Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • L’homme au chapeau violet

      Posted at 6:32 pm by wannabemineiro, on setembro 21, 2023

      …eu não tenho nada a te dizer
      Mas não me critique como eu sou
      Cada um de nós é um universo

       (54ª canção: “Meu amigo Pedro”, Raul Seixas)

      Acabo de chegar da Nova Caledônia, ilha francofona no Mar de Coral, onde eu tentava escutar, falar, ler e escrever só em francês durante três semanas. Ofereço abaixo um dos frutos da minha estadia lá, um pequeno trabalho que escrevi. Agradeço a minha professora, Claudie, por ter me ajudado com alguns errozinhos. 🙂

      Chamado, “L’homme au chapeau violet” – ‘O homem de chapéu violeta’ – o texto fala de uma pessoa que me fascinava em Nouméa. (O texto em francês é seguido por uma tradução simples em português.)

      *************************

      L’homme au chapeau violet*

      Il y était quand j’ai visité la plage d’Anse Vata pour la première fois. Un homme barbu presque nu sur le trottoir. Évidemment, il adorait se fait bronzer parce que, même à deux heures de l’après-midi, il était là, assis en plein soleil. Il ne faisait presqu’aucun effort pour s’en protéger. Un petit maillot de bain, des lunettes de soleil, un chapeau violet : ceux-ci étaient ses seules formes d’abri.

      J’aurais dû être troublé par l’état de sa peau brûlée, ou par le fait que quelque chose s’était passé dans sa vie et l’avait mis dans la rue. Mais je n’y ai pas pensé. C’était le chapeau melon en papier violet qui m’a touché. Cela m’a rappelé des chapeaux que je portais aux fêtes du nouvel an ou du jour de la Saint-Patrick. << C’est quoi l’histoire de son chapeau violet? >>, je me suis demandé.

      Un ou deux jours plus tard je me suis rendu compte que l’homme au chapeau violet était à cet endroit depuis longtemps. Il s’y était bien installé. De l’autre coté de la rue, à peut-être cent mètres d’où il s’assoit pour prendre le soleil, on peut voir ses choses, bien rangées: quatre valises à roulettes, quelques sacs de sport, un lit pliant à roulettes et, curieusement, une paire de palmes bleues pour plonger. Toutes ces choses, comme le chapeau violet, doivent avoir leur propre histoire, témoignage d’une vie.

      Tous les jours ses actions sont prévisibles. Pendant la journée tandis qu’il prend son bain de soleil, ses affaires se trouvent en face d’un magasin vide. Tout est en pleine vue de la terrasse d’un restaurant tout près mais, apparemment, ce n’est pas un problème. En effet, il est possible que les serveurs sur la terrasse surveillent ses affaires pour lui. Quand le soleil commençe à toucher l’horizon, il enfile une veste légère et se déplace à l’autre cotê de la rue où il passera la nuit. Mais ce déplacement n’est pas facile. Il doit enlever toutes ses affaires du trottoir et les emporter à une centaine de pas à un autre endroit plus abrité. En faisant ça, l’homme, valises à la main et toujours au chapeau violet, passe et repasse sous les yeux des clients assis à la terrasse du restaurant.

      Il semble qu’il y ait un accord tacite entre lui et les propriétaires des entreprises de son territoire. Ils se saluent chaque jour, souvent en se posant une main sur l’épaule de l’autre. Parfois, l’homme échange quelque mots avec les éboueurs et autres qui travaillent à l’extérieur. Une ou deux fois par jour on le voit avec un café ou un petit plat, nourriture qui, peut-être, lui a été donnée par un des propriétaires. Sans doute, ils se respectent l’un à l’autre.

      Un matin je marchais au bord de la mer et l’homme au chapeau violet m’a souhaité une bonne journée. Je lui ai souhaité la même chose et je me suis senti très content. Puis, en réfléchissant sur cette petite rencontre, je me suis dit, << Peter, tu dois parler avec ce mec. Il faut apprendre l’histoire du chapeau violet. >> Alors, c’était mon intention la fois suivante où je l’ai croisé sur le trottoir. J’ai commencé en lui disant << Bonjour monsieur! >>. Mais, malheureusement, son << Bonjour >> en retour était méfiant, même craintif. J’ai toute de suite compris que c’était lui qui initiait n’importe quelle conversation, pas inverse, et j’ai continué ma promenade en ne voulant pas l’inquiéter davantage.

      Connu de tout le monde, l’homme au chapeau violet fait partie d’Anse Vata. Je suis sûr que je ne l’oublerai jamais. L’histoire de son chapeau, hélas, me restera un mystère.

      *une trace de mon passage sur la Grande Terre

      *************************

      O homem de chapéu violeta*

      Ele estava lá a primeira vez que visitei a praia de Anse Vata. Um homem barbudo quase nu na calçada. Obviamente, adorava se bronzear porque, mesmo às duas horas da tarde, ele estava lá, sentado, diretamente no sol. Fazia quase nenhum esforço para evitá-lo. Uma sunguinha, óculos escuros, um chapéu violeta: esses eram o único abrigo que tinha.

      Eu devia ter se preocupado com a condição da sua pele queimada, ou com o fato de que alguma coisa que aconteceu na vida dele o deixou na rua. Mas eu nem pensei nisso. Foi o chapéu-coco violeta de papel que me impressionou. Lembrou-me dos chapéus que eu usava nas festas de Réveillon ou do dia de Saint Patrick. Perguntei-me: “Qual é a história desse chapéu violeta?”

      Um ou dois dias mais tarde, percebi que fazia muito tempo que o homem de chapéu violeta estava naquele lugar. Estava bem estabelecido. Do outro lado da rua, talvez cem metros de onde sentava para tomar sol, estavam suas coisas, muito organizadas: quatro malas com rodinhas, alguns sacos de esporte, uma cama dobrável de rodas e, curiosamente, um par de nadadeiras azuis para mergulho. Certamente, todas essas coisas, como o chapéu violeta, têm sua própria história, evidência de uma vida.

      As ações quotidianas do homem de chapéu violeta são previsíveis. No dia, enquanto está tomando sol, suas coisas estão guardadas em frente a uma loja vazia. Ficam à vista do pátio de um restaurante pertinho mas parece que isso não tem problema. De fato, é possível que os garçons no pátio tomem conta dos pertences dele. Quando o sol começa a tocar o horizonte, o homem veste um casaco leve e se muda para o outro lado da rua onde vai passar a noite. Mas essa mudança não é facil. Ele precisa pegar todas as suas coisas da calçada e carregá-las a uns cem passos para outro lugar mais protegido. Fazendo isso, o homem, com as malas na mão e sempre de chapéu violeta, vai e volta sob os olhares dos clientes sentados no pátio do restaurante.

      Parece que há um acordo entendido entre ele e os donos dos negócios no seu território. Eles se saudam todo os dias, frequentemente colocando uma mão no ombro da outra pessoa. De vez em quando, o homem troca algumas palavras com os lixeiros e outros que estão trabalhando fora. Uma ou duas vezes por dia ele é visto com um café ou pequeno prato na mão, comida que, talvez, ele ganhou de um dos donos. Sem dúvida, eles se respeitam.

      Uma manhã eu estava andando à beira-mar e o homem de chapéu violeta me desejou um bom dia. Desejei a mesma coisa a ele e me senti muito feliz. Pouco tempo depois, pensando sobre esse pequeno encontro, eu me disse: “Peter, você deve falar com esse cara. É preciso aprender a história do chapéu violeta.” Então, essa foi a minha intenção no dia seguinte quando o vi na calçada. Comecei por dizer: Bom dia senhor!” Mas, infelizmente, seu “Bom dia” em troca era suspeito, receoso mesmo. Entendi num instante que ele iniciava qualquer conversa, não o contrário, então eu continuei minha caminhada sem querer lhe assustar mais.

      Conhecido por todo mundo, o homem de chapéu violeta faz parte de Anse Vata. Tenho certeza que nunca vou esquecer dele. A história do chapéu violeta, porém, será um mistério para mim.

      *um rastro da minha passagem na Grande Terre (‘apelido por a maior ilha da Nova Caledônia’)

      Postado em francês, língua/linguagem/linguistica, Outras viagens | 0 Comentários
    • Hiato francês

      Posted at 3:23 pm by wannabemineiro, on agosto 7, 2023

      Ton soleil, ta braise
      Quem me enfeitiçou
      O mar, marée, bateau
      Tu as le parfum
      De la cachaça e de suor
      Geme de preguiça e de calor

      (53ª canção: “Joana francesa”, Chico Buarque)

      Esta postagem de agosto vai ser curta demais porque estou começando um grande experimento cognitivo que não inclui a língua portuguesa. Explico.

      Ao final do confinamento na Nova Zelândia em 2022, tomei a decisão de estudar o francês. Já tinha estudado o francês na universidade e naquela época falava mais ou menos bem. Depois disso, porém, não usei a língua durante quase 40 anos. Agora faz um ano que estou revisando o francês e, bom, posso dizer que estou aprimorando aos poucos. Mas ainda não falo suficientemente.

      Por isso, tomei outra decisão: vou dedicar o mês de agosto à língua francesa. Um mês sem o português e sem o japonês, duas línguas que geralmente estudo todo dia.

      Para profitar dessa decisão, vou passar três semanas na Nova Caledônia, uma ilha francesa a três horas daqui. A primeira semana vou estar de passeio com a JJ. As outras duas semanas vou fazer um curso intensivo de francês. Vou tentar estudar como se fosse estudante na universidade. Quero aumentar meu vocabulário e melhorar a pronúncia para ser capaz de usar a língua francesa em mais e mais situações. Se eu me cansar dessa dedicação a estudar – o que, sem dúvida, vai acontecer – vou descansar num ambiente francês, ou seja, vou nadar na piscina pública ou na praia, assistir um filme francês no cinema, tentar bater papo nos cafés ensoleirados de Nouméa.

      É isso meu plano. Não sei o que vai acontecer…

      Será que consigo fazer isso? Meu francês realmente vai melhorar? E quê vai acontecer com meu português? Espero que eu volte da Nova Caledônia falando francês bastante bem, sem afetar meu português. Mas quem sabe? Talvez volte en parlant une mélange des duas línguas, mais ou menos como a chanson au-dessus.

      Postado em língua/linguagem/linguistica | 2 Comentários
    • O Marantz: uma homenagem a Marcel Proust

      Posted at 8:26 am by wannabemineiro, on julho 30, 2023

      As lembranças me chegam sempre em noites tão vazias
      E mexem tanto com minha cabeça
      Que quando o sono vem o dia já nasceu

       (52ª canção: “Vivendo por viver”, Márcio Greyck e Roberto Carlos)

      Moema acha que tenho ótima memória. Ela fica surpreendida dos detalhes que consigo lembrar de quando morei com sua família em Belo Horizonte. Naquela época, por exemplo, Moema sempre atendia o telefone com “3-3-5-0-5-3-3”, enquanto Iberê atendia com “Pronto?” Lembro exatamente quando Mamãe me ensinou a palavra lusco-fusco: estávamos no carro com Papai, atravessando a escuridão crescente do sul de Minas. Aliás, foi Ubirajara que me explicou o sentido de não tem grilo. Sim, de fato, lembro muito daquele ano no Brasil.

      Mas isso não quer dizer que já tinha essas memórias na cabeça quando me despedi da minha família brasileira em 1978. Não foi assim, não. Muitos detalhes do meu intercâmbio me vieram anos depois.

      O autor francês, Marcel Proust, notou que às vezes as memórias são involuntárias, desencadeadas por uma sensação. No mais famoso episódio do seu romance Do lado de Swann, a sensação foi o sabor de uma madeleine, um bolinho francês em forma de concha. Quando o narrador, nos seus últimos anos, a provou, foi levado a sua infância. Acreditou que a sensação gustativa do bolinho lhe servia como uma janela, através da qual o passado foi visto, revivido mesmo, embora fugazmente. Certas boas lembranças que guardo do Brasil foram evocadas nesse jeito. O incidente que mais provocou uma cadeia de memórias aconteceu talvez trinta anos atrás na Califórnia quando, ao ligar o rádio, ouvi um solo de piano na canção “School” de Supertramp*. Hipnotizado pelas notas do trecho, comecei a reviver uma manhã quente em 1977:

      Entramos na Belina e sentamos no banco de atrás. Jupira, que ía ao trabalho, entrou e se sentou em frente. Baixamos as janelas para aliviar o calor sufocante dentro do carro. Iberê ligou o motor, colocou uma fita e entrou na Rua Almirante Alexandrino. O ar entrava pelas janelas e circulava, misturado com a fumaça dos Hollywoods de Iberê e Jupira. Além da música e do som repetido dos pneus contra o asfalto, eu ouvia, sem entender muito, a conversa dentro do carro. Descemos a rua. De repente, umas notas decrescentes de piano chamaram-me a atenção. Foquei na música e pensei, “Que grupo é esse? Nunca ouvi na Califórnia. Que estranho ouvir alguma coisa nova, bacana, até cantada em inglês, aqui no Brasil.” E naquele momento, o trecho de piano se acabando, reconheci algo importante: eu estava contente de ser “irmão” dessas pessoas legais. Finalmente, após quase três meses cheios de saudades da Califórnia, estava sentindo-me feliz no Brasil!

      Igual ao caso da madeleine de Proust, o episódio com o trecho de Supertramp me permitiu quase tocar o passado, nesse caso de estar sentado com Zé Alfredo no carro, sentindo-me confortável e seguro com minha família brasileira e a vida que estávamos levando juntos. Mas, novamente como a da madeleine, minha experiência de reviver o passado aconteceu só aquela vez e sumiu rapidinho. Se eu escutar “School” agora, não consigo sentir o que sentia.

      O trecho de piano também me fez reconhecer que o ato de escutar música na Belina não teria sido possível sem o Marantz, o toca-fitas americano que, recentemente comprado, era bem valorizado pela família. De fato, quando cheguei em Belo Horizonte, não havia toca-fitas em casa. Mas, um dia na hora do almoço, a família discutiu a possibilidade de comprar um Marantz para complementar o toca-discos na sala de estar. Não entendi tudo da conversa em redor da mesa mas parecia que o aparelho custaria menos em dólares americanos na Zona Franca de Manaus do que em cruzeiros em Belo Horizonte. Por isso, Papai me perguntou se podia lhe emprestar alguns dólares – eu tinha 200 comigo – para comprar um Marantz. Falei que emprestaria. Por fim, entretanto, meus dólares não foram precisos – não sei exatamente porquê – e poucos dias depois um toca-fitas Marantz apareceu em casa.

      Embora os detalhes exatos da compra fiquem imprecisos para mim, a consequência imediata do Marantz era clara: a sala de estar virou estúdio de gravação. Ubiratan gravou canções de Milton Nascimento. Moema fez uma fita de Stevie Wonder, Leo Sayer e outros nomes de disco music. Para Tibiriça foi o grupo Genesis da Inglaterra enquanto Papai gravou o querido saxofone de Pixinguinha. Todo mundo queria gravar fitas de seus sons favoritos. Não foi só a família que usava o Marantz. Vários amigos dos meninos, levando discos sob o braço, frequentavam a sala de estar para gravar algum som. Uma vez num domingo, quando desci do carro com Mamãe e Papai, vi Alexandre, grande amigo dos meninos e aspirante roqueiro, esperando na calçada em frente de casa. Ele segurava alguns discos na mão. Até hoje posso citar o papo entre Alexandre e Papai:

      – Bom dia, senhor. Tem grilo pra gravar?

      – Acho que tem, sim – respondeu Papai, indicando, ao lado da casa, um terreno baldio coberto de vegetação.

      Demos uma risada e entramos em casa juntos. Alexandre foi diretamente para a sala de estar.

      Sem dúvida, o Marantz atraiu muitas pessoas, especialmente os meninos. Será que uma musiquinha no carro prometia mais possibilidades com a namorada? Talvez isso fez parte do fascínio pelo Marantz. Seja como for, tenho certeza de uma coisa: se não fosse por aquele trecho de Supertramp, eu nunca poderia ter escrito esta postagem.

      *Se quiser, o trecho de Supertramp fica entre 3:15 e 4:12 dessa gravação no YouTube:

      Postado em a história do menino/Julião | 3 Comentários
    • Peregrinação culinária

      Posted at 1:49 pm by wannabemineiro, on junho 29, 2023

      Se eu ficar gordo muito gordo, tudo certo,

      tudo bem tanto faz. Eu quero é mais.

      (51ª canção: “Eu quero é mais”, Sandy e Junior)

      Adoramos comidas recheadas. Pastéis, tamales, crepes, samosas (Índia), empanadas, perogies (Ucrânia), oniguiris, nêns (Vietnã)…parece que cada país tem alguma coisinha recheada. São todos pequenos pacotes de dar água na boca. Ademais, se come a embalagem também. Quem é que não gostaria disso?

      A comidinha recheada favorita da JJ é a guioza. De origem chinesa, a guioza japonesa é um pastel de massa fininha.

      guioza de um restaurante pertinho da casa da JJ em Tókio

      O recheio tradicional é carne de porco moída, repolho ralado, cebolinha, alho e gengibre. O que distingue a guioza do jiazi, seu primo chinês, é a moda de cozinhar. Nos restaurantes chineses o cardápio têm duas opções para o jiazi: frito ou cozido a vapor. A guioza japonesa combina com os dois, ou seja, o fundo do pastel é frito até que esteja um marrom dourado crocante e, depois de botar um pouco de água na frigideira e tapá-la, o outro lado do pastel é cozido a vapor. O resultado é divino, especialmente com um molho de vinagre de arroz, soja e layu (‘azeite apimentado’).

      Embora se pode encontrar guioza no país inteiro, duas cidades se consideram como “capitais de guioza”. Utsunomiya, a maior cidade da província de Tochigi, tem se identificado como o centro de guioza já faz tempo. Por outro lado, Hamamatsu, na província de Shizuoka, é um recém-chegado nesse palco de fama culinária.

      Todo ano um grupo de críticos gourmet identificam o restaurante que faz a melhor guioza no Japão. Invariavelmente, o campeão é alguém de Utsunomiya ou de Hamamatsu.

      Embora eu respeite as avaliações dos críticos, qualquer designação de melhor guioza é, ao menos um pouco, subjetiva. Por isso, a JJ e eu, na última visita ao Japão, fizemos um “guioza tour” para nós mesmo decidirmos quem tem a melhor guioza: Utsunomiya ou Hamamatsu?

      Começamos em Utsunomiya. É óbvio que a cidade valoriza a guioza, pois, saíndo da estação ferroviária às 11 horas, a primeira coisa que vimos foi uma estátua de guioza:

      Mas será que a guioza de Utsunomiya é gostosa mesmo? Querendo averiguar isso, entramos no “Kouran Utsunomiya”, o primeiro restaurante pertinho da estátua. Infelizmente, as guiozas desse pequeno restaurante não foram boas, não.

      guioza de Kouran Utsunomiya (香蘭 宇都宮)

      O recheio era adequadamente saboroso, mas a massa nos desapontou. Faltou uma crocância no fundo e, no outro lado, uma maciez delicada. Além disso, as guiozas ficaram grudadas entre si. Ao pegar uma guioza com os pauzinhos, a massa se rasgou. Saímos do restaurante meio escandalizados, pensando que Utsunomiya nem sequer merecia ser considerado um lugar para almoçar.

      Mais tarde, porém, conhecemos uma outra Utsunomiya. Entramos numa ruela pitoresca. Antigamente chamada Rua de Miyajima, a preifeitura de Utsunomiya afetuosamente a renomeou “Gyouza Douri” (‘Rua de Guioza’). Cada poste de luz nesta rua tem uma placa que celebra a fama culinária da cidade:

      Mesmo a lâmpada por cima desta sinalização reflete o tema de guioza:

      Na Gyouza Douri vimos vários restaurantes de guioza. Escolhemos “Utsunomiya Minmin”. Em frente desse lugarzinho tinha bancos de espera e cones de sinalização para controlar a fila de clientes famintos. Isso era um bom sinal e, felizmente, tínhamos chegado antes do horário de pico então podíamos entrar sem esperar.

      A guioza de Utsunomiya Minmin era muito melhor do que a guioza do almoço.

      guioza de Utsunomiya Minmin (宇都宮みんみん)

      O prato era simples mas perfeito. Doze guiozas bem douradas e crocantes de um lado e molezinhas do outro. O recheio nos agradou também, pitadas bem equilibradas de gengibre e alho em cada mordida. A guioza era tão gostosa que nós pedimos outra porção.

      O dia seguinte voltamos a Tóquio felizes. Nunca esqueceremos daquela visita à Rua de Guioza! Sem dúvida, a cidade de Utsunomiya era abençoada com guioza deliciosa.

      Mas uma questão persistia para nós: como seriam as guiozas de Utsunomiya comparadas às de Hamamatsu. Saberíamos a resposta disso dez dias mais tarde quando a JJ, o irmão dela e eu fomos a Hamamatsu para visitar parentes da JJ.

      Quando chegamos de trem bala, eu notei que Hamamatsu não divulgava a guioza tanto quanto Utsunomiya. Só vi um cartaz na estação motivando visitantes a provar a guioza da cidade. E na vitrina da oficina de turismo havia uma etiqueta de guioza ao lado de uma outra imagem, bem maior, de peixe enguia, o símbolo duradouro de Hamamatsu. No mapa da cidade tampouco tinha estátua ou específica rua de guioza.

      “Kinka”, o primeiro restaurante que entramos, não foi programado por nosso tour de guioza. Fomos lá porque dois primos da JJ, Naru-kun e You-chan, nos convidaram. O banquete que Naru-kun selecionou foi muito gostoso e, por sorte, incluía guioza:

      guioza de Hamamatsu no restaurante Kinka (錦華)

      Gostamos dessa guioza, sim. O recheio estava saboroso e a cor e consistência da massa como devem ser. Aliás, qualquer guioza em Hamamatsu vem com moyashi (‘brotos de feijão’), um acompanhamento ideal. O único problema da guioza do restaurante Kinka foi que Naru-kun pediu tanta coisa gostosa para nós provar – camarões apimentados, uma refogada de pimentão e carne, etc. – que foi difícil concentrar adequademente sobre nossos pratinhos de guioza.

      Dois dias após o banquete no Kinka, queríamos terminar nosso tour por “Mutsugiku”, um restaurante que a JJ já tinha visitado várias vezes. Ela nos disse que o restaurante merecia consideração. Mas também nos informou que precisaríamos chegar bem antes do horário de pico, senão teria uma fila. Infelizmente, chegamos às 11:45 e tivemos que esperar 45 minutos:

      A espera na rua valeu a pena, porque as guiozas eram divinas:

      guioza de Hamamatsu no restaurante Mutsugiku (むつぎく)*

      Sabíamos com a primeira prova que essas guiozas, arranjadas artisticamente no prato, eram especiais. A massa do pastel estava equilibrada perfeitamente: crocante de um lado e molinha do outro. E o recheio? Estou sem palavras para descrevê-lo. Desfazia-se na boca, deixando um sabor inconfundível de umami. Guiozas divinas mesmo, as melhores que já provei na minha vida.

      A JJ e eu concordamos que Mutsugiku em Hamamatsu é o melhor lugar para guioza no Japão – ao menos dos quatro restaurantes que visitamos em 2023. Talvez na próxima visita ao Japão, acharemos outro restaurante que será melhor ainda.

      Satisfeito com minha peregrinação no mundo de guioza japonesa, uma outra pergunta me preocupa agora, “Quem é que faz a melhor coxinha no Brasil?”

      *Agradeço a Naru-kun por esta foto. Ele é excelente fotógrafo! (A julgar pelas outras fotos nesta postagem, eu sou péssimo.)

      Postado em Japão | 6 Comentários
    • A metade

      Posted at 3:51 pm by wannabemineiro, on maio 4, 2023

      É chato chegar

      A um objetivo num instante

      (50ª canção: “Metamorfose ambulante”, Raul Seixas)

      Esta é a 50ª postagem! Vá Peter, vá!

      Finalmente estou a meio caminho. Se meu blogue fosse uma montanha, eu estaria agora no cume dela. A longa descida até a centena postagem está me aguardando. Seja qual for a maneira de dizer, a viagem até este momento tem sido divertida. De vez em quando, tem sido frustrante também, pois sou um cara preguiçoso.

      Quando comecei este blogue em 2019 queria escrever sobre meu ano intercâmbista no Brasil em 1977. Escrevi uma dúzia de postagens seguidas sobre este tema, sob a categoria “A história do menino/Julião”. Pretendo continuar com isso porque ainda não terminei esta história. Mas daqui por diante, as postagens sobre o menino, em vez de ser contínuas, serão esporádicas e sem ordem específica. Se eu quiser escrever algo sobre aquele ano, vou fazer; se não, vou escrever outra coisa. Aliás, vou usar a primeira pessoa em vez da terceira pessoa, a forma que, só para praticá-la, eu usei na primeira dúzia de postagens. De qualquer maneira, espero que as postagens mostrem como aquele ano no Brasil foi um dos períodos mais formativos na minha vida. Se não fosse pela família carinhosa que me recebeu tantos anos atrás em Minas Gerais, eu não seria capaz de escrever este blogue em português nem teria tantas experiências para relatar.

      Além da história do menino, já escrevi postagens sobre outros assuntos incluindo a JJ, minha família na Califórnia, a Nova Zelândia, viagens em vários lugares no mundo, a Covid, e, claro, minha relação de amor e ódio com a tecnologia de hoje em dia. Vou continuar escrevendo sobre estes temas mas imagino que outros vão me interessar e estrear nesse blogue.

      Até agora tenho incluído letras de cinquenta músicas diferentes. Às vezes, a conexão entre as letras e a postagem foi bem clara e outras vezes, como esta “Metamorfose ambulante” de Raul Seixas, a relação fica mais duvidosa. Mas tanto faz. O motivo inicial do blogue foi de escutar mais músicas, estudar as letras delas e, sobre tudo, escrever em português. Nos quatros anos que faço este trabalho tenho certeza que meu português melhorou e que continua melhorando. Então missão comprida!!

      Não vou mentir: este blogue não tem muitos leitores. Se eu tivesse divulgado o conteúdo no Instagram ou Twitter talvez teria mais seguidores. Mas, na verdade, isso não me importa, pois nunca quis ser influenciador digital. O mais importante para mim sempre foi praticar e manter a língua portuguesa. No entanto, quero terminar esta postagem para agradecer todos vocês que estão lendo meus escritos em português. Espero que continuem o percurso comigo.

      Postado em Outras viagens | 13 Comentários
    • Longa distância (ii)

      Posted at 8:44 am by wannabemineiro, on abril 14, 2023

      A última ficha caiu
      Eu penso em vocês night’n day
      Explica que tá tudo ok

      (49ª canção: “Bye bye Brasil”, Chico Buarque)

      Dois anos depois de fazer intercâmbio em Minas Gerais, eu tive a oportunidade de viajar de novo. O destino essa vez foi Aix-en-Provence (ou “Aix”), uma pequena cidade onde estudei o francês.

      Diferente da experiência no Brasil, quando estive na França em 1980 telefonava várias vezes aos meus pais nos Estados Unidos. Não foi minha intenção de fazer assim, pois naquela época qualquer chamada internacional custava demais. No entanto, pouco tempo após que cheguei em Aix, minha família sofreu um choque enorme na Califórnia: a casa foi destruida num incêndio.

      Lembro claramente como recebi essa má notícia. Saía do meu apartamento para a universidade. Estava inquieto porque teria uma prova de francês em breve. No saguão de meu prédio, passei pela caixa do correio e vi uma carta de minha mãe. Pensando que qualquer notícias da família íam me acalmar um pouco, abri o envelope. Comecei a ler: “Peter, só algumas palavras para dizer que perdemos a casa no incêndio florestal…”

      A carta me assustou tanto que matei a aula de francês. Custe o que custar, faria imediatamente uma chamada para a Califórnia. Fui ao correio onde se faziam as ligações internacionais. Depois de pagar um preço exorbitante, consegui falar por alguns minutos com meus pais. Suas vozes, tão longe de mim, estavam calmantes, sua mensagem simples. Tudo estava sob controle. Estavam bem e morando num trailer no quintal enquanto a nova casa fosse construída. Queriam que eu ficasse tranquilo em Aix e que aproveitasse ao máximo meu ano na França.

      Aliviado pelas palavras de meus pais, eu aproveitei mesmo o que Aix me ofereceu. Mas nunca parei de pensar no que acontecia na Califórnia. De fato, me sentia meio culpado por estar curtindo a vida na França enquanto meus pais e meu irmão, apertados num trailer no bairro incendiado, esperavam a construção da nova casa.

      Um dia eu estava com tanta saudade que decidi ligar à família novamente. Mas dessa vez usaria um orelhão. Coloquei algumas moedas no telefone.

      As moedas apareceram nos recipientes transparentes debaixo das aberturas. Disquei o número e depois de alguns toques minha mãe atendeu. Que alegria em ouvir as vozes um do outro! Uns dois ou três minutos mais tarde, quando ela estava me falando sobre o progresso da construção, uma luzinha piscou no telefone. Levei alguns segundos para perceber o que estava sinalizando: as moedas já tinham caído dos recipientes e a ligação iria terminar! Rapidamente, tirei os últimos francos de meu bolso e os coloquei no telefone. As moedas entraram nos recipientes e a luzinha sumiu. Eu foquei na voz da minha mãe. A conversa abordou o assunto de outras casas em construção na vizinhança, mas novamente reparei a luzinha intermitente. Infelizmente, a ligação se cortou antes que pudéssemos nos dizer adeus.

      Não sei exatamente quanto custou esse telefonema nem por quantos minutos falei. Mesmo que pudesse ouvir a voz da minha mãe, fiquei meio frustrado com a experiência de fazer telefonemas na França. Decidi que, daí por diante, não faria mais ligações. Escreveria cartas, como fazia no Brasil.

      Algumas semanas depois, não obstante, ouvi duas australianas na aula falando de um orelhão “mágico” na Avenida Malherbe.  O telefone foi sabotado de tal maneira que você podia fazer uma chamada internacional por só um franco. Aparentemente, a moeda não se caía do recipiente até que você desligasse o telefone. Pensei que isso fosse bom demais para ser verdade mas resolvi investigar esse orelhão depois.

      Quando cheguei à Avenida Malherbe às três horas da manhã, vi umas oito ou dez pessoas esperando sua vez de usar o telefone!

      Eu entrei na fila. Um senegalês que estava na minha frente explicou as “regras” do telefone. Cada pessoa tinha dez minutos por seu franco, o que era bem melhor do que um orelhão normal. A pessoa atrás de quem estava telefonando marcaria o tempo e diria quando já tivesse passado os dez minutos. Se você quisesse falar mais tempo ou falar com outra pessoa, era preciso desligar e ir para o fim da fila.

      Do que eu podia ver em volta de mim, todo mundo seguia as regras. Enquanto esperava minha vez, falei com o senegalês e, chegando logo depois, um missionário mórmon do Colorado e uma uruguaiana. Parecia uma festa na rua, com todo mundo conversando em várias línguas.

      Finalmente, depois que o senegalês falou por seus dez minutos, foi a minha vez. Coloquei meu franco e disquei o número. Meu irmão atendeu. Disse que naquele momento estava sozinho em casa. Também explicou que a família estava bem e a construção da casa estava no prazo. Daí falamos do assunto que mais lhe agradava: os Lakers, o time de basquete de Los Angeles. De repente senti um leve toque no meu ombro. Expliquei para meu irmão que ia desligar, pois meus dez minutos já tinham passado. Nós dissemos adeus e desliguei.

      Satisfeito, eu saí do orelhão. O mórmon entrou, a uruguaiana começou a contar os minutos dele, e os outros na fila avançaram. Tudo funcionando como devia.

      O orelhão mágico da Rua Malherbe durou pouco tempo. A companhia telefônica identificou essa falha em dois dias. Mas, a partir daí, outros orelhões em Aix seriam sabotados, sempre com o mesmo resultado: camaradagem multilíngue na fila enquanto todos aguardavam os preciosos dez minutos no telefone. Como Banksy, o artista de hoje-em-dia deixando imagens na Europa, a pessoa que sabotava as cabines telefônicas era um grande mistério. Seja quem fosse, foi um héroi para nós da comunidade internacional de Aix-en-Provence.

      Postado em Outras viagens, tecnologia | 4 Comentários
    • Longa distância (i)

      Posted at 2:28 pm by wannabemineiro, on março 1, 2023

      O correio já chegou ô, ô

      Nem uma cartinha de você

      Todo o dia a mesma coisa

      E eu de longe, sem saber porque

      (48ª canção: “O correio já chegou”, Francisco Alves)

      Enquanto escrevo esta postagem, a JJ está em Tóquio visitando a família dela. Todo dia trocamos pequenas mensagens pelo WhatsApp. Ela me fala do tempo, do seu irmão, do trânsito. Às vezes, me atormenta com fotos de alguma delícia que acabou de saborear. É simplesmente incrível como esta troca de mensagens instantâneas pode nos ligar como se fôssemos juntos no mesmo lugar.

      Mas a comunicação não foi sempre assim. Sou bastante velho para lembrar a época de cartões postais e cartas. Como intercambista no Brasil em 1977, a primeira coisa que fiz quando desci do avião no Rio de Janeiro foi comprar um cartão postal e o mandar para meus pais na Califórnia. Não lembro exatamente o que escrevi mas devia ter sido algo como, “Cheguei. Estou bem. Mando notícias em breve.” Imagine isso: meus pais tiveram que esperar uns dez dias ou mais para receber a notícia que eu tinha chegado no Brasil direitinho. O contato instantâneo de hoje não existia e qualquer chamada de longa distância ou telegrama internacional custaria demais. Naquela época, então, a filosofia era simples: “a falta de notícias é um bom sinal.”

      Toda semana durante minha estadia no Brasil, escrevi uma carta para meus pais. E toda semana eles escreveram para mim. Lembro bem os aerogramas que meu pai mandava. Custando 22 centavos americanos, consistiam de uma folha de papel que se dobrava em envelope selado. Sempre os abria com muita atenção porque se não, eu riscava “cortar” palavras. Era impressionante como meu pai podia encher uma página e meia com tantas notícias. Ele me falava da família – incluíndo os cachorros – do tempo na Califórnia, dos meus amigos. Mesmo contava piadas.

      Não sei exatamente como evoluiu, mas os aerogramas do meu pai sempre chegavam à minha casa em Belo Horizonte na sexta-feira na hora do almoço. Durante o resto do dia, eu ficava feliz de ter as notícias da família mas também sentia muitas saudades da Califórnia. No dia seguinte eu iria ao correio na Avenida Afonso Pena para mandar uma carta para meus pais. Nunca lhes perguntei sobre essa correspondência mas suponho que a minha carta, reconhecível por seu envelope de listras verdes e amarelas, chegava na casa deles com a mesma regularidade do que eu recebia os aerogramas.

      Naquele ano de intercâmbio, o Natal era bem difícil. Embora estivesse rodeado de uma família carinhosa em Minas Gerais, eu tinha tantas saudades da Califórnia. Passei o dia inteiro pensando em meus pais e irmãos e nas nossas tradições natalinas. Tinha lágrimas aos olhos e um nó na garganta, pois estava sofrendo mesmo. Acho que Papai (meu pai brasileiro) percebeu minha aflição. De repente na hora do almoço, ele me disse que podíamos telefonar aos meus pais nos Estados Unidos para lhes desejar um “Merry Christmas”. Que oferta generosa! Nos anos 70 no Brasil, o telefone era um dos maiores bens da família e ligações internacionais eram quase inimagináveis. Por fim, recusei a oferta do Papai. Lembro inventando alguma razão por isso mas na verdade recusei porque eu teria  caído em prantos se ouvisse as vozes da minha família na Califórnia. Preferia sofrer o Natal em silêncio e esperar o próximo aerograma do meu pai.

      Postado em Brasil, tecnologia | 2 Comentários
    • Romance nordestino

      Posted at 7:22 am by wannabemineiro, on fevereiro 1, 2023

      O Nordeste é poesia

      Deus quando fez o mundo, fez tudo com primazia

      Formando o céu e a terra cobertos com fantasia

      Para o sul deu a riqueza, para o planalto, a beleza

      Pro nordeste, a poesia

      (Trecho de Patativa do Assaré na 47ª canção:

      “Norte Nordeste me veste”, RAPadura)

      Não sei exatamente como foi que ouvi falar do livro Vidas Secas. Talvez fosse numa reportagem, talvez fosse do meu amigo Marcus. De qualquer jeito, quando vi a obra-prima de Graciliano Ramos numa livraria na Avenida Paulista a comprei. Lembro bem a moça no caixa que, ao ver o livro, me disse que valeu a pena. Ela o leu no colégio e adorou. Disse-me os nomes das personagens principais do livro: Fabiano, sinha Vitória, seus dois meninos – nunca nomeados – e o cachorro, Baleia. Desde então, outros amigos me disseram que tinham estudado Vidas Secas no colégio e imaginei que esse pequeno romance nordestino seria um pouco como As vinhas de ira de Steinbeck, o que li no high school na Califórnia.

      Alguns meses depois, tirei Vidas Secas da minha estante. O desenho simples na capa do livro era cativante.

      Com trouxa de roupa no ombro, um homem e seu cachorro atravessavam uma planície rala. Os dois eram magrinhos, o sol sob eles implacável. Quanto à capa, pensava que o livro ia ser super interessante.

      Abri o livro e comecei a ler. Logo depois, fiquei decepcionado. Havia muito vocabulário difícil. Juazeiro, alargar, mancha, galho, escanchado, aió, e pederneira eram palavras novas para mim, e todas apenas na primeira página. Suspirei, fechei Vidas Secas e coloquei novamente na estante onde ficaria por muito tempo.

      Na verdade, tentei ler o livro várias vezes e o resultado era sempre o mesmo. Dentro de quatro ou cinco páginas, desistia e devolvia o livro ao seu lugar na estante. Com cada tentativa me sentia como se não soubesse o português ou, pelo menos, como se meu vocabulário consistisse só em algumas dúzias de palavras.

      Ano passado resolvi ler Vidas Secas sem falha. Comecei como sempre, procurando o monte de palavras que não entendia. Usei este método até terminar o segundo capítulo. Mas já estava chateado por ter que procurar tantas palavras. O que mais me incomodou foi o fato de achar a palavra no dicionário não entender o sentido dela no texto. Isso geralmente não acontece quando leio outros textos em português. Procuro palavras desconhecidas, as entendo e continuo lendo. Vidas Secas, porém, era escrito como poesia, ou seja, mesmo com uma tradução ou definição de palavras desconhecidas não consegui entender o texto exatamente. Às vezes fiquei perdido mesmo.

      Mas dessa vez eu não desisti com a leitura. Persistiria até o fim. Também decidi que não procuraria nenhuma palavra mais. Assim, leria o resto do romance e entenderia o que entenderia.

      Com esse novo método, comecei o terceiro capítulo. O título dele, “Cadeia”, me parecia bastante interessante. Como era de esperar, Fabiano ficou preso numa cidadinha no Sertão. O delito que ele fez? Isso não entendi exatamente. Sei que em vez de voltar para a roça com os mantimentos que sua pobre família estava esperando, começou a beber aguardente e jogar algo chamado trinta e um. Por fim, ficou bêbado, perdeu dinheiro e ofendeu o chamado Soldado Amarelo. Mais tarde, caído na rua, Fabiano foi espancado e levado para a cadeia da cidade. Dentro da cela, se preocupava com a família.

      Minha compreensão daquela noite miserável era claramente incompleta. Nem sei como que Fabiano saiu da cadeia. Tanto faz, eu continuei lendo, capítulo após capítulo. Finalmente cheguei ao fim e fechei o livro. Senti algum alívio e o coloquei na estante.

      Agora tenho uma ideia do enredo desse romance famoso. Quando vejo o título, lembro bem as misérias que a pobre família sofreu no Sertão. Além disso, acho que o livro me permitiu entender porque tanta gente saiu do Nordeste nos anos 60 e 70 para buscar emprego nas grandes cidades do Sudeste e do Sul.

      Mas será que eu posso dizer que realmente li Vidas Secas? Isso eu não sei. A poesia do Nordeste me escapou.

      Postado em Brasil | 4 Comentários
    • Viagem no tempo

      Posted at 1:00 am by wannabemineiro, on janeiro 1, 2023

      Eu já consigo ir além do horizonte

      (46ª canção: “Quanto ao tempo”, Carlinhos Brown & Michael Sullivan)

      Quando criança aprendi na escola que a Terra é redonda. Em cada sala havia um globo rotativo que girávamos com prazer. Lemos sobre Cristóvão Colombo e Fernão de Magalhães, dois navegadores que ousaram questionar a crença que a Terra era plana. E claro, seguimos as missões espaciais de Apollo e vimos suas fotos de nosso planeta – muito azul e sempre curvado.

      Mas o que mais me cativou da nossa Terra redonda foi minha primeira experiência com um simples fuso horário. Nós estávamos indo de carro para o Grand Canyon. Quando atravessamos a ponte sobre o Rio Colorado, a divisa entre a Califórnia e a Arizona, meu pai nos falou que era preciso adiantar o relógio uma hora. Achei isso estranho porque senti nenhuma diferença de tempo. O sol estava a pino nos dois lados do rio. Até lembro pensando, se dois carros se chocassem nessa ponte, quando aconteceria esse acidente? Na hora da Califórnia ou na hora da Arizona? Uma pergunta boba, talvez, mas efetivamente capturou a imprecisão de fusos horários para mim.

      Hoje em dia, sou viajante experiente. Já tive muita sorte de visitar mais de quarenta países. Até fiz uma longa viagem à volta do mundo. Mas a relação entre a redondeza da Terra e o tempo ainda me parece meio esquisita. Às vezes acho que a sensação de desembarcar do avião depois de um voo de longa distância é quase como viajar no tempo.

      Sinto isso, especialmente, após qualquer voo que atravessa a Linha Internacional de Data, aquela linha imaginária no Pacífico que delimita um dia do outro. Quando viajo da Nova Zelândia para Califórnia, o avião de Air New Zealand decola do Aeroporto Internacional de Auckland às 22:15 e, depois de 12 horas de voo, pousa em Los Angeles às 13:45 do mesmo dia. Passageiros no voo então têm a impressão de voltar no tempo, ao menos algumas horas. Se sempre fosse assim, você nunca envelheceria. Infelizmente, porém, a volta para Nova Zelândia parece, de algum modo, acelerar o envelhecimento: o avião sai de Los Angeles às 23:15 e, depois de 13 horas no ar, chega em Auckland às 07:00, dois dias depois! Você sai da Califórnia, por exemplo, num sábado de noite e chega na segunda-feira de manhã; o domingo sumiu. De fato, em 2003 minha irmã e seu marido perderam seu vigésimo segundo aniversário de casamento no avião quando vieram nos visitar. Será que cada vez que volto de Los Angeles para Auckland eu estou perdendo um dia de vida?

      Mais estranho ainda são os voos curtos que atravessam a Linha. Recentemente, fomos com Air New Zealand à Polinésia Francesa. Partimos de Auckland às 18:40 numa terça-feira e, cinco horas mais tarde, pousamos em Tahiti à 01:40 na segunda-feira, ou seja, voltamos de hoje para ontem. Viajamos no tempo, pelo menos por um dia. A volta de Tahiti para Nova Zelândia é menos interessante: o avião sai cedinho da madrugada e chega de manhã no dia seguinte.

      As ilhas pacíficas que ficam perto da Linha de Data aproveitam ao máximo essa designação geográfica. Por exemplo, o arquipélago das Ilhas Chatham, 800 quilômetros da Nova Zelândia, é supostamente o primeiro lugar de ver o sol nascer cada dia, pois a Linha fica justamente a leste. Em 1999, as 750 habitantes das Ilhas tentavam o público com anúncios auspiciosos como esse: Venham para as Ilhas Chatham e sejam os primeiros de entrar no novo milênio! Por fim, pouquíssima gente veio porque a viagem era complicada e a infraestrutura para turistas quase não existia. Em vez disso, muitas pessoas, incluindo David Bowie, saudaram o primeiro sol do milênio na cidade de Gisborne, que fica no extremo oriental da Ilha Norte na Nova Zelândia.

      O ano passado, a JJ e eu tivemos nossas próprias experiências ao longo da Linha de Data. Visitando as Ilhas Chatham, fomos (talvez) as primeiras pessoas do mundo a ver o amanhecer no dia dez de março em 2022:

      E no dia quinze de novembro, quando estávamos numa ilha da Polinésia Francesa, que fica justamente do outro lado da Linha, fomos umas das últimas pessoas a nos despedirmos ao sol:

      A esses (ridículos) momentos de fama, quero acrescentar mais um. Visto que esta postagem vai aparecer no meu blogue à 01:00 do primeiro dia de 2023 na hora neozelandesa, permitam-me ser a primeira pessoa do ano de desejar-lhes um feliz e próspero ano novo!

      Postado em Aotearoa New Zealand, Outras viagens | 2 Comentários
    • Quebrando a lei (ii)

      Posted at 2:17 pm by wannabemineiro, on dezembro 8, 2022

      São meus filhos que tomam conta de mim

      (45º canção: “Pais e filhos”, Legião Urbana)

      Com os restos mortais misturados e num só recipiente, foi a hora de soltá-los. Como expliquei na postagem anterior, meus pais queriam que suas cinzas fossem espalhadas à beira de dois lagos onde gostaram de pescar por muitos anos.

      O Lago GV, o lugar preferido de minha mãe, foi um pedido simples, pois ficava pertinho da casa de minha irmã.

      Antigamente, a família teve uma casa à beira desse pequeno lago. Era o lugar perfeito para escapar da cidade nos fins de semana. Minha mãe passava mais tempo lá do que meu pai. Muitas vezes ia sozinha mesmo para pescar e, no verão, nadar. O Lago GV também lhe agradou porque foi lá onde eu e a JJ nos casamos, mas isso já é outra história.

      Num dia lindo de setembro, eu, meu irmão e meu cunhado fomos ao Lago GV com uma porção das cinzas. Ao redor do lago estava quase deserto, o que era ideal para nós, prestes a quebrar a lei que proibe espalhar restos mortais. Deixamos as cinzas em vários lugares. Perto do lago, por exemplo, visitamos umas rochas altas onde meus pais curtiam, primeiro, o pôr-do-sol e, pouco tempo depois, as luzes de uma cidade longínqua no Deserto Mojave. Também jogamos uns punhados de cinzas perto da casa. Isso foi algo estranho para mim porque era onde se esperava ver minha mãe abrir a porta para me dizer que o almoço estava pronto. O último lugar que recebeu meus pais foi o lago mesmo. Nós os deixamos num lugar arenoso e isolado onde pegaram muita truta.

      O Lago T*** Nº 4, o desejo do meu pai, era mais complicado. Estudando o mapa, nos demos conta de que não apenas levaria quatro horas de carro até chegar nas montanhas Sierra Nevada, mas também teríamos que caminhar sete quilômetros numa trilha íngreme para chegar ao lago que ficava a 3600 metros acima do nível do mar. Depois de uma discussão séria, resolvemos que este trajeto seria demais para nós. Afinal de contas, nem mesmo nosso pai faria esta caminhada desafiadora à nossa idade. Por isso, decidimos espalhar as cinzas à beira de lagos e riachos mais acessíveis na mesma área do Lago T*** Nº 4.

      Alguns dias depois, saímos da casa da minha irmã para Bishop. Essa pequena cidade, localizada no fundo do vale do Rio Owens, tem uma vista impressionante. A serra de Sierra Nevada a oeste da cidade alcança quase 4,500 metros. E a leste, no outro lado da cidade, se vêem as montanhas da Serra Branca, a divisa entre a Califórnia e o estado da Nevada. Ao chegar a Bishop, notamos que a cidade tinha crescido bastante de quando íamos lá como meninos. Mas entre os novos restaurantes e alojamentos, todos desconhecidos a nós, vimos um negócio bem querido da família: a Padaria Schatt’s. Aliviados, entramos na padaria e pedimos uns sanduíches excelentes.

      Queríamos visitar o Riacho de Bishop depois do almoço. Nós acampávamos lá nos verões de nossa infância. A caminho, discutimos estratégias para realizar a espalhada às escondidas. Quando chegamos no camping, vimos gente aqui e ali ao longo do riacho. Estacionamos e meu cunhado ficou com o carro. Ele seria o sentinela da operação. O resto da família desceu o declive até a água para jogar uma porção dos restos mortais. Enquanto observávamos as cinzas desapareceram nas águas rápidas do riacho, ficamos satisfeitos pois os nossos pais gostavam tanto desse lugarzinho. Após a espalhada e um momento de reflexão, subimos o declive e vimos meu cunhado falando com um casal. Como era de esperar, ele tinha que manter uma conversa prolongada para distrair o casal do delito sendo cometido abaixo.

      As últimas espalhadas no dia seguinte foram mais tranquilas. Fomos de carro até o fim da estrada do Riacho de Bishop. Daí seguimos uma trilha íngreme que entrava nas terras altas da Sierra Nevada. Eu carregava uma bolsa de tiracolo com as cinzas restantes. Enquanto caminhávamos na trilha, eu deixava punhados de cinzas em lugares com vista deslumbrante de um lago ou ribeiro a distância.

      Subindo mais e mais, minha irmã e eu lembrávamos quando éramos pequenos nessa mesma trilha. Parecia que nossos pais, as varas de pescar na mão, nunca se fadigaram, pois para eles havia sempre a promessa de truta cozida na fogueira depois da caminhada. Entretanto, eu e meus irmãos reclamávamos muito. Reclamávamos do cansaço, das subidas, do calor, dos mosquitos… A beleza em volta de nós ficava invisível.

      Finalmente, depois de quatro quilômetros na trilha, chegamos ao nosso destino, o Lago L***. Embora meu pai declarasse outro lago como seu preferido, o Lago L***, numa altitude de 3265 metros, foi o lago que ele mais frequentou, especialmente nos seus últimos anos. Subi uma colina rochosa ao lado do lago e deixei o resto das cinzas. Tive certeza que meus pais gostariam desse último lugar pois a vista deu para a bacia inteira do Riacho de Bishop.

      Antes de começar nosso regresso até o carro, falei para minha irmã que queria nadar no Lago L***. Tinha trazido a sunga e óculos de natação justamente por isso. Pensei em minha mãe: se fosse viva, ela nadaria comigo. Meu pai, ao contrário, me diria que sou doido.

      Tirei a roupa. Enquanto caminhantes e pescadores me olhavam com incredulidade, entrei no lago e nadei uns 200 metros da margem. Flutuava lentamente com as ondinhas no meio do lago. A água era uma delícia, cristalina e gelada. De repente, vi perto de mim um par de trutas reluzindo sob o sol da tarde. Eu me senti completamente em paz.

      Postado em whānau | 6 Comentários
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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