Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • Encontros – Patrick

      Posted at 7:33 am by wannabemineiro, on outubro 24, 2024

      Eu só peço a Deus
      Que a dor não me seja indiferente
      Que a morte não me encontre um dia
      Solitário sem ter feito o que eu queria

      Solo le pido a Dios
      Que el dolor no me sea indiferente
      Que la reseca muerte no me encuentre
      Vacía y sola, sin haber hecho lo suficiente

      (63ª canção: Eu Só Peço a Deus (Solo Le Pido a Dios),

      Beth Carvalho e Mercedes Sosa)*

      Imagino que muitas pessoas tentaram fazer algo novo durante a pandemia. No meu caso, voltei a estudar o francês. Embora fosse minha especialização na universidade, não tinha realmente falado o francês durante quase quarenta anos. Ao recomeçar, descobri um monte de recursos que não tinha antes, que nem se imaginava. Vídeos francófonos no YouTube, podcasts, jornais da França ou do Québec… O desafio esta vez seria limitar, escolher e enfocar.

      O que decidi fazer então foi utilizar as redes sociais para falar francês com pessoas francófonas. Inscrevi-me no Tandem, uma plataforma digital que ajunta estudantes de línguas querendo praticar os idiomas um do outro.

      Patrick foi uma das primeiras pessoas de Tandem que falou francês comigo. Uma semana mais velho do que eu, Patrick mora na Bretanha, no oeste da França. Ele estuda o inglês e o espanhol.

      Nosso objetivo foi bem simples: falaríamos por Skype uma ou duas vezes por semana, passando a metade do tempo praticando inglês e a outra metade praticando francês. Mas, após, talvez dois meses, começamos a falar mais e mais francês. Patrick queria focar mais no espanhol do que no inglês porque estava preparando uma estadia na Espanha. Eu não pude ajudá-lo com o espanhol mas ele estava feliz de continuar a ajudá-me com o francês. Então, falamos muito francês, o que foi ótimo para mim. Agradeço-o pelas oportunidades de praticar com tanta frequência!

      Falando com Patrick, eu aprendi mais do que apenas o francês. Ele me explicou seu interesse na língua espanhola. Na verdade, faz parte da sua identidade, pois ele é de descendência espanhola. Lembrava-se das visitas com uma avó que lhe falava em espanhol. Então, Patrick foi exposto ao espanhol mas não falava muito como menino. Mas seus ancestrais não vieram à França direitamente da Espanha, não. Vieram da Argélia. De fato, Patrick nasceu na Argélia e, quando tinha mais ou menos três anos, veio para a França com seus pais. Achei a história da família do Patrick muito interessante. Eu me lembrei que a França – como qualquer país “colonizador” – tem uma história complicada e disputada. Durante nossas discussões pensei imediatamente nas obras de Albert Camus que li na universidade: L’Étranger (O Estrangeiro) e L’Exil et le Royaume (O Exílio e o Reino). Mais recentemente, li Ce que le jour doit à la nuit (O que o dia deve à noite) um romance do escritor argelino Yasmina Khadra sobre a Argélia colonial até sua independência da França. O livro de Khadra, que li após de ter conhecido Patrick, foi fascinante porque falava bastante da comunidade hispanofalante na Argélia. Quando estava lendo o livro e aprendendo das dificuldades que todos – seja muçulmano, cristão, ou judeu – experienciavam naquela época não parava de pensar na odisseia da família do Patrick.

      Aprendi outra coisa fundamental do Patrick: o valor de pensamentos positivos. Hoje em dia, seja na Nova Zelandia, na Francia, ou em qualquer outro país, é muito facil se sentir deprimido com a situação do mundo. Guerras desnecessárias, alterações climáticas, políticos mentirosos…há uma lista de ameaças nesse mundo para nos preocuparnos. Sem dúvida, Patrick está consciente de todo isso; já tínhamos falado das tristezas que estamos assistindo. Mas, embora esteja informado e sensível aos problemas do mundo, não se alonga sobre eles. Em vez disso, Patrick sabe como ficar na positividade. Recebe a promessa de cada dia com um sorriso. Alegre, generoso, grato, sincero…estes todos são descritores adequados para meu amigo francês.

      Em abril deste ano JJ e eu tivemos a boa sorte de visitar Patrick e sua encantadora esposa, Patricia.

      (Infelizmente, não pudemos encontrar suas duas filhas. L) Passamos pouco tempo com Patrick e Patricia mas a visita foi maravilhosa. Foram muito simpáticos e nos sentimos em casa com grandes amigos. Nós os agradecemos pela visita e esperamos que um dia possamos recebê-los em casa aqui na Nova Zelândia.

      *Para escuchar la versión original en español:

      Postado em Covid 19, Encontros, francês | 0 Comentários
    • Três segundos de fama em Goiânia

      Posted at 7:32 pm by wannabemineiro, on outubro 1, 2024

      O teu presente diz tudo
      Trazendo à torcida alegres emoções

      (62ª canção: Celeiro de ases, Nelson Silva)

      Numa estadia recente no Brasil, visitei Goiânia pela primeira vez. Quando ouviram mais tarde essa notícia, meus amigos em Minas ficaram surpresos, “Goiânia? Tem muita coisa pra ver lá?” Foi uma pergunta justa. O turista estrangeiro tipicamente quer visitar Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu,  Amazonas e talvez outros. Mas Goiânia? Não. A capital do estado de Goiás não aparece na lista de lugares imperdíveis do Brasil.

      Como é que eu acabei ficando lá? Foi bem espontâneo. Estava visitando minha amiga Vivi em Brasília. Tivemos a ideia de passar o fim de semana em Alto Paraíso de Goiás, aquele lugarzinho “new age” que, além de cachoeiras e piscinas naturais, oferece comida vegana, yoga, cogumelos mágicos e, segundo várias pessoas, extreterrestres. Mas, infelizmente, imprevistos obrigaram Vivi a ficar em Brasilia naquele fim de semana. Então, decidi de visitar Goiânia, só três horas de Brasília de ônibus.

      Como já tinha viajado por três semanas no Brasil, eu disse a mim mesmo que a estadia em Goiânia representaria uma chance de descansar. Aliás, esses dois dias de tranquilidade me preparariam para minha última semana no Brasil que, sendo na “minha terra” em Minas Gerais, seria sem dúvida cheia de compromissos.

      Neste sentido, fiz uma reserva no Castro’s Park Hotel, um dos melhores hotéis em Goiânia. Segundo o seu website, o Castro’s Park teve tudo que eu procurava: apartamento confortável, piscina aquecida, academia e restaurante com comida típica de Goiás.

      Depois de fazer o check-in no dia 16 de agosto, eu pude confirmar que o hotel não exagerou no website. Meu quarto, no 7º andar, era limpo, quieto e, sobre tudo, cômodo. O ambiente da piscina também me agradou muito, salvo a música sertaneja demasiada alta. A água da piscina estava limpa e o deck acolhedor. Haviam outros hóspedes aproveitando a chance de nadar e relaxar. Naquela primeira tarde na piscina, porém, todos nós nos arrepiamos quando dois urubus vieram a empoleirar-se ao lado da piscina. Cinco minutos depois, se foram embora e nós soltamos um respiro de alívio. Será que os urubus reconheceram que a gente estava nos bronzeando nas espreguiçadeiras e que não éramos cadáveres? (Pensar nisso agora ainda me faz estremecer.) A academia do hotel eu nunca frequentei, pois por fim entendi que qualquer academia seria contrário a meu objetivo principal que era relaxar. Com relação ao restaurante, eu não perdi a oportunidade de aproveitar as excelentes refeições. Adorei o buffet de feijoada no sábado à tarde. Nunca soube que tinha tantas variedades de carne na feijoada. Nos cafés da manhã haviam muitas frutas tropicais, outra comida brasileira cobiçada por este viajante da Nova Zelândia.

      O website do Castro’s Park Hotel se anuncia com uma dica tentadora: “Viva uma experiência única em Goiânia”. Considerando o que escrevi acima, especialmente sobre os urubus na piscina, serve como prova, suponho, que o hotel satisfaz a dica. Mas, no meu caso, a experiência “única” que eu vivi e que nunca vou esquecer aconteceu, curiosamente, em frente do elevador do hotel.

      Às três horas da tarde saí do meu quarto no sétimo andar. Estava meio tonto, pois acabei de acordar de uma cochilada que foi induzida pelo excesso da feijoada que comi no hotel. Querendo dar uma pequena caminhada na vizinhança, entrei no elevador e apertei o botão para descer. Eu esfregava os olhos quando a porta do elevador se abriu ao saguão do hotel. Logo que saí do elevador, senti algo esquisito. Levantei meus olhos e reparei que o lobby principal foi bloqueado do elevador. Atrás um tipo de barreira móvel, umas quarenta pessoas, algumas de camiseta vermelha, me olhavam com ansiedade. Enquanto me aproximei à multidão, houve um silêncio tenso seguido em breve por sussurros de desilusão. Obviamente eu não era a pessoa que estavam aguardando. Pedindo desculpas, eu passei a barreira e saí pela porta principal do hotel.

      Após uns quinze minutos caminhando na rua, voltei ao lobby. A multidão ainda estava lá, aguardando em frente do elevador. Eu me sentei numa cadeira no lobby para ver e entender o que estava  acontecendo. Tirei uma foto.

      As pessoas aguardavam e aguardavam. De repente houve uma alegria audível. Três homens com a mesma camiseta vermelha do multidão saíram do elevador. Houve um corre-corre na barreira, algumas pessoas querendo fotos, outras autógrafos. Houve apertos de mão e sorrisos. Vi um pai e seu filho pequeno, os dois de camiseta vermelha, agradecendo um dos três homens.

      Ainda inconsciente do que estava acontecendo em frente de mim, perguntei o porteiro quem eram esses três homens. Ele me olhou, incrédulo, e respondeu: “Eles jogam para o Internacional.” Uma pesquisa rapidinha no Google me informou que o Internacional era um time de futebol de Porto Alegre. Naquela noite mesma íam jogar contra o Atlético Goaianiense.

      No dia seguinte durante o café da manhã ouvi que o Internacional foi superado pelo Atlético. O resultado não dizia nada para mim. Mas, ao mesmo tempo, não podia parar de pensar naqueles dois ou três segundos em frente do elevador. Será que eu fui confundido com futebolista brasileiro?

      Postado em Brasil | 3 Comentários
    • Encontros – 達夫 (Tatsuo)

      Posted at 7:20 pm by wannabemineiro, on julho 28, 2024

      Nessa estrada, não nos cabe

      Conhecer ou ver o que virá

      O fim dela, ninguém sabe

      Bem ao certo onde vai dar

      (61ª canção: Aquarela, Toquinho)

      Quando nos conhecemos pela primeira vez por Skype em 2018, nenhum de nós dois imaginou que um dia íamos nos encontrar de verdade. O motivo daquela primeira reunião virtual foi bem simples: praticar o idioma de cada um. Tatsuo me ajudou com o japonês e eu o ajudei com o inglês. Deu certo. Foi aí o começo de uma parceria de aprendizagem benéfica e enriquecedora.

      A história de Tatsuo é inspiradora. Trabalhava numa empresa em Tóquio, o clássico sarariman (‘homem de negócios’) japonês. Quando ele se aposentou, uns quinze anos atrás, voltou com sua esposa para sua terra natal, a pequena cidade de Tsuyama na província de Okayama. Ali, “recomeçou” seus estudos do inglês, uma língua que estudava na universidade. Como ele me explicou, estudar uma língua estrangeira hoje em dia é muito diferente do que quando era estudante. Naquela época, aprender outra língua queria dizer assistir à aula, escutar o professor, repetir frases padrões, estudar o livro de texto e fazer exercícios. A língua de estudo ficava na sala de aula e, na hora de fazer trabalhos, em casa. Era um sistema de comunicação limitado e meio abstrato. Mas na sua segunda vez de estudar o inglês, Tatsuo descobriu como a tecnologia e a Internet podem ajudar com a aprendizagem de uma língua estrangeira. Ele as aceitou com entusiasmo. Utilizando o Skype, estuda e fala inglês com anglófonos de vários países. Aliás tem um pequeno canal no You Tube com vídeos bilíngues sobre sua cidade e casa, a cultura japonesa e outros interesses. O que eu acho mais impressionante desse octogenário é que também estuda duas outras línguas: o vietnamita e o chinês. Tatsuo é realmente uma inspiração para qualquer pessoa que estuda (ou que pretende estudar) outra língua!

      A nossa parceria já tinha durado cinco anos quando disse a Tatsuo que JJ e eu queríamos visitar ele e sua esposa por um tempinho em 2023 quando estaríamos viajando no Japão. Planejamos então uma visita de dois dias em maio. Antes de nós tivermos partido da Nova Zelândia, o Tatsuo já nos tinha preparado uma programação detalhada da visita. Ele nos encontraria na estação de trem e daí nos levaria para visitar vários lugares em Tsuyama. A programação que nos mandou refletia exatamente o Tatsuo que conhecia pelo Skype: um homem bem atencioso e organizado.

      Finalmente, a data da nossa visita chegou. Quando descemos do trem em Tsuyama, eu vi Tatsuo imediatamente. Nós nos aproximamos, apertamos a mão enquanto, ao mesmo tempo, nos inclinamos ao estilo japonês. Havia sorrisos e risadas. Nós sentimos realmente à vontade pois, na verdade, a nossa situação consistia num reencontro em vez de um encontro.

      Tatsuo nos preparou uma programação para dois dias maravilhosas. Passamos a tarde na casa dele falando com sua esposa e tomando chá japonês. Aquela noite depois do jantar JJ e eu fomos passear até um pequeno rio onde se podia ver vagalumes. Nós não tínhamos visto vagalumes desde nossa infância. Foi muito legal! No dia seguinte, visitamos o castelo da cidade, o lugar mais famoso de Tsuyama.

      Mas, falando sério, o destaque da minha visita com Tatsuo foi a chance de ver o quarto onde ele estuda o inglês e faz suas chamadas de Skype com pessoas no mundo inteiro.

      Eu gostei demais porque foi aqui o lugar onde Tatsuo estava cada terça-feira, semana após semana, para falar comigo pelo Skype. Até hoje, nós continuamos conversando; ele conversa desse quarto e eu da sala da minha casa. E no seu quarto as duas bandeiras estão sempre visíveis, prova da forte amizade bilingue que construímos ao longo desses anos.

      Postado em Encontros, Japão | 0 Comentários
    • Encontros

      Posted at 7:27 pm by wannabemineiro, on junho 29, 2024

      Felicidade é poder estar

      Com quem você gosta em algum lugar

      (60ª canção: Como tudo deve ser, Charlie Brown Jr.)

      Comecei este blogue em 2019. O objetivo principal era de manter e melhorar meu português. Com cada postagem, queria aumentar meu vocabulário, praticar formas gramaticais difíceis e, ao mesmo tempo, explorar as riquezas da música brasileira.

      Seis meses depois do começo, o mundo se fechou. Ironicamente, a ameaça da Covid foi um benefício para mim, pois, preso em casa, eu pude escrever bastante. Durante dois anos e meio de confinamento, consegui escrever até quinze postagens anualmente. Dia após dia, passei a pandemia em frente do computador, escrevendo, escutando música brasileira e falando com amigos no Brasil por Skype. Meu português melhorou demais!

      No entanto, quando a Nova Zelândia se abriu ao mundo no final de 2022, a vontade de escrever diminuiu.  Aqui estamos em 2024, a primeira metade do ano quase acabada, e eu só escrevi três postagens. Tenho um pouco vergonha disso. O fato é que voltei para aquela vida aposentada que sempre queria depois do ritmo frenético da minha carreira na universidade. Agora há suficiente tempo para nadar, ler, falar outras línguas com amigos na cidade, e, sobretudo, viajar.

      Mas de jeito nenhum vou desistir com este blogue. Quero continuar escrevendo-o até chegar ao objetivo de completar cem postagens. No final das contas, o blogue representa um desafio importante que quero realizar durante a aposentadoria. Tanto faz se precisar três ou quatro anos mais do que imaginava ao começo.

      Tudo isso me levou a uma ideia de criar uma nova categoria de postagem. Visto que estou viajando muito recentemente, quero escrever umas postagens sobre as pessoas que encontro pelo caminho. Algumas dessas pessoas serão os amigos e amigas que conheci pelo Skype durante a pandemia, e que, finalmente, tenho a oportunidade de encontrar de verdade. Mas quero que esta categoria também inclua postagens sobre novas pessoas que vou conhecer daqui por diante. De qualquer maneira, a categoria “Encontros” vai me incentivar de não apenas escrever em português mas também de falar ativamente com pessoas de uma cultura e língua diferente.

      Postado em Encontros | 2 Comentários
    • Marselha

      Posted at 7:35 pm by wannabemineiro, on junho 17, 2024

      Há de mudar os homens
      Antes que a chama apague

      (59ª canção: Antes que seja tarde, Ivan Lins)

      Embora tivesse morado numa cidade pertinha, nunca visitei Marselha. As três ou quatro vezes quando ia de trem para Paris ou Nice, passava pela Estação de St. Charles, mas nunca saí para explorar. Nos anos 80, a cidade teve reputação ruim: cheia de drogas, corrupção, mafiosi. Provavelmente, essa má fama era exagerada; de fato, me pergunto se veio, ao menos em parte, de The French Connection, um filme hollywoodiano que tratava do tráfico de heroína entre Marselha e Nova Iorque. Seja como for, naquela época fiquei desanimado com a ideia de visitar Marselha.

      Mas dez meses atrás, quando preparávamos uma viagem para a França em maio deste ano, eu disse a JJ que, antes que seja tarde, era preciso visitar Marselha. Planejamos então ficar três noites num hotel situado ao Porto Velho de Marselha.

      Saindo da Estação de St. Charles de táxi no dia 7 de maio, a primeira coisa que notei era o monte de polícia, todas bem armadas. Parecia que tinha agentes da polícia em cada esquina do bairro portuário. No meio do porto, entre os veleiros dos Marseillais, haviam lanchas da polícia. Até vi um par de policiais a cavalo. Puxa! Nunca vi tanta polícia na minha vida.

      Comecei a duvidar desta decisão de vir a Marselha. Será que a cidade continuava com os problemas dos anos 80? Drogas? Gangues? Violência?

      Perguntei ao motorista do táxi sobre a presença da polícia. Em poucas palavras, ele me acalmou: no dia seguinte às 19 horas, a chama olímpica ia chegar. Ou seja, o Belem, nau francêsa de tres mastros e, curiosamente, nome brasileiro, chegaria a Marselha depois de uma viagem simbólica da Grécia. A chama olímpica estava a bordo e seria desembarcada numa ceremônia grandiosa no Porto Velho. A prefeitura estimava que 150,000 pessoas – incluso, Emmanuel Macron, o Presidente da República Francesa – estaria presente para assistir às festividades. Havia seis mil policiais na área para assegurar a proteção de todo mundo.

      O táxi chegou. Segundo o motorista, o nosso hotel era ótimo para ver o espectáculo.  Expliquei-lhe que quando fizemos a reserva nem sabíamos que a chama estaria chegando durante nossa visita. Dando-nos uma cara de incredulidade, o motorista disse que tínhamos muita sorte de ter acomodação com a vista do Porto Velho neste momento.

      Para ser honesto, não estava feliz com a situação. No ano passado, quando planejei a estadia em Marselha, tinha imaginado algo meio tranquilo. Mas vendo as preparações diretamente em frente ao hotel e a multidão de pessoas que já estava no Porto Velho, entendi que esse negócio da chama olímpica seria grande demais. Pensei que talvez fosse melhor passar o dia seguinte fora da cidade. Fomos ao centro de informações turísticas para ver se tinha uma aldeia pitoresca próxima. Tinham várias aldeias que valiam a pena ver sim, mas o funcionário nos avisou que, nos próximos dias, o trânsito em Marselha seria um pesadelo. Ele nos aconselhou para ficarmos na cidade e curtir as festividades.

      No dia seguinte, então, ficamos. E, como o funcionário nos disse, valeu a pena.

      Passamos o dia da chegada no Porto Velho, dentro e fora da cerca de segurança que se estendia de um ao outro extremo do porto. Saíndo deste perímetro era bem fácil mas entrando nele ficou mais e mais difícil. Depois de almoçar tarde num restaurante libanês uns 500 métros além da cerca, levava mais de quinze minutos para entrar no setor protegido. Tínhamos que mostrar nossa indentidade, abrir as mochilas e, no meu caso, me submeter a uma inspeção manual. Será que foi meu cabelo que levantou suspeitas?

      Depois da inspeção, resolvemos ficar dentro do perímetro pelo resto do dia. Voltamos ao hotel para assistir a chegada do Belem do conforto de nossa pequena varanda privada. Podíamos ver a metade do Porto Velho quase até sua abertura estreita ao Mar Mediterrâneo. Infelizmente, não podíamos ver o palco da cerimônia.

      Faltava uma hora até a chegada mas a multidão nos cais estava aumentando já, com todo mundo ansioso a ver o espectáculo. Era como se houvesse um mar de humanidade perante os nossos olhos.

      Por volta das 19:00 horas, a multidão começou a cantar La Marseillaise, o hino nacional da França. Não sou grande fã de hinos nacionais. Por exemplo, Kimi Ga Yo, o hino do Japão, é muito sóbrio, perfeito para um funeral; o Star Spangled Banner é tão complicado que ninguém sabe como cantá-lo direitinho; e o Hino Nacional Brasileiro parece interminável. Mas La Marseillaise tem um certo encanto, e quando ela é cantada por 150,000 pessoas é de tirar o fôlego.

      A multidão teve razão para cantar, pois, à distância, o Belem já tinha entrado no porto. Em alguns minutos a nau estava quase no embarcadouro e a multidão começou a gritar e aplaudir. De repente, um som trovejante por cima anunciou outra chegada – a da Patrouille Acrobatique de France (‘Patrulha Acrobática Francesa’). Os aviões, soltando rastros das cores nacionais francesas, voaram em direção do Mediterrâneo.

      Logo após os espectadores tinham recuperado o fôlego, os aviões voltaram para fazer mais uma série de manobras acrobáticas sob o Porto Velho.

      Suas manobras terminadas com sucesso, os aviões foram embora. Um silêncio surgiu na multidão. Estava o tempo para discursos de políticos e celebridades, e finalmente, a transferência da chama olímpica para a terra firme. Ao ver a chama, os espectadores gritavam com alegria. A noite se terminou com música ao vivo e uma exibição impressionante de fogos de artifício.

      Na manhã seguinte, era difícil imaginar que tivemos visto aquele evento tão emocionante. Da nossa janela podíamos ver que a cerca de segurança já foi desmontada e removida. Os 150.000 mil espectadores sumiram. Mas tinha ao menos um indício da grande festa da noite anterior: por todo o cais haviam equipes de varredores restituindo o Porto Velho à normalidade.

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    • Meu pai brasileiro

      Posted at 12:19 pm by wannabemineiro, on abril 11, 2024

      Ontem recebi a triste notícia que José Vieira de Mendonça Sobrinho faleceu. Ele era companheiro carinhoso de Ana Júlia desde 1951; pai de Jupira, Moema, Iberê, Ubirajara, Ubiratan, Tibiriça e José Alfredo; engenheiro reconhecido em Minas Gerais; amigo de muitas pessoas…no final, um grande homem que tocou as vidas de inúmeras pessoas.

      Eu tive o privilégio de chamá-lo de “Papai” e de ser chamado de “filho” por quase cinquenta anos. Papai e Mamãe me adotaram como seu filho americano quando fiz um intercâmbio de estudos no Brasil em 1977.

      Com meus pais brasileiros em 2007

      Eu te agradeço por tudo, Papai. Se não fosse por você e Mamãe, e a multidão de pessoas naquela casa calorosa na Rua Almirante Alexandrino, eu não seria o homem – meio mineiro – que sou hoje.

      Peter

      PS: Também te agradeço por ter me introduzido às músicas de Pixinguinha!

      Postado em a história do menino/Julião, Brasil | 4 Comentários
    • Paisagem da Janelinha

      Posted at 7:03 pm by wannabemineiro, on março 22, 2024

      Da janela lateral do quarto de dormir
      Vejo uma igreja, um sinal de glória
      Vejo um muro branco e um voo pássaro
      Vejo uma grade, um velho sinal

      (57ª canção: “Paisagem da janela”, Lô Borges e Milton Nascimento)

      Quando viajo de avião, geralmente prefiro assento no corredor. Acho mais espaçoso e assim posso evitar qualquer sensação de claustrofobia. Aliás, se eu quiser visitar o banheiro ou me espreguiçar um pouquinho é só levantar e ficar no corredor.

      A única vez que quero assento na janela é no vôo entre minha cidade e Auckland. O vôo dura só uma hora, então nunca me sinto preso. De fato, já fiz esse vôo tantas vezes que decorei a paisagem da janela dos dois lados do avião. Se o tempo estiver bom, passo a hora inteira olhando pela janelinha e localizando exatamente onde o avião está no trajeto. Há uma espécie de conforto nessa navegação de cima. É como se eu estivesse pilotando o avião.

      Depois de decolar pelo oeste e virar ao norte rumo a Auckland, os pontos de referência são super familiares. Se eu estiver sentado ao lado direito do avião, as primeiras coisas a ver pela janelinha são pequenas fazendas, propriedades bem arrumadinhas. Às vezes avisto uma pastagem fervendo de centenas de ovelhas, uma imagem que sempre me lembra larvas curtindo um pedaço de carne podre. Depois de alguns minutos, as fazendas abaixo diminuem e a paisagem vira mais montanhosa. Na distância erguem-se os vulcões de Ruapehu, Ngauruhoe e Tongariro; no inverno, suas ladeiras rochosas estão amolecidas por uma camada de neve. Logo após os vulcões, vejo o Lago Taupo. É azulzinho e imenso, do tamanho da ilha de Singapura. No momento que o Lago Taupo desaparece do canto inferior direito da minha janelinha, percebo que o avião está começando a longa descida para Auckland. Debaixo do avião, a região hortícula de Pukekohe aparece, mais e mais limitada a norte pela urbanização crescente de Auckland. Alguns minutos mais e o avião está no portão do terminal.

      Por mais lindo que seja essa paisagem da janelinha do lado direito, eu prefiro sentar à esquerda, pois deste lado do avião o mar é quase sempre visível. Na exceção da decolagem imediata e um período quando o avião passa para a leste do bonito vulcão Taranaki, o que chama minha atenção é a deslumbrante costa da Ilha Norte. O Mar Tasman, separando a Nova Zelândia da Austrália, estende-se até o horizonte. A tranquilidade do azul desse mar é enganosa. Na verdade, o Tasman é reconhecido como uma extensão de água bem brava. Mesmo assim, várias pessoas já fizeram a travessia de caiaque ou de barco a remo, o que eu acho inimaginável. O melhor trecho do voo é quando o povoado de Raglan aparece. Antigamente uma aldeia de pesca, o Raglan de hoje é um centro de surfe renomado. Se faz bom tempo, consigo ver a ondulação e arrebentação de cada onda chegando às praias de Raglan. E se eu tivesse a visão do gavião? Até avistaria os surfistas nas suas pranchas! Poucos minutos após Raglan, a longa descida para Auckland começa; ao meu lado esquerdo, o mar me acompanha até o aeroporto.

      A última vez que fui para Auckland, sentei ao lado esquerdo do avião. Enquanto esperávamos a liberação para decolagem, o piloto nos informou que, além de um pouquinho de turbulência na subida, o voo seria tranquilo. Ouvindo isso, eu estava ansioso pela promessa de vistas desobstruídas da costa da Ilha Norte por todo o percurso.

      Mas logo que decolamos, alguma coisa esquisita aconteceu: não senti nenhuma virada ao norte para Auckland. Pelo contrário, parecia que estávamos continuando em direção oeste. De fato, poucos minutos depois, eu vi a costa da Ilha Norte passar sob o avião. Continuávamos assim, para oeste, na direção da Austrália. No canto inferior esquerdo da janelinha, a costa da Ilha Norte ficava mais e mais distante. Pensei, “O quê é que esse piloto tá fazendo? Pra onde estamos indo?” Debaixo de nós, a vastidão azul me causou um pouco de mal-estar. Daí comecei a imaginar o pior. “Será que alguma coisa está acontecendo na cabine?” Lembrei do avião de Malaysia Airlines que sumiu no Oceano Índico, supostamente nas mãos de um piloto descontrolado. Discretamente, olhei para outros passageiros perto de mim para ver se eles estavam ciente de nossa posição sobre o Tasman. Aparentemente não. Será que só eu estava assistindo ao nosso percurso? Devo alertar alguém dessa anomalia?

      Ironicamente, no momento que notei o suor frio na minha testa, senti uma leve mudança de direção. Estávamos virando para o norte! Podia ver que o avião estava retomando o rumo certo. Dentro de alguns minutos, o perfil inconfundível do lindo vulcão Taranaki apareceu na minha janelinha. Aleluia!

      Taranaki da janelinha (agradeço C. Sato pela foto)

      Por fim o tempo de voo a Auckland era mais ou menos o mesmo. O piloto nunca nos explicou aqueles minutos sobre o Mar Tasman. Talvez foi por causa de alguma turbulência logo após a decolagem. Nunca vou saber. Mas pelo menos aprendi algo importante: eu preciso parar de pilotar o avião da janelinha.

      Postado em Aotearoa New Zealand | 0 Comentários
    • Amor (e vinho!)

      Posted at 5:22 am by wannabemineiro, on novembro 30, 2023

      Não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
      Eu quero é viver pra ver qual é, e dizer venha pra o que vai acontecer

      (56ª canção: “Envelhecer”, Marcelo Jeneci Da Silva, Arnaldo Antunes, e Ortinho)

      Qual o segredo de uma vida longa?

      Essa questão tinha nos preocupado desde o começo da história humana. Incentivou-nos a procurar inúmeras maneiras de prolongar a vida. Nas lendas antigas, o segredo era supostamente uma fonte da juventude enquanto, agora, outros tratamentos rejuvenescedores – vitaminas e cremes, yoga e silvoterapia, poções e cristais – se veem na televisão ou online. Até lembro nos anos 80 em Taiwan uma marca de cigarro chamada “Vida Longa”:

      A ilustração na capa do maço mostrava um ancião sábio tomando conta de seu grou, símbolo chinês de longevidade. A mensagem? Fumar cigarro para prolongar a vida. Imagina?

      Gerontologistas de hoje dizem que não tem um segredo mágico para a longevidade. Pelo contrário, se seguirmos oito práticas simples podemos aumentar nossa chance de aniversariar oitenta, noventa, até cem anos. O necessário é

      1. seguir uma dieta de comida fresca e saudável
      2. abster-se de comer demais
      3. manter-se em movimento
      4. diminuir a ansiedade e evitar o estresse
      5. manter laços com família e amigos
      6. viver em comunidade
      7. respeitar os idosos e o processo de envelhecer
      8. sentir algum senso de espiritualidade

      Os gerentologistas acham que, salvo para indivíduos sofrendo de condições hereditárias como alguns cânceres ou hipertensão arterial, essas práticas podem prolongar a vida para muitos. É só uma questão de mantê-las desde tenra idade.

      Recentemente tive a oportunidade de passar alguns dia na ilha de Okinawa, lugar com a maior percentagem de centenários no mundo. Okinawa é uma das cinco “zonas azuis” identificadas como centros de longevidade. As outras são Ogliastra na Sardegna, a ilha de Ikaria na Grécia, a Península de Nicoya na Costa Rica, e a cidade de Loma Linda na Califórnia. Segundo gerentologistas, as práticas acima se destacam em cada zona azul.

      Realmente não sei se eu vi centenários ou não durante minha visita em Okinawa. Mas posso dizer que nas cidades de Naha e Ginowan, havia certamente anciões nas ruas e nos parques. Embora alguns deles fossem curvadas e andassem com bengala, tinham uma vitalidade admirável. Por exemplo, vi este casal fazendo exercícios numa banca no Parque de Ginowan:

      e dois jovens ajudando uma mulher idosa com um treinamento de caminhar de costas:

      Também encontrei anciões nos restaurantes e no mercado municipal. Nesses dois lugares era óbvio que a comida é bem saudável. No mercado, por exemplo, muitas pessoas pediram goya champuru, um salteado de tofu, melão-de-são-caetano e um poquinho de carne de porco:

      As pessoas idosas saboreando este e outros pratos de baixa caloria estavam conversando, rindo, e valorizando cada momento juntos. Atrevo-me a dizer que a vitalidade e alegria, essa razão de viver, que os anciões okinawenses, seja na praia ou no mercado, demostram seriam cobiçadas de muitos de nós.

      Durante minha visita a Okinawa, eu celebrei meus 64 anos com amigos okinawenses. Eu sei, eu sei: comparado com os anciões de Okinawa, sou ainda bem jovem! Mas com cada aniversário fico pensando na longevidade e na razão (ou razões) de viver. Isso não quer dizer que estou cismando com  minha idade e com o  envelhecimento. Tampouco penso em situações hipotéticas como “se eu tivesse feito isso em vez de aquilo seria mais _____ [preencha com qualquer adjetivo]”. Não faço nada disso, não. O que faço é refletir um pouco sobre os anos que eu já vivi e sobre os anos que me sobram. Coisa natural eu acho.

      Estou tentando aproveitar cada momento agora, achar diariamente algo positivo que me traz alegria e satisfação. Quero manter e fortalecer meus vínculos com amigos, família e a comunidade. Quase todo dia, consigo ficar na positiva e por isso estou muito grato.

      Quero fechar esta postagem, se me permitem, com algumas palavras sobre meus pais brasileiros que se vêem abaixo celebrando setenta anos juntos:

      Quando tinha 17 anos passei quase um ano com esse casal maravilhoso e seus sete filhos. Foi, e ainda é, um privilégio de ser o oitavo filho!

      Se alguém analisar a vida deles será bem evidente que estão seguindo as práticas para longevidade mencionadas acima. Ou seja, meus pais brasileiros construíram sua própria zona azul em Belo Horizonte. Mas cada vez que lhes pergunto sobre a longevidade o segredo deles é bem mais simples:

      Peter:      Por favor, qual é o segredo de uma vida longa?

      Mamãe:  Amor, meu filho, amor.

      Papai:      E vinho!

      Postado em Brasil, Japão, Uncategorized | 0 Comentários
    • Carta para uma amiga

      Posted at 7:15 pm by wannabemineiro, on outubro 8, 2023

      Sonhar mais um sonho impossível

      Lutar quando é fácil ceder

      Vencer o inimigo invencível

      Negar quando a regra é vender

       (55ª canção: “Sonho impossível”, Francisco Buarque

      De Hollanda, Mitch Leigh, Joseph Darion)

      Minha querida amiga,

      Foi um prazer receber notícias de você hoje. As fotos do seu novo lugar são bonitas demais. O Canadá deve ser um país lindo.

      Sua mensagem me fez pensar sobre nossa amizade. É difícil acreditar que já faz quatro anos que nós nos conhecemos.

      Você lembra da primeira vez que falamos pelo Skype? A ideia era simples: praticar o inglês e o português num intercâmbio virtual. Nossos primeiros encontros foram mais ou menos assim. Bom, na verdade, falávamos mais português do que inglês porque você estava um pouco tímida de falar inglês comigo. Então, usávamos o português para discutir artigos do jornal The Guardian. Por ser franco, esse desequilíbrio fortaleceu minhas competências em português, e, sim, aproveitei da situação. Mas te juro que na época esperava que, ao momento certo, você se sentiria mais confortável e falaria inglês comigo.

      No entanto, pouco tempo depois, aquele maldito vírus mudou o mundo….

      Por muito tempo estávamos presos em casa, com medo de pegar a temida doença que ninguém entendia. Por isso, nossas conversas se transformaram. Conversávamos mais para apoiarmos uns aos outros do que para praticar línguas. Sem dúvida, a situação com a Covid em 2020 e 2021 foi menos difícil na Nova Zelândia do que no Brasil. Para nós kiwis, depois o primeiro confinamento, tivemos a liberdade de viajar no país inteiro durante bastante tempo. Pelo contrário, vocês no Brasil viram o vírus surgir por meio de várias ondas e muita gente sofreu.

      Nunca vou esquecer como você, no auge da pandemia, conseguiu organizar uma carona da capital até a casa da sua mãe no interior da Bahia. Você me explicou que sentia medo naquele carro. Não apenas estava num lugar fechado, onde o vírus podia se propagar, mas os outros viajantes no carro eram completos estranhos. Você estava aflita também durante o confinamento de duas semanas que fez no seu quarto para não comprometer a saúde da sua mãe e da sua avó. Enquanto me contava a história da viagem e da chegada em casa, fiquei impressionado por sua resistência, determinação e compaixão.

      É óbvio que a mudança foi a decisão correta. Enquanto estava em casa você terminou seu mestrado e continuou seus estudos de inglês e francês. Começou a planejar a próxima etapa de seu trajeto, ou seja, fazer o doutorado no Canadá. Durante o confinamento, seu único contato com o mundo fora foi pelo Skype ou Zoom. Sou muito feliz que fui uma das pessoas que podia falar frequentemente com você.

      Como jovem mulher do interior nordestino, você me ajudou tomar consciência de um Brasil que realmente não conhecia antes. Tivemos tantas conversas! Discutimos assuntos como a escravidão, os quilombos, e a herança africana no Brasil de hoje em dia. Tocamos casos tristes como o da Marielle, do pequeno Miguel e dos meninos massacrados em frente da Igreja de Candelária. Graças a essas difíceis e às vezes delicadas conversas com você, eu aprendi a refletir mais profundamente sobre as injustiças presentes não só no Brasil, mas ao redor do mundo.

      Também fiquei impressionado pelas riquezas da Bahia que compartilhou comigo. Você me falou dos petisquinhos do Mercado Modelo, dos blocos de rua no Pelourinho, do Farol da Barra, e, no interior, de belas cachoeiras e piscinas naturais onde se pode nadar. Você foi uma guia virtual para mim e agora que posso viajar novamente, tenho muita vontade de visitar a Bahia. Espero ir para lá com a JJ um dia. Talvez podemos nos encontrar em Salvador, né?

      Em 2022, com a situação da Covid melhorando, não nos falamos com tanta frequência. Mas o que achei impressionante é que quando fizemos um Skype, falamos em três línguas: português, inglês e francês. Graças ao seu foco e dedicação às línguas durante o confinamento, seu sonho impossível – fazer o PhD no Canadá – se tornou realidade. Você é realmente uma inspiração!

      Enfim, minha amiga, acho que ninguém de nós dois imaginava que nosso iniciativo de trocar idiomas desenvolveria numa amizade tão especial. Se Deus quiser um dia nós nos encontraremos, seja no Canadá, no Brasil ou… Até então eu te desejo mais sucessos na tua carreira acadêmica.

      Um grande abraço

      Peter

      PS: Se você jamais quiser falar é só clicar. 🙂

      Postado em Brasil, cartas, Covid 19 | 0 Comentários
    • L’homme au chapeau violet

      Posted at 6:32 pm by wannabemineiro, on setembro 21, 2023

      …eu não tenho nada a te dizer
      Mas não me critique como eu sou
      Cada um de nós é um universo

       (54ª canção: “Meu amigo Pedro”, Raul Seixas)

      Acabo de chegar da Nova Caledônia, ilha francofona no Mar de Coral, onde eu tentava escutar, falar, ler e escrever só em francês durante três semanas. Ofereço abaixo um dos frutos da minha estadia lá, um pequeno trabalho que escrevi. Agradeço a minha professora, Claudie, por ter me ajudado com alguns errozinhos. 🙂

      Chamado, “L’homme au chapeau violet” – ‘O homem de chapéu violeta’ – o texto fala de uma pessoa que me fascinava em Nouméa. (O texto em francês é seguido por uma tradução simples em português.)

      *************************

      L’homme au chapeau violet*

      Il y était quand j’ai visité la plage d’Anse Vata pour la première fois. Un homme barbu presque nu sur le trottoir. Évidemment, il adorait se fait bronzer parce que, même à deux heures de l’après-midi, il était là, assis en plein soleil. Il ne faisait presqu’aucun effort pour s’en protéger. Un petit maillot de bain, des lunettes de soleil, un chapeau violet : ceux-ci étaient ses seules formes d’abri.

      J’aurais dû être troublé par l’état de sa peau brûlée, ou par le fait que quelque chose s’était passé dans sa vie et l’avait mis dans la rue. Mais je n’y ai pas pensé. C’était le chapeau melon en papier violet qui m’a touché. Cela m’a rappelé des chapeaux que je portais aux fêtes du nouvel an ou du jour de la Saint-Patrick. << C’est quoi l’histoire de son chapeau violet? >>, je me suis demandé.

      Un ou deux jours plus tard je me suis rendu compte que l’homme au chapeau violet était à cet endroit depuis longtemps. Il s’y était bien installé. De l’autre coté de la rue, à peut-être cent mètres d’où il s’assoit pour prendre le soleil, on peut voir ses choses, bien rangées: quatre valises à roulettes, quelques sacs de sport, un lit pliant à roulettes et, curieusement, une paire de palmes bleues pour plonger. Toutes ces choses, comme le chapeau violet, doivent avoir leur propre histoire, témoignage d’une vie.

      Tous les jours ses actions sont prévisibles. Pendant la journée tandis qu’il prend son bain de soleil, ses affaires se trouvent en face d’un magasin vide. Tout est en pleine vue de la terrasse d’un restaurant tout près mais, apparemment, ce n’est pas un problème. En effet, il est possible que les serveurs sur la terrasse surveillent ses affaires pour lui. Quand le soleil commençe à toucher l’horizon, il enfile une veste légère et se déplace à l’autre cotê de la rue où il passera la nuit. Mais ce déplacement n’est pas facile. Il doit enlever toutes ses affaires du trottoir et les emporter à une centaine de pas à un autre endroit plus abrité. En faisant ça, l’homme, valises à la main et toujours au chapeau violet, passe et repasse sous les yeux des clients assis à la terrasse du restaurant.

      Il semble qu’il y ait un accord tacite entre lui et les propriétaires des entreprises de son territoire. Ils se saluent chaque jour, souvent en se posant une main sur l’épaule de l’autre. Parfois, l’homme échange quelque mots avec les éboueurs et autres qui travaillent à l’extérieur. Une ou deux fois par jour on le voit avec un café ou un petit plat, nourriture qui, peut-être, lui a été donnée par un des propriétaires. Sans doute, ils se respectent l’un à l’autre.

      Un matin je marchais au bord de la mer et l’homme au chapeau violet m’a souhaité une bonne journée. Je lui ai souhaité la même chose et je me suis senti très content. Puis, en réfléchissant sur cette petite rencontre, je me suis dit, << Peter, tu dois parler avec ce mec. Il faut apprendre l’histoire du chapeau violet. >> Alors, c’était mon intention la fois suivante où je l’ai croisé sur le trottoir. J’ai commencé en lui disant << Bonjour monsieur! >>. Mais, malheureusement, son << Bonjour >> en retour était méfiant, même craintif. J’ai toute de suite compris que c’était lui qui initiait n’importe quelle conversation, pas inverse, et j’ai continué ma promenade en ne voulant pas l’inquiéter davantage.

      Connu de tout le monde, l’homme au chapeau violet fait partie d’Anse Vata. Je suis sûr que je ne l’oublerai jamais. L’histoire de son chapeau, hélas, me restera un mystère.

      *une trace de mon passage sur la Grande Terre

      *************************

      O homem de chapéu violeta*

      Ele estava lá a primeira vez que visitei a praia de Anse Vata. Um homem barbudo quase nu na calçada. Obviamente, adorava se bronzear porque, mesmo às duas horas da tarde, ele estava lá, sentado, diretamente no sol. Fazia quase nenhum esforço para evitá-lo. Uma sunguinha, óculos escuros, um chapéu violeta: esses eram o único abrigo que tinha.

      Eu devia ter se preocupado com a condição da sua pele queimada, ou com o fato de que alguma coisa que aconteceu na vida dele o deixou na rua. Mas eu nem pensei nisso. Foi o chapéu-coco violeta de papel que me impressionou. Lembrou-me dos chapéus que eu usava nas festas de Réveillon ou do dia de Saint Patrick. Perguntei-me: “Qual é a história desse chapéu violeta?”

      Um ou dois dias mais tarde, percebi que fazia muito tempo que o homem de chapéu violeta estava naquele lugar. Estava bem estabelecido. Do outro lado da rua, talvez cem metros de onde sentava para tomar sol, estavam suas coisas, muito organizadas: quatro malas com rodinhas, alguns sacos de esporte, uma cama dobrável de rodas e, curiosamente, um par de nadadeiras azuis para mergulho. Certamente, todas essas coisas, como o chapéu violeta, têm sua própria história, evidência de uma vida.

      As ações quotidianas do homem de chapéu violeta são previsíveis. No dia, enquanto está tomando sol, suas coisas estão guardadas em frente a uma loja vazia. Ficam à vista do pátio de um restaurante pertinho mas parece que isso não tem problema. De fato, é possível que os garçons no pátio tomem conta dos pertences dele. Quando o sol começa a tocar o horizonte, o homem veste um casaco leve e se muda para o outro lado da rua onde vai passar a noite. Mas essa mudança não é facil. Ele precisa pegar todas as suas coisas da calçada e carregá-las a uns cem passos para outro lugar mais protegido. Fazendo isso, o homem, com as malas na mão e sempre de chapéu violeta, vai e volta sob os olhares dos clientes sentados no pátio do restaurante.

      Parece que há um acordo entendido entre ele e os donos dos negócios no seu território. Eles se saudam todo os dias, frequentemente colocando uma mão no ombro da outra pessoa. De vez em quando, o homem troca algumas palavras com os lixeiros e outros que estão trabalhando fora. Uma ou duas vezes por dia ele é visto com um café ou pequeno prato na mão, comida que, talvez, ele ganhou de um dos donos. Sem dúvida, eles se respeitam.

      Uma manhã eu estava andando à beira-mar e o homem de chapéu violeta me desejou um bom dia. Desejei a mesma coisa a ele e me senti muito feliz. Pouco tempo depois, pensando sobre esse pequeno encontro, eu me disse: “Peter, você deve falar com esse cara. É preciso aprender a história do chapéu violeta.” Então, essa foi a minha intenção no dia seguinte quando o vi na calçada. Comecei por dizer: Bom dia senhor!” Mas, infelizmente, seu “Bom dia” em troca era suspeito, receoso mesmo. Entendi num instante que ele iniciava qualquer conversa, não o contrário, então eu continuei minha caminhada sem querer lhe assustar mais.

      Conhecido por todo mundo, o homem de chapéu violeta faz parte de Anse Vata. Tenho certeza que nunca vou esquecer dele. A história do chapéu violeta, porém, será um mistério para mim.

      *um rastro da minha passagem na Grande Terre (‘apelido por a maior ilha da Nova Caledônia’)

      Postado em francês, língua/linguagem/linguistica, Outras viagens | 0 Comentários
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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