Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor
(44º canção: “Amor cinza”, Mateus Aleluia)
Dizem que é proibido mas conheço pessoas que já fizeram. Um amigo de meu irmão até diz que talvez seja o único delito que todo mundo pode fazer sem ser processado. Afinal, não tem polícia vigiando por cada lugar, pensando, “será que aquela pessoa está espalhando as cinzas de um querido”?
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Em 2006 meus pais nos falaram sobre seus últimos desejos. Francamente, além do testamento, não tinham pensado muito no assunto, um fato que tornou a vida da minha irmã bem difícil mais tarde.
O que eu lembro distintamente daquele dia de família, porém, era a discussão sobre o que fazer com os restos mortais. Meu pai nos explicou:
– Queremos ser cremados. Guardem os restos da primeira pessoa que falecer e quando a segunda falecer, nos espalhem juntos, à margem do Lago T*** Nº 4.
– Lago T*** Nº 4? Pensei que tivéssemos decidido ser espalhados no Lago GV?
Daí começou uma pequena quezília entre meu pai e minha mãe. Enquanto avaliavam os méritos e desvantagens desses e outros lugares favoritos para pescar truta, meus irmãos e eu trocamos olhares. Tanta discussão sobre meros detalhes!
Mais tarde decidiríamos espalhar as cinzas de nossos pais às margens de vários lagos e riachos onde gostavam de pescar.
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Meu pai faleceu primeiro em 2015 e minha mãe seis anos depois. Mas, a pandemia não me permitiu sair da Nova Zelândia durante bastante tempo. Só em setembro 2022 que pude viajar à Califórnia e cumprir os desejos dos pais. Quando cheguei, assumi a responsabilidade de preparar as cinzas e pesquisar os melhores lugares para todo mundo da família – minha irmã, meu irmão, meu cunhado e minhas sobrinhas – espalhar os pais/avós. Era o mínimo que eu podia fazer, pois nos difíceis últimos anos dos nossos pais foi principalmente minha irmã que teve que tomar conta de tudo.
Enquanto pegava os restos mortais, guardados em duas caixas de plástico no apartamento do meu irmão, eu pensei o quão estranho ter os pais nas mãos. Mais estranho ainda, a caixa com meu pai pesava bastante mais do que a da minha mãe. Será que isso podia ser explicado? Densidade óssea na hora de morrer? Curiosamente, como criança, nunca considerava uma grande diferença de peso entre os pais. Eram só duas pessoas enormes que cuidavam de mim.
Abri as caixas e vi outra surpresa. Os restos mortais eram diferentes não apenas em peso mas também em cor. As cinzas da minha mãe eram menos escuras das do meu pai. Quando comecei a misturá-las num saco grande, lembrei do Encontro das Águas, aquele lugar perto de Manaus onde o Rio Negro encontra o Rio Solimões. Com os primeiros movimentos de meus dedos, linhas de cinza claro apareceram dentro do cinza escuro. Pouco depois, as linhas sumiram. Meus pais estavam juntos para sempre.
Coloquei os restos misturados em vários saquinhos de plástico para que pudéssemos carregá-los mais facilmente. Aliás, esses saquinhos nos ofereceriam a possibilidade de espalhar as cinzas secretamente, sem que as pessoas soubessem que estávamos “quebrando a lei” às beiras dos lagos favoritos de nossos pais.







