Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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      Posted at 3:54 pm by wannabemineiro, on novembro 4, 2021

      …eu vou surfar, pra esquecer

      Vou flutuar nas ondas do mar pra relaxar

      Vou surfar pra esquecer

      Vou flutuar nas ondas do mar

      (34º canção: “Olhos verdes”,  Luiz De Assis)

      Eu devia ter sete ou oito anos quando vi The Endless Summer (‘O Verão Interminável’). Um dos primeiros documentários sobre o surfe, o filme narra a história de dois jovens surfistas da Califórnia à procura da onda perfeita. Essa missão os levou de um país ao outro, incluindo Senegal, África do Sul, Nova Zelândia e Taiti. Após quase oito meses, perseguindo ondas e dias de verão nos dois hemisférios, os embaixadores de surfe deram a volta ao mundo.

      Não lembro se assisti no cinema ou na televisão, mas não importa. O filme sempre ficou comigo. Lembro que as cores azuis do mar na tela me deslumbraram. Havia praias isoladas limpinhas. As cenas de surfe eram empolgantes, especialmente os wipeouts (‘quando caiam da prancha’). Além disso, a fala dos dois surfistas californianos e das pessoas que encontraram durante o projeto era super divertida. De alguma maneira, eu, um menininho do interior da Califórnia, me sentia como se estivesse pegando ondas com a rapaziada bronzeada do filme.

      O que mais me impressionou do The Endless Summer foi as ondas que os surfistas pegaram numa linda praia neo-zelandesa chamada Raglan. Segundo o documentário, a arrebentação dessas ondas pode durar até quase um quilômetro. Em um dia de dezembro de 1966 quando os californianos visitaram Raglan, as condições estavam perfeitas. Os surfistas pegavam ondas de um lado da praia e surfavam até o outro lado. Bruce Brown, o narrador do filme, disse que as ondas de Raglan davam caronas mesmo monótonas. Sejam monótonas ou não, lembro claramente das imagens de surfistas, de pé nas suas pranchas, relaxados, curtindo ondas levinhas. Também, lembro pensando que algum dia, não sei como, eu visitaria Nova Zelândia e aquela praia de ondas sem fim.

      Rapidamente com passar do tempo até 2002, eu, professor de linguística no Texas, recebi uma oferta de trabalho numa universidade na Nova Zelândia! Enquanto preparava as dúzias de detalhes para essa grande mudança, sempre estava na minha mente o pensamento que, finalmente, poderia visitar Raglan para ver aquelas ondas “monótonas”. De fato, durante meus últimos meses no Texas, busquei na rede uma foto de Raglan, a que instalei como meu protetor de tela. Cada dia que ligava o computador a onda sem fim na tela me seduzia, como se estivesse dizendo, “Vem cá, cara, vem me visitar!”, e eu respondia pensando, “Daqui a pouco, tô chegando!”

      Mas, na verdade, nos primeiros dois anos na Nova Zelândia, não fui a Raglan. As exigências do meu novo posto acadêmico eram tão demoradas e estressantes que não tinha tempo para curtir as belezas do país. Enfim, no inverno de 2005, fiz a peregrinação que me prometi fazer quase quarenta anos atrás.

      Quando cheguei a Raglan, o tempo estava bem ruim. Fazia frio e chovia um pouquinho. O sol nunca apareceu, então aquelas cores incríveis de azul que lembrei do filme foram substituídas por tons de cinza, verde e negro. Também estava ventando, às vezes tão forte que grãos finos de areia me atingiam. Tudo isso explicava a praia deserta.

      Mas, meu objetivo, claro, tinha nada a ver com a praia e tudo com as ondas sem fim. Infelizmente, por causa do vento, as condições do mar estavam completamente diferentes do que as do filme. As arrebentações não chegavam a um quilômetro, de jeito nenhum. A extensão de cada onda media, talvez, 300 ou 400 métros só. Mas se o comprimento da arrebentação não deu certo, a altura de cada onda e a quantidade d’água nela serviram para me impressionar. As ondas naquele dia de julho estavam poderosas e imprevisíveis.

      Só tinha um surfista enfrentando esse mar. Protegido da água fria pela sua roupa de neoprene, que incluia touca, luvas e botinhas, ele parecia um guerreiro ninja na prancha, pegando ondas agilmente. Mas também sofreu alguns wipeouts dramáticos. Quando isso aconteceu, o surfista sumia sob a brancura de uma onda quebrada e emergia depois, bem longe de onde tinha caído. Nada de monótono nas caronas que esse rapaz conseguiu pegar!

      Recentemente, eu vi The Endless Summer novamente na televisão. Embora o papo ingênuo dos jovens surfistas não me divertisse mais, as imagens de praia, mar e surfe continuaram a ser super atraentes. E essa vez, quando Raglan apareceu na tela, senti um grande orgulho, pois essa praia, famosa por suas ondas sem fim, fica perto da minha casa.

      Postado em Aotearoa New Zealand | 2 Comentários
    • Bob Marley na Nova Zelândia

      Posted at 4:09 pm by wannabemineiro, on setembro 30, 2021

      Quando ele explodiu pelo mundo

      Ele lançou seu brilho de beleza

      Bob Marley pra sempre estará

      No coração de toda a raça negra

      (33º canção: “Brilho de beleza”,  Negro Tenga)

      Durante muitos anos, no começo do meu curso de linguística introdutória, eu sempre tentava entreter os calouros assim:

      – Que bom receber vocês na minha aula hoje! Pois, vocês são tão jovens, sãos, e famintos para viver. Suas vidas estão começando e tenho certeza que vai ter muitas escolhas e oportunidades diante de vocês. Isso é empolgante e estou feliz por vocês!

      Logo em seguida, o tom de minha voz ficava menos positivo:

      – Entretanto, eu já fiz minhas escolhas, algumas boas e outras ruins. Nesta fase da minha vida, eu tenho que seguir dieta especial, não durmo muito bem, esqueço nomes etc, etc. Chatices de envelhecimento. Mas, pelo menos, posso dizer que, muitos anos atrás em Los Angeles, vivenciei alguma coisa que vocês nem podem imaginar: eu vi um show de Bob Marley!

      Ao ouvir esta vanglória ridícula, era óbvio que alguns estudantes nem sabiam quem era Bob Marley enquanto outros mostravam uma certa inveja de mim.

      ****************

      Na verdade, como eu descobri depois, existe um laço forte entre Bob Marley e a Nova Zelândia. Embora o cantor jamaicano passasse apenas dois dias no país em 1979, ele deixou uma marca inesquecível.

      O concerto que Bob Marley & The Wailers fizeram ao ar livre em Western Springs em Auckland era uma escala de sua turnê mundial. Acabaram de fazer seis shows no Japão e logo após a curta estadia na Nova Zelândia, fariam oito outros na Austrália. No dia antes do show em Auckland, tinha uma chuvarada forte. Os organizadores do evento se preocuparam que a grama surrada diante do palco desencorajaria pessoas de irem ao local.  Mas, afinal das contas, e tal como o enlameado Woodstock, o concerto em Western Springs foi um grande sucesso com mais de 20.000 fãs “kiwis” aproveitando os ritmos do rei de reggae.

      Naquela época, a mensagem importante de justícia social em canções como Get up, stand up ou Them belly full (but we hungry) refletiam realidades vividas na Nova Zelândia, especialmente por membros das comunidades maori e polinesiana. Durante alguns anos, por exemplo, ativistas maori como Dame Whina Cooper praticaram resistência pacífica para protestar as desigualdades que o Tangata Whenua (‘pessoas da terra’) estavam sofrendo na Nova Zelândia. Aos poucos, com esses esforços se abriram mais oportunidades para a comunidade maori e, em 1975, o Tangata Whenua e o governo neo-zelandês estabeleceram uma comissão permanente de inquérito para investigar denúncias do povo maori contra a Coroa. Muito trabalho ainda era preciso, mas essa nova comissão constituiu um passo importante na luta para desfazer as injustiças do passado e garantir os direitos dos maoris.

      Quanto as comunidades polinesianas, existia também bastante injustiça. O mais trágico exemplo disso foi os Dawn Raids (‘invasões de madrugada’), uma iniciativa do governo nos anos 70 para expulsar pessoas que vieram das ilhas do Pacífico. Embora os polinesianos apreendidos fossem imigrantes ilegais, e portanto, sujeitos a expulsão, um inquérito mais tarde revelou que naquele tempo havia outros imigrantes ilegais, principalmente da Inglaterra e dos Estados Unidos, que as autoridades da imigração deixaram permanecer na Nova Zelândia. Em 2021 a Primeira Ministra, Jacinda Ardern, pediu desculpas à comunidade polinesiana pelo que passou nos Dawn Raids, mas na época do show do Marley, o governo neo-zelandês foi relutante em admitir que as invasões das casas polinesianas pela polícia estavam mesmo acontecendo.

      Pouco depois do concerto em Western Springs, houve outro exemplo importante de ativismo social que tocou o país inteiro: manifestações contra o apartheid durante uma turnê dos Springboks, o time sul-africano de rugbi. Num período de quase dois meses em 1981, os Springboks iam jogar partidas amistosas contra vários times neo-zelandeses. No entanto, em cada cidade da turnê havia milhares de neo-zelandeses protestando nas ruas e mesmo no campo das partidas. Algumas partidas foram canceladas por causa disso, outras jogadas mas bem controversas. Embora Bob Marley tivesse falecido alguns meses antes da turnê dos Springboks, ele teria ficado feliz em ver neo-zelandeses de todos os horizontes, juntos, protestando as injustiças do apartheid.

      Na única entrevista que deu durante sua estadia na Nova Zelândia, Marley explicou que sua música, tanto o ritmo quanto as letras, tinha um feel (‘sentido’). Já faz mais de quarenta anos que Bob Marley & The Wailers tocaram em Western Springs, mas o reggae, inclusive a música de grupos locais, continua popular. O feel de Bob Marley ainda nos toca aqui na Aotearoa Nova Zelândia.

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    • Cadê o Jack?

      Posted at 6:32 pm by wannabemineiro, on setembro 2, 2021

      Cadê você

      Que nunca mais apareceu aqui

      E não voltou pra me fazer sorrir

      Então cadê você

      (32º canção: “Cadê você?”,  José Odair)

      No centro de Oamaru antigo, em frente ao renomado prédio calcário do Banco Nacional, uma placa de trânsito alerta motoristas sobre um perigo possível nas ruas: pinguins atravessando. Amarela com o vulto negro de um pinguim a pé, a placa parece deslocada, até uma piada ou, talvez, um truque engenhoso para aumentar o valor turístico da cidade.

      Foi assim que pensei quando vi a placa pela primeira vez. Não quero dizer que pinguins são alheios à região. A dois quilômetros de Oamaru, nas margens de uma pedreira velha, há uma colônia de pinguins-azul que, protegida pela prefeitura, se tornou grande atração turística. Mas, pinguins dentro da cidade, atravessando a rua principal como se fossem pedestres bem vestidos? Isso eu não conseguia acreditar.

      Nós chegamos a Oamaru durante as férias escolares. Nos dois dias que ficamos lá, visitamos todas as atrações da região: uma praia com seixos gigantes, diversos prédios no bairro vitoriano, o jardim botânico, uma fábrica de queijo artesanal e, claro, a colônia de pinguins.

      Essa colônia é a maior atração de Oamaru. Toda noite, logo depois do pôr do sol, as aves voltam do mar depois de um longo dia pescando peixinhos. O regresso para casa parece dificílimo. Os pinguins saem do vai-e-vem violento do mar e escalam um barranco íngreme e rochoso rumo a uma clareira plana. É nesta área onde turistas, sentados em arquibancadas, podem observar a chegada deles sem serem vistos. Os pinguins descansam um pouco no capim da clareira e daí prosseguem até desaparecerem sob uma cerca de madeira que protege o local de nidificação.

      Durante nossa visita à colônia, a ornitóloga do local nos informou que grupos de pinguins – “ondas” foi a palavra que ela usou – estariam chegando no decorrer de mais ou menos noventa minutos. Cada onda teria até uma dúzia de aves e se tivéssemos sorte, veríamos então entre sessenta e cem pinguins naquela noite.

      Ela disse também que a primeira onda ia chegar. Era preciso que ficássemos sentados sem se mexer. Enfim, nos pediu para não filmar a chegada porque isso poderia assustar os pinguins.

      Ansiosos e quietinhos, esperamos a primeira onda. Todo mundo observava a beira do barranco. Após alguns minutos, percebemos um movimento na escuridão e, voilà, um pequeno pinguim-azul entrou na clareira. Pouco depois, apareceram outros quatro. Tenho certeza que todos nós, embora silenciosos, estávamos super-animados ao vermos cinco pinguins se balançando na brisa fria, bem em frente à arquibancada! Daí, após alguns momentos, os pinguins se afastaram e desapareceram sob a cerca.

      Havia pouco tempo para refletir sobre o que acabávamos de testemunhar pois a segunda onda já chegaria em breve. Esta onda decorreu mais ou menos como a primeira. Um pinguim apareceu sozinho, depois outros sete se juntaram ao primeiro, e todos descansaram no capim. Mas dessa vez, enquanto sete pinguins foram para a segurança dos ninhos cercados, um pinguim permaneceu na área aberta. Meio inquieto, ele estava perto da beira do barranco, olhando para o mar. Parecia que esperava alguma coisa ou alguém. Eu me lembro pensando, “o que é que tem esse coitadinho?”

      Quando a terceira onda surgiu do barranco, o pinguim solitário cutucou os recém-chegados ligeiramente com seu bico. Era como se estivesse verificando a identidade de cada um para ver se correspondia ao amigo que procurava ou se sabia sobre o paradeiro dele.

      O pinguim, desorientado, ficou na clareira e continuou a “interrogar” os conterrâneos que chegavam na quarta e quinta ondas. E cada vez foi a mesma coisa: ao surgir do barranco, os outros pinguins recebiam o seu toque e, inesperadamente, após todas as ondas, o solitário não voltou com os outros para a zona de ninhos.

      Não sei porque, mas enquanto eu estava vendo esse encontro de pinguins, comecei a imaginar eles se falando, como se fosse um filme animado da Disney. A conversa tragicómica se desenvolvia mais ou menos assim:

      – Cadê o Jack? Você viu?

      – Não sei. Estava contigo, não estava?

      – Sim, estávamos juntos mas a última arrebentação nos separou.

      – Não vi, não, mano. Ei, pessoal! Alguém viu o Jack?

      – Eu não.

      – Nem eu.

      – Também não viu, não.

      – Ai, meu Deus! Cadê o Jack? Prometi à sua mãe que eu cuidaria dele durante a pesca. (gritando) Jack?! Cadê você?

      O coitado não conseguiu se acalmar durante as últimas ondas de pinguins. Ficou na beira do barranco, sozinho, perguntando pelo “Jack”, o seu grande amigo que ainda não tinha chegado e que talvez não voltasse do mar.

      Pouco depois, a ornitóloga nos disse que, embora pudesse haver mais uns pinguins chegando atrasado, o “show” de pinguins já tinha acabado por aquela noite. Todos os turistas saíram da arquibancada em silêncio, deixando na clareira o pinguim solitário que vigiava o mar abaixo.

      Voltando para o hotel na escuridão da noite, eu dirigi com muito cuidado. Entrei no centro histórico de Oamaru e, de repente, tive que parar o carro. Tinha algum movimento em frente de mim. Pisquei os olhos, uma, duas vezes. Inacreditavelmente, vi dois pinguins atravessando a rua. Eu me perguntei, “Será que um deles é o Jack?”

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    • Dois hotéis (ii)

      Posted at 10:48 am by wannabemineiro, on agosto 12, 2021

      Caviar é comida de rico

      Curioso fico

      Só sei que se come

      Na mesa de poucos

      (31º canção: “Caviar”,  Zeca Pagodinho)

      A segunda metade de nossa estadia em Auckland foi na cidade mesmo. Saímos da ilha de Great Barrier de aviãozinho e, depois de um vôo de 40 minutos e mais ou menos 20 minutos de táxi, chegamos ao nosso hotel no centro.

      Salvo o preço, este hotel era completamente diferente do que o de Great Barrier.

      Quando entramos no prédio, eu fiquei fascinado pela multidão no saguão. Três ou quatro balconistas ajudavam hóspedes, enquanto dois mensageiros aguardavam em frente da porta principal. Além dos empregados, o saguão estava cheia de participantes de algum congresso que se realizava dentro do hotel. Talvez seja exagero, mas parecia que estávamos vendo mais pessoas durante nosso check–in do que nos três dias que ficamos na Great Barrier.

      Era impressionante como o hotel dava importância à segurança de cada hóspede. Para subir no elevador era preciso passar um cartão magnético num pequeno scanner. Nós usamos o mesmo cartão para abrir a porta do apartamento. No fundo de um armário em nosso quarto havia um cofre eletrônico no qual podíamos guardar o laptop, documentos, e dinheiro. Juntos, o cartão e o cofre, serviram para nos lembrar que pessoas em Auckland, como as de qualquer centro urbano de hoje em dia, podiam vivenciar crimes e delitos. 

      Quando entramos em qualquer acomodação pela primeira vez, gostamos de explorá-la e avaliar cada conveniência oferecida ao hóspede. Neste caso, o apartamento do hotel no centro não nos decepcionou. A primeira coisa que reparamos foi a televisão grande afixada na parede. Liguei-a e depois de um ou dois minutos mudando de canais, entendi que tinham seis canais só de filmes. Sem dúvida, desfrutaríamos de nosso cinemazinho toda noite. O apartamento também tinha uma pequena cozinha que oferecia um monte de coisa deleitável para comer e beber. Havia salgadinho, chocolate, biscoito, vinho, cerveja etc. Mas tudo custava muito dinheiro, quase como se fosse caviar, e, assim, decidimos desistir dessa fartura. No banheiro moderno, encontramos um chuveiro multifuncional, xampus e sabonetes naturais, e grandes toalhas luxuosas. Enfim, a última característica positiva de nosso apartamento foi a vista. Embora não podiamos abrir a grande janela do quarto – o que nos abrigou do barulho do tráfego na rua em baixo – ela se deu sobre o centro de Auckland. Toda noite, do outro lado dessa janela, centenas de luzes brilhavam, uma vista completamente diferente do que aquela da escuridão da Great Barrier.

      O preço que pagamos pelo apartamento incluiu o uso ilimitado de um imenso spa no terraço do hotel. A JJ adorou isso porque o anexo lhe lembrava dos onsen-hotels (‘hotéis termais’) no Japão. No ar livre do terraço havia piscina aquecida e uma jacuzzi quentinha. Ambos lugares eram agradáveis à noite quando os arranha-céus adjacentes estavam bem iluminados. O spa também oferecia massagistas, sauna, e um corredor de chuveiros que dava a impressão de caminhar sob um chuvisco quente.

      Mesmo com o spa, mesmo com os detalhes luxuosos de nosso apartamento, o que mais me agradou do hotel foi sua localização pertinha de uma zona cheia de restaurantes. As opções gastronômicas eram incríveis: bolinhos chineses, comida coreana, sopas malaias picantes, crepes franceses, até pão de queijo vendido numa pequena barraca. Era impossível provar toda a comida que se vendia perto do hotel. Entretanto, em Great Barrier tinha só três escolhas na ilha inteira: uma pizzaria bem comum, uma loja de fish and chips (‘peixe com batatas fritas’), ou um restaurante tailandês ótimo mas caríssimo.

      Ao pensar em nossa estadia recente em Auckland, estou feliz que podíamos vivenciar estes dois hotéis tão diferentes na mesma cidade. O hotel da Great Barrier era bonito, tranquilo, e, sendo desligado da rede nacional de eletricidade, simples, rústico mesmo. Ao contrário, o hotel no centro nos oferecia tantos confortos que ficamos mimados. Também estou feliz que nos alojamos primeiro na Great Barrier e segundo no centro de Auckland porque se fosse o inverso seria difícil aceitar a simplicidade do hotel na ilha depois de ter curtido os luxos do outro.

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    • Dois hotéis (i)

      Posted at 6:54 pm by wannabemineiro, on julho 29, 2021

      Café tá quente no fogo

      Barriga não tá vazia

      Quanto mais simplicidade, ai ai

      Melhor o nascer do dia

      (30º canção: “Simplicidade”,  John Ulhoa)

      A maior cidade na Nova Zelândia é Auckland. Mais do 1.400,000 pessoas, quase um terço da população do país, moram nesta cidade. Localizada num istmo estreito da Ilha Norte, Auckland têm dois litorais. O lado oeste da cidade é banhado pelo Mar Tasman e o lado leste pelo Oceano Pacífico. A cidade também inclui uma dúzia de pequenas ilhas no Pacífico.

      Recentemente, eu e a JJ passamos quase uma semana em Auckland. Os primeiros três dias estivemos numa ilha que fica 80 quilômetros em linha reta do centro da cidade. Depois desta estadia na ilha, passamos três dias no centro. Como se pode imaginar, estas duas partes da cidade diferem demais. Isto foi talvez mais evidente nos hotéis onde ficamos.

      Embora fosse fora da temporada de verão, o hotel na Ilha de Great Barrier custou bastante. Tínhamos reservado um apartamento grande com varanda que dava ao mar. Mas quando chegamos às 15 horas a este hotel caro, não tinha ninguém. Afixado na porta trancada da recepção, um bilhete escrito à mão nos aguardava:

      “Peter, que sejam bem-vindos a Great Barrier! Eu tinha que ir ao médico mas deixei aberto seu apartamento, o número 5. A chave está na mesa na cozinha. Que aproveitem! Mari”

      Ao entrar no número 5, vimos que o apartamento era grande e com uma vista incrível do mar, exatamente como queríamos.

      Ao lado da chave na mesa se achava uma lista de informações sobre o apartamento. Lendo-a, entendemos imediatamente que estávamos num imóvel isolado e rústico. Muitas informações eram formuladas como solicitações mesmo:

      • Por gentileza não gaste muita água porque a única água do hotel vem da chuva.
      • Por gentileza use a privada com cautela. Não descarte absorventes ou camisinhas no vaso. A pressão d’água do hotel é fraca então é muito fácil de entupir o encanamento.
      • Por gentileza, leve qualquer lixo consigo quando deixar a Ilha Great Barrier, porque o lixão na ilha é só para residentes.

      O que mais nos surpreendeu foi a solicitação sobre o uso de eletricidade:

      • Por gentileza, use eletricidade com moderação. A Ilha de Great Barrier está desligada da rede nacional então precisamos gerar nossa própria eletricidade.

      Por causa dessa escassez de eletricidade, tinha um conjunto de panéis solares no telhado do hotel. De fato, parecia que qualquer telhado voltado ao norte tinha panéis. Mas claramente estes não geravam eletricidade suficiente porque, das 8:30 até às 11 horas e das 17:30 até às 19 horas, o hotel ligava um grande gerador a diesel. Achamos o gerador bem chato: o barulho do motor encobria o som das ondas leves da praia. Na verdade, nosso apartamento não precisava de muita eletricidade. A geladeira era pequena, as luzes fraquíssimas e a televisão não funcionava. Além de uma tomada USB para carregar o celular, o apartamento oferecia nenhuma tomada elétrica. A cozinha não tinha nada de eletricidade, nem torradeira, nem chaleira. Se quisesse cozinhar precisava usar um fogãozinho de gás propano.

      Qual o resultado dessa falta de eletricidade no hotel? Uma estadia muito simples e, à noite, o espetáculo da escuridão que cobria a ilha inteira. Toda noite, quando o gerador do hotel tinha desligado, sentávamos na varanda, escutando a música das ondas e estudando as milhares de estrelas cintilando em cima de nós. Foi por isso que viemos a Great Barrier.

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    • Nadada inquietante (ii)

      Posted at 6:58 pm by wannabemineiro, on julho 15, 2021

      quem me ensinou a nadar

      quem me ensinou a nadar

      foi, foi marinheiro

      foi os peixinhos do mar

      (29º canção: “Gente que vem de Lisboa”,  Renato Teixeira)

      Mais de quinhentos nadadores, inclusive umas trinta pessoas sem wetsuit (‘roupa de neoprene’), se reuniram na praia para ouvir as instruções de segurança da nadada de inverno. Antes de falar, o organizador da prova nos olhou por alguns momentos bem sério. Explicou que, como qualquer prova no mar aberto, havia perigos que deviam ser respeitados. Mas nessa tarde em julho a água estava a 13.9°C, uma temperatura que aumentava os perigos. O organizador nos alertou:

      – Por favor, não seja herói nesta prova. Obedeça ao seu corpo. Se não se esquentar depois de três ou quatro minutos de braçadas, chame o salva-vidas e saia da água imediatamente.

      Estas palavras do organizador me assustaram e comecei a me duvidar. O que diabos estou fazendo aqui nessa praia? Porque eu me inscrevi nessa? Realmente serei capaz de fazer isso? Mas minha vacilação desapareceu quando a buzina de largada tocou. Como um lemingue, eu segui os outros e entrei no mar.

      Não lembro muito dos primeiros 250 metros da prova. Depois de mergulhar na arrebentação, eu senti a água geladíssima se infiltrando sob meu wetsuit. Tremia do frio enquanto me afastei da praia. Por um momento nadei ao lado de um veleiro ancorado na enseada. Ao virar a cabeça para respirar, lembro vendo pessoas no convés, confortáveis de parca grossa, vinho na mão, assistindo à prova. Ocorreu-me que esses velejadores deviam achar que nós éramos loucos.

      Passando a primeira boia, eu percebi que, salvo no rosto e nos pés, não estava sentindo muito frio. O wetsuit e a touca atuavam como proteção da água, exatamente como deviam. E com esse entendimento, deixei minha preocupação do frio e comecei a disfrutar da nadada.

      O que me surpreendeu dessa nadada foi os engarrafamentos enquanto os nadadores circulavam as boias do percurso. Era muito fácil receber, ou dar, pontapés ou palmadas na cabeça de pessoas nadando perto de você. Na terceira boia, eu mesmo sofri uma grande bofetada. Mas tanto faz, continuei nadando.

      Entre as boias a prova ficou mais tranquila porque tinha mais espaço para me distanciar dos outros. Mesmo assim, e diferente de outras provas que já fiz, eu nunca me sentia sozinho na água. Com tantos participantes na prova, sempre havia nadadores em volta de mim. Depois da quarta boia, eu vi, nadando ao meu lado direito, uma jovem mulher de biquíni. Queria continuar nadando com ela mas não consegui o ritmo dela. Aos poucos, essa visão agradável e rara sumiu. Os próximos nadadores que eu vi eram pessoas de meia idade em neoprene, exatamente como eu.

      Quando estava na parte mais profunda da enseada, outro pensamento entrou na minha cabeça: talvez tubarões estivessem nadando em baixo de mim. Acelerando um pouco por causa dessa preocupação, de repente me lembrei da história trágica de um tiroteio na Noruega em 2011. O atirador, Breivik, assassinou quase setenta jovens encurralados numa pequena ilha rochosa. Mas, milagrosamente, uma meia dúzia de jovens se salvaram da morte certa por nadar seiscentos metros através das águas geladas do fiorde. Quando chegaram ao outro lado, estavam sofrendo de hipotermia, mas estavam vivos. Enquanto eu nadava na enseada, a coragem desses nadadores noruegueses me acalmava, me inspirava mesmo.

      Quando circulei a última boia, sabia que só me faltava uns quinhentos metros. Dentro de alguns minutos, o fundo arenoso da enseada estava quase ao meu alcance. Fiz mais duas ou três braçadas e me levantei. Corri até a praia e cruzei a linha de chegada.

      Sobrevivi a nadada de inverno.

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    • Nadada inquietante (i)

      Posted at 3:00 pm by wannabemineiro, on junho 30, 2021

      se você sabe nadar

      menina tome cuidado

      vê se você não afunda

      se você afundar

      eu vou morder a sua bunda

      (28º canção: “A dança do tubarão”,  Iran Costa)

      Eu adoro nadar. Quando eu era menino, passava horas e horas na água com minha mãe, meus irmãos e meus amigos. A natação se tornou muito natural para mim.

      Geralmente, eu nadava em piscinas particulares ou públicas. No verão o cabelo e a pele cheiravam dessas piscinas. Os olhos ficavam vermelhos e irritados pelo cloro, como se eu fosse drogado. Além de piscinas, eu também ia nadar em outros lugares. Nadava em lagos e rios, enseadas e portos, cisternas e lagoas. E, pelo menos duas ou três vezes por ano, entrava no mar. Nadar no mar era sempre impressionante porque parecia que foi só eu numa imensidão azul que podia mudar instantaneamente. O mar precisava ser respeitado.

      Depois de ter me aposentado três anos atrás, comecei a competir em provas no mar aberto. Tipicamente, uns 200 ou 300 pessoas participam nestes eventos que são de dois a quatro quilômetros. Todo mundo começa a nadada da praia. Entra na água correndo e nada ao longo de um circuito indicado por boias amarelas ou vermelhas. No trecho final da prova, o nadador tem que sair da água e correr na praia até a linha de chegada.

      Se o mar estiver movimentado, situação frequente na Nova Zelândia, a prova fica mais complicada. Pode ser que o nadador, sem ver as boias claramente, desvie do trajeto mais direto. Isto quer dizer que, embora um evento seja de, por exemplo, 2,5 quilômetros, o atleta pode nadar duzentos ou trezentos metros extras por causa de desvios cansativos. Por isso, durante qualquer prova em água aberta é muito importante levantar a cabeça às vezes e olhar para as boias.

      Todo verão eu me inscrevo em várias provas de mar aberto. Mas este ano decidi tentar algo diferente: uma nadada no inverno. Eu sei que estou em forma para este evento de dois quilômetros porque nado pelo menos sete quilômetros por semana na piscina pública. Mesmo assim, eu tenho duas preocupações específicas desta próxima competição.

      O frio me preocupa muito. A temperatura da água vai ser uns 15 ou 16 graus, bem mais gelado do que a água durante o verão. Por causa disso, os organizadores da prova determinam que todo mundo use wetsuit (‘roupa de neoprene’) durante a nadada. Tenho wetsuit, mas estou com medo que não vai ser suficiente para o evento. Pois, eu sinto o frio facilmente.

      Outro dia nadei sem wetsuit num lago, só para ver como seria. Nossa, que frio que senti no momento de entrar na água! Minha cabeça doía enquanto eu nadava. Aguentei os 14 graus da água por mais ou menos oito minutos. Logo depois, tinha que sair do lago. Para completar a próxima prova, vou precisar de 35 minutos, talvez mais, dependendo das condições. Pelo menos, estarei nadando de wetsuit e touca.

      Minha outra preocupação é tubarão. Tubarões-brancos têm sido vistos raramente nas praias da Nova Zelândia, mas isso não quer dizer que não estarão nadando na área. Felizmente, um navio da Guarda Costeira neo-zelandesa vai vigilar a prova atentamente. Tomara que seu sonar localizador de peixes detecte só pinguins, medusas e criaturas de neoprene.

      Postado em Aotearoa New Zealand | 1 Comentário
    • Blog ou blogue, post ou postagem?

      Posted at 6:49 pm by wannabemineiro, on maio 27, 2021

      Um idiota em inglês

      Se é idiota, é bem menos que nós

      Um idiota em inglês

      É bem melhor do que eu e vocês

      (27º canção: “A melhor banda de todos os tempos da última semana”,  Branco Mello & Sérgio Britto)

      Quando comecei este projeto de escrever em português, decidi que escreveria um “blogue” e que cada texto carregado nele seria uma “postagem”. Ou seja, tomei decisão consciente de evitar o uso das palavras inglesas, blog e post. Esta decisão parece contrariar a da maioria dos blogueiros brasileiros que, apesar de escrever em português, usam blog e post nos seus textos. (Nota-se bem que esta última observação não é baseada em qualquer pesquisa rígida, apenas em minhas visitas a vários blogues brasileiros durante muitos anos.)

      Podemos perguntar, então, quais palavras devemos usar? Blog ou blogue? Post ou postagem?

      Na verdade, não importa. O blogueiro escrevendo em português tem a liberdade de usar as palavras que quiser. Não há uma empresa editorial no Brasil que está controlando o português dos textos na rede. O sucesso ou falha de um blogue é a responsabilidade da própria pessoa escrevendo, carregando e divulgando os textos, ninguém mais. Isso é óbvio. Mas ao mesmo tempo é interessante considerar o que um simples escolha de palavras pode sugerir ao leitor. Se usamos blog e post, estamos dando um saborzinho inglês ao texto, e se usamos blogue e postagem, estamos abrasileirando dois termos da mídia social que originaram num âmbito anglófono.

      Já li comentários de pessoas que acreditam que o uso de palavras estrangeiras como blog ou post é algo ruim. Preocupam-se que a língua portuguesa esteja sofrendo incursões de outras línguas, especialmente o inglês. Acham que brasileiros, principalmente jovens, usam estrangeirismos demais para exprimir idéias e sentidos para quais a língua portuguesa já tem palavras. Enfim, se deixa a situação continuar assim, sem controle, a alma da língua portuguesa vai ser cada dia mais comprometida.

      Embora seja comum, este tipo de preocupação sobre a pureza de um idioma é inútil e, na minha opinião, equivocada. O português, como qualquer outra língua, está se evoluindo constantemente. Se o povo quer usar estrangeirismos, vai usá-los.

      Mesmo que tenha orígens numa outra língua, o momento que se usa um estrangeirismo, a palavra “emprestada” vai ser alterada para que caiba bem no novo idioma. Por exemplo, considerando a palavra drinque (< Ing. drink), vemos que a forma escrita se substitue a letra “q” por “k”, que não se usa frequentemente em português. Mais importante ainda, ao adaptar drinque assim, a palavra se torna bissilábica, seguindo a regra de pronúncia que proíbe sílabas fechadas com consoantes plosivas, ou seja, as letras “b, p, d, t, g” ou “q”. Retornando à palavra inglesa blog, é interessante notar que mesmo escrita assim, alguém dizendo a palavra em português a pronunciaria como “blogue”, obedecendo a mesma regra aplicada no caso de drinque. E para as pessoas que usam post, em vez de “postagem”, tenho certeza que a regra aplicaria também: post seria pronunciada como “pos” ou “poste”. A final de contas, escrita na forma original ou numa forma abrasileirada, cada estrangeirismo vai ser pronunciado como se fosse uma palavra portuguesa.

      Estrangeirismos obedecem outras regras sobre a formação e classificação de palavras. Geralmente, substantivos em inglês não tem gênero específico mas quando uma palavra inglesa é emprestada pela língua portuguesa, a palavra precisa ter um gênero, ou seja, masculino ou feminino. As palavras blog (ou blogue) e post são tratadas como palavras masculinas. Assim, O blog famoso têm muitos posts soa natural mas A blog famosa têm muitas posts soa meio estranho. Há outras provas morfológicas que mostram que estrangeirismos seguem as regras da língua adotando a palavra. Por exemplo, se alguém tem um blogue muito grande ou importante, podemos descrevê-lo como blogão ou bloguezão ou mesmo blogaço; mas se o blogue é nada especial e pequeno, como meu blogue, por exemplo, podemos descrevê-lo como bloguinho ou bloguezinho. Também podemos construir outras “novas” palavras com o estrangeirismo. De blogue, por exemplo, podemos falar de blogueiros blogueando no blogosfero.

      Enfim, blog e post se comportam como se fossem palavras portuguesas. Ademais, é possível que, ao longo de séculos, estrangeirismos como estes vão ser considerados como palavras nativas. Pois, quantas pessoas hoje em dia sabem que laranja (< ár. nâranja), trem (< fr. train)e esquerda (basco ezker) entraram no português como estrangeirismos?

      Postado em língua/linguagem/linguistica | 4 Comentários
    • Geometria de tristeza

      Posted at 4:46 pm by wannabemineiro, on maio 11, 2021

      o

      drone

      da Cidade,

      ponto celeste

      pesado, insolente,

      vela as formas abaixo.

      além da muralha tropical,

      vê-se o clarão roxo, marcado,

      tabuleiro de retângulo escavado.

      a máquina de ferro canarinha ronca,

      agarra terra, dobra, gira, esvazia, e volta

      para abrir mais uma cova na várzea fúnebre.

      por cada retângulo na terra um hexágono espera,

      peças encaixáveis neste trágico jogo de sucumbidos.

      na distância, percebe-se uma pessoa, boca blindada de

      pano quadrado, a única defesa contra vetor impercebível.

      esse homem sem nome, pintor de nome, ajoelha-se diante

      de cruz azul. pincel na mão, recorda nome em negro. move-se e

      recorda outro, e outro, e outro. terá mais do que setenta neste dia.

      raio de manhã aproxima-se os ángulos equatoriais do Parque Tarumã.

      Postado em poesia | 0 Comentários
    • Não sou Lobão, não

      Posted at 7:07 pm by wannabemineiro, on abril 29, 2021

      Na verdade, nada é o que parece ser

      (26º canção: “Essa noite, não”,  Lobão)

      A primeira vez que aconteceu foi na Avenida Paulista.

      Eu estava na calçada, andando para algum lugar, e de repente me deparei com uma equipe de filmagem fazendo comercial de chicletes. Duas pessoas estavam filmando enquanto um homem-sanduíche vestido de palhaço e um entrevistador falavam com pedestres. Era óbvio que o motivo do encontro era um tipo de brincadeira.

      Por acaso, o entrevistador e palhaço me escolheram de uma dúzia de pessoas que passavam. Eu não lembro das primeiras palavras da conversa que decorreu. Mas lembro claramente que o entrevistador começou a gozar do meu sotaque para entreter a plateia de pedestres assistindo ao espetáculo. Senti incômodo por causa disso e decidi me ir embora. Ao ver minha intenção, o entrevistador me despediu assim:

      – Até logo, Lobão!

      Algumas pessoas na calçada riam. Eu não soube como responder, nem entendi exatamente porque ele me apelidou de “Lobão”.  A única maneira em que eu podia responder foi em rima:

      – Tchau, bobão!

      Refletindo depois sobre esse encontro, eu me perguntava porque o entrevistador tinha me chamado de “Lobão”, o que se traduz em inglês como big wolf. O que eu tenho que parece com lobo grande? Meu cabelo? Meu nariz? Minha boca? Não entendi nada desse apelido.

      Quando relatei a história para Moema, minha irmã brasileira, ela me explicou que o Lobão era um roqueiro brasileiro. Continuou que, sim, lhe lembrava o Lobão, ao menos um pouco. Mostrou-me uma foto dele e admiti que, como eu, o cantor brasileiro era meio narigudo, tinha cabelo castanho bagunçado, e, sobre tudo, usava óculos grandes.

      Depois da explicação da Moema, escutei algumas músicas do Lobão e assisti a umas entrevistas dele. Por meio dessa pesquisa na rede aprendi que o Lobão, sempre controverso, foi alguém importante do rock nacional, especialmente nos anos 80. Além de cantar, também compôs várias canções, incluindo “Vida louca vida” que Cazuza cantava com sucesso. Sem dúvida, como escreve Nelson Motta em 101 Canções que Tocaram o Brasil, o Lobão era um nome importante “na nascente cena do rock brasileiro.”

      Voltando àquele encontro na Avenida Paulista, eu posso dizer outra coisa sobre este roqueiro. Ou seja, entre as bilhões de pessoas morando no planeta, parece que o Lobão é o meu doppelgänger (‘uma pessoa que se parece com outra’). Pois, o caso de alguém me chamar do Lobão não é raro. Já aconteceu várias vezes no Brasil e mesmo fora do Brasil.

      Por exemplo, uma vez estava visitando o lotado Mercado Central de Belo Horizonte com Moema. Nós andávamos corredor por corredor, conversando e curtindo qualquer amostra disponível. Goiabada cascão, queijo Minas, abacaxi de Araxá…estávamos satisfeitos com a fartura de comidas diante de nós. Subitamente, uma pergunta furou nossa bolha de alegria:

      – Você é o Lobão?

      Eu virei e vi um homem ansioso e meio sério. Sorri para ele e perguntei:

      – Você quer que eu canta?

      Ao ouvir meu português errado acompanhado pela grande risada da Moema, o homem entendeu que tinha se enganado, se corou e partiu sem dizer mais uma palavra. O encontro foi bem engraçado e, chegando em casa depois, Moema e eu o explicamos para todo mundo da família.

      Mais esquisito ainda foi um incidente em Guarulhos. JJ e eu entramos numa van que levava recem-chegados para vários hotéis. Fomos os primeiros passageiros no veículo. Logo, sete ou oito pessoas da mesma família entraram e se sentaram nos bancos de trás. Enquanto a van saiu do aeroporto, a família fazia muito barulho, todos falando ao mesmo tempo em voz alta. Acabaram de chegar de Santiago e no dia seguinte iriam de avião para o Mato Grosso do Sul. Estavam ansiosos para chegar na terra deles. De repente e sem aviso, os membros da família, um por um, baixaram a voz. Eu não podia entender mais nada do que se falava, mas pressentia que a conversa sussurrada entre a família se tratava de mim. Tive razão. Quando nós descemos da van em frente de nosso hotel, ouvimos risadinhas e gritos de “Lobão! Lobão! Lobããão!” Embora não respondesse, me lembro pensando, será que eles acham que seja o Lobão mesmo?

      Mesmo na Aotearoa New Zealand, a terra de rúgbi e hobbits, eu não posso evitar esse nome completamente. Na minha cidade, vários amigos brasileiros me contaram que eu lhes lembrava o Lobão. Uma vez quando explicava que minha família brasileira em Belo Horizonte me apelidou “Julião”, uma grande amiga minha contestou:

      – Julião? Você não tem cara de Julião. Tem cara do Lobão.

      Essa resposta acertou em cheio o que eu não posso escapar: tenho cara do Lobão.

      Agora faz mais de dez anos que eu tive aquela primeira experiência na Avenida Paulista, e pessoas continuam me chamando do Lobão. Mas, para dizer a verdade, eu não gosto muito desse apelido porque, simplesmente, não gosto da música do Lobão nem do seu comportamento ou política.

      Então, se algum dia você me vê na rua, lembre-se, por favor, que eu não sou Lobão, não.

      Postado em Aotearoa New Zealand, Brasil | 2 Comentários
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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