Narita, prometi organizar transporte para eles irem de Narita à estaçao de Ueno em Tóquio onde poderiam pegar o shinkansen (‘trem bala’) até nossa província. Obstinado, meu pai recusou a oferta. Ele mesmo descobriria como ir. Explicou que nunca teve problema com o transporte quando visitou a Inglaterra alguns anos antes. Respondi que Tóquio não era igual a Londres mas meu pai insistiu. Conseguiria chegar à nossa cidade.
Por fim, chegou o dia da vinda de meus pais. Tínhamos combinado de encontrá-nos à estação terminal da Linha Tohoku na cidade de Morioka. O vôo de Los Angeles estava marcado para chegar a Tóquio às 10 horas da manhã. Se tudo desse certo, incluíndo a viagem no metrô lotado da capital, calculamos que meus pais chegariam a Morioka na hora do jantar.
Naquela época não tinha celular nem email, então estávamos sem notícias deles durante o dia inteiro. A única coisa que podiamos fazer? Cruzar os dedos e esperar que meu pai conseguisse andar no sistema de transporte em Tóquio.
Às 17 horas a JJ e eu estávamos na plataforma da estação de Morioka, esperando cada shinkansen que vinha de Tóquio. Meus pais não desceram do primeiro trem, nem do segundo. Quando o terceiro entrou na estação às 18:40, já estávamos preocupados. Mas essa vez deu certo: meu pai e minha mãe desceram do trem. Estavam cansados e, nas palavras de minha mãe, famintos.
Prosseguimos aos restaurantes sob a estação. De repente, meu pai falou a JJ:
– Devemos agradecer você e seus pais por ter organizado o traslado do aeroporto.
– Do que você está falando, Ralph?
– Seus pais, JJ. Eles estavam nos esperando em Narita. Nos levaram de táxi até a estação de Ueno. Até compraram nossas passagens de shinkansen.
– Hein?! Meus pais fizeram isso? Eu nem lembro dando a eles os detalhes do vôo. Puxa! Como é que fizeram isso?
Mais tarde, durante o jantar, meus pais explicaram o que aconteceu. Tinham chegado em Narita, prevendo uma viagem desconhecida do aeroporto até Ueno. Mas, ao entrar no saguão de desembarque, viram o pai da JJ que lhes recebeu. Atrás dele estava a mãe da JJ, um filhote de poodle chamado Fido nas mãos, e um amigo que era taxista. Antes de sair do aeroporto, os sogros lhes ofereceram o primeiro prato japonês: uma tigela de soba (‘macarrão feito de trigo sarraceno’). Daí os dois casais e Fido, entraram no táxi e prosseguiram à estação de Ueno. Ao chegar lá, os pais de JJ os presentearam com as passagens, os acompanharam até o shinkansen, e entraram no trem com eles para localizar os assentos. A última imagem que tiveram quando saíram de Ueno foi a sogra na plataforma, segurando Fido com uma mão e acenando com a outra.
Muitas vezes tenho imaginado como ocorreu esse encontro de sogros, especialmente no táxi. Já que os dois casais não podiam falar a língua do outro, a longa corrida deve ter sido desconfortável. Sem dúvida, o pai da JJ sentou no banco da frente e falava com seu amigo-taxista. Mas no banco de trás, imagino três pessoas – meu pai de um lado, minha sogra do outro, e minha mãe no meio – dizendo quase nada. Mas certamente haviam sorrisos, gestos e, sobretudo, a presença calmante do cachorrinho.
Meu japonês é péssimo. Francamente, é uma vergonha. Morei no Japão por quase sete anos e nunca aprendi a língua direitinho. Naquela época sentia preguiça de estudar japonês, especialmente os carácteres e os níveis de formalidade. Desde então, não sei quantas vezes me dediquei a estudar a língua japonesa. E o resultado é sempre o mesmo. Depois de realizar algumas metas simples – metas, na verdade, que já tinha sido realizado antes – fico bloqueado. Já faz quase 35 anos esse meu relacionamento com japonês. Eu sei falar sobre a comida, o clima, o meu dia-a-dia mas além disso não tenho muita capacidade. Contar uma história pessoal como faço neste blogue seria impossível para mim.
Mas, apesar de não falar ou escrever muito, eu entendo bastante japonês. A JJ me fala em japonês quando não quer que as pessoas entendam a conversa. Se estivermos numa fila no banco, falando sobre nossas finanças, ela vai usar japonês numa voz baixinha. Quando nos prestam mau serviço num restaurante ou hotel, as queixas que compartilhamos são em japonês. De certo modo, o japonês se tornou nossa língua de segredos.
Falar uma língua secreta dá uma satisfação de ser bilingue, de ter outros recursos linguísticos. Mesmo assim, usamos línguas secretas correndo risco de sermos entendidos. Curiosamente, o intercâmbio em japonês mais engenhoso – e atrevido – que já tive na minha vida envolveu exatamente isso: segredos ouvidos por acaso.
Eu estava num ônibus público saindo da universidade para o centro da cidade. Fora do veículo estava chovendo e ventando, clima típico do inverno neo-zelandês. Fazia tão frio que as janelas do velho ônibus estavam embaçadas demais. De vez em quando o motorista enxugava o pára-brisas com uma toalha. (Hoje, quando lembro dessa tarde pré-pandemia, me pergunto se as janelas estariam mais claras se todos nós estivéssemos de máscara. Mas estou divagando…)
Sentado nesse ônibus úmido, comecei a enxergar os passageiros para passar o tempo. Havia estudantes, professores e administradores, uma coleção típica de pessoas da universidade, todas voltando para casa.
E daí eu os vi. Dois amantes sentados não muito longe de mim. Tinham, não sei, uns 19 ou 20 anos. A moça parecia ser japonesa ou talvez chinesa e o moço neo-zelandês. Era óbvio que esses jovens estavam apaixonados, super felizes de estarem juntos mesmo. Trocavam pequenos beijos. A moça fazia cafuné nos cabelos de seu amante.
Enquanto eles trocavam carinhos, falavam um ao outro suavemente. Eu não podia ouvir a conversa deles mas tinha a impressão que estavam usando outra língua. Não consegui entender qual língua era.
O rapaz estava falando menos dessa língua secreta do que a moça. Na verdade, parecia que ela estava lhe ensinando a falar. Ela sussurrava algo no ouvido e ele repetia.
Tocando o braço de seu amante ligeiramente, ela virou à janela embaçada e escreveu まんこcom seu dedo. Os dois deram uma risada e se aconchegaram ainda mais.
Naquele instante entendi que a língua secreta era japonês pois a palavra escrita na janela significava ‘bu@@@a’. Sorrindo, eu falei para os jovens numa voz meio séria, meio brincalhão:
– Dame desu yo! (‘Isso não é bom!’)
Assistido por quase todos os passageiros no ônibus, meu comentário teve efeto imediato. A japonesa corou e apagou a sujeira com sua mão. Logo depois, o jovem casal se calaram e, evitando o olhar dos outros, se sentaram direitinho como se fossem passageiros típicos.
Enquanto continuávamos nossa viagem à cidade, eu sentia um pouco de pena deles porque tiveram tanta vergonha da situação que provoquei. Ao descer do ônibus, então, queria lhes dizer, “Estou descendo agora então vocês podem escrever qualquer coisa que quiserem”, mas, infelizmente, meu japonês não era suficiente para isso. Simplesmente sorri para eles e disse:
– Jōdan deshita. (“Foi brincadeira.”)
Devolveram o sorriso mas acho que se sentiram aliviados quando eu desci do ônibus.
Nunca vou esquecer aquele intercâmbio. Com três pequenas palavras, encaixadas perfeitamente ao contexto, eu passei como alguém que falava japonês com fluência. Por mais orgulhoso que possa ser, no entanto, sei que a situação foi por puro acaso.
A previsão para o dia do casamento rústico era chuva. De fato, se previa tanta chuva, que os convidados foram encorajados de usar galochas. Num certo sentido, um casamento na chuva parecia apropriado, pois o casal se encontrou pela primeira vez na água. Ambos atletas, tinham nadado lado a lado durante sessões matinais do “Clube de Cloro”, o grupo de natação da cidade. Daqueles treinamentos na piscina, o namoro floreceu e incluiu aventuras em terra, como passeios de bicicleta, corridas e caminhadas nas trilhas da região. Foi assim a química que reuniu o casal.
Não se enganaram as previsões. A chuva persistiu durante a manhã. Não foi uma garoa fina senão onda após onda de chuva forte. Às duas horas da tarde a chuva abrandou um pouco, mas o céu continuava ameaçador. Enquanto os convidados chegavam à reserva isolada, evitando poças e seguindo anúncios, pintados a mão, para o Casamento de Worthington, uma placa fixada ao lado da estrada de terra os avisavam que uma sirene de emergência soaria se o rio adjacente transbordasse.
Às quatro horas mais de sessenta convidados, alguns de galochas, dirigiam-se na floresta encharcada. Felizmente, não estava chovendo, mas as árvores, seus galhos pesados de água, pingavam audivelmente. Depois de uma caminhada breve, os convidados chegaram numa clareira sob uma imensa árvore de tōtara (Podocarpus totara). Foi nessa área, carinhosamente nomeada a “Capela de Mato”, onde o casamento iria se realizar.
Sentadas diante da grande árvore, as pessoas conversaram e admiraram a Capela de Mato. Borboletas ornamentais e coloridas, de várias formas e tamanhos, tinham sido colocadas no tronco da tōtara. Por cima, cabos de bandeirinhas festivas atravessavam a área de assentos e o caminho florestal iluminado por lanternas. Cada detalhe, por pequeno que fosse, revelou o cauteloso planejamento e preparação que o casal fez para seu dia especial.
Vestidos de coletes prateados com botões azuis e de gravatas-borboletas azuis, o noivo e seus padrinhos aguardavam a noiva. Depois de pouco tempo, ela emergiu da floresta, guiada por suas três madrinhas, todas do Clube de Cloro. Agarrando seu buquê feito a mão, a noiva era linda num vestido de cor champanhe com uma sobreposição de renda delicada. Como se um feitiço tivesse sido lançado, todo o mundo sorria juntos enquanto ela se aproximava ao seu homem.
A simples cerimônia de casamento que seguiu era perfeita para a Capela de Mato. A celebrante a abriu com algumas palavras. Disse que era só um momento preciso mas os votos que amigos e família iriam ouvir eram para sempre, uma expressão de amor e devoção, uma voz única. De mãos dadas, o casal declarou seus votos um ao outro e logo depois encaixou duas peças de madeira interligadas, um símbolo da união que acabou de criar sob a tōtara. Em seguida, se ouviu uma gravação da irmã mais velha da noiva que morava na África do Sul e que não pôde vir ao casamento por causa da pandemia. Sua bênção agridoce exprimiu os sentimentos de muitas pessoas presentes: se fosse um acaso, plano de Deus ou uma combinação dos dois que juntou o casal, as expressões de compromisso e devoção naquela tarde ajudaram a endireitar um mundo que recentemente parecia invertido. A noiva então leu um poema celebrando os laços eternos de amor. As alianças foram trocadas. E daí a celebrante introduziu o casal como marido e esposa. Enquanto eles se beijaram aplausos sinceros reverberaram pela clareira.
Houve outra salva de aplausos quando os recém-casados deixaram a tōtara e se dirigiram para o salão de banquetes. Mas essa vez o aplauso foi meio mudo, pois os convidados estavam ocupados com suas guarda-chuvas. Como se fosse sincronizada com a cerimônia, a chuva tinha recomeçado.
Posted at 7:23 pm by wannabemineiro, on fevereiro 23, 2022
Tem gente por todo canto,
Mas eu lhe garanto que mais vai chegar,
Tem gente em pé na cozinha,
Até na vizinha querendo chegar,
E a minha casa é pequena.
(37º canção: “Água no feijão”, Jorginho do Império)
Havia uma pequena barraca brasileira na feira de sábado. A dona da barraca, brasiliense, a filhinha dela sempre ao lado, servia vários petiscos deliciosos. Para muitos fregueses, essa mulher sorridente e calorosa foi a primeira pessoa do Brasil que já tinham encontrado na vida. Mas, tristemente, a barraca da feira durou pouco tempo, pois a mulher sofreu dois lutos inimagináveis.
Isso já faz algum tempo. Hoje em dia dúzias e dúzias de brasileiros moram ou já tinham morado na região de Manawatu. Esse pessoal reflete o multiculturalismo crescente da Nova Zelândia, mesmo no interior.
A comunidade brasileira consiste de famílias, casais, e solteiros. São do Nordeste, do Sul, do Centro-Oeste, do Sudeste. Algumas pessoas puxam o “s”, outras enrolam o “r’’ e até outras dizem “uai!” ou te chamam de “velho” ou “tu”. Há técnicos, físicos, filósofos, veterinários, intérpretes, pintores, administradores, pesquisadores, professores, estudantes, bolsistas, cientistas, motoristas, baristas, linguistas, costureiras, fazendeiros, cozinheiros, faxineiros, cabelereiros, engenheiros. Todos representam várias etnias e raças, orientações sexuais, políticas, religiões, e interesses. Na verdade, tem um pouco de tudo, a diversidade humana do Brasil numa só comunidade em Manawatu.
Em qualquer dia, então, seja no centro da cidade ou nos seus arredores, é possível se encontrar com brasileiro. Aliás, agora existe diversas coisas do Brasil para quem quiser experimentar. Numa pequena cidade agrícola, por exemplo, o dono paulista de um café típicamente kiwi serve coxinhas, ou seja chicken balls, aos fazendeiros da área. Quinhentos metros em linha reta dessa café tem um dojo onde se pode aprender jiu-jitsu brasileiro, ensinado por um sensei natalense. É mesmo possível aprender o português como língua estrangeira, pois em 2019 a universidade da região começou a oferecer aulas de português brasileiro. Nos últimos anos também houve um festival de filmes brasileiros assim como uma presença crescente da comunidade brasileira no Festival de Culturas que se realiza na praça da cidade num fim de semana em março.
Mais memoráveis, talvez, são os eventos dos Palmeirinhos, uma iniciativa de pais brasileiros dedicados aos seus filhos a manter a língua herança e a cultura brasileira. Todo ano os Palmeirinhos fazem uma festa junina que inclui corridas de três pés, quadrilha, correio elegante e todo tipo de petisco que se pode imaginar. A energia das crianças durante tais festas é emocionante e mostra um respeito à língua e cultura de seus pais e entes queridos no Brasil. (Sem dúvida, a energia também mostra os efeitos do açúcar ingerido durante a festa!) Os espetáculos de Samba ao Vento, um grupo de batucada, são igualmente muito especiais. Os tocadores do grupo são de diversas nacionalidades. De fato, o fundador e líder é um neo-zelandês com um coração que, todos juram, bate como brasileiro. Samba ao Vento já fez shows em toda a região e mais além. Os ritmos que fazem são contagiosos e, ao final do show, se vê membros da platéia tentando sambar na avenida.
Por fim, nos últimos quinze anos a comunidade brasileira na região de Manawatu cresceu muito e continua crescendo, mesmo durante essa maldita pandemia.
E a brasiliense que trabalhava na feira tantos anos atrás? Felizmente, essa mulher, o filho dela sempre ao lado, tem uma presença essencial em quase todas as atividades descritas acima. Ela conhece todos e todos a conhecem. Como explicava um curitibano que mora aqui, “é como se ela fosse a nossa própria embaixadora.”
Na verdade, apesar dos desafios que enfrentou no passado (ou talvez por causa deles), a brasiliense é reconhecida como uma pessoa de coragem, positividade e generosidade. A casa dela, o coração da comunidade, fica frequentemente cheia de brasileiros. Na cozinha, na sala de jantar, no quintal se ouve português. Mas se ouve outros idiomas também – inglês, persa, indonesiano, espanhol – pois a casa da brasiliense recebe todo o mundo. Não importa de onde você é, você é sempre bem-vindo.
Nos últimos anos, essa comunidade brasileira de Manawatu se tornou a minha comunidade também. Agradeço a todos vocês por terem me aceitado.
Posted at 8:32 am by wannabemineiro, on janeiro 28, 2022
Um mulato baiano Que morreu em São Paulo Baleado por homens do poder militar Nas feições que ganhou em solo americano A dita guerra fria Roma, França e Bahia
(36º canção: “Um comunista”, Caetano Veloso)
Sou filho da Guerra Fria. Na escola primária aprendi que os Estados Unidos era o país da liberdade completa enquanto a União Soviética oprimia seu povo. Qualquer realização vinda de trás da “Cortina de Ferro” merecia suspeita. (Mesmo assim, é preciso admitir que Nadia Comanici, a jovem ginasta romena, roubou os corações de todos nós do Ocidente.) Aliás, Hollywood retratava comunistas como vilões ameaçadores. Até lembro pensando como menino que americanos que fossem para a União Soviética podiam ser baleados imediatamente.
Levei estes entendimentos comigo em 1980 quando fui a Aix-en-Provence (Aix) para estudar o francês. Naquele ano letivo aprendi muito, inclusive que a grande desconfiança e medo do bloco soviético que sentia foram doutrinados em mim desde minha infância nos Estados Unidos.
Uma noite de mistral (‘vento frio do vale do Ródano’) eu estava voltando de uma festa para casa. No centro de Aix encontrei um mochileiro procurando a estação de trem. Expliquei como chegar, mas também lhe disse que estava fechada àquela hora. Respondeu que não se importava porque sua intenção era só dormir por algumas horas no abrigo da plataforma. Quando ouvi isso lhe convidei para passar à noite na kit onde estava morando. Grato, o mochileiro aceitou a oferta.
Mais tarde, enquanto tomávamos chá para afastar o frio, ele contou sua história. Era polonês foragido, ou seja, dissidente. Estava participando de um congresso de jovens europeus em Paris quando decidiu sumir. Fazia três semanas desde que fugiu do hotel onde estava hospedado. Os outros jovens de sua turma já deviam ter voltado à Polônia, e ele tinha certeza que alguém da embaixada polonesa estava o perseguindo. Por causa disso, me prometeu que iria embora ao amanhecer para que não me desse problemas. Continuamos falando. O assunto tocou no líder sindical, Lech Wałęsa, e a Solidariedade (Solidarność), o movimento de libertação em Gdansk no qual a imprensa francesa estava focada nos últimos dias. O jovem polonês gostava muito de Wałęsa. Também apreciou a cobertura que a Solidariedade ganhava no Ocidente. No final das contas, porém, duvidou que a Polônia ia se libertar do bloco soviético. Assim, o jovem mochileiro decidiu deixar tudo para atrás – família, amigos, escola – para procurar uma vida nova na França.
Finalmente, fomos dormir. O polonês colocou seu saco de dormir no chão. Pouco depois, mal se ouviu o ritmo mensurado de sua respiração.
No outro lado do quarto, eu não podia dormir. A história do dissidente me tocou profundamente. Ele precisava de muita coragem para seguir sua vida foragida no exterior. Será que eu poderia fazer o mesmo se eu fosse ele? Imaginava-me nesta situação de deixar tudo para atrás e começar outra vida. Mas, curiosamente, a admiração que sentia por meu convidado foi substituída aos poucos por desconfiança. Comecei a duvidar de sua história da fuga e seus motivos por estar na França. Afinal, eu era dos EUA. Como é que podia confiar nas palavras de uma pessoa criada no Leste?
E com esta dúvida surgiu um grande medo: há comunista – inimigo mesmo – bem perto de mim. Deitado na cama, eu senti meu coração batendo e a testa suando. Minha mente corria de um cenário terrível para outro. Lembrei de sequestros e assassinatos realizados por guerrilheiros marxistas na Alemanha e Itália. Enfim, depois de alguns minutos de tal inquietude, saí da cama em silêncio. Fui à cozinha e voltei com meu canivete. Abri-o e coloquei sob o travesseiro. Mas mesmo “armado” assim, não consegui dormir direitinho.
A manhã seguinte, acordei cedo, atordoado pela falta de dormir. Olhei com cuidado para o outro lado do quarto. Fiel a sua palavra, o polonês já se tinha ido embora.
Posted at 3:58 pm by wannabemineiro, on dezembro 16, 2021
Vento, ventania,
Me leve pra qualquer lugar
Me leve para qualquer canto do mundo
Ásia, Europa, América
(35º canção: “Vento ventania”, Biquini Cavadão)
O pai da minha namorada não gostava de mim. Devia estar desiludido a primeira vez que me viu em sua porta em Zurique. Provavelmente achou que eu, mochileiro cabeludo, à toa na Europa, seria má influência sobre sua querida filha. Falava o mínimo possível comigo, só umas palavras em francês, simples e vazias. Mas um dia ele me supreendeu. Ofereceu-me um pequeno canivete suíço, explicando que era “un souvenir de la Suisse.” Estava grato com o presente dele. Por fim, o namoro com a jovem suíça durou pouco tempo. O pai, sem dúvida, se sentiu aliviado de nunca mais me ver.
Ainda tenho o canivete suíço. Lembra-me, claro, aquele meu primeiro caso de amor, mas este objeto representa muito mais.
Simples, com duas lâminas e quatro ferramentas, o canivete me acompanhou durante inúmeras viagens e experiências. Cortava pedaços de queijo ao lado da estrada na França, abria garrafas de vinho compartilhadas, e fazia consertos imediatos por meio da pequeninha chave de parafusos. Uma vez eu mesmo dormi com o canivete sob meu travesseiro, mas aquela noite receosa merece sua própria postagem.
Basta dizer que faz parte da minha história. É precioso. Mas, em duas ocasiões, se afastou de mim. Senti-me desamparado sem ele.
Sumiu pela primeira vez em 1994. Eu estava no aeroporto no Japão, prestes a embarcar num avião rumo a Bali. Os passageiros da Garuda Airlines tiveram que passar por um detector de metal justamente diante do portão. Quando foi a minha vez, o detector apitou. Um funcionário da Garuda abriu minha bagagem de mão e apreendeu o canivete. Explicou que não podia viajar com qualquer faca a bordo. Prometeu que a tripulação o devolveria para mim ao desembarcar. Mas, quando pousamos em Bali, os tripulantes me disseram que não sabiam nada do canivete. Não podia contestar direitinho, pois tinha passageiros atrás de mim, empurrando, querendo desembarcar. Decidi falar, então, com alguém na área de coleta de bagagem. Ao chegar lá, porém, vi que não havia ninguém trabalhando. Era a madrugada e todo mundo já tinha voltado para casa. No final, com raiva da Garuda Airlines, desisti. Peguei minha mala, chamei um táxi e fui para o hotel.
Passei três dias em Bali. Apesar das belezas da ilha – praias, templos floreados, arrozais em terraços – eu estava abatido. A perda do canivete era uma nuagem escura que me seguia.
No quarto dia, voltei ao aeroporto de Bali para continuar minha viagem na Indonésia. Perguntei no check-in sobre o canivete, mas, novamente, ninguém da Garuda sabia do que estava falando. Eu mesmo começava a me questionar. Será que foi um funcionário de outra empresa que o apreendeu no Japão?
Meio triste, fui de avião até Jakarta. Depois de quatro horas de trânsito lá, entrei em outro avião rumo a Medã, uma cidade na ilha de Sumatra. Este avião estava lotado com famílias muçulmanas voltando à terra-mãe para celebrar o fim do Ramadan. Enquanto eu olhava para essas famílias, ouvia sem entender suas conversas cativantes. Quais expectativas alegres esperava esse povo? Continuava estudando essa gente no avião, e daí comecei a pensar sobre a grande cidade para onde estávamos indo. Como seria? Moderna com arranha-céus e movimento? Seria possível ouvir os muezins chamando a gente à oração? De repente eu reparei que pela primeira vez estava feliz, animado mesmo, de estar na Indonésia. O pesar do canivete perdido tinha se aliviado.
Duas horas depois, pousamos em Medã. Soltei o sinto de segurança. Antecipando as maravilhas de Sumatra, entrei na fila de passageiros querendo desembarcar. Ao chegar na saída do avião, ouvi uma voz frágil, me chamando. Virei e eis que uma aeromoça da Garuda estava me entregando o canivete, embalado em plástico!
Eu nunca compreendi como o canivete suíço me achou. Só sei que desde aquele prazo de quatro dias até agora ele fica na minha mala despachada quando estou viajando. Também, lembro pensando naquele tempo que eu precisava tomar muito mais cuidado para que o canivete nunca mais se perdesse.
Mas em 2020 se perdeu de novo. Como no caso da Indonésia, a trajetória dele foi um mistério e esta vez o sumiço durou oito meses.
Um dia o canivete estava, como sempre, na cozinha, numa pequena cesta que continha minhas chaves e moedas e no outro dia não estava. Simplesmente, desapareceu. Procurei na casa inteira. Esvaziei a garagem também, mas nada. Parecia que minha lembrança da Suíça já era. Aflito, aceitei a probabilidade de viver o resto de meus dias sem o canivete.
E então, há mais ou menos dois meses, um milagre: a JJ o achou numa gaveta justamente debaixo da cestinha! Eu já tinha procurado nessa gaveta não sei quantas vezes mas o canivete estava preso na face oposta de uma porta talheres. Como se encontrou neste cantinho de plástico nunca vou saber.
Nos quarenta anos que me acompanhou, o canivete se perdeu duas vezes. Com cada sumiço, eu me sentia como se um grande amigo tivesse falecido. Daqui para frente juro que vou prestar muito mais atenção. Agora este pequeno canivete vermelho com a cruz suiça faz parte do meu testamento.
Posted at 3:54 pm by wannabemineiro, on novembro 4, 2021
…eu vou surfar, pra esquecer
Vou flutuar nas ondas do mar pra relaxar
Vou surfar pra esquecer
Vou flutuar nas ondas do mar
(34º canção: “Olhos verdes”, Luiz De Assis)
Eu devia ter sete ou oito anos quando vi The Endless Summer (‘O Verão Interminável’). Um dos primeiros documentários sobre o surfe, o filme narra a história de dois jovens surfistas da Califórnia à procura da onda perfeita. Essa missão os levou de um país ao outro, incluindo Senegal, África do Sul, Nova Zelândia e Taiti. Após quase oito meses, perseguindo ondas e dias de verão nos dois hemisférios, os embaixadores de surfe deram a volta ao mundo.
Não lembro se assisti no cinema ou na televisão, mas não importa. O filme sempre ficou comigo. Lembro que as cores azuis do mar na tela me deslumbraram. Havia praias isoladas limpinhas. As cenas de surfe eram empolgantes, especialmente os wipeouts (‘quando caiam da prancha’). Além disso, a fala dos dois surfistas californianos e das pessoas que encontraram durante o projeto era super divertida. De alguma maneira, eu, um menininho do interior da Califórnia, me sentia como se estivesse pegando ondas com a rapaziada bronzeada do filme.
O que mais me impressionou do The Endless Summer foi as ondas que os surfistas pegaram numa linda praia neo-zelandesa chamada Raglan. Segundo o documentário, a arrebentação dessas ondas pode durar até quase um quilômetro. Em um dia de dezembro de 1966 quando os californianos visitaram Raglan, as condições estavam perfeitas. Os surfistas pegavam ondas de um lado da praia e surfavam até o outro lado. Bruce Brown, o narrador do filme, disse que as ondas de Raglan davam caronas mesmo monótonas. Sejam monótonas ou não, lembro claramente das imagens de surfistas, de pé nas suas pranchas, relaxados, curtindo ondas levinhas. Também, lembro pensando que algum dia, não sei como, eu visitaria Nova Zelândia e aquela praia de ondas sem fim.
Rapidamente com passar do tempo até 2002, eu, professor de linguística no Texas, recebi uma oferta de trabalho numa universidade na Nova Zelândia! Enquanto preparava as dúzias de detalhes para essa grande mudança, sempre estava na minha mente o pensamento que, finalmente, poderia visitar Raglan para ver aquelas ondas “monótonas”. De fato, durante meus últimos meses no Texas, busquei na rede uma foto de Raglan, a que instalei como meu protetor de tela. Cada dia que ligava o computador a onda sem fim na tela me seduzia, como se estivesse dizendo, “Vem cá, cara, vem me visitar!”, e eu respondia pensando, “Daqui a pouco, tô chegando!”
Mas, na verdade, nos primeiros dois anos na Nova Zelândia, não fui a Raglan. As exigências do meu novo posto acadêmico eram tão demoradas e estressantes que não tinha tempo para curtir as belezas do país. Enfim, no inverno de 2005, fiz a peregrinação que me prometi fazer quase quarenta anos atrás.
Quando cheguei a Raglan, o tempo estava bem ruim. Fazia frio e chovia um pouquinho. O sol nunca apareceu, então aquelas cores incríveis de azul que lembrei do filme foram substituídas por tons de cinza, verde e negro. Também estava ventando, às vezes tão forte que grãos finos de areia me atingiam. Tudo isso explicava a praia deserta.
Mas, meu objetivo, claro, tinha nada a ver com a praia e tudo com as ondas sem fim. Infelizmente, por causa do vento, as condições do mar estavam completamente diferentes do que as do filme. As arrebentações não chegavam a um quilômetro, de jeito nenhum. A extensão de cada onda media, talvez, 300 ou 400 métros só. Mas se o comprimento da arrebentação não deu certo, a altura de cada onda e a quantidade d’água nela serviram para me impressionar. As ondas naquele dia de julho estavam poderosas e imprevisíveis.
Só tinha um surfista enfrentando esse mar. Protegido da água fria pela sua roupa de neoprene, que incluia touca, luvas e botinhas, ele parecia um guerreiro ninja na prancha, pegando ondas agilmente. Mas também sofreu alguns wipeouts dramáticos. Quando isso aconteceu, o surfista sumia sob a brancura de uma onda quebrada e emergia depois, bem longe de onde tinha caído. Nada de monótono nas caronas que esse rapaz conseguiu pegar!
Recentemente, eu vi The Endless Summer novamente na televisão. Embora o papo ingênuo dos jovens surfistas não me divertisse mais, as imagens de praia, mar e surfe continuaram a ser super atraentes. E essa vez, quando Raglan apareceu na tela, senti um grande orgulho, pois essa praia, famosa por suas ondas sem fim, fica perto da minha casa.
Posted at 4:09 pm by wannabemineiro, on setembro 30, 2021
Quando ele explodiu pelo mundo
Ele lançou seu brilho de beleza
Bob Marley pra sempre estará
No coração de toda a raça negra
(33º canção: “Brilho de beleza”, Negro Tenga)
Durante muitos anos, no começo do meu curso de linguística introdutória, eu sempre tentava entreter os calouros assim:
– Que bom receber vocês na minha aula hoje! Pois, vocês são tão jovens, sãos, e famintos para viver. Suas vidas estão começando e tenho certeza que vai ter muitas escolhas e oportunidades diante de vocês. Isso é empolgante e estou feliz por vocês!
Logo em seguida, o tom de minha voz ficava menos positivo:
– Entretanto, eu já fiz minhas escolhas, algumas boas e outras ruins. Nesta fase da minha vida, eu tenho que seguir dieta especial, não durmo muito bem, esqueço nomes etc, etc. Chatices de envelhecimento. Mas, pelo menos, posso dizer que, muitos anos atrás em Los Angeles, vivenciei alguma coisa que vocês nem podem imaginar: eu vi um show de Bob Marley!
Ao ouvir esta vanglória ridícula, era óbvio que alguns estudantes nem sabiam quem era Bob Marley enquanto outros mostravam uma certa inveja de mim.
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Na verdade, como eu descobri depois, existe um laço forte entre Bob Marley e a Nova Zelândia. Embora o cantor jamaicano passasse apenas dois dias no país em 1979, ele deixou uma marca inesquecível.
O concerto que Bob Marley & The Wailers fizeram ao ar livre em Western Springs em Auckland era uma escala de sua turnê mundial. Acabaram de fazer seis shows no Japão e logo após a curta estadia na Nova Zelândia, fariam oito outros na Austrália. No dia antes do show em Auckland, tinha uma chuvarada forte. Os organizadores do evento se preocuparam que a grama surrada diante do palco desencorajaria pessoas de irem ao local. Mas, afinal das contas, e tal como o enlameado Woodstock, o concerto em Western Springs foi um grande sucesso com mais de 20.000 fãs “kiwis” aproveitando os ritmos do rei de reggae.
Naquela época, a mensagem importante de justícia social em canções como Get up, stand up ou Them belly full (but we hungry) refletiam realidades vividas na Nova Zelândia, especialmente por membros das comunidades maori e polinesiana. Durante alguns anos, por exemplo, ativistas maori como Dame Whina Cooper praticaram resistência pacífica para protestar as desigualdades que o Tangata Whenua (‘pessoas da terra’) estavam sofrendo na Nova Zelândia. Aos poucos, com esses esforços se abriram mais oportunidades para a comunidade maori e, em 1975, o Tangata Whenua e o governo neo-zelandês estabeleceram uma comissão permanente de inquérito para investigar denúncias do povo maori contra a Coroa. Muito trabalho ainda era preciso, mas essa nova comissão constituiu um passo importante na luta para desfazer as injustiças do passado e garantir os direitos dos maoris.
Quanto as comunidades polinesianas, existia também bastante injustiça. O mais trágico exemplo disso foi os Dawn Raids (‘invasões de madrugada’), uma iniciativa do governo nos anos 70 para expulsar pessoas que vieram das ilhas do Pacífico. Embora os polinesianos apreendidos fossem imigrantes ilegais, e portanto, sujeitos a expulsão, um inquérito mais tarde revelou que naquele tempo havia outros imigrantes ilegais, principalmente da Inglaterra e dos Estados Unidos, que as autoridades da imigração deixaram permanecer na Nova Zelândia. Em 2021 a Primeira Ministra, Jacinda Ardern, pediu desculpas à comunidade polinesiana pelo que passou nos Dawn Raids, mas na época do show do Marley, o governo neo-zelandês foi relutante em admitir que as invasões das casas polinesianas pela polícia estavam mesmo acontecendo.
Pouco depois do concerto em Western Springs, houve outro exemplo importante de ativismo social que tocou o país inteiro: manifestações contra o apartheid durante uma turnê dos Springboks, o time sul-africano de rugbi. Num período de quase dois meses em 1981, os Springboks iam jogar partidas amistosas contra vários times neo-zelandeses. No entanto, em cada cidade da turnê havia milhares de neo-zelandeses protestando nas ruas e mesmo no campo das partidas. Algumas partidas foram canceladas por causa disso, outras jogadas mas bem controversas. Embora Bob Marley tivesse falecido alguns meses antes da turnê dos Springboks, ele teria ficado feliz em ver neo-zelandeses de todos os horizontes, juntos, protestando as injustiças do apartheid.
Na única entrevista que deu durante sua estadia na Nova Zelândia, Marley explicou que sua música, tanto o ritmo quanto as letras, tinha um feel (‘sentido’). Já faz mais de quarenta anos que Bob Marley & The Wailers tocaram em Western Springs, mas o reggae, inclusive a música de grupos locais, continua popular. O feel de Bob Marley ainda nos toca aqui na Aotearoa Nova Zelândia.
Posted at 6:32 pm by wannabemineiro, on setembro 2, 2021
Cadê você
Que nunca mais apareceu aqui
E não voltou pra me fazer sorrir
Então cadê você
(32º canção: “Cadê você?”, José Odair)
No centro de Oamaru antigo, em frente ao renomado prédio calcário do Banco Nacional, uma placa de trânsito alerta motoristas sobre um perigo possível nas ruas: pinguins atravessando. Amarela com o vulto negro de um pinguim a pé, a placa parece deslocada, até uma piada ou, talvez, um truque engenhoso para aumentar o valor turístico da cidade.
Foi assim que pensei quando vi a placa pela primeira vez. Não quero dizer que pinguins são alheios à região. A dois quilômetros de Oamaru, nas margens de uma pedreira velha, há uma colônia de pinguins-azul que, protegida pela prefeitura, se tornou grande atração turística. Mas, pinguins dentro da cidade, atravessando a rua principal como se fossem pedestres bem vestidos? Isso eu não conseguia acreditar.
Nós chegamos a Oamaru durante as férias escolares. Nos dois dias que ficamos lá, visitamos todas as atrações da região: uma praia com seixos gigantes, diversos prédios no bairro vitoriano, o jardim botânico, uma fábrica de queijo artesanal e, claro, a colônia de pinguins.
Essa colônia é a maior atração de Oamaru. Toda noite, logo depois do pôr do sol, as aves voltam do mar depois de um longo dia pescando peixinhos. O regresso para casa parece dificílimo. Os pinguins saem do vai-e-vem violento do mar e escalam um barranco íngreme e rochoso rumo a uma clareira plana. É nesta área onde turistas, sentados em arquibancadas, podem observar a chegada deles sem serem vistos. Os pinguins descansam um pouco no capim da clareira e daí prosseguem até desaparecerem sob uma cerca de madeira que protege o local de nidificação.
Durante nossa visita à colônia, a ornitóloga do local nos informou que grupos de pinguins – “ondas” foi a palavra que ela usou – estariam chegando no decorrer de mais ou menos noventa minutos. Cada onda teria até uma dúzia de aves e se tivéssemos sorte, veríamos então entre sessenta e cem pinguins naquela noite.
Ela disse também que a primeira onda ia chegar. Era preciso que ficássemos sentados sem se mexer. Enfim, nos pediu para não filmar a chegada porque isso poderia assustar os pinguins.
Ansiosos e quietinhos, esperamos a primeira onda. Todo mundo observava a beira do barranco. Após alguns minutos, percebemos um movimento na escuridão e, voilà, um pequeno pinguim-azul entrou na clareira. Pouco depois, apareceram outros quatro. Tenho certeza que todos nós, embora silenciosos, estávamos super-animados ao vermos cinco pinguins se balançando na brisa fria, bem em frente à arquibancada! Daí, após alguns momentos, os pinguins se afastaram e desapareceram sob a cerca.
Havia pouco tempo para refletir sobre o que acabávamos de testemunhar pois a segunda onda já chegaria em breve. Esta onda decorreu mais ou menos como a primeira. Um pinguim apareceu sozinho, depois outros sete se juntaram ao primeiro, e todos descansaram no capim. Mas dessa vez, enquanto sete pinguins foram para a segurança dos ninhos cercados, um pinguim permaneceu na área aberta. Meio inquieto, ele estava perto da beira do barranco, olhando para o mar. Parecia que esperava alguma coisa ou alguém. Eu me lembro pensando, “o que é que tem esse coitadinho?”
Quando a terceira onda surgiu do barranco, o pinguim solitário cutucou os recém-chegados ligeiramente com seu bico. Era como se estivesse verificando a identidade de cada um para ver se correspondia ao amigo que procurava ou se sabia sobre o paradeiro dele.
O pinguim, desorientado, ficou na clareira e continuou a “interrogar” os conterrâneos que chegavam na quarta e quinta ondas. E cada vez foi a mesma coisa: ao surgir do barranco, os outros pinguins recebiam o seu toque e, inesperadamente, após todas as ondas, o solitário não voltou com os outros para a zona de ninhos.
Não sei porque, mas enquanto eu estava vendo esse encontro de pinguins, comecei a imaginar eles se falando, como se fosse um filme animado da Disney. A conversa tragicómica se desenvolvia mais ou menos assim:
– Cadê o Jack? Você viu?
– Não sei. Estava contigo, não estava?
– Sim, estávamos juntos mas a última arrebentação nos separou.
– Não vi, não, mano. Ei, pessoal! Alguém viu o Jack?
– Eu não.
– Nem eu.
– Também não viu, não.
– Ai, meu Deus! Cadê o Jack? Prometi à sua mãe que eu cuidaria dele durante a pesca. (gritando) Jack?! Cadê você?
O coitado não conseguiu se acalmar durante as últimas ondas de pinguins. Ficou na beira do barranco, sozinho, perguntando pelo “Jack”, o seu grande amigo que ainda não tinha chegado e que talvez não voltasse do mar.
Pouco depois, a ornitóloga nos disse que, embora pudesse haver mais uns pinguins chegando atrasado, o “show” de pinguins já tinha acabado por aquela noite. Todos os turistas saíram da arquibancada em silêncio, deixando na clareira o pinguim solitário que vigiava o mar abaixo.
Voltando para o hotel na escuridão da noite, eu dirigi com muito cuidado. Entrei no centro histórico de Oamaru e, de repente, tive que parar o carro. Tinha algum movimento em frente de mim. Pisquei os olhos, uma, duas vezes. Inacreditavelmente, vi dois pinguins atravessando a rua. Eu me perguntei, “Será que um deles é o Jack?”
Posted at 10:48 am by wannabemineiro, on agosto 12, 2021
Caviar é comida de rico
Curioso fico
Só sei que se come
Na mesa de poucos
(31º canção: “Caviar”, Zeca Pagodinho)
A segunda metade de nossa estadia em Auckland foi na cidade mesmo. Saímos da ilha de Great Barrier de aviãozinho e, depois de um vôo de 40 minutos e mais ou menos 20 minutos de táxi, chegamos ao nosso hotel no centro.
Salvo o preço, este hotel era completamente diferente do que o de Great Barrier.
Quando entramos no prédio, eu fiquei fascinado pela multidão no saguão. Três ou quatro balconistas ajudavam hóspedes, enquanto dois mensageiros aguardavam em frente da porta principal. Além dos empregados, o saguão estava cheia de participantes de algum congresso que se realizava dentro do hotel. Talvez seja exagero, mas parecia que estávamos vendo mais pessoas durante nosso check–in do que nos três dias que ficamos na Great Barrier.
Era impressionante como o hotel dava importância à segurança de cada hóspede. Para subir no elevador era preciso passar um cartão magnético num pequeno scanner. Nós usamos o mesmo cartão para abrir a porta do apartamento. No fundo de um armário em nosso quarto havia um cofre eletrônico no qual podíamos guardar o laptop, documentos, e dinheiro. Juntos, o cartão e o cofre, serviram para nos lembrar que pessoas em Auckland, como as de qualquer centro urbano de hoje em dia, podiam vivenciar crimes e delitos.
Quando entramos em qualquer acomodação pela primeira vez, gostamos de explorá-la e avaliar cada conveniência oferecida ao hóspede. Neste caso, o apartamento do hotel no centro não nos decepcionou. A primeira coisa que reparamos foi a televisão grande afixada na parede. Liguei-a e depois de um ou dois minutos mudando de canais, entendi que tinham seis canais só de filmes. Sem dúvida, desfrutaríamos de nosso cinemazinho toda noite. O apartamento também tinha uma pequena cozinha que oferecia um monte de coisa deleitável para comer e beber. Havia salgadinho, chocolate, biscoito, vinho, cerveja etc. Mas tudo custava muito dinheiro, quase como se fosse caviar, e, assim, decidimos desistir dessa fartura. No banheiro moderno, encontramos um chuveiro multifuncional, xampus e sabonetes naturais, e grandes toalhas luxuosas. Enfim, a última característica positiva de nosso apartamento foi a vista. Embora não podiamos abrir a grande janela do quarto – o que nos abrigou do barulho do tráfego na rua em baixo – ela se deu sobre o centro de Auckland. Toda noite, do outro lado dessa janela, centenas de luzes brilhavam, uma vista completamente diferente do que aquela da escuridão da Great Barrier.
O preço que pagamos pelo apartamento incluiu o uso ilimitado de um imenso spa no terraço do hotel. A JJ adorou isso porque o anexo lhe lembrava dos onsen-hotels (‘hotéis termais’) no Japão. No ar livre do terraço havia piscina aquecida e uma jacuzzi quentinha. Ambos lugares eram agradáveis à noite quando os arranha-céus adjacentes estavam bem iluminados. O spa também oferecia massagistas, sauna, e um corredor de chuveiros que dava a impressão de caminhar sob um chuvisco quente.
Mesmo com o spa, mesmo com os detalhes luxuosos de nosso apartamento, o que mais me agradou do hotel foi sua localização pertinha de uma zona cheia de restaurantes. As opções gastronômicas eram incríveis: bolinhos chineses, comida coreana, sopas malaias picantes, crepes franceses, até pão de queijo vendido numa pequena barraca. Era impossível provar toda a comida que se vendia perto do hotel. Entretanto, em Great Barrier tinha só três escolhas na ilha inteira: uma pizzaria bem comum, uma loja de fish and chips (‘peixe com batatas fritas’), ou um restaurante tailandês ótimo mas caríssimo.
Ao pensar em nossa estadia recente em Auckland, estou feliz que podíamos vivenciar estes dois hotéis tão diferentes na mesma cidade. O hotel da Great Barrier era bonito, tranquilo, e, sendo desligado da rede nacional de eletricidade, simples, rústico mesmo. Ao contrário, o hotel no centro nos oferecia tantos confortos que ficamos mimados. Também estou feliz que nos alojamos primeiro na Great Barrier e segundo no centro de Auckland porque se fosse o inverso seria difícil aceitar a simplicidade do hotel na ilha depois de ter curtido os luxos do outro.
A maior cidade na Nova Zelândia é Auckland. Mais do 1.400,000 pessoas, quase um terço da população do país, moram nesta cidade. Localizada num istmo estreito da Ilha Norte, Auckland têm dois litorais. O lado oeste da cidade é banhado pelo Mar Tasman e o lado leste pelo Oceano Pacífico. A cidade também inclui uma dúzia de pequenas ilhas no Pacífico.
Recentemente, eu e a JJ passamos quase uma semana em Auckland. Os primeiros três dias estivemos numa ilha que fica 80 quilômetros em linha reta do centro da cidade. Depois desta estadia na ilha, passamos três dias no centro. Como se pode imaginar, estas duas partes da cidade diferem demais. Isto foi talvez mais evidente nos hotéis onde ficamos.
Embora fosse fora da temporada de verão, o hotel na Ilha de Great Barrier custou bastante. Tínhamos reservado um apartamento grande com varanda que dava ao mar. Mas quando chegamos às 15 horas a este hotel caro, não tinha ninguém. Afixado na porta trancada da recepção, um bilhete escrito à mão nos aguardava:
“Peter, que sejam bem-vindos a Great Barrier! Eu tinha que ir ao médico mas deixei aberto seu apartamento, o número 5. A chave está na mesa na cozinha. Que aproveitem! Mari”
Ao entrar no número 5, vimos que o apartamento era grande e com uma vista incrível do mar, exatamente como queríamos.
Ao lado da chave na mesa se achava uma lista de informações sobre o apartamento. Lendo-a, entendemos imediatamente que estávamos num imóvel isolado e rústico. Muitas informações eram formuladas como solicitações mesmo:
Por gentileza não gaste muita água porque a única água do hotel vem da chuva.
Por gentileza use a privada com cautela. Não descarte absorventes ou camisinhas no vaso. A pressão d’água do hotel é fraca então é muito fácil de entupir o encanamento.
Por gentileza, leve qualquer lixo consigo quando deixar a Ilha Great Barrier, porque o lixão na ilha é só para residentes.
O que mais nos surpreendeu foi a solicitação sobre o uso de eletricidade:
Por gentileza, use eletricidade com moderação. A Ilha de Great Barrier está desligada da rede nacional então precisamos gerar nossa própria eletricidade.
Por causa dessa escassez de eletricidade, tinha um conjunto de panéis solares no telhado do hotel. De fato, parecia que qualquer telhado voltado ao norte tinha panéis. Mas claramente estes não geravam eletricidade suficiente porque, das 8:30 até às 11 horas e das 17:30 até às 19 horas, o hotel ligava um grande gerador a diesel. Achamos o gerador bem chato: o barulho do motor encobria o som das ondas leves da praia. Na verdade, nosso apartamento não precisava de muita eletricidade. A geladeira era pequena, as luzes fraquíssimas e a televisão não funcionava. Além de uma tomada USB para carregar o celular, o apartamento oferecia nenhuma tomada elétrica. A cozinha não tinha nada de eletricidade, nem torradeira, nem chaleira. Se quisesse cozinhar precisava usar um fogãozinho de gás propano.
Qual o resultado dessa falta de eletricidade no hotel? Uma estadia muito simples e, à noite, o espetáculo da escuridão que cobria a ilha inteira. Toda noite, quando o gerador do hotel tinha desligado, sentávamos na varanda, escutando a música das ondas e estudando as milhares de estrelas cintilando em cima de nós. Foi por isso que viemos a Great Barrier.
(29º canção: “Gente que vem de Lisboa”, Renato Teixeira)
Mais de quinhentos nadadores, inclusive umas trinta pessoas sem wetsuit (‘roupa de neoprene’), se reuniram na praia para ouvir as instruções de segurança da nadada de inverno. Antes de falar, o organizador da prova nos olhou por alguns momentos bem sério. Explicou que, como qualquer prova no mar aberto, havia perigos que deviam ser respeitados. Mas nessa tarde em julho a água estava a 13.9°C, uma temperatura que aumentava os perigos. O organizador nos alertou:
– Por favor, não seja herói nesta prova. Obedeça ao seu corpo. Se não se esquentar depois de três ou quatro minutos de braçadas, chame o salva-vidas e saia da água imediatamente.
Estas palavras do organizador me assustaram e comecei a me duvidar. O que diabos estou fazendo aqui nessa praia? Porque eu me inscrevi nessa? Realmente serei capaz de fazer isso? Mas minha vacilação desapareceu quando a buzina de largada tocou. Como um lemingue, eu segui os outros e entrei no mar.
Não lembro muito dos primeiros 250 metros da prova. Depois de mergulhar na arrebentação, eu senti a água geladíssima se infiltrando sob meu wetsuit. Tremia do frio enquanto me afastei da praia. Por um momento nadei ao lado de um veleiro ancorado na enseada. Ao virar a cabeça para respirar, lembro vendo pessoas no convés, confortáveis de parca grossa, vinho na mão, assistindo à prova. Ocorreu-me que esses velejadores deviam achar que nós éramos loucos.
Passando a primeira boia, eu percebi que, salvo no rosto e nos pés, não estava sentindo muito frio. O wetsuit e a touca atuavam como proteção da água, exatamente como deviam. E com esse entendimento, deixei minha preocupação do frio e comecei a disfrutar da nadada.
O que me surpreendeu dessa nadada foi os engarrafamentos enquanto os nadadores circulavam as boias do percurso. Era muito fácil receber, ou dar, pontapés ou palmadas na cabeça de pessoas nadando perto de você. Na terceira boia, eu mesmo sofri uma grande bofetada. Mas tanto faz, continuei nadando.
Entre as boias a prova ficou mais tranquila porque tinha mais espaço para me distanciar dos outros. Mesmo assim, e diferente de outras provas que já fiz, eu nunca me sentia sozinho na água. Com tantos participantes na prova, sempre havia nadadores em volta de mim. Depois da quarta boia, eu vi, nadando ao meu lado direito, uma jovem mulher de biquíni. Queria continuar nadando com ela mas não consegui o ritmo dela. Aos poucos, essa visão agradável e rara sumiu. Os próximos nadadores que eu vi eram pessoas de meia idade em neoprene, exatamente como eu.
Quando estava na parte mais profunda da enseada, outro pensamento entrou na minha cabeça: talvez tubarões estivessem nadando em baixo de mim. Acelerando um pouco por causa dessa preocupação, de repente me lembrei da história trágica de um tiroteio na Noruega em 2011. O atirador, Breivik, assassinou quase setenta jovens encurralados numa pequena ilha rochosa. Mas, milagrosamente, uma meia dúzia de jovens se salvaram da morte certa por nadar seiscentos metros através das águas geladas do fiorde. Quando chegaram ao outro lado, estavam sofrendo de hipotermia, mas estavam vivos. Enquanto eu nadava na enseada, a coragem desses nadadores noruegueses me acalmava, me inspirava mesmo.
Quando circulei a última boia, sabia que só me faltava uns quinhentos metros. Dentro de alguns minutos, o fundo arenoso da enseada estava quase ao meu alcance. Fiz mais duas ou três braçadas e me levantei. Corri até a praia e cruzei a linha de chegada.
Eu adoro nadar. Quando eu era menino, passava horas e horas na água com minha mãe, meus irmãos e meus amigos. A natação se tornou muito natural para mim.
Geralmente, eu nadava em piscinas particulares ou públicas. No verão o cabelo e a pele cheiravam dessas piscinas. Os olhos ficavam vermelhos e irritados pelo cloro, como se eu fosse drogado. Além de piscinas, eu também ia nadar em outros lugares. Nadava em lagos e rios, enseadas e portos, cisternas e lagoas. E, pelo menos duas ou três vezes por ano, entrava no mar. Nadar no mar era sempre impressionante porque parecia que foi só eu numa imensidão azul que podia mudar instantaneamente. O mar precisava ser respeitado.
Depois de ter me aposentado três anos atrás, comecei a competir em provas no mar aberto. Tipicamente, uns 200 ou 300 pessoas participam nestes eventos que são de dois a quatro quilômetros. Todo mundo começa a nadada da praia. Entra na água correndo e nada ao longo de um circuito indicado por boias amarelas ou vermelhas. No trecho final da prova, o nadador tem que sair da água e correr na praia até a linha de chegada.
Se o mar estiver movimentado, situação frequente na Nova Zelândia, a prova fica mais complicada. Pode ser que o nadador, sem ver as boias claramente, desvie do trajeto mais direto. Isto quer dizer que, embora um evento seja de, por exemplo, 2,5 quilômetros, o atleta pode nadar duzentos ou trezentos metros extras por causa de desvios cansativos. Por isso, durante qualquer prova em água aberta é muito importante levantar a cabeça às vezes e olhar para as boias.
Todo verão eu me inscrevo em várias provas de mar aberto. Mas este ano decidi tentar algo diferente: uma nadada no inverno. Eu sei que estou em forma para este evento de dois quilômetros porque nado pelo menos sete quilômetros por semana na piscina pública. Mesmo assim, eu tenho duas preocupações específicas desta próxima competição.
O frio me preocupa muito. A temperatura da água vai ser uns 15 ou 16 graus, bem mais gelado do que a água durante o verão. Por causa disso, os organizadores da prova determinam que todo mundo use wetsuit (‘roupa de neoprene’) durante a nadada. Tenho wetsuit, mas estou com medo que não vai ser suficiente para o evento. Pois, eu sinto o frio facilmente.
Outro dia nadei sem wetsuit num lago, só para ver como seria. Nossa, que frio que senti no momento de entrar na água! Minha cabeça doía enquanto eu nadava. Aguentei os 14 graus da água por mais ou menos oito minutos. Logo depois, tinha que sair do lago. Para completar a próxima prova, vou precisar de 35 minutos, talvez mais, dependendo das condições. Pelo menos, estarei nadando de wetsuit e touca.
Minha outra preocupação é tubarão. Tubarões-brancos têm sido vistos raramente nas praias da Nova Zelândia, mas isso não quer dizer que não estarão nadando na área. Felizmente, um navio da Guarda Costeira neo-zelandesa vai vigilar a prova atentamente. Tomara que seu sonar localizador de peixes detecte só pinguins, medusas e criaturas de neoprene.
(27º canção: “A melhor banda de todos os tempos da última semana”, Branco Mello & Sérgio Britto)
Quando comecei este projeto de escrever em português, decidi que escreveria um “blogue” e que cada texto carregado nele seria uma “postagem”. Ou seja, tomei decisão consciente de evitar o uso das palavras inglesas, blog e post. Esta decisão parece contrariar a da maioria dos blogueiros brasileiros que, apesar de escrever em português, usam blog e post nos seus textos. (Nota-se bem que esta última observação não é baseada em qualquer pesquisa rígida, apenas em minhas visitas a vários blogues brasileiros durante muitos anos.)
Podemos perguntar, então, quais palavras devemos usar? Blog ou blogue? Post ou postagem?
Na verdade, não importa. O blogueiro escrevendo em português tem a liberdade de usar as palavras que quiser. Não há uma empresa editorial no Brasil que está controlando o português dos textos na rede. O sucesso ou falha de um blogue é a responsabilidade da própria pessoa escrevendo, carregando e divulgando os textos, ninguém mais. Isso é óbvio. Mas ao mesmo tempo é interessante considerar o que um simples escolha de palavras pode sugerir ao leitor. Se usamos blog e post, estamos dando um saborzinho inglês ao texto, e se usamos blogue e postagem, estamos abrasileirando dois termos da mídia social que originaram num âmbito anglófono.
Já li comentários de pessoas que acreditam que o uso de palavras estrangeiras como blog ou post é algo ruim. Preocupam-se que a língua portuguesa esteja sofrendo incursões de outras línguas, especialmente o inglês. Acham que brasileiros, principalmente jovens, usam estrangeirismos demais para exprimir idéias e sentidos para quais a língua portuguesa já tem palavras. Enfim, se deixa a situação continuar assim, sem controle, a alma da língua portuguesa vai ser cada dia mais comprometida.
Embora seja comum, este tipo de preocupação sobre a pureza de um idioma é inútil e, na minha opinião, equivocada. O português, como qualquer outra língua, está se evoluindo constantemente. Se o povo quer usar estrangeirismos, vai usá-los.
Mesmo que tenha orígens numa outra língua, o momento que se usa um estrangeirismo, a palavra “emprestada” vai ser alterada para que caiba bem no novo idioma. Por exemplo, considerando a palavra drinque (< Ing. drink), vemos que a forma escrita se substitue a letra “q” por “k”, que não se usa frequentemente em português. Mais importante ainda, ao adaptar drinque assim, a palavra se torna bissilábica, seguindo a regra de pronúncia que proíbe sílabas fechadas com consoantes plosivas, ou seja, as letras “b, p, d, t, g” ou “q”. Retornando à palavra inglesa blog, é interessante notar que mesmo escrita assim, alguém dizendo a palavra em português a pronunciaria como “blogue”, obedecendo a mesma regra aplicada no caso de drinque. E para as pessoas que usam post, em vez de “postagem”, tenho certeza que a regra aplicaria também: post seria pronunciada como “pos” ou “poste”. A final de contas, escrita na forma original ou numa forma abrasileirada, cada estrangeirismo vai ser pronunciado como se fosse uma palavra portuguesa.
Estrangeirismos obedecem outras regras sobre a formação e classificação de palavras. Geralmente, substantivos em inglês não tem gênero específico mas quando uma palavra inglesa é emprestada pela língua portuguesa, a palavra precisa ter um gênero, ou seja, masculino ou feminino. As palavras blog (ou blogue) e post são tratadas como palavras masculinas. Assim, O blog famoso têm muitos posts soa natural mas A blog famosa têm muitas posts soa meio estranho. Há outras provas morfológicas que mostram que estrangeirismos seguem as regras da língua adotando a palavra. Por exemplo, se alguém tem um blogue muito grande ou importante, podemos descrevê-lo como blogão ou bloguezão ou mesmo blogaço; mas se o blogue é nada especial e pequeno, como meu blogue, por exemplo, podemos descrevê-lo como bloguinho ou bloguezinho. Também podemos construir outras “novas” palavras com o estrangeirismo. De blogue, por exemplo, podemos falar de blogueiros blogueando no blogosfero.
Enfim, blog e post se comportam como se fossem palavras portuguesas. Ademais, é possível que, ao longo de séculos, estrangeirismos como estes vão ser considerados como palavras nativas. Pois, quantas pessoas hoje em dia sabem que laranja (< ár. nâranja), trem (< fr. train)e esquerda (basco ezker) entraram no português como estrangeirismos?
A primeira vez que aconteceu foi na Avenida Paulista.
Eu estava na calçada, andando para algum lugar, e de repente me deparei com uma equipe de filmagem fazendo comercial de chicletes. Duas pessoas estavam filmando enquanto um homem-sanduíche vestido de palhaço e um entrevistador falavam com pedestres. Era óbvio que o motivo do encontro era um tipo de brincadeira.
Por acaso, o entrevistador e palhaço me escolheram de uma dúzia de pessoas que passavam. Eu não lembro das primeiras palavras da conversa que decorreu. Mas lembro claramente que o entrevistador começou a gozar do meu sotaque para entreter a plateia de pedestres assistindo ao espetáculo. Senti incômodo por causa disso e decidi me ir embora. Ao ver minha intenção, o entrevistador me despediu assim:
– Até logo, Lobão!
Algumas pessoas na calçada riam. Eu não soube como responder, nem entendi exatamente porque ele me apelidou de “Lobão”. A única maneira em que eu podia responder foi em rima:
– Tchau, bobão!
Refletindo depois sobre esse encontro, eu me perguntava porque o entrevistador tinha me chamado de “Lobão”, o que se traduz em inglês como big wolf. O que eu tenho que parece com lobo grande? Meu cabelo? Meu nariz? Minha boca? Não entendi nada desse apelido.
Quando relatei a história para Moema, minha irmã brasileira, ela me explicou que o Lobão era um roqueiro brasileiro. Continuou que, sim, lhe lembrava o Lobão, ao menos um pouco. Mostrou-me uma foto dele e admiti que, como eu, o cantor brasileiro era meio narigudo, tinha cabelo castanho bagunçado, e, sobre tudo, usava óculos grandes.
Depois da explicação da Moema, escutei algumas músicas do Lobão e assisti a umas entrevistas dele. Por meio dessa pesquisa na rede aprendi que o Lobão, sempre controverso, foi alguém importante do rock nacional, especialmente nos anos 80. Além de cantar, também compôs várias canções, incluindo “Vida louca vida” que Cazuza cantava com sucesso. Sem dúvida, como escreve Nelson Motta em 101 Canções que Tocaram o Brasil, o Lobão era um nome importante “na nascente cena do rock brasileiro.”
Voltando àquele encontro na Avenida Paulista, eu posso dizer outra coisa sobre este roqueiro. Ou seja, entre as bilhões de pessoas morando no planeta, parece que o Lobão é o meu doppelgänger (‘uma pessoa que se parece com outra’). Pois, o caso de alguém me chamar do Lobão não é raro. Já aconteceu várias vezes no Brasil e mesmo fora do Brasil.
Por exemplo, uma vez estava visitando o lotado Mercado Central de Belo Horizonte com Moema. Nós andávamos corredor por corredor, conversando e curtindo qualquer amostra disponível. Goiabada cascão, queijo Minas, abacaxi de Araxá…estávamos satisfeitos com a fartura de comidas diante de nós. Subitamente, uma pergunta furou nossa bolha de alegria:
– Você é o Lobão?
Eu virei e vi um homem ansioso e meio sério. Sorri para ele e perguntei:
– Você quer que eu canta?
Ao ouvir meu português errado acompanhado pela grande risada da Moema, o homem entendeu que tinha se enganado, se corou e partiu sem dizer mais uma palavra. O encontro foi bem engraçado e, chegando em casa depois, Moema e eu o explicamos para todo mundo da família.
Mais esquisito ainda foi um incidente em Guarulhos. JJ e eu entramos numa van que levava recem-chegados para vários hotéis. Fomos os primeiros passageiros no veículo. Logo, sete ou oito pessoas da mesma família entraram e se sentaram nos bancos de trás. Enquanto a van saiu do aeroporto, a família fazia muito barulho, todos falando ao mesmo tempo em voz alta. Acabaram de chegar de Santiago e no dia seguinte iriam de avião para o Mato Grosso do Sul. Estavam ansiosos para chegar na terra deles. De repente e sem aviso, os membros da família, um por um, baixaram a voz. Eu não podia entender mais nada do que se falava, mas pressentia que a conversa sussurrada entre a família se tratava de mim. Tive razão. Quando nós descemos da van em frente de nosso hotel, ouvimos risadinhas e gritos de “Lobão! Lobão! Lobããão!” Embora não respondesse, me lembro pensando, será que eles acham que seja o Lobão mesmo?
Mesmo na Aotearoa New Zealand, a terra de rúgbi e hobbits, eu não posso evitar esse nome completamente. Na minha cidade, vários amigos brasileiros me contaram que eu lhes lembrava o Lobão. Uma vez quando explicava que minha família brasileira em Belo Horizonte me apelidou “Julião”, uma grande amiga minha contestou:
– Julião? Você não tem cara de Julião. Tem cara do Lobão.
Essa resposta acertou em cheio o que eu não posso escapar: tenho cara do Lobão.
Agora faz mais de dez anos que eu tive aquela primeira experiência na Avenida Paulista, e pessoas continuam me chamando do Lobão. Mas, para dizer a verdade, eu não gosto muito desse apelido porque, simplesmente, não gosto da música do Lobão nem do seu comportamento ou política.
Então, se algum dia você me vê na rua, lembre-se, por favor, que eu não sou Lobão, não.
As ondas da Guarita têm algo para nos dizer
No constante vai e vem da água salgada
Se ouve lamentos que nos fazem reviver
A triste história de͜ uma alma afogada
Ireninha brincava na ensolarada praia
Banhista de maiô, boné e filtro solar
Ela construia castelos de princesa
E reparava pegadas apagadas pelo mar
Em pouco tempo a Irena aprendeu a nadar
Abandonou balde, pá e imaginação
Para encarar o frio, para flutuar
E, num mergulho ousado, passar arrebentação
As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
Te chamando para brincar e surfar
Vem, Irena, as ondas vão te alegrar
Porto Alegre serviu para a menina crescer
Na passarela ela, bonita, andava
Mas na verdade professora queria ser
Foi por aquilo que a jovem mulher estudava
A Irena se embalava no carinho dos pais
E da sua irmã, grande amor sentia
Mas tinha um segredo que temia demais
Da escuridão, uma voz que só ela ouvia
“Ô, Irena, tu precisas te mexer, fugir, sumir
Ninguém da tua família vai te salvar
Nenhum medicamento pode te acudir”
Essa voz na mente era sempre de arrepiar
As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
Te chamando para sair de PoA
Vem, Irena, as ondas vão te acalmar
Durante seu vigésimo quarto ano de vida
Irena com outras pessoas se reuniu
Para celebrar uma noite na Guarita,
Uma noite de bebida e ritmos do Brasil
O bonitão sorridente ninguém reconhecia
Na verdade, convidado não convidado
Quando sorriu prà Irena, ela tremia
Sinal que previa a voz interna de cuidado
“Irena, não se deve confiar no bonitão, não
Seu sorriso diz, ‘Boa noite, Cinderela’
Pois ele vive como predador safadão”
Tudo isso ela ouviu com medo e cautela
As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
Te chamando pra fugir e relaxar
Vem, Irena, as ondas vão te abrigar
Com drinque na mão e olhos de fome violenta,
O bonitão avaliava outra mulher
A Irena discou o cento e noventa
Porque pressentia o que podia acontecer
Ao ouvir, “Polícia Militar, Emergência”,
Seus receios ela começou a explicar
Mas o agente falou, “Não tem urgência,
Não tem delito, nem perigo, moça. Vou desligar”
A Irena ligou mais uma vez, “Senhor, por favor,
Nesse lugar não me sinto muito segura”
Mas ele não quis saber, esse operador,
“Não é nada, moça, e não merece viatura”
As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
Te chamando antes do alvorecer
Vem, Irena, as ondas vão te esconder
Confusa e semi-nua, ela fugiu da festa
Na praia, percebeu de novo a voz falar
“Calma, Irena, esse bonitão não presta
Nessa noite incerta só o mar pode te velar”
Um velho casal a encontrou, tremendo, na praia
“Ô, minha filha, vamos para nossa casa
Podes te aquecer com cobertor e sopa”
Muda, Irena aceitou a oferta de graça
Do velho casal ela ganhou calça de moletom,
Caldo de feijão e um quarto pra descansar
Mas, pouco depois, acordou de uma visão,
Tirou a roupa todinha e partiu, rumo ao mar
As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
Te chamando pra respirar e sonhar
Vem, Irena, as ondas vão te abraçar
O menino de rua vislumbrou algo estranho
Uma mulher nua caminhando nas dunas?
Piscou os olhos pra ver a deusa de novo
Mas ela já tinha sumido ao rumor das ondas
Nos dias e semanas depois dessa breve visão
Parecia que a mulher virou sereia
Ligação, moletom, menino de papelão
Não se sabia mais nada da coitada Irena
A linda perdida é agora arquivo morto
Pois faz vinte anos a noite na Guarita
Mas até hoje se ouve com desconforto
Os suspiros da mulher que se foi sem despedida
As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
Te chamando para nunca mais voltar
Vem, Irena, as ondas vão te embalar
Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.