Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • Quebrando a lei (i)

      Posted at 2:56 pm by wannabemineiro, on outubro 13, 2022

      Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas

      Vamos festejar o cinza com amor

      (44º canção: “Amor cinza”, Mateus Aleluia)

      Dizem que é proibido mas conheço pessoas que já fizeram. Um amigo de meu irmão até diz que talvez seja o único delito que todo mundo pode fazer sem ser processado. Afinal, não tem polícia vigiando por cada lugar, pensando, “será que aquela pessoa está espalhando as cinzas de um querido”?

      *****

      Em 2006 meus pais nos falaram sobre seus últimos desejos. Francamente, além do testamento, não tinham pensado muito no assunto, um fato que tornou a vida da minha irmã bem difícil mais tarde.

      O que eu lembro distintamente daquele dia de família, porém, era a discussão sobre o que fazer com os restos mortais. Meu pai nos explicou:

      – Queremos ser cremados. Guardem os restos da primeira pessoa que falecer e quando a segunda falecer, nos espalhem juntos, à margem do Lago T*** Nº 4.

      – Lago T*** Nº 4? Pensei que tivéssemos decidido ser espalhados no Lago GV?

      Daí começou uma pequena quezília entre meu pai e minha mãe. Enquanto avaliavam os méritos e desvantagens desses e outros lugares favoritos para pescar truta, meus irmãos e eu trocamos olhares. Tanta discussão sobre meros detalhes!

      Mais tarde decidiríamos espalhar as cinzas de nossos pais às margens de vários lagos e riachos onde gostavam de pescar.

      *****

      Meu pai faleceu primeiro em 2015 e minha mãe seis anos depois. Mas, a pandemia não me permitiu sair da Nova Zelândia durante bastante tempo. Só em setembro 2022 que pude viajar à Califórnia e cumprir os desejos dos pais. Quando cheguei, assumi a responsabilidade de preparar as cinzas e pesquisar os melhores lugares para todo mundo da família – minha irmã, meu irmão, meu cunhado e minhas sobrinhas – espalhar os pais/avós. Era o mínimo que eu podia fazer, pois nos difíceis últimos anos dos nossos pais foi principalmente minha irmã que teve que tomar conta de tudo.

      Enquanto pegava os restos mortais, guardados em duas caixas de plástico no apartamento do meu irmão, eu pensei o quão estranho ter os pais nas mãos. Mais estranho ainda, a caixa com meu pai pesava bastante mais do que a da minha mãe. Será que isso podia ser explicado? Densidade óssea na hora de morrer? Curiosamente, como criança, nunca considerava uma grande diferença de peso entre os pais. Eram só duas pessoas enormes que cuidavam de mim.

      Abri as caixas e vi outra surpresa. Os restos mortais eram diferentes não apenas em peso mas também em cor. As cinzas da minha mãe eram menos escuras das do meu pai. Quando comecei a misturá-las num saco grande, lembrei do Encontro das Águas, aquele lugar perto de Manaus onde o Rio Negro encontra o Rio Solimões. Com os primeiros movimentos de meus dedos, linhas de cinza claro apareceram dentro do cinza escuro. Pouco depois, as linhas sumiram. Meus pais estavam juntos para sempre.

      Coloquei os restos misturados em vários saquinhos de plástico para que pudéssemos carregá-los mais facilmente.  Aliás, esses saquinhos nos ofereceriam a possibilidade de espalhar as cinzas secretamente, sem que as pessoas soubessem que estávamos “quebrando a lei” às beiras dos lagos favoritos de nossos pais.

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    • O mesmo ar

      Posted at 12:08 pm by wannabemineiro, on setembro 1, 2022

      Eu preciso respirar
      O mesmo ar que te rodeia

       (43º canção: “Um dia de Domingo”, Paulo Massadas e Michael Sullivan)

      “Um dia de Domingo” sempre me agradou. A harmonia que fazem Tim Maia e Gal Costa é sem defeito. O dueto é de tal perfeição que a canção arde de sensualidade mesmo. Mas, recentemente, quando ouço as linhas acima, abano a cabeça. Tenho que dar uma risadinha. Neste mundo, virado do avesso pela pandemia, será que queremos respirar o mesmo ar que rodeia alguém?

      Seja fã de máscara ou não, seja a favor ou contra as vacinas, é óbvio que a Covid 19 tocou as vidas de todo mundo no mundo todo. Até me faz questionar as íntimas imagens sugeridas por uma canção de amor. O poder do vírus é um fato inescapável e duradouro.

      Na Nova Zelândia, o primeiro caso de Covid foi registrado no 28 de fevereiro em 2020. Um homem de cinquenta anos, voltando do Irã, testou positivo para o vírus. Pouco menos de um mês depois, nós estávamos em confinamento total. Após seis semanas, o governo relaxou o confinamento aos poucos. A vida neo-zelandesa regressou a um “novo normal” mas o país permaneceu fechado durante mais de dois anos. Era dificilíssimo entrar ou sair da Nova Zelândia.

      Quando 90% da população da Nova Zelândia tinha sido vacinada, a maioria das restrições do governo se terminaram. Hoje em dia, podemos visitar amigos, assistir a um match dos All Blacks, dançar numa rave, e, o mais importante para mim, viajar fora do país.

      Mesmo assim, a variante omicron continua circulando. Já infectou mais de 1,5 milhão de pessoas aqui. Até agora, quase 1800 neo-zelandeses morreram desse maldito vírus. Isso é uma estatística lamentável. Mas, francamente, a Nova Zelândia foi bem mais eficaz em controlar o vírus do que outros lugares. Para dar apenas um exemplo, o estado norte-americano do Alabama, com aproximadamente a mesma população da Nova Zelândia, já sofreu mais de 20,000 mortes pela Covid 19. É horrível como o vírus se espalhou em países como os Estados Unidos e o Brasil.

      Embora sejamos livres das restrições severas que vivíamos em 2020 e 2021, muitos de nós seguimos evitando compartilhar o mesmo ar de quem estiver perto. Além da vacina, o distanciamento social e a máscara se tornaram comuns, especialmente em lugares internos. Obviamente, o povo ainda fica atento à infecção ou à reinfecção e a temida “Covid longa.”

      Para mim, o distanciamento social é difícil. Acho triste ver alguém entrar num restaurante e escolher uma mesa bem longe dos outros clientes. Mais triste ainda é que eu faço isso também! O tempo de todo mundo fraternizar nos lugares públicos sem pensar na possibilidade de cair doente já era, pelo menos por enquanto. 

      Por outro lado, além dos óculos ficarem embaçados de vez em quando, usar máscara não me desagrada. Já tinha me acostumado porque morei sete anos no Japão onde é commun andar de máscara quando estiver gripado. Respiro facilmente apesar da máscara e até esqueço que o nariz e a boca estão cobertos. Aliás, sempre achava que há várias vantagens em usar máscara. Tem alguma  coisa verde nos seus dentes? Hálito de alho depois de comer o kim chee? Uma catota pendurada na narina? Se você estiver de máscara, ninguém vai saber!

      Apesar de usar a máscara fielmente durante a pandemia, peguei o vírus em abril. Realmente não sei onde ou como aconteceu. Talvez na piscina pública mas mesmo lá eu tomava bastante cuidado. Nadava sozinho e falava pouquíssimo com os outros nadadores. No balneário tomava banho, sem máscara, claro, mas ao sair do chuveiro, a primeira coisa que fazia era enxugar o rosto e pôr a máscara. Foi somente depois que pensava em cobrir meus “documentos”. Mas, afinal de contas, tudo foi em vão e eu caí doente.

      Felizmente, minha experiência com o vírus foi nada grave. Sem dúvida, as medidas rigorosas que o governo neo-zelandês fez durante dois anos me permitiram a enfrentar e superar a Covid 19. Sou muito grato por isso. Mesmo assim, fico inquieto de respirar o mesmo ar dos outros.

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    • À margem do Rio Tamagawa

      Posted at 2:42 pm by wannabemineiro, on julho 23, 2022

      E assim ela se foi
      E nem de mim se despediu
      A Chalana vai sumindo
      Lá na curva do rio

      (42º canção: “Chalana”, Almir Sater)

      Depois de aposentar-se, Okaasan (‘Mamãe’) dava um passeio toda manhã à margem do Rio Tamagawa em Tóquio. Nascida na ilha norte de Hokkaido, onde ela morou até seus vinte e cinco anos, imagino que o Tamagawa lhe lembrasse dos grandes espaços do interior. De fato, quando não tiver neblina ou poluição, do dique do rio se vê a distância o Monte Fuji, um dos principais símbolos do Japão. Como Okaasan gostava de dizer: “Se vir o Fuji de manhã o meu dia vai ser ótimo.”

      O Tamagawa não era sempre tão limpo. A primeira vez que visitei o rio, tinha lixo na água e o ar do bairro estava bem poluído. Mas isso não importava. A beira do rio era especial para mim e JJ. Só a 300 metros da casa, o lugar foi perfeito para jovens amantes roubarem beijos.

      Ao longo dos anos, voltamos ao Rio Tamagawa frequentemente. A qualidade da água e do ar de Tóquio é muito melhor do que nos anos 80. Há mais e mais pássaros – garças, martim-pescadores, vários tipos de pato e gaivota – e do capim ribeirinho se ouvem cantos de outros passarinhos escondidos. E, claro, há muita gente também. Vêem-se pessoas caminhando, andando de bicicleta, namorando, jogando esportes ou soltando pipas nos parques ribeirinhos. Parecido às praias cariocas, então, as margens do Tamagawa representam um tipo de quintal, um playground mesmo, para os habitantes urbanos de Tóquio.

      A atividade que mais nos agrada quando estamos em Tóquio é fazer piquenique ao lado do rio. Andamos três quilômetros pelo dique fluvial até chegarmos no bairro luxuoso de Futako-Tamagawa. Prosseguimos à praça de alimentação no shopping e compramos comida para levar. Quinze minutos mais tarde, estamos novamente à beira do rio, sentados num lugarzinho ensolarado onde saboreamos delícias como o sushi, yakitori (‘espetinhos de frango’) e pastelarias francesas. Mesmo que estejamos numa zona urbana de milhões de pessoas, é fácil esquecer da cidade durante o piquenique. No inverno, estamos frequentemente acompanhados por umas pastorinhas cantando e abanando suas caudas, não muito longe de nossa manta. Nos meses mais quentes são as libélulas e cigarras que nos entretêm. Depois do almoço, sempre jogamos pedrinhas, tentando atingir alguma rocha visível na corrente.

      Uma vez a JJ me falou que gostaria de procurar a nascente do Rio Tamagawa. Ao estudar o mapa metropolitano de Tóquio, descobrimos que a Linha Ōme ia para a área da nascente. Então, uma manhã de dezembro, saímos da casa para pegar o trem. Após uma viagem de quase duas horas, descemos em Sawai, uma aldeia serrana a oeste de Tóquio. Da estação, uma rua estreita e íngreme nos levou ao Tamagawa.

      Foi difícil acreditar que esse riacho fosse o mesmo rio que passa perto da casa da JJ! A água em Sawai estava mais clara do que a da várzea urbana. A corrente também parecia forte, mesmo perigosa. Além das garças e patos, vimos outros pássaros como pica-paus, chapins-reais e andorinhas. Como estávamos no fundo de um barranco, era impossível ver o Fuji, só ladeiras de pinheiros e áceres desnudos. Mas o que mais faltava era a multidão. Tecnicamente, Sawai faz parte da Metrópole de Tóquio. Na verdade, é outro mundo, despovoado e prístino. Estávamos gratos por conhecer essa região onde fica a nascente do Rio Tamagawa.

      Infelizmente, Okaasan não pôde nos acompanhar à nascente. A essa altura morava numa casa de repouso onde passava seu tempo na cama ou numa cadeira de rodas. Quando a visitei nesse local pela primeira vez, vi ela olhando com saudades pela janela de seu quarto. Desde então, decidi tirar uma foto do Rio Tamagawa e, se não estiver coberto de nuvens, do Fuji antes de visitá-la. Embora Okaasan e eu nunca pudéssemos falar muito sem a ajuda da JJ, acho que cada foto nos aproximou nos últimos anos da sua vida.

      Já faz cinco anos que Okaasan se despediu de nós. Penso nela cada vez que ouço a voz aconchegante do seu querido Rio Tamagawa.

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    • Hiroshima

      Posted at 6:41 pm by wannabemineiro, on julho 7, 2022

      Não se esqueçam da rosa, da rosa
      Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária
      A rosa radioativa, estúpida e inválida

      (41º canção: “Rosa de Hiroshima”,  

      Gerson Conrad e Vinícius de Moraes)

      Fazendo o check in no hotel com a JJ e sua mãe, pensei que Hiroshima fosse como qualquer cidade japonesa. O hotel ficava num bairro cheio de lojas, restaurantes e botecos. Tínhamos visto pessoas trabalhando, jogando pachinko, festejando, correndo para pegar trens suburbanos. A palavra chave que surgiu em mim era movimento. Mas na manhã seguinte, visitamos a outra Hiroshima, aquela cidade que sofreu grande tragédia em 1945, a cidade que emociona e que faz refletir.

      O dia amanheceu frio e nebuloso. De certo modo, o tempo sombrio, típico de janeiro, era apropriado para uma visita no Parque Memorial da Paz (平和記念公園). Não tinha muita gente no parque, só algumas pessoas que, como nós, passeavam sem rumo. Às vezes o silêncio da bruma foi furado pelo grasnar de corvo empoleirado nas árvores adjacentes. Será que muito corvo sobreviveu a bomba atômica em Hiroshima? Provavelmente tinha mais possibilidades do que outras criaturas, pois, igual ao rato, igual à barata, o corvo japonês é onipresente e adaptável. Tal foi meu primeiro pensamento enquanto explorávamos o que era o epicentro da explosão.

      Da neblina apareceu a silhueta do único prédio que não tinha sucumbido à bomba: a Cúpula Genbaku (原爆ドーム), literalmente ‘a cúpula da bomba atômica’. (Antes da bomba o prédio se chamava Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima.)

      Em 1966 a Prefeitura de Hiroshima resolveu deixar intacta a ruína da cúpula como prova principal do pavoroso poder das armas nucleares. A decisão deu certo.  A carcaça de tijolos e argamassa, ressaltada, novamente, pelo grasnar sinistro de corvos, nos sugeriu o horror daquela manhã estival. Ao mesmo tempo, todavia, a Cúpula Genbaku, delineada sob o céu plúmbeo, tinha sua própria, senão severa, beleza.

      Da Cúpula Genbaku nós caminhamos através do parque até chegarmos ao Museu Memorial da Paz (平和記念資料館). Esse museu têm três objetivos. Primeiro, claro, é mostrar o que aconteceu no 6 de agosto em 1945. Para esse propósito, exibições retratam a cidade de Hiroshima antes, durante e depois da bomba. Há pertences de cidadões mortos na explosão, fotos de pessoas queimadas e irradiadas, e vídeo-testemunho arrepiante das que sobreviveram. Outro objetivo é explicar como desenvolveram as armas nucleares, começando com os esforços de cientistas, militares e políticos nos Estados Unidos e Europa até a situação de hoje com os enormes estoques de armas nucleares nos EUA e na Rússia. Por fim, o museu tenta oferecer uma mensagem de esperança com várias exibições sobre movimentos de desarmamento e paz.

      Na verdade, essa mensagem era difícil para mim. Achei as exibições sobre a explosão tão carregadas de tristeza que estava estremecido pela destruição insensata da cidade. O que mais me impressionou foi um simples painel mostrando o trajeto do Enola Gay, o bombardeiro norte-americano, à medida que, de baixo do avião, os cidadãos da cidade-alva começaram seu dia. Aliás, durante toda a visita do museu, senti um silêncio desconfortável entre eu, JJ e a mãe dela, pois toda essa destruição, toda essa morte, aconteceu por causa de uma guerra entre nossos países. Era incrível pensar que em 1945 seria impossível nós sermos a família que somos hoje em dia.

      Saímos do museu calados. Em seguida, visitamos o Cenotáfio Memorial (広島平和都市記念碑) que abriga a Chama da Paz (平和の灯). A chama foi acesa em 1964 e vai ficar acesa até o dia quando não tiver mais armas nucleares. Perto da chama, encontramos um par de jovem ativistas da paz. Assinamos uma petição para o desarmamento nuclear mas não tivemos muita vontade de falar com os ativistas. Sem dúvida, estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos, cada um de nós tentando processar o que acabamos de ver no museu.

      O tempo cinza, acentuado por grasnada de corvo, continuou. Com esse ambiente tristonho no parque, não pude deixar de pensar no inverno nuclear que a cidade de Hiroshima deve ter sofrido. Que terrível tragédia aquele dia da exposão! E então, caminhando, avistei umas cores a distância. Aproximei-me. Ao lado de um pequeno monumento para os jovens que morreram na explosão alguém tinha colocado correntes de grous de origami (‘papel dobrado’).

      Isso me lembrou da história emocionante dos primeiros 1000 grous de origami de Hiroshima.  A menininha, Sadako Sasaki, os dobrou no hospital onde morreu de leucemia dez anos após a explosão. Sadoko pensava que cada grou que fez representaria um voto de paz. Enquanto me aproximava, contemplava os grous de toda cor e comecei a sentir um pouco de esperança.

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    • Encontro de sogros

      Posted at 3:55 pm by wannabemineiro, on maio 30, 2022

      A hora do encontro

      É também, despedida

      A plataforma dessa estação

      É a vida desse meu lugar

      (40º canção: “Encontros e despedidas”,

      Fernando Brandt e Milton Nascimento)

      Os sogros se encontraram pela primeira vez no casamento. Dois casais unilíngues – um do Japão e outro dos Estados Unidos – reunidos na Califórnia. Com certeza, nunca imaginaram que seus filhos se casariam com alguém do outro lado do mundo. Nos sete dias que estávamos todos juntos, havia muita oportunidade para se conhecer. Mas sempre com uma restrição: a JJ tinha que estar presente para qualquer conversa. Ser noiva e intérprete para os sogros ao mesmo tempo foi cansativo, até estressante. Que alívio deve ter sentido ao despedir-se de seus pais no aeroporto em Los Angeles!

      Três anos depois, quando morávamos no Japão, foram meus pais que decolaram de Los Angeles para Tóquio. Foi muito bom os ver mas, na verdade, o que mais me lembro daquela visita foi como eles chegaram do aeroporto à nossa cidade ao norte do país.

      Quando meu pai nos telefenou para dizer que pretendiam nos visitar, estávamos felizes. No entanto, ao saber o dia previsto de seu vôo de Los Angeles, lhes falei que, infelizmente, estaríamos trabalhando. Visto que nenhum de nós dois poderíamos buscá-los no aeroporto de Narita, prometi organizar transporte para eles irem de Narita à estaçao de Ueno em Tóquio onde poderiam pegar o shinkansen (‘trem bala’) até nossa província. Obstinado, meu pai recusou a oferta. Ele mesmo descobriria como ir. Explicou que nunca teve problema com o transporte quando visitou a Inglaterra alguns anos antes. Respondi que Tóquio não era igual a Londres mas meu pai insistiu. Conseguiria chegar à nossa cidade.

      Por fim, chegou o dia da vinda de meus pais. Tínhamos combinado de encontrá-nos à estação terminal da Linha Tohoku na cidade de Morioka. O vôo de Los Angeles estava marcado para chegar a Tóquio às 10 horas da manhã. Se tudo desse certo, incluíndo a viagem no metrô lotado da capital, calculamos que meus pais chegariam a Morioka na hora do jantar.

      Naquela época não tinha celular nem email, então estávamos sem notícias deles durante o dia inteiro. A única coisa que podiamos fazer? Cruzar os dedos e esperar que meu pai conseguisse andar no sistema de transporte em Tóquio.

      Às 17 horas a JJ e eu estávamos na plataforma da estação de Morioka, esperando cada shinkansen que vinha de Tóquio. Meus pais não desceram do primeiro trem, nem do segundo. Quando o terceiro entrou na estação às 18:40, já estávamos preocupados. Mas essa vez deu certo: meu pai e minha mãe desceram do trem. Estavam cansados e, nas palavras de minha mãe, famintos.

      Prosseguimos aos restaurantes sob a estação. De repente, meu pai falou a JJ:

      – Devemos agradecer você e seus pais por ter organizado o traslado do aeroporto.

      – Do que você está falando, Ralph?

      – Seus pais, JJ. Eles estavam nos esperando em Narita. Nos levaram de táxi até a estação de Ueno. Até compraram nossas passagens de shinkansen.

      – Hein?! Meus pais fizeram isso? Eu nem lembro dando a eles os detalhes do vôo. Puxa! Como é que fizeram isso?

      Mais tarde, durante o jantar, meus pais explicaram o que aconteceu. Tinham chegado em Narita, prevendo uma viagem desconhecida do aeroporto até Ueno. Mas, ao entrar no saguão de desembarque, viram o pai da JJ que lhes recebeu. Atrás dele estava a mãe da JJ, um filhote de poodle chamado Fido nas mãos, e um amigo que era taxista. Antes de sair do aeroporto, os sogros lhes ofereceram o primeiro prato japonês: uma tigela de soba (‘macarrão feito de trigo sarraceno’). Daí os dois casais e Fido, entraram no táxi e prosseguiram à estação de Ueno. Ao chegar lá, os pais de JJ os presentearam com as passagens, os acompanharam até o shinkansen, e entraram no trem com eles para localizar os assentos. A última imagem que tiveram quando saíram de Ueno foi a sogra na plataforma, segurando Fido com uma mão e acenando com a outra.

      Muitas vezes tenho imaginado como ocorreu esse encontro de sogros, especialmente no táxi. Já que os dois casais não podiam falar a língua do outro, a longa corrida deve ter sido desconfortável. Sem dúvida, o pai da JJ sentou no banco da frente e falava com seu amigo-taxista. Mas no banco de trás, imagino três pessoas – meu pai de um lado, minha sogra do outro, e minha mãe no meio – dizendo quase nada. Mas certamente haviam sorrisos, gestos e, sobretudo, a presença calmante do cachorrinho.

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    • Segredos

      Posted at 9:58 am by wannabemineiro, on abril 29, 2022

      Amor é um

      Sexo é dois

      Sexo antes

      Amor depois

      (39º canção: “Amor e sexo”,  Arnaldo Jabor,

      Rita Lee e Roberto de Carvalho)

      Meu japonês é péssimo. Francamente, é uma vergonha. Morei no Japão por quase sete anos e nunca aprendi a língua direitinho. Naquela época sentia preguiça de estudar japonês, especialmente os carácteres e os níveis de formalidade. Desde então, não sei quantas vezes me dediquei a estudar a língua japonesa. E o resultado é sempre o mesmo. Depois de realizar algumas metas simples – metas, na verdade, que já tinha sido realizado antes – fico bloqueado. Já faz quase 35 anos esse meu relacionamento com japonês. Eu sei falar sobre a comida, o clima, o meu dia-a-dia mas além disso não tenho muita capacidade. Contar uma história pessoal como faço neste blogue seria impossível para mim.

      Mas, apesar de não falar ou escrever muito, eu entendo bastante japonês. A JJ me fala em japonês quando não quer que as pessoas entendam a conversa. Se estivermos numa fila no banco, falando sobre nossas finanças, ela vai usar japonês numa voz baixinha. Quando nos prestam mau serviço num restaurante ou hotel, as queixas que compartilhamos são em japonês. De certo modo, o japonês se tornou nossa língua de segredos.

      Falar uma língua secreta dá uma satisfação de ser bilingue, de ter outros recursos linguísticos. Mesmo assim, usamos línguas secretas correndo risco de sermos entendidos. Curiosamente, o intercâmbio em japonês mais engenhoso – e atrevido – que já tive na minha vida envolveu exatamente isso: segredos ouvidos por acaso.

      Eu estava num ônibus público saindo da universidade para o centro da cidade. Fora do veículo estava chovendo e ventando, clima típico do inverno neo-zelandês. Fazia tão frio que as janelas do velho ônibus estavam embaçadas demais. De vez em quando o motorista enxugava o pára-brisas com uma toalha. (Hoje, quando lembro dessa tarde pré-pandemia, me pergunto se as janelas estariam mais claras se todos nós estivéssemos de máscara. Mas estou divagando…)

      Sentado nesse ônibus úmido, comecei a enxergar os passageiros para passar o tempo. Havia estudantes, professores e administradores, uma coleção típica de pessoas da universidade, todas voltando para casa.

      E daí eu os vi. Dois amantes sentados não muito longe de mim. Tinham, não sei, uns 19 ou 20 anos. A moça parecia ser japonesa ou talvez chinesa e o moço neo-zelandês. Era óbvio que esses jovens estavam apaixonados, super felizes de estarem juntos mesmo. Trocavam pequenos beijos. A moça fazia cafuné nos cabelos de seu amante.

      Enquanto eles trocavam carinhos, falavam um ao outro suavemente. Eu não podia ouvir a conversa deles mas tinha a impressão que estavam usando outra língua. Não consegui entender qual língua era.

      O rapaz estava falando menos dessa língua secreta do que a moça. Na verdade, parecia que ela estava lhe ensinando a falar. Ela sussurrava algo no ouvido e ele repetia.

      Tocando o braço de seu amante ligeiramente, ela virou à janela embaçada e escreveu まんこcom seu dedo. Os dois deram uma risada e se aconchegaram ainda mais.

      Naquele instante entendi que a língua secreta era japonês pois a palavra escrita na janela significava ‘bu@@@a’. Sorrindo, eu falei para os jovens numa voz meio séria, meio brincalhão:

      – Dame desu yo! (‘Isso não é bom!’)

      Assistido por quase todos os passageiros no ônibus, meu comentário teve efeto imediato. A japonesa corou e apagou a sujeira com sua mão. Logo depois, o jovem casal se calaram e, evitando o olhar dos outros, se sentaram direitinho como se fossem passageiros típicos.

      Enquanto continuávamos nossa viagem à cidade, eu sentia um pouco de pena deles porque tiveram tanta vergonha da situação que provoquei. Ao descer do ônibus, então, queria lhes dizer, “Estou descendo agora então vocês podem escrever qualquer coisa que quiserem”, mas, infelizmente, meu japonês não era suficiente para isso. Simplesmente sorri para eles e disse:

      – Jōdan deshita. (“Foi brincadeira.”)

      Devolveram o sorriso mas acho que se sentiram aliviados quando eu desci do ônibus.

      Nunca vou esquecer aquele intercâmbio. Com três pequenas palavras, encaixadas perfeitamente ao contexto, eu passei como alguém que falava japonês com fluência. Por mais orgulhoso que possa ser, no entanto, sei que a situação foi por puro acaso.

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    • Votos na chuva

      Posted at 4:18 pm by wannabemineiro, on março 30, 2022

      Toda de branco no altar

      Quem vai sorrir?

      Quem vai chorar?

      Ave maria, sei que há

      Uma história pra contar

      (38º canção: “Pra sonhar”,  Marcelo Jenecí)

      A previsão para o dia do casamento rústico era chuva. De fato, se previa tanta chuva, que os convidados foram encorajados de usar galochas. Num certo sentido, um casamento na chuva parecia apropriado, pois o casal se encontrou pela primeira vez na água. Ambos atletas, tinham nadado lado a lado durante sessões matinais do “Clube de Cloro”, o grupo de natação da cidade. Daqueles treinamentos na piscina, o namoro floreceu e incluiu aventuras em terra, como passeios de bicicleta, corridas e caminhadas nas trilhas da região. Foi assim a química que reuniu o casal.

      Não se enganaram as previsões. A chuva persistiu durante a manhã. Não foi uma garoa fina senão onda após onda de chuva forte. Às duas horas da tarde a chuva abrandou um pouco, mas o céu continuava ameaçador. Enquanto os convidados chegavam à reserva isolada, evitando poças e seguindo anúncios, pintados a mão, para o Casamento de Worthington, uma placa fixada ao lado da estrada de terra os avisavam que uma sirene de emergência soaria se o rio adjacente transbordasse.

      Às quatro horas mais de sessenta convidados, alguns de galochas, dirigiam-se na floresta encharcada.  Felizmente, não estava chovendo, mas as árvores, seus galhos pesados de água, pingavam audivelmente. Depois de uma caminhada breve, os convidados chegaram numa clareira sob uma imensa árvore de tōtara (Podocarpus totara). Foi nessa área, carinhosamente nomeada a “Capela de Mato”, onde o casamento iria se realizar.

      Sentadas diante da grande árvore, as pessoas conversaram e admiraram a Capela de Mato. Borboletas ornamentais e coloridas, de várias formas e tamanhos, tinham sido colocadas no tronco da tōtara. Por cima, cabos de bandeirinhas festivas atravessavam a área de assentos e o caminho florestal iluminado por lanternas. Cada detalhe, por pequeno que fosse, revelou o cauteloso planejamento e preparação que o casal fez para seu dia especial.

      Vestidos de coletes prateados com botões azuis e de gravatas-borboletas azuis, o noivo e seus padrinhos aguardavam a noiva. Depois de pouco tempo, ela emergiu da floresta, guiada por suas três madrinhas, todas do Clube de Cloro. Agarrando seu buquê feito a mão, a noiva era linda num vestido de cor champanhe com uma sobreposição de renda delicada. Como se um feitiço tivesse sido lançado, todo o mundo sorria juntos enquanto ela se aproximava ao seu homem.

      A simples cerimônia de casamento que seguiu era perfeita para a Capela de Mato. A celebrante a abriu com algumas palavras. Disse que era só um momento preciso mas os votos que amigos e família iriam ouvir eram para sempre, uma expressão de amor e devoção, uma voz única. De mãos dadas, o casal declarou seus votos um ao outro e logo depois encaixou duas peças de madeira interligadas, um símbolo da união que acabou de criar sob a tōtara. Em seguida, se ouviu uma gravação da irmã mais velha da noiva que morava na África do Sul e que não pôde vir ao casamento por causa da pandemia. Sua bênção agridoce exprimiu os sentimentos de muitas pessoas presentes: se fosse um acaso, plano de Deus ou uma combinação dos dois que juntou o casal, as expressões de compromisso e devoção naquela tarde ajudaram a endireitar um mundo que recentemente parecia invertido. A noiva então leu um poema celebrando os laços eternos de amor. As alianças foram trocadas. E daí a celebrante introduziu o casal como marido e esposa. Enquanto eles se beijaram aplausos sinceros reverberaram pela clareira.

      Houve outra salva de aplausos quando os recém-casados deixaram a tōtara e se dirigiram para o salão de banquetes. Mas essa vez o aplauso foi meio mudo, pois os convidados estavam ocupados com suas guarda-chuvas. Como se fosse sincronizada com a cerimônia, a chuva tinha recomeçado.

      Postado em Aotearoa New Zealand | 4 Comentários
    • A casa da Flávia

      Posted at 7:23 pm by wannabemineiro, on fevereiro 23, 2022

      Tem gente por todo canto,

      Mas eu lhe garanto que mais vai chegar,

      Tem gente em pé na cozinha,

      Até na vizinha querendo chegar,

      E a minha casa é pequena.

      (37º canção: “Água no feijão”,  Jorginho do Império)

      Havia uma pequena barraca brasileira na feira de sábado. A dona da barraca, brasiliense, a filhinha dela sempre ao lado, servia vários petiscos deliciosos. Para muitos fregueses, essa mulher sorridente e calorosa foi a primeira pessoa do Brasil que já tinham encontrado na vida. Mas, tristemente, a barraca da feira durou pouco tempo, pois a mulher sofreu dois lutos inimagináveis.

      Isso já faz algum tempo. Hoje em dia dúzias e dúzias de brasileiros moram ou já tinham morado na região de Manawatu. Esse pessoal reflete o multiculturalismo crescente da Nova Zelândia, mesmo no interior.

      A comunidade brasileira consiste de famílias, casais, e solteiros. São do Nordeste, do Sul, do Centro-Oeste, do Sudeste. Algumas pessoas puxam o “s”, outras enrolam o “r’’ e até outras dizem “uai!” ou te chamam de “velho” ou “tu”. Há técnicos, físicos, filósofos, veterinários, intérpretes, pintores, administradores, pesquisadores, professores, estudantes, bolsistas, cientistas, motoristas, baristas, linguistas, costureiras, fazendeiros, cozinheiros, faxineiros, cabelereiros, engenheiros. Todos representam várias etnias e raças, orientações sexuais, políticas, religiões, e interesses. Na verdade, tem um pouco de tudo, a diversidade humana do Brasil numa só comunidade em Manawatu.

      Em qualquer dia, então, seja no centro da cidade ou nos seus arredores, é possível se encontrar com brasileiro. Aliás, agora existe diversas coisas do Brasil para quem quiser experimentar. Numa pequena cidade agrícola, por exemplo, o dono paulista de um café típicamente kiwi serve coxinhas, ou seja chicken balls, aos fazendeiros da área. Quinhentos metros em linha reta dessa café tem um dojo onde se pode aprender jiu-jitsu brasileiro, ensinado por um sensei natalense. É mesmo possível aprender o português como língua estrangeira, pois em 2019 a universidade da região começou a oferecer aulas de português brasileiro. Nos últimos anos também houve um festival de filmes brasileiros assim como uma presença crescente da comunidade brasileira no Festival de Culturas que se realiza na praça da cidade num fim de semana em março.

      Mais memoráveis, talvez, são os eventos dos Palmeirinhos, uma iniciativa de pais brasileiros dedicados aos seus filhos a manter a língua herança e a cultura brasileira. Todo ano os Palmeirinhos fazem uma festa junina que inclui corridas de três pés, quadrilha, correio elegante e todo tipo de petisco que se pode imaginar. A energia das crianças durante tais festas é emocionante e mostra um respeito à língua e cultura de seus pais e entes queridos no Brasil. (Sem dúvida, a energia também mostra os efeitos do açúcar ingerido durante a festa!) Os espetáculos de Samba ao Vento, um grupo de batucada, são igualmente muito especiais. Os tocadores do grupo são de diversas nacionalidades. De fato, o fundador e líder é um neo-zelandês com um coração que, todos juram, bate como brasileiro. Samba ao Vento já fez shows em toda a região e mais além. Os ritmos que fazem são contagiosos e, ao final do show, se vê membros da platéia tentando sambar na avenida.

      Por fim, nos últimos quinze anos a comunidade brasileira na região de Manawatu cresceu muito e continua crescendo, mesmo durante essa maldita pandemia.

      E a brasiliense que trabalhava na feira tantos anos atrás?  Felizmente, essa mulher, o filho dela sempre ao lado, tem uma presença essencial em quase todas as atividades descritas acima. Ela conhece todos e todos a conhecem. Como explicava um curitibano que mora aqui, “é como se ela fosse a nossa própria embaixadora.”

      Na verdade, apesar dos desafios que enfrentou no passado (ou talvez por causa deles), a brasiliense é reconhecida como uma pessoa de coragem, positividade e generosidade. A casa dela, o coração da comunidade, fica frequentemente cheia de brasileiros. Na cozinha, na sala de jantar, no quintal se ouve português.  Mas se ouve outros idiomas também – inglês, persa, indonesiano, espanhol – pois a casa da brasiliense recebe todo o mundo. Não importa de onde você é, você é sempre bem-vindo.

      Nos últimos anos, essa comunidade brasileira de Manawatu se tornou a minha comunidade também. Agradeço a todos vocês por terem me aceitado.

      Postado em Aotearoa New Zealand, Brasil | 10 Comentários
    • Receio vergonhoso

      Posted at 8:32 am by wannabemineiro, on janeiro 28, 2022

      Um mulato baiano
      Que morreu em São Paulo
      Baleado por homens do poder militar
      Nas feições que ganhou em solo americano
      A dita guerra fria
      Roma, França e Bahia

      (36º canção: “Um comunista”,  Caetano Veloso)

      Sou filho da Guerra Fria. Na escola primária aprendi que os Estados Unidos era o país da liberdade completa enquanto a União Soviética oprimia seu povo. Qualquer realização vinda de trás da “Cortina de Ferro” merecia suspeita. (Mesmo assim, é preciso admitir que Nadia Comanici, a jovem ginasta romena, roubou os corações de todos nós do Ocidente.) Aliás, Hollywood retratava comunistas como vilões ameaçadores. Até lembro pensando como menino que americanos que fossem para a União Soviética podiam ser baleados imediatamente.

      Levei estes entendimentos comigo em 1980 quando fui a Aix-en-Provence (Aix) para estudar o francês. Naquele ano letivo aprendi muito, inclusive que a grande desconfiança e medo do bloco soviético que sentia foram doutrinados em mim desde minha infância nos Estados Unidos.

      Uma noite de mistral (‘vento frio do vale do Ródano’) eu estava voltando de uma festa para casa. No centro de Aix encontrei um mochileiro procurando a estação de trem. Expliquei como chegar, mas também lhe disse que estava fechada àquela hora. Respondeu que não se importava porque sua intenção era só dormir por algumas horas no abrigo da plataforma. Quando ouvi isso lhe convidei para passar à noite na kit onde estava morando. Grato, o mochileiro aceitou a oferta.

      Mais tarde, enquanto tomávamos chá para afastar o frio, ele contou sua história. Era polonês foragido, ou seja, dissidente. Estava participando de um congresso de jovens europeus em Paris quando decidiu sumir. Fazia três semanas desde que fugiu do hotel onde estava hospedado. Os outros jovens de sua turma já deviam ter voltado à Polônia, e ele tinha certeza que alguém da embaixada polonesa estava o perseguindo. Por causa disso, me prometeu que iria embora ao amanhecer para que não me desse problemas. Continuamos falando. O assunto tocou no líder sindical, Lech Wałęsa, e a Solidariedade (Solidarność), o movimento de libertação em Gdansk no qual a imprensa francesa estava focada nos últimos dias. O jovem polonês gostava muito de Wałęsa. Também apreciou a cobertura que a Solidariedade ganhava no Ocidente. No final das contas, porém, duvidou que a Polônia ia se libertar do bloco soviético. Assim, o jovem mochileiro decidiu deixar tudo para atrás – família, amigos, escola – para procurar uma vida nova na França.

      Finalmente, fomos dormir. O polonês colocou seu saco de dormir no chão. Pouco depois, mal se ouviu o ritmo mensurado de sua respiração.

      No outro lado do quarto, eu não podia dormir. A história do dissidente me tocou profundamente. Ele precisava de muita coragem para seguir sua vida foragida no exterior. Será que eu poderia fazer o mesmo se eu fosse ele? Imaginava-me nesta situação de deixar tudo para atrás e começar outra vida. Mas, curiosamente, a admiração que sentia por meu convidado foi substituída aos poucos por desconfiança. Comecei a duvidar de sua história da fuga e seus motivos por estar na França. Afinal, eu era dos EUA. Como é que podia confiar nas palavras de uma pessoa criada no Leste?

      E com esta dúvida surgiu um grande medo: há comunista – inimigo mesmo – bem perto de mim. Deitado na cama, eu senti meu coração batendo e a testa suando. Minha mente corria de um cenário terrível para outro. Lembrei de sequestros e assassinatos realizados por guerrilheiros marxistas na Alemanha e Itália. Enfim, depois de alguns minutos de tal inquietude, saí da cama em silêncio. Fui à cozinha e voltei com meu canivete. Abri-o e coloquei sob o travesseiro. Mas mesmo “armado” assim, não consegui dormir direitinho.

      A manhã seguinte, acordei cedo, atordoado pela falta de dormir. Olhei com cuidado para o outro lado do quarto. Fiel a sua palavra, o polonês já se tinha ido embora.

      Postado em Outras viagens | 2 Comentários
    • Canivete viajante

      Posted at 3:58 pm by wannabemineiro, on dezembro 16, 2021

      Vento, ventania,

      Me leve pra qualquer lugar

      Me leve para qualquer canto do mundo

      Ásia, Europa, América

      (35º canção: “Vento ventania”,  Biquini Cavadão)

      O pai da minha namorada não gostava de mim. Devia estar desiludido a primeira vez que me viu em sua porta em Zurique. Provavelmente achou que eu, mochileiro cabeludo, à toa na Europa, seria má influência sobre sua querida filha. Falava o mínimo possível comigo, só umas palavras em francês, simples e vazias. Mas um dia ele me supreendeu. Ofereceu-me um pequeno canivete suíço, explicando que era “un souvenir de la Suisse.” Estava grato com o presente dele. Por fim, o namoro com a jovem suíça durou pouco tempo. O pai, sem dúvida, se sentiu aliviado de nunca mais me ver.

      Ainda tenho o canivete suíço. Lembra-me, claro, aquele meu primeiro caso de amor, mas este objeto representa muito mais.

      Simples, com duas lâminas e quatro ferramentas, o canivete me acompanhou durante inúmeras viagens e experiências. Cortava pedaços de queijo ao lado da estrada na França, abria garrafas de vinho compartilhadas, e fazia consertos imediatos por meio da pequeninha chave de parafusos. Uma vez eu mesmo dormi com o canivete sob meu travesseiro, mas aquela noite receosa merece sua própria postagem.

      Basta dizer que faz parte da minha história. É precioso. Mas, em duas ocasiões, se afastou de mim. Senti-me desamparado sem ele.

      Sumiu pela primeira vez em 1994. Eu estava no aeroporto no Japão, prestes a embarcar num avião rumo a Bali. Os passageiros da Garuda Airlines tiveram que passar por um detector de metal justamente diante do portão. Quando foi a minha vez, o detector apitou. Um funcionário da Garuda abriu minha bagagem de mão e apreendeu o canivete. Explicou que não podia viajar com qualquer faca a bordo. Prometeu que a tripulação o devolveria para mim ao desembarcar. Mas, quando pousamos em Bali, os tripulantes me disseram que não sabiam nada do canivete. Não podia contestar direitinho, pois tinha passageiros atrás de mim, empurrando, querendo desembarcar. Decidi falar, então, com alguém na área de coleta de bagagem. Ao chegar lá, porém, vi que não havia ninguém trabalhando. Era a madrugada e todo mundo já tinha voltado para casa. No final, com raiva da Garuda Airlines, desisti. Peguei minha mala, chamei um táxi e fui para o hotel.

      Passei três dias em Bali. Apesar das belezas da ilha – praias, templos floreados, arrozais em terraços – eu estava abatido. A perda do canivete era uma nuagem escura que me seguia.

      No quarto dia, voltei ao aeroporto de Bali para continuar minha viagem na Indonésia. Perguntei no check-in sobre o canivete, mas, novamente, ninguém da Garuda sabia do que estava falando. Eu mesmo começava a me questionar. Será que foi um funcionário de outra empresa que o apreendeu no Japão?

      Meio triste, fui de avião até Jakarta. Depois de quatro horas de trânsito lá, entrei em outro avião rumo a Medã, uma cidade na ilha de Sumatra. Este avião estava lotado com famílias muçulmanas voltando à terra-mãe para celebrar o fim do Ramadan. Enquanto eu olhava para essas famílias, ouvia sem entender suas conversas cativantes. Quais expectativas alegres esperava esse povo? Continuava estudando essa gente no avião, e daí comecei a pensar sobre a grande cidade para onde estávamos indo. Como seria? Moderna com arranha-céus e movimento? Seria possível ouvir os muezins chamando a gente à oração? De repente eu reparei que pela primeira vez estava feliz, animado mesmo, de estar na Indonésia. O pesar do canivete perdido tinha se aliviado.

      Duas horas depois, pousamos em Medã. Soltei o sinto de segurança. Antecipando as maravilhas de Sumatra, entrei na fila de passageiros querendo desembarcar. Ao chegar na saída do avião, ouvi uma voz frágil, me chamando. Virei e eis que uma aeromoça da Garuda estava me entregando o canivete, embalado em plástico!

      Eu nunca compreendi como o canivete suíço me achou. Só sei que desde aquele prazo de quatro dias até agora ele fica na minha mala despachada quando estou viajando. Também, lembro pensando naquele tempo que eu precisava tomar muito mais cuidado para que o canivete nunca mais se perdesse.

      Mas em 2020 se perdeu de novo. Como no caso da Indonésia, a trajetória dele foi um mistério e esta vez o sumiço durou oito meses.

      Um dia o canivete estava, como sempre, na cozinha, numa pequena cesta que continha minhas chaves e moedas e no outro dia não estava. Simplesmente, desapareceu. Procurei na casa inteira. Esvaziei a garagem também, mas nada. Parecia que minha lembrança da Suíça já era. Aflito, aceitei a probabilidade de viver o resto de meus dias sem o canivete.

      E então, há mais ou menos dois meses, um milagre: a JJ o achou numa gaveta justamente debaixo da cestinha! Eu já tinha procurado nessa gaveta não sei quantas vezes mas o canivete estava preso na face oposta de uma porta talheres. Como se encontrou neste cantinho de plástico nunca vou saber.

      Nos quarenta anos que me acompanhou, o canivete se perdeu duas vezes. Com cada sumiço, eu me sentia como se um grande amigo tivesse falecido. Daqui para frente juro que vou prestar muito mais atenção. Agora este pequeno canivete vermelho com a cruz suiça faz parte do meu testamento.

      Postado em Aotearoa New Zealand, Japão, whānau | 3 Comentários
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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