Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria
Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacía y sola, sin haber hecho lo suficiente
(63ª canção: Eu Só Peço a Deus (Solo Le Pido a Dios),
Beth Carvalho e Mercedes Sosa)*
Imagino que muitas pessoas tentaram fazer algo novo durante a pandemia. No meu caso, voltei a estudar o francês. Embora fosse minha especialização na universidade, não tinha realmente falado o francês durante quase quarenta anos. Ao recomeçar, descobri um monte de recursos que não tinha antes, que nem se imaginava. Vídeos francófonos no YouTube, podcasts, jornais da França ou do Québec… O desafio esta vez seria limitar, escolher e enfocar.
O que decidi fazer então foi utilizar as redes sociais para falar francês com pessoas francófonas. Inscrevi-me no Tandem, uma plataforma digital que ajunta estudantes de línguas querendo praticar os idiomas um do outro.
Patrick foi uma das primeiras pessoas de Tandem que falou francês comigo. Uma semana mais velho do que eu, Patrick mora na Bretanha, no oeste da França. Ele estuda o inglês e o espanhol.
Nosso objetivo foi bem simples: falaríamos por Skype uma ou duas vezes por semana, passando a metade do tempo praticando inglês e a outra metade praticando francês. Mas, após, talvez dois meses, começamos a falar mais e mais francês. Patrick queria focar mais no espanhol do que no inglês porque estava preparando uma estadia na Espanha. Eu não pude ajudá-lo com o espanhol mas ele estava feliz de continuar a ajudá-me com o francês. Então, falamos muito francês, o que foi ótimo para mim. Agradeço-o pelas oportunidades de praticar com tanta frequência!
Falando com Patrick, eu aprendi mais do que apenas o francês. Ele me explicou seu interesse na língua espanhola. Na verdade, faz parte da sua identidade, pois ele é de descendência espanhola. Lembrava-se das visitas com uma avó que lhe falava em espanhol. Então, Patrick foi exposto ao espanhol mas não falava muito como menino. Mas seus ancestrais não vieram à França direitamente da Espanha, não. Vieram da Argélia. De fato, Patrick nasceu na Argélia e, quando tinha mais ou menos três anos, veio para a França com seus pais. Achei a história da família do Patrick muito interessante. Eu me lembrei que a França – como qualquer país “colonizador” – tem uma história complicada e disputada. Durante nossas discussões pensei imediatamente nas obras de Albert Camus que li na universidade: L’Étranger (O Estrangeiro) e L’Exil et le Royaume (O Exílio e o Reino). Mais recentemente, li Ce que le jour doit à la nuit (O que o dia deve à noite) um romance do escritor argelino Yasmina Khadra sobre a Argélia colonial até sua independência da França. O livro de Khadra, que li após de ter conhecido Patrick, foi fascinante porque falava bastante da comunidade hispanofalante na Argélia. Quando estava lendo o livro e aprendendo das dificuldades que todos – seja muçulmano, cristão, ou judeu – experienciavam naquela época não parava de pensar na odisseia da família do Patrick.
Aprendi outra coisa fundamental do Patrick: o valor de pensamentos positivos. Hoje em dia, seja na Nova Zelandia, na Francia, ou em qualquer outro país, é muito facil se sentir deprimido com a situação do mundo. Guerras desnecessárias, alterações climáticas, políticos mentirosos…há uma lista de ameaças nesse mundo para nos preocuparnos. Sem dúvida, Patrick está consciente de todo isso; já tínhamos falado das tristezas que estamos assistindo. Mas, embora esteja informado e sensível aos problemas do mundo, não se alonga sobre eles. Em vez disso, Patrick sabe como ficar na positividade. Recebe a promessa de cada dia com um sorriso. Alegre, generoso, grato, sincero…estes todos são descritores adequados para meu amigo francês.
Em abril deste ano JJ e eu tivemos a boa sorte de visitar Patrick e sua encantadora esposa, Patricia.

(Infelizmente, não pudemos encontrar suas duas filhas. L) Passamos pouco tempo com Patrick e Patricia mas a visita foi maravilhosa. Foram muito simpáticos e nos sentimos em casa com grandes amigos. Nós os agradecemos pela visita e esperamos que um dia possamos recebê-los em casa aqui na Nova Zelândia.
*Para escuchar la versión original en español:












