…eu vou surfar, pra esquecer
Vou flutuar nas ondas do mar pra relaxar
Vou surfar pra esquecer
Vou flutuar nas ondas do mar
(34º canção: “Olhos verdes”, Luiz De Assis)
Eu devia ter sete ou oito anos quando vi The Endless Summer (‘O Verão Interminável’). Um dos primeiros documentários sobre o surfe, o filme narra a história de dois jovens surfistas da Califórnia à procura da onda perfeita. Essa missão os levou de um país ao outro, incluindo Senegal, África do Sul, Nova Zelândia e Taiti. Após quase oito meses, perseguindo ondas e dias de verão nos dois hemisférios, os embaixadores de surfe deram a volta ao mundo.
Não lembro se assisti no cinema ou na televisão, mas não importa. O filme sempre ficou comigo. Lembro que as cores azuis do mar na tela me deslumbraram. Havia praias isoladas limpinhas. As cenas de surfe eram empolgantes, especialmente os wipeouts (‘quando caiam da prancha’). Além disso, a fala dos dois surfistas californianos e das pessoas que encontraram durante o projeto era super divertida. De alguma maneira, eu, um menininho do interior da Califórnia, me sentia como se estivesse pegando ondas com a rapaziada bronzeada do filme.
O que mais me impressionou do The Endless Summer foi as ondas que os surfistas pegaram numa linda praia neo-zelandesa chamada Raglan. Segundo o documentário, a arrebentação dessas ondas pode durar até quase um quilômetro. Em um dia de dezembro de 1966 quando os californianos visitaram Raglan, as condições estavam perfeitas. Os surfistas pegavam ondas de um lado da praia e surfavam até o outro lado. Bruce Brown, o narrador do filme, disse que as ondas de Raglan davam caronas mesmo monótonas. Sejam monótonas ou não, lembro claramente das imagens de surfistas, de pé nas suas pranchas, relaxados, curtindo ondas levinhas. Também, lembro pensando que algum dia, não sei como, eu visitaria Nova Zelândia e aquela praia de ondas sem fim.
Rapidamente com passar do tempo até 2002, eu, professor de linguística no Texas, recebi uma oferta de trabalho numa universidade na Nova Zelândia! Enquanto preparava as dúzias de detalhes para essa grande mudança, sempre estava na minha mente o pensamento que, finalmente, poderia visitar Raglan para ver aquelas ondas “monótonas”. De fato, durante meus últimos meses no Texas, busquei na rede uma foto de Raglan, a que instalei como meu protetor de tela. Cada dia que ligava o computador a onda sem fim na tela me seduzia, como se estivesse dizendo, “Vem cá, cara, vem me visitar!”, e eu respondia pensando, “Daqui a pouco, tô chegando!”
Mas, na verdade, nos primeiros dois anos na Nova Zelândia, não fui a Raglan. As exigências do meu novo posto acadêmico eram tão demoradas e estressantes que não tinha tempo para curtir as belezas do país. Enfim, no inverno de 2005, fiz a peregrinação que me prometi fazer quase quarenta anos atrás.
Quando cheguei a Raglan, o tempo estava bem ruim. Fazia frio e chovia um pouquinho. O sol nunca apareceu, então aquelas cores incríveis de azul que lembrei do filme foram substituídas por tons de cinza, verde e negro. Também estava ventando, às vezes tão forte que grãos finos de areia me atingiam. Tudo isso explicava a praia deserta.
Mas, meu objetivo, claro, tinha nada a ver com a praia e tudo com as ondas sem fim. Infelizmente, por causa do vento, as condições do mar estavam completamente diferentes do que as do filme. As arrebentações não chegavam a um quilômetro, de jeito nenhum. A extensão de cada onda media, talvez, 300 ou 400 métros só. Mas se o comprimento da arrebentação não deu certo, a altura de cada onda e a quantidade d’água nela serviram para me impressionar. As ondas naquele dia de julho estavam poderosas e imprevisíveis.
Só tinha um surfista enfrentando esse mar. Protegido da água fria pela sua roupa de neoprene, que incluia touca, luvas e botinhas, ele parecia um guerreiro ninja na prancha, pegando ondas agilmente. Mas também sofreu alguns wipeouts dramáticos. Quando isso aconteceu, o surfista sumia sob a brancura de uma onda quebrada e emergia depois, bem longe de onde tinha caído. Nada de monótono nas caronas que esse rapaz conseguiu pegar!
Recentemente, eu vi The Endless Summer novamente na televisão. Embora o papo ingênuo dos jovens surfistas não me divertisse mais, as imagens de praia, mar e surfe continuaram a ser super atraentes. E essa vez, quando Raglan apareceu na tela, senti um grande orgulho, pois essa praia, famosa por suas ondas sem fim, fica perto da minha casa.
