Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • As ondas da Guarita

      Posted at 11:12 am by wannabemineiro, on abril 23, 2021
      As ondas da Guarita têm algo para nos dizer 
      No constante vai e vem da água salgada 
      Se ouve lamentos que nos fazem reviver 
      A triste história de͜ uma alma afogada 
      
      Ireninha brincava na ensolarada praia
      Banhista de maiô, boné e filtro solar
      Ela construia castelos de princesa
      E reparava pegadas apagadas pelo mar
      
      Em pouco tempo a Irena aprendeu a nadar 
      Abandonou balde, pá e imaginação 
      Para encarar o frio, para flutuar 
      E, num mergulho ousado, passar arrebentação 
      
      As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
      Te chamando para brincar e surfar
      Vem, Irena, as ondas vão te alegrar
      
      Porto Alegre serviu para a menina crescer
      Na passarela ela, bonita, andava
      Mas na verdade professora queria ser
      Foi por aquilo que a jovem mulher estudava
      
      A Irena se embalava no carinho dos pais
      E da sua irmã, grande amor sentia
      Mas tinha um segredo que temia demais
      Da escuridão, uma voz que só ela ouvia
      
      “Ô, Irena, tu precisas te mexer, fugir, sumir
      Ninguém da tua família vai te salvar
      Nenhum medicamento pode te acudir”
      Essa voz na mente era sempre de arrepiar
      
      As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
      Te chamando para sair de PoA
      Vem, Irena, as ondas vão te acalmar
      
      Durante seu vigésimo quarto ano de vida
      Irena com outras pessoas se reuniu
      Para celebrar uma noite na Guarita,
      Uma noite de bebida e ritmos do Brasil
      
      O bonitão sorridente ninguém reconhecia
      Na verdade, convidado não convidado 
      Quando sorriu prà Irena, ela tremia
      Sinal que previa a voz interna de cuidado
      
      “Irena, não se deve confiar no bonitão, não
      Seu sorriso diz, ‘Boa noite, Cinderela’
      Pois ele vive como predador safadão”
      Tudo isso ela ouviu com medo e cautela
      
      As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
      Te chamando pra fugir e relaxar
      Vem, Irena, as ondas vão te abrigar
      
      Com drinque na mão e olhos de fome violenta,
      O bonitão avaliava outra mulher
      A Irena discou o cento e noventa
      Porque pressentia o que podia acontecer
      
      Ao ouvir, “Polícia Militar, Emergência”,
      Seus receios ela começou a explicar
      Mas o agente falou, “Não tem urgência,
      Não tem delito, nem perigo, moça. Vou desligar”
      
      A Irena ligou mais uma vez, “Senhor, por favor,
      Nesse lugar não me sinto muito segura”
      Mas ele não quis saber, esse operador,
      “Não é nada, moça, e não merece viatura”
      
      As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
      Te chamando antes do alvorecer
      Vem, Irena, as ondas vão te esconder
      
      Confusa e semi-nua, ela fugiu da festa
      Na praia, percebeu de novo a voz falar
      “Calma, Irena, esse bonitão não presta
      Nessa noite incerta só o mar pode te velar”
      
      Um velho casal a encontrou, tremendo, na praia 
      “Ô, minha filha, vamos para nossa casa
      Podes te aquecer com cobertor e sopa”
      Muda, Irena aceitou a oferta de graça
      
      Do velho casal ela ganhou calça de moletom,
      Caldo de feijão e um quarto pra descansar
      Mas, pouco depois, acordou de uma visão,
      Tirou a roupa todinha e partiu, rumo ao mar
      
      As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
      Te chamando pra respirar e sonhar
      Vem, Irena, as ondas vão te abraçar
      
      O menino de rua vislumbrou algo estranho
      Uma mulher nua caminhando nas dunas?
      Piscou os olhos pra ver a deusa de novo
      Mas ela já tinha sumido ao rumor das ondas
      
      Nos dias e semanas depois dessa breve visão
      Parecia que a mulher virou sereia
      Ligação, moletom, menino de papelão
      Não se sabia mais nada da coitada Irena
      
      A linda perdida é agora arquivo morto
      Pois faz vinte anos a noite na Guarita
      Mas até hoje se ouve com desconforto
      Os suspiros da mulher que se foi sem despedida
      
      As ondas da Guarita estão te chamando, Irena,
      Te chamando para nunca mais voltar
      Vem, Irena, as ondas vão te embalar
      
      Postado em poesia | 0 Comentários
    • Bossa nova coreana

      Posted at 6:42 pm by wannabemineiro, on abril 1, 2021

      Ah, que saudade

      Que vontade de ver renascer nossa vida

      Volta, querido

      Teus abraços precisam dos meus

      Os meus braços precisam dos teus

      (25º canção: “Samba em prelúdio”,  Baden Powell e Vinícius de Moraes)

      Perto da casa da JJ há um restaurante coreano que eu adoro. O prato principal é yaki niku, um tipo de churrasco muito estimado pelos japoneses. Eu sempre tento almoçar lá ao menos uma vez quando estou em Tóquio, porque, além da comida super gostosa, o restaurante tem um ambiente que provoca em mim forte curiosidade.

      À primeira vista, o estabelecimento parece típico. Fica-se escondido num beco ao lado da estação Seijogakuen-mae. Para entrá-lo, é preciso descer uma dúzia de degraus, pois o local é subterrâneo. Ao abrir a porta, o freguês ouve “irasshaimase!” vindo de uma garçonete, um grito de ‘bem-vindo’ que, em breve e sem falha, será ecoado por todos os empregados. A configuração de mesas e cadeiras, igual a muitos restaurantes em Tóquio, é bem apertada. E no lugar inteiro, há cheiros maravilhosos de chá, kimchi e, claro, carne grelhada.

      Tudo isso eu reparei na primeira vez em que fui nesse restaurante para saborear uma porção de bibimbap. Havia, porém, outra coisa que me atraiu, algo bem sutil. Apesar das mesas em volta de mim estarem lotadas e barulhentas, de vez em quando eu podia ouvir uma musiquinha tocando. A conversa nas mesas reduzia e uma música suave começava a flutuar pelo espaço, a conversa aumentava novamente e a música desaparecia. Esse vai e vem de som continuava durante meu almoço e por algum tempo eu não conseguia identificar qual era a música ou de onde vinha. Mas de repente a ficha caiu: alguém na cozinha estava escutando bossa nova.

      Após aquele primeiro almoço, a JJ me perguntou se gostei do restaurante. Eu respondi que sim. Gostei muito da comida e, além disso, tive certeza que alguém na cozinha estava escutando música brasileira. Se essa seleção fosse por acaso ou não, eu não sabia. Então, queria almoçar lá outra vez, só para ver qual tipo de música estaria tocando na cozinha.

      A segunda vez que visitei o restaurante ouvi a bossa nova novamente. De fato, toda vez que eu almoço nesse lugar, quando a conversa em volta de mim acalma, inevitavelmente, umas notas levinhas do violão chegam a meus ouvidos.

      A pessoa escutando bossa nova dia após dia deve ser o chef ou o dono do restaurante; ou seja, tem que ser alguém com o poder de controlar a “trilha sonora” do restaurante. Mas qual a conexão exata entre essa pessoa e a bossa nova? Essa é a pergunta que sempre me diverte durante meus almoços nesse restaurante.

      Será que o chef é um japonês ou coreano que adora a bossa nova? Se isso for o caso, porque ele gosta tanto dessa música? Como é que a encontrou? No Brasil, na rádio?

      Será que o chef é brasileiro? Isso é uma possibilidade porque têm milhares de dekasseguis, brasileiros de descendência japonesa, morando no Japão. Se for o caso, imagino que, enquanto prepara a comida coreana, o chef está sempre lembrando do Brasil por causa da música. Será que está sentindo saudades da sua família do outro lado do mundo?

      Faz anos que eu frequento esse restaurante em Tóquio e, até agora, não sei nada do chef que prepara a comida aos ritmos de bossa nova. Do outro lado do passe-pratos, eu percebo alguém trabalhando na cozinha mas é impossível ver a cara dele. Sempre penso em perguntar à garçonete sobre essa pessoa.

       – Quem é o chef e porque sempre está escutando música brasileira? – eu perguntaria.

      Mas nunca pergunto porque, na verdade, não quero saber. Prefiro que a bossa nova no restaurante coreano permaneça em mistério.

      Postado em Japão | 2 Comentários
    • Andando meio desligado

      Posted at 9:39 am by wannabemineiro, on janeiro 29, 2021

      Ando meio desligado

      Eu nem sinto meus pés no chão

      (24º canção: “Ando meio desligado”, Os Mutantes)

      Rafael, um grande amigo meu, costumava me ver andando todos os dias.

      Uma vez, observando que eu passava tanto tempo caminhando, ele me disse que achava impressionante que eu andava sem som. Não entendi do que estava falando. Ele teve que me explicar que, diferente dos outros, inclusive ele, eu andava sem celular do qual se podia ouvir música ou podcast. Expliquei que, diferente dos outros, inclusive ele, eu andava assim porque não tinha celular. Ele ficou surpreendido.

      Pensando nas observações do Rafael, admito que sou uma pessoa rara. Durante minhas caminhadas ao lado do rio ou nas calçadas da cidade, vejo muitas pessoas ligadas a seus aparelhos. Enquanto elas caminham ou correm ou andam de bicicleta, escutam algum som ou podcast, falam com amigos pelo Whatsapp, ou mesmo tiram fotos ou fazem um vídeo. Sem dúvida, andar com celular deve oferecer oportunidades de fazer muita coisa, e talvez, de alguma maneira que não posso imaginar, o celular complemente a experiência de estar no ar livre.

      Às vezes parece que eu sou a única pessoa andando desligado. Mas, será que eu estou realmente andando desligado? Acho que não. Pois, na minha opinião, a pessoa atada a um aparelho enquanto anda fica mais desligada do que eu.

      Quando alguém estiver andando com som, há uma mútua diminuição, até o silêncio, de outros sons. Pássaros e riachos parecem estar cantando sem voz.  Sente-se o cascalho sob os pés mas não se ouve o craque-craque dele. Do outro lado da cerca-viva alta por onde você está passando o vai e vem de uma bola de tênis está silenciado. Enfim, o resultado de andar com som é que os outros sons podem passar despercebidos.

      É um pouco irônico que uma pessoa andando sem celular pode ouvir claramente as vozes de outras pessoas que estão falando por celular. Há duas semanas, por exemplo, eu estava subindo uma trilha no maravilhoso Parque Nacional de Aoraki Mount Cook quando ouvi uma voz abaixo de mim. Virei para trás e vi um caminhante solitário falando por celular enquanto subia a ladeira ensolarada! Não quero ser chato mas eu achei essa ocorrência na montanha lamentável.

      Quando visito outra cidade, eu gosto de explorá-la e conhecê-la a pé. Nestes casos, posso conversar com os habitantes. Lembro de uma conversa que tive quando eu estava bem perdido em São Paulo. Descendo do metrô na estação de São Bento, eu queria ir ao Mercado Municipal. Tinha tanta gente nas ruas em frente da estação que eu nem sabia que direção devia ir. Para confirmar o caminho, perguntei a um moço camelô vendendo bonés. Além das instruções para ir reto até o mercado, o moço me deu várias informações sobre o bairro, inclusive uma recomendação valiosa para uma padaria árabe. Se eu tivesse um celular aquele dia, poderia ter acessado o GPS ou Siri para chegar ao Mercado Municipal. Não tenho dúvida disso. Mas se estivesse andando “ligado” assim, eu não teria aquela oportunidade inesquecível de falar com o camelô na 25 de Março.

      Eu não vou negar que hoje em dia o celular seja necessário para muitas pessoas, especialmente os jovens. Reconheço que este aparelho e seus aplicativos nos oferecem muitas vantagens.  Mas eu, que sou de uma outra geração, prefiro ficar “desligado” por enquanto.


      Posfácio –

      Preciso fazer uma confissão: Por causa das exigências da pandemia que o mundo está sofrendo, decidi comprar um celular faz seis semanas. Na Nova Zelândia existe o NZ Covid tracer app que oferece uma maneira precisa de manter um diário digital de todo lugar que você visita. Com este app, você pode ser avisado se alguém com o vírus esteve no mesmo lugar na mesma hora do que você. O NZ Covid tracer app representa uma parte importante do esforço de controlar o Covid 19 na Nova Zelândia. É por isso que comprei o celular. Além de usar este app todos os dias, eu continuo andando meio desligado até agora.

      Postado em tecnologia | 2 Comentários
    • O banco de trás

      Posted at 6:48 pm by wannabemineiro, on dezembro 28, 2020

      …nenhum de nós

      Sabe exatamente onde vai parar

      Mas não precisamos saber pra onde vamos

      Nós só precisamos ir

      (23º canção: “Infinita highway”, Humberto Gessinger)

      Quando eu tinha cinco anos meus pais fizeram uma decisão corajosa que mudou a família para sempre. O que sucedeu foi favorável para todos. Mas, infelizmente, eu era jovem demais para lembrar aquele verão agitado. Tentando relembrá-lo agora, só vejo alguns trechos, bem nebulosos, dos quais a maioria ocorreu no banco traseiro de nosso carro.

      Eu lembro claramente que saímos de casa às nove horas da noite por causa do calor do deserto. Mesmo assim, meu pai tinha colocado um saco de lona cheio de água na frente da perua, senão o radiador poderia ferver. Na madrugada daquela primeira noite no carro, meus pais acordaram meu irmão e eu para curtir uma vista deslumbrante. Em frente de nós se via as luzes de uma cidade no deserto. Não me lembro se era Las Vegas ou Kingman, Arizona.

      Mas, na verdade, este detalhe não importa porque a recordação mais distinta, o que mais me alegrava daquela viagem para o leste, era ter meu irmão mais velho sempre ao meu lado. Lembro que ríamos juntos da sensação estranha de nossa suada pele grudada no cálido banco de trás. Também, ele lia para mim, tentando segurar as páginas contra as lufadas que entravam pelas janelas abertas. Falava-me de sua paixão pelos Dodgers, o time de beisbol em Los Angeles. E quando o sono me pegava, ele me deixava adormecer, encostado no seu ombro. Passamos horas e horas no banco traseiro enquanto meu pai dirigia e minha mãe lia. No final das contas, nosso carro atravessou oito estados antes de chegar ao destino: Cleveland, Ohio.

      Do verão que passamos em Cleveland eu lembro muito pouco. Quase tudo que sei daquele período deve ter me relatado por outras pessoas ou relembrado de algumas fotos velhas.

      Durante o dia, meu pai dava aula de química na Case Western University e nós – ou seja, minha mãe, meu irmão e eu – ficavamos numa cabana à margem de um lago enorme. Logo depois de nossa chegada, minha avó paterna compareceu. Ela ficou o resto do verão e voltou para a Califórnia conosco.

      Na primeira ou segunda semana da estadia em Cleveland, minha mãe, sozinha, partiu de trem para Chicago. Dois dias depois, ela voltou, acompanhada por uma menina magra e silenciosa. Com dez anos, quatro meses mais velha do que meu irmão, esta menina seria minha irmã.

      Das poucas recordações que tenho de minha nova irmã em Cleveland, houve um dia quando brincavamos juntos ao lado do lago, ela vestida de maiô e eu de shorts. Provavelmente no mesmo dia, alguns parentes de meu pai nos visitaram e, se não me engano, fizemos um churrasco e curtimos os vagalumes da noite. Mas o que lembro mais claramente dos primeiros dias com minha irmã foi sua destreza com pedrinhas, um jogo que ela tinha aprendido e dominado quando menininha. Ela jogava cinco pedrinhas no chão. Daí quicava com força uma pequena bola de borracha, pegava uma ou mais das pedrinhas do chão e, antes que a bola tocasse o chão de novo, a pegava na mesma mão que segurava as pedrinhas. Minha irmã fazia tudo isso tão rápido! Eu juro, se você piscasse os olhos, não a veria pegar as pedrinhas e a bola. Meu irmão e eu nunca conseguimos sobressair nesse jogo.

      Quando meu pai terminou seu cargo de verão na universidade, foi a hora de voltar para Califórnia. Essa vez o carro estava lotado, com três adultos e três crianças.

      Havia paradas em vários lugares, como Chicago, onde minha tia estava morando, Mount Rushmore e Yellowstone. Durante a viagem, meus pais procuravam restaurantes que serviam mais do que o típico bife e batata fritas, um prato americano que minha irmã não conseguia comer. Em vez disso, arroz, peixe e legumes pareciam ser suas comidas preferidas naquela época. Além das refeições, ela enjoava porque, antes de vir para os Estados Unidos, nunca tinha andado de carro.

      Deve ter sido difícil demais para minha irmã passar tanto tempo, quase presa, num carro com cinco pessoas desconhecidas falando outra língua. Mas, de alguma maneira, minha irmã aguentou a experiência. Aliás, estabeleceu um forte laço com minha avó durante aquela viagem para o oeste. Agora eu entendo o apoio valioso que minha avó ofereceu a minha irmã e, por consequência, aos meus pais.

      Também reconheço que a volta para a Califórnia foi difícil para meu irmão. Não recebeu tanta atenção quanto antes, então eu imagino que, de vez em quando, ele estava ressentido com a situação.

      Se não me engano, após entrarmos no estado de Nevada, minha irmã falou algumas palavras em inglês. Lembro que estava chuvendo. Aborrecido no carro, eu falava besteira para distrair a família. Por qualquer motivo, minha irmã começou a me imitar. Eu dizia palavras como “cow” ou “pencil” e ela as repetia. Pelo resto da viagem, faziamos esse jogo de repetição. Aquela lembrança da “comunicação” sempre foi especial para nós dois.

      Foi assim que, num verão, minha família cresceu de quatro para cinco pessoas. Não lembro muito, mas os fragmentos mais claros aconteceram no banco de trás do carro durante uma viagem transnacional. Na ida, sentei com meu irmão. Na volta, sentei com meu irmão e minha irmã.

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    • Uma vida de livros

      Posted at 8:37 am by wannabemineiro, on novembro 27, 2020

      … os livros que em nossa vida entraram

      São como a radiação de um corpo negro

      Apontando pra a expansão do Universo

      (22º canção: “Livros”, Caetano Veloso)

      Eu cresci numa casa de livros. Os volumes mais estimados eram guardados na sala de visitas. Ao fazer a faxina da sala como menino, eu apreciava títulos e nomes cativantes, como Os trabalhadores do mar de Victor Hugo ou O jardim das cerejeiras de Anton Tchekhov. Havia poesia de Dickinson, Browning e Baudelaire, volumes de história de Heródoto e Lívio, peças teatrais de Shakespeare e Ibsen. Mas, além das estantes na sala, se encontravam livros, revistas e jornais nos quartos, no banheiro, na mesa de jantar. Mesmo no galpão, onde minha mãe lavava a roupa, sempre tinha algo para ler. Todo ano o número de livros aumentava e, quando meus pais finalmente saíram daquela casa, deixaram para trás centenas e centenas de livros.

      Ainda que meus pais fossem grandes leitores, quando eu penso nos livros da nossa casa, eu lembro de minha mãe. Pois foi ela que se via lendo sem parar em casa, sob um guarda-sol na praia, ou no carro enquanto meu pai dirigia. Ao fazer o check-in num hotel, o pré-requisito mais importante era uma luz eficaz na cabeceira para que pudesse ler à noite. Qualquer que fosse a tarefa de casa que estava fazendo, minha mãe tinha um livro perto dela. Sempre lia na cozinha, por exemplo, ao esperar a água ferver ou o pão crescer. Depois do jantar, cuidava dos filhos na sala enquanto lia algum livro. E, já que ela é de uma geração anterior ao Google, minha mãe acreditava, e continua acreditando, que qualquer dúvida pode ser resolvida pelo Dicionário Webster ou, se não, pela Enciclopédia Britânica.

      Quando minha mãe viajava para o exterior, ela já tinha uma ideia, graças as suas leituras, para onde estava indo. A Londres que visitou era a Londres de Charles Dickens e Sir Arthur Conan Doyle. Enquanto estava nas Ilhas Galápagos, apreciando tartarugas, iguanas e outras espécies raras, ela pensava nas ideias evolutivas que um jovem naturalista anotou a bordo do HMS Beagle. Para minha mãe, então, ler um bom livro descrevendo um lugar histórico era quase tão importante quanto visitar o lugar mesmo.

      Ela também quis que seus filhos conhecessem o mundo por meio dos livros. Sob a árvore de Natal se encontrava, para cada um de nós, uma pilha de livros, amarrada de uma fita vermelha. Incluia títulos que minha mãe leu quando menina assim como livros mais recentes que achava que nos interessaria. E, durante o verão, se eu estava reclamando de estar de saco cheio, ela recomendaria alguma coisa para eu ler e fugir do marasmo do calor. Sem dúvida, se não fosse por minha mãe, uma mulher que vivia para ler, eu não teria descoberto os livros e as maravilhas oferecidas nas páginas deles.

      O que mais respeito em minha mãe é que ela mostrava não apenas uma paixão por livros mas igualmente a capacidade de se concentrar profundamente na palavra escrita. Ela dizia que um livro lhe oferecia a chance de escapar qualquer situação por novos mundos.

      É isso que ela fez quando um incêndio florestal devastou nosso bairro num dia de novembro em 1980. Evacuando a casa ao meio dia com meu pai, ela levou consigo, claro, o que estava lendo no momento: Xógum, um romance enorme sobre o Japão feudal. Algumas horas depois, meus pais voltaram para o bairro em brasas. A metade da casa tinha queimado completamente enquanto a outra metade ficou danificada de fumaça e água. Já que o quarto deles não queimou, meus pais decidiram passar a noite na casa e dormiram muito pouco. Preocupado com saqueadores, o pedido de seguro e a reconstruação da casa, meu pai se revirava na cama a noite inteira. E minha mãe? Ela se deitou de costas, acendeu uma lanterna de pilha e terminou Xógum antes do amanhecer.

      Agora bem velhinha, minha mãe mora numa casa de repouso. Tragicamente, depois de tantos anos de livros na sua vida, ela não consegue mais ler por causa da doença Alzheimers. Mas o seu amor por palavras escritas continua óbvio. Pois, a última vez em que a vi, ela estava sentada numa cadeira de rodas, com um livro no colo.

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    • A química entre pai e família

      Posted at 6:48 pm by wannabemineiro, on setembro 10, 2020

      A ciência não se ensina

      A ciência insemina

      A ciência em si

      (21º canção: “A ciência em si”, Arnaldo Antunes e Gilberto Gil)

      Todo mundo da família tinha que se reconciliar com o caso do meu pai.

      Muitas vezes, somente o víamos às refeições. Enquanto comia, nos perguntava sobre a escola. Compartilhava também umas palavras com minha mãe, geralmente de eventos atuais. Mas esse tipo de coisa era sempre breve. Havia pouca chance de realmente falar. Ao terminar a comida, ele pedia desculpas e voltava para o escritório. A porta se ouvia fechar e não víamos o meu pai até que aparecesse à mesa para a próxima refeição.

      Nós, os filhos, sentíamos a falta do pai durante nossa adolescência. Mas para minha mãe isso durou muito mais tempo, ou seja, o livro de química que meu pai publicou e que reescrevia até seu octogésimo aniversário ocupou sua vida por quase quarenta anos. Sem dúvida, minha mãe estava orgulhosa do êxito do marido. Ao mesmo tempo, porém, se achava frequentemente sozinha porque “o livro” exegia demais do autor: reuniões, telefonemas, provas tipográficas. Eu nunca pensei muito na solidão da minha mãe. Até que, um dia, ouvi por acaso ela, meio séria, ponderando que sentia como se tivesse perdido o marido para o livro.

      Era modesto o começo do livro. Eu devia ter uns 10 anos de idade quando observei meu pai rabiscando num bloco de papel amarelo durante as férias. Minha mãe explicou que estava escrevendo um livro. Três anos mais tarde, General Chemistry (Química Geral) apareceu em livrarias universitárias. O livro foi um grande sucesso, vendendo mais cópias do que meu pai e seu editor jamais imaginariam. Daí, antes que a família tivesse percebido, ele estava trabalhando na segunda edição do livro. Por fim, ao momento do seu falecimento, teria onze edições e traduções em várias línguas.

      Embora não escrevêssemos o livro com ele, todos nós, de algum jeito, o vivíamos. Embora o General Chemistry separasse o pai da sua família por longos períodos, situações e memórias ligadas ao livro deixaram ele, até agora, ficar dentro de cada um de nós.

      Nos primeiros anos do livro, havia recompensas imediatas para a família. Qualquer marco importante merecia festa familiar, geralmente uma ceia num restaurante favorido. Com a publicação da terceira edição, meu pai sabia que o sucesso do livro não era por acaso. Ele renunciou ao seu cargo acadêmico e se dedicou ao General Chemistry e aos outros livros que escreveria depois. Naquela época, também comprou uma segunda casa nas montanhas perto de Los Ángeles para a família curtir. Minha mãe adorava essa cabana, lhe chamando, com carinho, “A terceira edição”. Ironicamente, virou o lugar para onde ela fugia, fosse sozinha ou com família ou amigos, quando meu pai estava trancado no seu escritório, trabalhando demais para cumprir os prazos apertados da próxima edição.

      Meu pai tocou a vida de muitos. Às vezes, claro, havia pessoas descontentes com o livro. Uma vez na hora do jantar, houve uma chamada a cobrar de alguém usando a segunda edição em Texas. Meu pai aceitou a cobrança e começou a falar com o estudante. De repente se ouvia palavrões dirigidos a ele, ao livro e à química. Eu me lembro claramente que meu pai, ao tentar acalmar a voz furiosa do outro lado da linha telefônica, também queria saber o que foi exatamente do livro que o estudante não gostou para que pudesse melhorar a próxima edição.

      Felizmente, a maioria dos comentários sobre o livro eram positivos porque se não fosse assim, o livro não teria tido tantas edições. Com cada publicação, o nome do meu pai se tornou mais e mais reconhecido no mundo de química. Por isso, todo mundo da família, tanto próximo quanto afastado, já teve pelo menos um encontro casual com alguém que conhece o livro.

      No meu caso, como acadêmico, eu tive várias experiências dessas. Por exemplo, quando eu dava aula em Oklahoma, Dr. Walker, o chefe do Departamento de Inglês, me apresentou a um vendedor de livros didáticos de inglês. Dr. Walker brincou que o vendedor teria problemas lembrando do meu sobrenome italiano. Ele respondeu que, na verdade, não era difícil lembrar. Como explicava o vendedor, antes de trabalhar com livros de inglês, estava na divisão de ciências na Editora Prentice Hall onde vendia um bem-sucedido livro de química escrito por alguém desse mesmo sobrenome de Petrucci. Sincronizada perfeitamente com a conversa, eu lhe falei numa voz alta para Dr. Walker também ouvir:

      – Você está falando do meu pai.

      Outra ocasião na Nova Zelândia, eu estava esperando o ônibus com Vilma, uma amiga colombiana que trabalhava como técnica principal num laboratório universitário. Durante muitos anos de amizade, eu nunca lhe tinha comentado sobre meus pais na Califórnia. Mas naquele dia, por qualquer motivo, a conversa abordou assuntos sobre nossa adolescência. Expliquei para a Vilma que meu pai estava meio zangado e triste quando lhe dei meu boletim escolar do colégio com uma nota “D” em Química porque ele era professor de química mesmo. A resposta da Vilma era clássica:

      – Oh, você é aquele Petrucci!

      Reparando minha surpresa, ela explicou que usava uma edição espanhola do livro quando era estudante em Bogotá. Que coincidência incrível.

      Há cinco anos que meu pai morreu. Seus livros se encontram na casa de qualquer membro da família. Minha tia em Nova Iorque, em memória de seu irmão mais velho, tem até uma prateleira com várias edições de General Chemistry. Falando honestamente, quando examinarmos o conteúdo desses livros, a química continua incompreensível, mas, ao mesmo tempo, faz muito sentido.

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    • O fio vermelho

      Posted at 7:18 pm by wannabemineiro, on agosto 13, 2020

      Se a voz da noite responder

      Onde estou eu, onde está você

      Estamos cá, dentro de nós sós

      Onde estará o meu amor?

      (20º canção: “Onde estará o meu amor”, Chico César)

      Quando eu era pequeno, meus pais me levavam ao quintal para ver os vagalumes de verão. Era mágico contemplar as piscadas na crescente escuridão. Às vezes havia tantos vagalumes que eu, de pé no gramado, imaginava estar no meio de uma galáxia, brilhando só para mim. Mas, na verdade, eu não estava sozinho. Pois, no outro lado do mundo, na cidade de Tóquio, uma menininha estava fazendo a mesma coisa. Essa japonesa, que anos depois eu apelidaria como “JJ”, saia de sua casa com seu irmão mais velho ao lusco-fusco e, encontrando amigos no caminho, andava os três quarteirões até o Rio Tamagawa. Sentava-se à margem do rio para curtir o show dos hotaru (vagalumes). As luzinhas piscavam em volta dela.

      A JJ também gostava de nadar na piscina pública. Ficava na água a tarde inteira, dia após dia. Aprendeu a mergulhar e segurar o fôlego debaixo da água. Fazia balas de canhões e experimentava nadar com os olhos fechados. Depois de passar umas horas na piscina com seus amigos, ela voltava para casa, sempre com muita fome. Naquela época, o mesmo sol que bronzeava a menina me bronzeava enquanto eu, poucas horas depois na Califórnia, nadava numa piscina no meu bairro. Eu também fazia todo tipo de brincadeira, até festas de chá sob a água. Tentava sentar no fundo da piscina com meus amigos para “tomar chá” e compartilhar conversinhas distorcidas:

      – Que-que-quer açúca-ca-car? – borbulhava um nadador.

      – Sim, po-po-por favo-vo-vor – borbulhava outro.

      Mais tarde, eu chegava em casa faminto, exatamente como a JJ em Tóquio. O único detalhe que nos separava, talvez, fosse a comida nos aguardando na mesa.

      Para mim, o melhor período do verão era a semana que minha família passava no camping em Carlsbad, uma praia perto de San Diego. Nesses sete dias seguíamos uma rotina simples. Certamente, tomávamos sol e brincávamos no mar, mas também fazíamos longas caminhadas e explorávamos poças-de-maré. À noite no acampamento sempre havia comida boa como hambúrguer, tacos ou peixe grelhado. Por fim, antes de dormir na barraca, jogávamos cartas ou Monopoly. Nosso dia-a-dia estava acompanhado pela trilha sonora contínua de ondas quebrando na praia. Esse som também tocava para a JJ. Todo verão, ela e sua família se hospedavam numa pousada balneária na península de Izu. A família japonesa se divertia na praia, tomando sol, construindo castelos de areia e se banhando nas águas de Izu. A menina adorava a comida da pousada, especialmente o peixe e os mariscos, os dois vindo fresquinhos do mar. Curiosamente, então, duas famílias – a minha na Califórnia e a da JJ – estavam curtindo o mesmo mar, mais ou menos ao mesmo tempo, como se fossem atadas por um fio sobre o Pacífico.

      Como qualquer criança ou adolescente pode atestar, o verão, aquela época tranquila e sem preocupações, tem que terminar. Quanto à JJ, a volta para a escola depois dos deleites de Izu era difícil. Era obrigada a se vestir de uniforme. A mochila ficava tão cheia de livros que as alças mordiam os ombros. O almoço na escola nunca variava do simples miso shiru (sopa de missô) com arroz. E, a cada ano que passava, havia mais carácteres da língua japonesa para ela decorar e a matemática ficava mais e mais complicado. No meu caso, também, me animava pouca coisa da escola. O que eu gostava de estudar era o relógio na parede, desejando que o tempo passasse rápido para que pudesse sair da sala de aula. Outras vezes, devaneios me levavam para a praia enquanto meus colegas prestavam atenção à lição. As notas medianas que tirava, apenas suficientes para avançar para o próximo ano, refletiam minha indiferença na aula.

      Mas, durante todo o ensino público, eu e, por coincidência, a JJ gostávamos de uma matéria: as línguas estrangeiras. Para ela, o inglês lhe cativou a imaginação desde sua infância. Ela praticava diálogos sozinha no seu quarto, estudava listas de vocabulário, e escrevia cartas para seu amigo de correspondência nos Estados Unidos. Imaginava a língua inglesa como um passaporte que, algum dia, lhe deixaria viajar pelo mundo. Quanto a mim, eu adorava estudar o alemão e o francês. Ao decorar um diálogo, entretinha qualquer pessoa em casa, até os cachorros, com uma ou mais linhas em alemão ou francês:

      – Prima, gehen wir! Wann beginnt die Vorstellung?  (Ótimo, vamos lá! Quando começa a exibição?)

      Sem dúvida, minha família tinha que aguentar essas lenga-lengas. No final, porém, a paixão que eu sentia por outros idiomas deu frutos: saí do ensino público e consegui entrar na universidade como estudante de Francês. Entretanto, ao terminar a escola secundária, a JJ estava igualmente bem-sucedida, matriculando-se num programa de Inglês numa universidade em Tóquio. E, durante e depois desses programas universitários, cada um de nós viajava.

      Nossos caminhos quase cruzaram em duas ocasiões. Primeiro, eu passei alguns dias em Hong Kong, dois meses depois do que a JJ estava lá. Obviamente, os lugares turísticos que eu visitava, como o Victoria Peak e o Star Ferry, receberam a JJ também. Para além do tempo que nos separava, imagino que caminhávamos pelas mesmas ruas. Mais curiosa ainda, numa outra ocasião, a JJ visitava o sul da Califórnia, não muito longe de minha cidade. Por acaso passamos em uma mesma rua em Los Ángeles?

      Apenas dois anos depois, nos encontramos pela primeira vez quando a JJ voltou à Califórnia para estudar. Quando a vi, eu soube imediatamente que ela era a mulher da minha vida. O namoro foi breve e o casamento logo em seguida. Por fim, então, o invisível unmei no akai ito* (fio vermelho do destino), amarrado desde nossa infância ao dedo mindinho direito, nos juntou.

      *Uma crença do leste da Ásia que duas pessoas destinadas a ser juntas são unidas desde o nascimento por um fio vermelho.

      Postado em whānau | 4 Comentários
    • 2020: Estamos ou somos f*didos?

      Posted at 8:32 am by wannabemineiro, on julho 8, 2020

      Adriano, Diego, Pedro, Marcelo, José

      Aquele corpo é de quem, aquele corpo quem é?

      É do Tião, é do Léo, é do João, é de quem?

      É mais um joão-ninguém, é mais um morto qualquer

      (19º canção: “Cacimba de mágoa”, Gabriel o Pensador e Tato)

      Eu estava falando com um amigo outro dia. Meio deprimidos nós dois, a conversa virou facilmente um lamento das crises recentes: geleiras derretendo na Nova Zelândia; marés de plástico no Pacífico; incêndios na Amazônia e Austrália; George Floyd, Breonna Taylor, João Pedro e outros que perderam a vida por causa do racismo; e, sem surpresas, as centenas de milhares de mortos na pandemia.

      – Tanto problema nesse mundo de 2020! Parece insuperável e sem fim.

      – Pois é. Estamos fodidos.

      – Mas será que estamos fodidos ou que somos fodidos?

      – O quê?

      – Porque falou que estamos fodidos e não falou que somos fodidos?

      – Sei lá, cara, mas estamos fodidos mesmo.

      *****

      Incentivado pela conversa, eu quero refletir mais um pouco sobre como descrever a grave situação do mundo em 2020. Antes de começar, porém, preciso pedir desculpas ao leitor pela linguagem grosseira que já usei e que segue abaixo. Se você não quiser continuar lendo esta postagem, entendo e respeito sua decisão de largá-la.

      Será que devo dizer que estamos fodidos ou que somos fodidos? Qualquer que seja, a resposta pertence à questão do uso de estar versus o de ser, dois verbos dos quais os sentidos são capturados pelo to be em inglês. Cada língua tem conceitos difíceis, e a distinção entre estar e ser é um problema persistente na minha aprendizagem da língua portuguesa.

      Hoje em dia recorremos à internet para qualquer informação. Eu vou fazer isso também. Mas em vez de simplesmente perguntar à Siri ou teclar no Google Search algo como “qual é a diferença entre estar fodido e ser fodido”, vou começar em inglês no Google Translate. Teclo “we are fucked” e a tradução é “nós estamos fodidos”. Resposta instantânea, mas será que é correta? Já estudei várias línguas pela internet e sei que não devo aceitar qualquer tradução oferecida pelo Google sem procurar mais informações.

      Faço, então, uma tradução inversa, teclando “estamos fodidos” e, depois, “somos fodidos”, as  duas estruturas discutidas na conversa inicial. Desta vez, os resultados em inglês são suspeitos, até ridículos: “estamos fodidos” se traduz como “we’re fucked”, o verbo to be numa forma reduzida e unida ao pronome we, enquanto “somos fodidos” se traduz como “we are fucked”,  com o verbo to be numa forma completa e livre do pronome. Ou seja, o Google Translate está sugerindo que a estrutura com estar seja mais informal do que a com ser. Sem dúvida, isto é errado.

      Está na hora de deixar os motores de tradução e consultar algo mais confiável: o meu predileto Modern Brazilian Portuguese Grammar, um livro de gramática escrito por John Whitlam. O livro enumera várias regras para o uso correto de estar e ser, mas só preciso de uma distinção:

      Situação temporária? Use estar

      “O verbo estar descreve uma situação temporária e, portanto, é usado com adjetivos que denotam tais situações.” Por exemplo, em Estávamos muito cansados depois da aula usamos estar porque o adjetivo cansados denota algo temporário.

      Situação permanente? Use ser

      “O verbo ser é usado com adjetivos que descrevem uma característica inerente ou permanente do sujeito.” Por exemplo, em O verão no Brasil é quente usamos ser porque quente descreve uma característica permanente do sujeito verão.

      Isso parece bastante simples mas, como qualquer regra de gramática, há exceções problemáticas. No caso em questão, Whitlam nota que alguns adjetivos podem ser usados com estar ou ser, a escolha de verbo às vezes sinalizando uma diferença no sentido da frase. Por exemplo, ambas frases, Eles são casados e Eles estão casados, são possíveis em português mas, segundo Whitlam, a última pode também significar um casal que está morando junto sem ser casado mesmo.

      Regresso ao Google para ver se o sentido do adjetivo fodido varia dependendo do verbo que o precede. Os resultados de uma busca de “estamos fodidos” e, em seguida, “somos fodidos” revelam imediatamente uma diferença entre as duas locuções. A frase “estamos fodidos” parece ser usada para falar de situações negativas em geral. Curiosamente, por exemplo, um blogueiro escrevendo das ligações em 2020 entre um governo brasileiro incapaz, o desmatamento amazônico, e o Covid 19 quase ecoa a opinião do meu amigo: “Que hora a ficha vai cair que estamos fodidos?”  Quanto a “somos fodidos”, a grande maioria de resultados trata das relações sexuais numa maneira explícita e grosseira. Nem quero sujar o meu blogue com um exemplo desses. Mas admito que existe uma certa lógica nestes casos de colocar fodido com ser,em vez de estar,porque, seja consensual ou não-consensual, o ato sexual é permanente. Não pode ser desfeito.

      *****

      Depois de minha pequisinha sobre os verbos estar e ser, entendo que a melhor maneira de descrever o péssimo estado de nosso mundo em 2020 é “Estamos fodidos”, exatamente como o meu amigo falou. Mas lembrando que estar se usa para situações temporárias, os desafios que estamos encarando vão passar algum dia. Tenho que acreditar nisso.

      Postado em Covid 19, língua/linguagem/linguistica | 4 Comentários
    • Bilíngue vale por dois

      Posted at 7:51 am by wannabemineiro, on maio 28, 2020

      Eduardo e Mônica eram nada parecidos

      Ela era de leão e ele tinha dezesseis

      Ela fazia Medicina e falava alemão

      E ele ainda nas aulinhas de inglês

      (18º canção: “Eduardo e Mônica”, Renato Russo)

      “Eduardo e Mônica” conta uma história que confirma o dito popular, “os opostos se atraem”. Os dois jovens da música se diferem não apenas em idade, mas também em seus interesses, capacidades e aspirações. Apesar disso, como Renato Russo canta sobre o casal, “ele completa ela / E vice-versa, que nem feijão com arroz”. Por fim, ao encerramento desta exemplar canção de amor, sabemos que Eduardo e Mônica, juntos, viveram felizes para sempre.

      Se pensarmos bem num trecho dos versos acima, a saber, “…e [Mônica] falava alemão / E ele ainda nas aulinhas de inglês”, entendemos que uma diferença entre os jovens pertence a seus conhecimentos de línguas. Sabemos, claro, que Mônica fala português e alemão. Mas será que Eduardo, também, é bilíngue? Parece que não, porque o uso do diminutivo em aulinhas de inglês nos faz pensar que o rapaz está estudando algo básico, talvez até o nível iniciante de “hello, my name is…” Aliás, ele ainda está nessas aulinhas, o que sugere que, ou começou atrasado seus estudos, ou fracassou no cursinho uma ou mais vezes. Seja como for, é difícil para nós imaginar Eduardo falando inglês direitinho. Ele só fala português.

      Outro detalhe revelador do trecho é o uso de nas, em vez de numas, em nas aulinhas de inglês. Embora pareçam minimamente diferentes, estas pequenas palavras sinalizam sentidos distintos no contexto da canção. Se Renato Russo tivesse usado numas na canção, não saberíamos muito sobre o que Eduardo estava estudando, além de ser algum cursinho de inglês. Mas, ao dizer que Eduardo ainda [está] nas aulinhas, o letrista dá a entender que já conhecemos o cursinho, como se fosse uma etapa comum da trajetória estudantil no Brasil. E daí é provável que Mônica, há muito tempo, já tenha passado por esta etapa, o que, por sua vez, nos sugere que a moça não seja bilíngue, senão trilíngue em português, inglês e alemão.

      A escolha de palavras acima é engenhosa porque explora assim chamado ‘ideologias linguísticas’, ou seja, crenças populares sobre a linguagem em geral e o uso de línguas na sociedade. Todos nós temos crenças assim, especialmente sobre como a nossa língua deve ser falada. Por exemplo, entre o par, Me dá o livro e Dá-me o livro, alguns brasileiros diriam que o primeiro soa melhor do que o segundo, outros diriam o oposto, e até outros diriam que usam o primeiro mesmo que seja “errado”. Sem dúvida, esse tipo de julgamento sobre a língua portuguesa é, de algum jeito, baseado no que aprendemos na escola. Mas, a mídia também contribui para a intensificação, modificação ou rejeição de ideologias linguísticas.

      Voltando à canção, Eduardo é um “boyzinho” passivo e ingênuo. Tem interesses comuns, tal como a televisão e o futebol de botão que ele joga com seu avô. Por outro lado, Mônica, confiante e comunicativa, quer conhecer coisas novas. Os filmes de Godard, a poesia de Rimbaud, a música de Bauhaus…ela parece se interessar em tudo. Se juntarmos estes fatos com a questão de dominar outra língua, a mensagem fica clara: ser bilíngue, ou ainda melhor multilíngue, é uma medida de mente aberta, intelectualidade e eloquência. A crença incutida em nós, então, é que, pessoas que falam duas ou mais línguas são globalizadas e bem-sucedidas, exatamente como Mônica.

      Sem dúvida, a capacidade de falar duas ou mais línguas tem um certo prestígio. Como diz o lema de uma escola de línguas particular em São Paulo: “Ser bilíngue vale por dois”.

      Devemos lembrar, porém, que o valor de bilinguismo depende do valor das línguas que são faladas. Muitas vezes, sutis ideologias linguísticas auxiliam a determinar quais línguas são mais valorizadas e quais são menos valorizadas. Por exemplo, no Brasil a língua alemã teve grande valor durante muito tempo, incluindo 1986, o ano em que “Eduardo e Mônica” estreou. Ao ouvir “alemão”, pensamos nas obras-primas de Goethe, na potência da Siemens, e na estabilidade do governo da Bundesrepublik Deutschland. Idealizando o âmbito da língua alemã assim, parece natural respeitar Mônica por falá-la fluentemente. O domínio da língua complementa as outras façanhas e aspirações da jovem brasileira.

      Mas se, em vez de alemão, o letrista tivesse escrito que a moça falava outra língua menos conhecida? Por exemplo, se Mônica falasse o guarani? Eu acredito que ideologias linguísticas nos levaria a entendimentos diferentes com este cenário. A língua guarani não tem muito prestígio fora do Paraguai e algumas aldeias no Brasil, Argentina e Bolívia. Algumas pessoas poderiam até acreditar que o guarani não fosse idioma mesmo, senão dialeto local. Sendo assim, se Mônica falasse guarani, inferíamos talvez que ela não o aprendeu como segunda língua. Longe disso, pensaríamos que Mônica falasse guarani porque fosse guarani, ou ao menos porque, desde pequena, fosse criada num lugar onde se falasse o guarani. É difícil para nós imaginar que, ao contrário do inglês ou alemão, alguém aprenderia guarani à vontade, uma crença linguística que, na verdade, eu acho lamentável.

      Postado em língua/linguagem/linguistica | 2 Comentários
    • Começo com o começo

      Posted at 8:03 am by wannabemineiro, on abril 30, 2020

      Há canções e há momentos

      Em que a voz vem da raiz

      Eu não sei se quando triste

      Ou se quando sou feliz

      Eu só sei que há momentos

      Que se casa com canção

      (17º canção: “Canções e momentos”, Fernando Brant e Milton Nascimento)

      Algumas pessoas me perguntam de onde veio a ideia deste blogue. Meus laços com a língua portuguesa sempre incluiram a música. Como intercambista no Brasil, eu ouvia muita música. E depois do intercâmbio, a música, especialmente de Milton Nascimento, foi a principal maneira que me permitia relembrar aquele tempo especial que passei em Minas. Na verdade, durante muitos anos a voz de Milton servia como porto seguro, o lugar no qual eu podia fugir do dia-a-dia na Califórnia.

      Mas a questão de manter um blogue no qual cada assunto, de algum jeito, combina com as letras de uma música? A formação deste projeto é mais compexa do que uma simples fascinação com as canções de Milton dos anos 70. O que me inspirou a seguir por este rumo de blogueiro tem sua própria história.

      Talvez o primeiro incentivo fosse um blogue que eu encontrei por acaso uns anos atrás. “São Paulo Minha Cidade”, patrocinado por São Paulo Turismo, constitui uma coletânea de histórias e recordações. Fiquei fascinado pela ideia de um site onde qualquer pessoa podia compartilhar escritas. Até hoje, a coletânea contém mais de 8000 postagens de uma variedade impressionante: a primeira boite gay, escondida atrás de um portão modesto, no centro de São Paulo; a passagem dos anos vista de um banquinho público numa rua qualquer; excursões para lugares campestres que atualmente são bairros movimentados da cidade. “São Paulo Minha Cidade” também há postagens em outras línguas, e, por algum tempo, eu pensava que escreveria algo em inglês sobre a cidade da garoa. Mas, enfim, desisti. Embora quisesse escrever sobre o Brasil, sempre me prometi fazer isso em português.

      Para ser honesto, minha paixão pela língua portuguesa e pelo Brasil nunca incluiu muita leitura. Porém, dos poucos que eu conheço, quatro autores brasileiros me inspiraram a escrever. A primeira autora que li com sucesso foi Zélia Gattai. Dois livros dela, Anarquistas graças a Deus e Cittá di Roma, me mostraram que cada família tem uma história importante para contar. Aquele olhar fora do corpo de Malluh Praxedes teve um efeito semelhante sobre mim. Además, a Malluh fala de Minas, meu lugar predileto do Brasil. Estas duas autoras me fizeram pensar em blogueiar sobre minhas experiências como intercambista. As crônicas de Martha Medeiros também me incentivaram porque nelas eu podia ver a riqueza de assuntos inusitados tal como regras de etiqueta para estacionar o carro ou as balinhas da infância. O último autor que me inspirou a escrever foi Jô Soares. Eu achei os diálogos nos romances policias do Jô tão deliciosos que eu me perguntava como escreveria bate-papos no estilo dele.

      O evento que mais deu à luz a este blogue foi quando me deparei com a Rádio Inconfidência na internet. Naquela época, estava descobrindo o grau de emissoras na rede. Procurei “rádio em Belo Horizonte” e, voilà, apareceu um link para a Rádio Inconfidência. Senti muita alegria ao ouvir vozes e música de Minas Gerais! Dois radialistas da Inconfidência me agradaram muito: Tutti Maravilha e Ricardo Parreiras. Ouvir Tutti no seu Bazaar Maravilha é divertidíssimo. Mesmo que sejam rápidos para eu entender tudo, os bate-papos no programa têm uma energia contagiante. Também adoro os avisos que Tutti faz ao público, tal como “Use camisinha!” Ricardo Parreiras tem outro estilo. Seu programa, Clube da Saudade, é de noite e, por isso, ele fica sozinho no estúdio. O que mais gosto deste ilustre radialista é sua maneira de cumprimentar ouvintes pelo nome e local: por exemplo, “Meu abraço para Walkiria Martins de Araújo, nos ouvindo de Itapecerica. Ah, como tem gente boa naquela região.” Pronunciando cada sílaba claramente, a baixa voz de Parreiras sempre me acalma. Faz muitos anos, então, que estou treinando meu ouvido e aumentando o vocabulário com estes dois radialistas formidáveis.

      A Rádio Inconfidência também foi superimportante porque me introduziu às riquezas da música brasileira. Marisa Monte, Vander Lee, Sergio Sampaio, Maysa, Zélia Duncan, Mateus Aleilulia, Belchior, Cássia Eller…tantos artistas que conheci pela Inconfidência!

      Pouco depois que achei a Rádio Inconfidência, eu fiz outra descoberta importante na internet: Letras (letras.mus.br.). Este site me dava as letras de todas as canções que estava escutando no rádio e, mais tarde, YouTube.

      Com estes recursos, passava horas e horas escutando música, estudando letras, e pensando. Cada canção me trazia vários sentidos e sentimentos aos quais eu faria conexões com outro assunto ou com minha vida mesma. A primeira grande conexão que eu fiz foi a questão da tecnologia de hoje vis-à-vis a simplicidade descrita nas letras de “Casa no Campo”. Ou seja, será que Elis Regina, se fosse viva agora, abraçaria toda a tecnologia, algo que parece anular a bela mensagem de sua canção? Pensando nisso, eu decidi escrever uma carta para Elis (na verdade, a segunda postagem). Daí a ideia de um blogue, chamado Cem Canções, Cem Postagens, nasceu mais ou menos rápido.

      Postado em língua/linguagem/linguistica | 2 Comentários
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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