…eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo
(54ª canção: “Meu amigo Pedro”, Raul Seixas)
Acabo de chegar da Nova Caledônia, ilha francofona no Mar de Coral, onde eu tentava escutar, falar, ler e escrever só em francês durante três semanas. Ofereço abaixo um dos frutos da minha estadia lá, um pequeno trabalho que escrevi. Agradeço a minha professora, Claudie, por ter me ajudado com alguns errozinhos. 🙂
Chamado, “L’homme au chapeau violet” – ‘O homem de chapéu violeta’ – o texto fala de uma pessoa que me fascinava em Nouméa. (O texto em francês é seguido por uma tradução simples em português.)
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L’homme au chapeau violet*
Il y était quand j’ai visité la plage d’Anse Vata pour la première fois. Un homme barbu presque nu sur le trottoir. Évidemment, il adorait se fait bronzer parce que, même à deux heures de l’après-midi, il était là, assis en plein soleil. Il ne faisait presqu’aucun effort pour s’en protéger. Un petit maillot de bain, des lunettes de soleil, un chapeau violet : ceux-ci étaient ses seules formes d’abri.
J’aurais dû être troublé par l’état de sa peau brûlée, ou par le fait que quelque chose s’était passé dans sa vie et l’avait mis dans la rue. Mais je n’y ai pas pensé. C’était le chapeau melon en papier violet qui m’a touché. Cela m’a rappelé des chapeaux que je portais aux fêtes du nouvel an ou du jour de la Saint-Patrick. << C’est quoi l’histoire de son chapeau violet? >>, je me suis demandé.
Un ou deux jours plus tard je me suis rendu compte que l’homme au chapeau violet était à cet endroit depuis longtemps. Il s’y était bien installé. De l’autre coté de la rue, à peut-être cent mètres d’où il s’assoit pour prendre le soleil, on peut voir ses choses, bien rangées: quatre valises à roulettes, quelques sacs de sport, un lit pliant à roulettes et, curieusement, une paire de palmes bleues pour plonger. Toutes ces choses, comme le chapeau violet, doivent avoir leur propre histoire, témoignage d’une vie.
Tous les jours ses actions sont prévisibles. Pendant la journée tandis qu’il prend son bain de soleil, ses affaires se trouvent en face d’un magasin vide. Tout est en pleine vue de la terrasse d’un restaurant tout près mais, apparemment, ce n’est pas un problème. En effet, il est possible que les serveurs sur la terrasse surveillent ses affaires pour lui. Quand le soleil commençe à toucher l’horizon, il enfile une veste légère et se déplace à l’autre cotê de la rue où il passera la nuit. Mais ce déplacement n’est pas facile. Il doit enlever toutes ses affaires du trottoir et les emporter à une centaine de pas à un autre endroit plus abrité. En faisant ça, l’homme, valises à la main et toujours au chapeau violet, passe et repasse sous les yeux des clients assis à la terrasse du restaurant.
Il semble qu’il y ait un accord tacite entre lui et les propriétaires des entreprises de son territoire. Ils se saluent chaque jour, souvent en se posant une main sur l’épaule de l’autre. Parfois, l’homme échange quelque mots avec les éboueurs et autres qui travaillent à l’extérieur. Une ou deux fois par jour on le voit avec un café ou un petit plat, nourriture qui, peut-être, lui a été donnée par un des propriétaires. Sans doute, ils se respectent l’un à l’autre.
Un matin je marchais au bord de la mer et l’homme au chapeau violet m’a souhaité une bonne journée. Je lui ai souhaité la même chose et je me suis senti très content. Puis, en réfléchissant sur cette petite rencontre, je me suis dit, << Peter, tu dois parler avec ce mec. Il faut apprendre l’histoire du chapeau violet. >> Alors, c’était mon intention la fois suivante où je l’ai croisé sur le trottoir. J’ai commencé en lui disant << Bonjour monsieur! >>. Mais, malheureusement, son << Bonjour >> en retour était méfiant, même craintif. J’ai toute de suite compris que c’était lui qui initiait n’importe quelle conversation, pas inverse, et j’ai continué ma promenade en ne voulant pas l’inquiéter davantage.
Connu de tout le monde, l’homme au chapeau violet fait partie d’Anse Vata. Je suis sûr que je ne l’oublerai jamais. L’histoire de son chapeau, hélas, me restera un mystère.
*une trace de mon passage sur la Grande Terre
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O homem de chapéu violeta*
Ele estava lá a primeira vez que visitei a praia de Anse Vata. Um homem barbudo quase nu na calçada. Obviamente, adorava se bronzear porque, mesmo às duas horas da tarde, ele estava lá, sentado, diretamente no sol. Fazia quase nenhum esforço para evitá-lo. Uma sunguinha, óculos escuros, um chapéu violeta: esses eram o único abrigo que tinha.
Eu devia ter se preocupado com a condição da sua pele queimada, ou com o fato de que alguma coisa que aconteceu na vida dele o deixou na rua. Mas eu nem pensei nisso. Foi o chapéu-coco violeta de papel que me impressionou. Lembrou-me dos chapéus que eu usava nas festas de Réveillon ou do dia de Saint Patrick. Perguntei-me: “Qual é a história desse chapéu violeta?”
Um ou dois dias mais tarde, percebi que fazia muito tempo que o homem de chapéu violeta estava naquele lugar. Estava bem estabelecido. Do outro lado da rua, talvez cem metros de onde sentava para tomar sol, estavam suas coisas, muito organizadas: quatro malas com rodinhas, alguns sacos de esporte, uma cama dobrável de rodas e, curiosamente, um par de nadadeiras azuis para mergulho. Certamente, todas essas coisas, como o chapéu violeta, têm sua própria história, evidência de uma vida.
As ações quotidianas do homem de chapéu violeta são previsíveis. No dia, enquanto está tomando sol, suas coisas estão guardadas em frente a uma loja vazia. Ficam à vista do pátio de um restaurante pertinho mas parece que isso não tem problema. De fato, é possível que os garçons no pátio tomem conta dos pertences dele. Quando o sol começa a tocar o horizonte, o homem veste um casaco leve e se muda para o outro lado da rua onde vai passar a noite. Mas essa mudança não é facil. Ele precisa pegar todas as suas coisas da calçada e carregá-las a uns cem passos para outro lugar mais protegido. Fazendo isso, o homem, com as malas na mão e sempre de chapéu violeta, vai e volta sob os olhares dos clientes sentados no pátio do restaurante.
Parece que há um acordo entendido entre ele e os donos dos negócios no seu território. Eles se saudam todo os dias, frequentemente colocando uma mão no ombro da outra pessoa. De vez em quando, o homem troca algumas palavras com os lixeiros e outros que estão trabalhando fora. Uma ou duas vezes por dia ele é visto com um café ou pequeno prato na mão, comida que, talvez, ele ganhou de um dos donos. Sem dúvida, eles se respeitam.
Uma manhã eu estava andando à beira-mar e o homem de chapéu violeta me desejou um bom dia. Desejei a mesma coisa a ele e me senti muito feliz. Pouco tempo depois, pensando sobre esse pequeno encontro, eu me disse: “Peter, você deve falar com esse cara. É preciso aprender a história do chapéu violeta.” Então, essa foi a minha intenção no dia seguinte quando o vi na calçada. Comecei por dizer: Bom dia senhor!” Mas, infelizmente, seu “Bom dia” em troca era suspeito, receoso mesmo. Entendi num instante que ele iniciava qualquer conversa, não o contrário, então eu continuei minha caminhada sem querer lhe assustar mais.
Conhecido por todo mundo, o homem de chapéu violeta faz parte de Anse Vata. Tenho certeza que nunca vou esquecer dele. A história do chapéu violeta, porém, será um mistério para mim.
*um rastro da minha passagem na Grande Terre (‘apelido por a maior ilha da Nova Caledônia’)















