Cem canções, cem postagens

Relembrando o português através da música brasileira
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    • Encontros: Maíne

      Posted at 3:38 pm by wannabemineiro, on dezembro 18, 2025

      A amizade sincera

      É um santo remédio

      É um abrigo seguro

      (72ª canção: Amizade sinceira, Renato Teixeira)

      Maíne é a primeira pessoa da Bahia que conheci de verdade na minha vida. Até o momento em que eu encontrei a jovem baiana em 2019 através do Italki, um site de aprendizagem de línguas, a única Bahia que podia visualizar era aquela Bahia romantizada nas obras de Jorge Amado ou em canções como “O que é que a baiana tem?”, “Você já foi a Bahia?”, ou “Tarde em Itapuã”.

      Durante horas e horas de conversas no Skype, especialmente no período da pandemia, Maíne me mostrou que a Bahia é mais do que isso. Falou-me do interior baiano, da vida universitária em Salvador, da comida cotidiana de sua família, dos problemas de transporte e segurança na capital, das belezas do Farol da Barra e da Chapada Diamantina.

      Em suma, aprendi muita coisa sobre a Bahia graças a Maíne. Durante nossas conversas me lembro pensando, “Que bacana seria visitar Maíne na Bahia.”

      Após cinco anos de amizade, tive a oportunidade de visitar Salvador em 2024. Mas, Maíne não estava lá porque já tinha se mudado ao Canadá para fazer o doutorado em Sociologia. Mesmo não estando comigo, cada lugar que visitava naquela linda cidade me lembrava dela e das nossas conversas: o Pelourinho, a Barra, o Largo de Santo Antônio, o Museu da Gastronomia Baiano, o Elevador Lacerda. Gostei muito de minha breve visita a Salvador mas foi uma pena que não pude fazer a visita com Maíne, pois queria conhecer a Bahia junto com esta baiana raíz.

      Por fim, JJ e eu encontramos Maíne em Ottawa, quando estávamos viajando no Canadá no mês de julho em 2025. Ela nos esperava em frente de nosso hotel. Abraçamos-nos e imediatamente começamos a falar em inglês e português. Como o caso de outros parceiros de língua virtuais que tive a oportunidade de visitar mais tarde, o encontro com Maíne foi natural, como se fosse uma conversa de vizinhos. Foi mais uma prova das fortes amizades possíveis através da Internet.

      Passamos dois dias com Maíne. Fazia bastante calor naquela época do ano, mas deu para fazer caminhadas em Ottawa e, mais tarde, num parque florestal na província vizinha de Québec. Fizemos refeições deliciosas em vários restaurantes. Também visitamos, claro, uma sorveteria para fugir do calor. E durante toda a visita, falamos de muita coisa. Alguns assuntos foram bastante sérios como eventos atuais na Bahia e no Brasil, a história dos afro-americanos escravizados que escaparam para o Canadá antes da Guerra Civil nos EUA, e a política no Canadá, Brasil e Nova Zelândia. Outros assuntos foram muito mais leves: como sobreviver ao inverno canadense, incluindo evitar quedas nas ruas congeladas de Ottawa; a péssima qualidade do café no Canadá, um fato difícil para brasileiros morando lá; e como sentimos depois de comer la poutine – um prato distinto e pesado de Québec – pela primeira vez.

      Sim, falamos de muita coisa. Mas o que vou lembrar mais da nossa visita foi uma pequena caminhada que fizemos depois de jantar a primeira noite em Ottawa. Saímos do restaurante e Maíne nos mostrou a Colina do Parlamento, uma coleção dos prédios majestosos do governo canadense. Ou seja, em vez de nos mostrar sua terra natal, ela nos fez um passeio da capital canadense. Durante todo o passeio na Colina, não pude deixar de pensar que essa jovem mulher saiu sozinha do interior da Bahia para completar seu sonho de fazer o doutorado no Canadá. Admiro o que a Maíne conseguiu fazer até agora. Não tenho dúvida alguma que ela vai ter mais sucessos nos próximos anos.

      Para terminar esta postagem, quero responder a uma pergunta do letrista Dorival Caymmi: “O que é que a baiana tem?” No caso da minha amiga Maíne:

      Tem coragem, tem / Tem empenho, tem / Tem integridade, tem / etc. etc. …

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    • Três segundos de fama em Goiânia

      Posted at 7:32 pm by wannabemineiro, on outubro 1, 2024

      O teu presente diz tudo
      Trazendo à torcida alegres emoções

      (62ª canção: Celeiro de ases, Nelson Silva)

      Numa estadia recente no Brasil, visitei Goiânia pela primeira vez. Quando ouviram mais tarde essa notícia, meus amigos em Minas ficaram surpresos, “Goiânia? Tem muita coisa pra ver lá?” Foi uma pergunta justa. O turista estrangeiro tipicamente quer visitar Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu,  Amazonas e talvez outros. Mas Goiânia? Não. A capital do estado de Goiás não aparece na lista de lugares imperdíveis do Brasil.

      Como é que eu acabei ficando lá? Foi bem espontâneo. Estava visitando minha amiga Vivi em Brasília. Tivemos a ideia de passar o fim de semana em Alto Paraíso de Goiás, aquele lugarzinho “new age” que, além de cachoeiras e piscinas naturais, oferece comida vegana, yoga, cogumelos mágicos e, segundo várias pessoas, extreterrestres. Mas, infelizmente, imprevistos obrigaram Vivi a ficar em Brasilia naquele fim de semana. Então, decidi de visitar Goiânia, só três horas de Brasília de ônibus.

      Como já tinha viajado por três semanas no Brasil, eu disse a mim mesmo que a estadia em Goiânia representaria uma chance de descansar. Aliás, esses dois dias de tranquilidade me preparariam para minha última semana no Brasil que, sendo na “minha terra” em Minas Gerais, seria sem dúvida cheia de compromissos.

      Neste sentido, fiz uma reserva no Castro’s Park Hotel, um dos melhores hotéis em Goiânia. Segundo o seu website, o Castro’s Park teve tudo que eu procurava: apartamento confortável, piscina aquecida, academia e restaurante com comida típica de Goiás.

      Depois de fazer o check-in no dia 16 de agosto, eu pude confirmar que o hotel não exagerou no website. Meu quarto, no 7º andar, era limpo, quieto e, sobre tudo, cômodo. O ambiente da piscina também me agradou muito, salvo a música sertaneja demasiada alta. A água da piscina estava limpa e o deck acolhedor. Haviam outros hóspedes aproveitando a chance de nadar e relaxar. Naquela primeira tarde na piscina, porém, todos nós nos arrepiamos quando dois urubus vieram a empoleirar-se ao lado da piscina. Cinco minutos depois, se foram embora e nós soltamos um respiro de alívio. Será que os urubus reconheceram que a gente estava nos bronzeando nas espreguiçadeiras e que não éramos cadáveres? (Pensar nisso agora ainda me faz estremecer.) A academia do hotel eu nunca frequentei, pois por fim entendi que qualquer academia seria contrário a meu objetivo principal que era relaxar. Com relação ao restaurante, eu não perdi a oportunidade de aproveitar as excelentes refeições. Adorei o buffet de feijoada no sábado à tarde. Nunca soube que tinha tantas variedades de carne na feijoada. Nos cafés da manhã haviam muitas frutas tropicais, outra comida brasileira cobiçada por este viajante da Nova Zelândia.

      O website do Castro’s Park Hotel se anuncia com uma dica tentadora: “Viva uma experiência única em Goiânia”. Considerando o que escrevi acima, especialmente sobre os urubus na piscina, serve como prova, suponho, que o hotel satisfaz a dica. Mas, no meu caso, a experiência “única” que eu vivi e que nunca vou esquecer aconteceu, curiosamente, em frente do elevador do hotel.

      Às três horas da tarde saí do meu quarto no sétimo andar. Estava meio tonto, pois acabei de acordar de uma cochilada que foi induzida pelo excesso da feijoada que comi no hotel. Querendo dar uma pequena caminhada na vizinhança, entrei no elevador e apertei o botão para descer. Eu esfregava os olhos quando a porta do elevador se abriu ao saguão do hotel. Logo que saí do elevador, senti algo esquisito. Levantei meus olhos e reparei que o lobby principal foi bloqueado do elevador. Atrás um tipo de barreira móvel, umas quarenta pessoas, algumas de camiseta vermelha, me olhavam com ansiedade. Enquanto me aproximei à multidão, houve um silêncio tenso seguido em breve por sussurros de desilusão. Obviamente eu não era a pessoa que estavam aguardando. Pedindo desculpas, eu passei a barreira e saí pela porta principal do hotel.

      Após uns quinze minutos caminhando na rua, voltei ao lobby. A multidão ainda estava lá, aguardando em frente do elevador. Eu me sentei numa cadeira no lobby para ver e entender o que estava  acontecendo. Tirei uma foto.

      As pessoas aguardavam e aguardavam. De repente houve uma alegria audível. Três homens com a mesma camiseta vermelha do multidão saíram do elevador. Houve um corre-corre na barreira, algumas pessoas querendo fotos, outras autógrafos. Houve apertos de mão e sorrisos. Vi um pai e seu filho pequeno, os dois de camiseta vermelha, agradecendo um dos três homens.

      Ainda inconsciente do que estava acontecendo em frente de mim, perguntei o porteiro quem eram esses três homens. Ele me olhou, incrédulo, e respondeu: “Eles jogam para o Internacional.” Uma pesquisa rapidinha no Google me informou que o Internacional era um time de futebol de Porto Alegre. Naquela noite mesma íam jogar contra o Atlético Goaianiense.

      No dia seguinte durante o café da manhã ouvi que o Internacional foi superado pelo Atlético. O resultado não dizia nada para mim. Mas, ao mesmo tempo, não podia parar de pensar naqueles dois ou três segundos em frente do elevador. Será que eu fui confundido com futebolista brasileiro?

      Postado em Brasil | 3 Comentários
    • Meu pai brasileiro

      Posted at 12:19 pm by wannabemineiro, on abril 11, 2024

      Ontem recebi a triste notícia que José Vieira de Mendonça Sobrinho faleceu. Ele era companheiro carinhoso de Ana Júlia desde 1951; pai de Jupira, Moema, Iberê, Ubirajara, Ubiratan, Tibiriça e José Alfredo; engenheiro reconhecido em Minas Gerais; amigo de muitas pessoas…no final, um grande homem que tocou as vidas de inúmeras pessoas.

      Eu tive o privilégio de chamá-lo de “Papai” e de ser chamado de “filho” por quase cinquenta anos. Papai e Mamãe me adotaram como seu filho americano quando fiz um intercâmbio de estudos no Brasil em 1977.

      Com meus pais brasileiros em 2007

      Eu te agradeço por tudo, Papai. Se não fosse por você e Mamãe, e a multidão de pessoas naquela casa calorosa na Rua Almirante Alexandrino, eu não seria o homem – meio mineiro – que sou hoje.

      Peter

      PS: Também te agradeço por ter me introduzido às músicas de Pixinguinha!

      Postado em a história do menino/Julião, Brasil | 4 Comentários
    • Amor (e vinho!)

      Posted at 5:22 am by wannabemineiro, on novembro 30, 2023

      Não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
      Eu quero é viver pra ver qual é, e dizer venha pra o que vai acontecer

      (56ª canção: “Envelhecer”, Marcelo Jeneci Da Silva, Arnaldo Antunes, e Ortinho)

      Qual o segredo de uma vida longa?

      Essa questão tinha nos preocupado desde o começo da história humana. Incentivou-nos a procurar inúmeras maneiras de prolongar a vida. Nas lendas antigas, o segredo era supostamente uma fonte da juventude enquanto, agora, outros tratamentos rejuvenescedores – vitaminas e cremes, yoga e silvoterapia, poções e cristais – se veem na televisão ou online. Até lembro nos anos 80 em Taiwan uma marca de cigarro chamada “Vida Longa”:

      A ilustração na capa do maço mostrava um ancião sábio tomando conta de seu grou, símbolo chinês de longevidade. A mensagem? Fumar cigarro para prolongar a vida. Imagina?

      Gerontologistas de hoje dizem que não tem um segredo mágico para a longevidade. Pelo contrário, se seguirmos oito práticas simples podemos aumentar nossa chance de aniversariar oitenta, noventa, até cem anos. O necessário é

      1. seguir uma dieta de comida fresca e saudável
      2. abster-se de comer demais
      3. manter-se em movimento
      4. diminuir a ansiedade e evitar o estresse
      5. manter laços com família e amigos
      6. viver em comunidade
      7. respeitar os idosos e o processo de envelhecer
      8. sentir algum senso de espiritualidade

      Os gerentologistas acham que, salvo para indivíduos sofrendo de condições hereditárias como alguns cânceres ou hipertensão arterial, essas práticas podem prolongar a vida para muitos. É só uma questão de mantê-las desde tenra idade.

      Recentemente tive a oportunidade de passar alguns dia na ilha de Okinawa, lugar com a maior percentagem de centenários no mundo. Okinawa é uma das cinco “zonas azuis” identificadas como centros de longevidade. As outras são Ogliastra na Sardegna, a ilha de Ikaria na Grécia, a Península de Nicoya na Costa Rica, e a cidade de Loma Linda na Califórnia. Segundo gerentologistas, as práticas acima se destacam em cada zona azul.

      Realmente não sei se eu vi centenários ou não durante minha visita em Okinawa. Mas posso dizer que nas cidades de Naha e Ginowan, havia certamente anciões nas ruas e nos parques. Embora alguns deles fossem curvadas e andassem com bengala, tinham uma vitalidade admirável. Por exemplo, vi este casal fazendo exercícios numa banca no Parque de Ginowan:

      e dois jovens ajudando uma mulher idosa com um treinamento de caminhar de costas:

      Também encontrei anciões nos restaurantes e no mercado municipal. Nesses dois lugares era óbvio que a comida é bem saudável. No mercado, por exemplo, muitas pessoas pediram goya champuru, um salteado de tofu, melão-de-são-caetano e um poquinho de carne de porco:

      As pessoas idosas saboreando este e outros pratos de baixa caloria estavam conversando, rindo, e valorizando cada momento juntos. Atrevo-me a dizer que a vitalidade e alegria, essa razão de viver, que os anciões okinawenses, seja na praia ou no mercado, demostram seriam cobiçadas de muitos de nós.

      Durante minha visita a Okinawa, eu celebrei meus 64 anos com amigos okinawenses. Eu sei, eu sei: comparado com os anciões de Okinawa, sou ainda bem jovem! Mas com cada aniversário fico pensando na longevidade e na razão (ou razões) de viver. Isso não quer dizer que estou cismando com  minha idade e com o  envelhecimento. Tampouco penso em situações hipotéticas como “se eu tivesse feito isso em vez de aquilo seria mais _____ [preencha com qualquer adjetivo]”. Não faço nada disso, não. O que faço é refletir um pouco sobre os anos que eu já vivi e sobre os anos que me sobram. Coisa natural eu acho.

      Estou tentando aproveitar cada momento agora, achar diariamente algo positivo que me traz alegria e satisfação. Quero manter e fortalecer meus vínculos com amigos, família e a comunidade. Quase todo dia, consigo ficar na positiva e por isso estou muito grato.

      Quero fechar esta postagem, se me permitem, com algumas palavras sobre meus pais brasileiros que se vêem abaixo celebrando setenta anos juntos:

      Quando tinha 17 anos passei quase um ano com esse casal maravilhoso e seus sete filhos. Foi, e ainda é, um privilégio de ser o oitavo filho!

      Se alguém analisar a vida deles será bem evidente que estão seguindo as práticas para longevidade mencionadas acima. Ou seja, meus pais brasileiros construíram sua própria zona azul em Belo Horizonte. Mas cada vez que lhes pergunto sobre a longevidade o segredo deles é bem mais simples:

      Peter:      Por favor, qual é o segredo de uma vida longa?

      Mamãe:  Amor, meu filho, amor.

      Papai:      E vinho!

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    • Carta para uma amiga

      Posted at 7:15 pm by wannabemineiro, on outubro 8, 2023

      Sonhar mais um sonho impossível

      Lutar quando é fácil ceder

      Vencer o inimigo invencível

      Negar quando a regra é vender

       (55ª canção: “Sonho impossível”, Francisco Buarque

      De Hollanda, Mitch Leigh, Joseph Darion)

      Minha querida amiga,

      Foi um prazer receber notícias de você hoje. As fotos do seu novo lugar são bonitas demais. O Canadá deve ser um país lindo.

      Sua mensagem me fez pensar sobre nossa amizade. É difícil acreditar que já faz quatro anos que nós nos conhecemos.

      Você lembra da primeira vez que falamos pelo Skype? A ideia era simples: praticar o inglês e o português num intercâmbio virtual. Nossos primeiros encontros foram mais ou menos assim. Bom, na verdade, falávamos mais português do que inglês porque você estava um pouco tímida de falar inglês comigo. Então, usávamos o português para discutir artigos do jornal The Guardian. Por ser franco, esse desequilíbrio fortaleceu minhas competências em português, e, sim, aproveitei da situação. Mas te juro que na época esperava que, ao momento certo, você se sentiria mais confortável e falaria inglês comigo.

      No entanto, pouco tempo depois, aquele maldito vírus mudou o mundo….

      Por muito tempo estávamos presos em casa, com medo de pegar a temida doença que ninguém entendia. Por isso, nossas conversas se transformaram. Conversávamos mais para apoiarmos uns aos outros do que para praticar línguas. Sem dúvida, a situação com a Covid em 2020 e 2021 foi menos difícil na Nova Zelândia do que no Brasil. Para nós kiwis, depois o primeiro confinamento, tivemos a liberdade de viajar no país inteiro durante bastante tempo. Pelo contrário, vocês no Brasil viram o vírus surgir por meio de várias ondas e muita gente sofreu.

      Nunca vou esquecer como você, no auge da pandemia, conseguiu organizar uma carona da capital até a casa da sua mãe no interior da Bahia. Você me explicou que sentia medo naquele carro. Não apenas estava num lugar fechado, onde o vírus podia se propagar, mas os outros viajantes no carro eram completos estranhos. Você estava aflita também durante o confinamento de duas semanas que fez no seu quarto para não comprometer a saúde da sua mãe e da sua avó. Enquanto me contava a história da viagem e da chegada em casa, fiquei impressionado por sua resistência, determinação e compaixão.

      É óbvio que a mudança foi a decisão correta. Enquanto estava em casa você terminou seu mestrado e continuou seus estudos de inglês e francês. Começou a planejar a próxima etapa de seu trajeto, ou seja, fazer o doutorado no Canadá. Durante o confinamento, seu único contato com o mundo fora foi pelo Skype ou Zoom. Sou muito feliz que fui uma das pessoas que podia falar frequentemente com você.

      Como jovem mulher do interior nordestino, você me ajudou tomar consciência de um Brasil que realmente não conhecia antes. Tivemos tantas conversas! Discutimos assuntos como a escravidão, os quilombos, e a herança africana no Brasil de hoje em dia. Tocamos casos tristes como o da Marielle, do pequeno Miguel e dos meninos massacrados em frente da Igreja de Candelária. Graças a essas difíceis e às vezes delicadas conversas com você, eu aprendi a refletir mais profundamente sobre as injustiças presentes não só no Brasil, mas ao redor do mundo.

      Também fiquei impressionado pelas riquezas da Bahia que compartilhou comigo. Você me falou dos petisquinhos do Mercado Modelo, dos blocos de rua no Pelourinho, do Farol da Barra, e, no interior, de belas cachoeiras e piscinas naturais onde se pode nadar. Você foi uma guia virtual para mim e agora que posso viajar novamente, tenho muita vontade de visitar a Bahia. Espero ir para lá com a JJ um dia. Talvez podemos nos encontrar em Salvador, né?

      Em 2022, com a situação da Covid melhorando, não nos falamos com tanta frequência. Mas o que achei impressionante é que quando fizemos um Skype, falamos em três línguas: português, inglês e francês. Graças ao seu foco e dedicação às línguas durante o confinamento, seu sonho impossível – fazer o PhD no Canadá – se tornou realidade. Você é realmente uma inspiração!

      Enfim, minha amiga, acho que ninguém de nós dois imaginava que nosso iniciativo de trocar idiomas desenvolveria numa amizade tão especial. Se Deus quiser um dia nós nos encontraremos, seja no Canadá, no Brasil ou… Até então eu te desejo mais sucessos na tua carreira acadêmica.

      Um grande abraço

      Peter

      PS: Se você jamais quiser falar é só clicar. 🙂

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    • Longa distância (i)

      Posted at 2:28 pm by wannabemineiro, on março 1, 2023

      O correio já chegou ô, ô

      Nem uma cartinha de você

      Todo o dia a mesma coisa

      E eu de longe, sem saber porque

      (48ª canção: “O correio já chegou”, Francisco Alves)

      Enquanto escrevo esta postagem, a JJ está em Tóquio visitando a família dela. Todo dia trocamos pequenas mensagens pelo WhatsApp. Ela me fala do tempo, do seu irmão, do trânsito. Às vezes, me atormenta com fotos de alguma delícia que acabou de saborear. É simplesmente incrível como esta troca de mensagens instantâneas pode nos ligar como se fôssemos juntos no mesmo lugar.

      Mas a comunicação não foi sempre assim. Sou bastante velho para lembrar a época de cartões postais e cartas. Como intercambista no Brasil em 1977, a primeira coisa que fiz quando desci do avião no Rio de Janeiro foi comprar um cartão postal e o mandar para meus pais na Califórnia. Não lembro exatamente o que escrevi mas devia ter sido algo como, “Cheguei. Estou bem. Mando notícias em breve.” Imagine isso: meus pais tiveram que esperar uns dez dias ou mais para receber a notícia que eu tinha chegado no Brasil direitinho. O contato instantâneo de hoje não existia e qualquer chamada de longa distância ou telegrama internacional custaria demais. Naquela época, então, a filosofia era simples: “a falta de notícias é um bom sinal.”

      Toda semana durante minha estadia no Brasil, escrevi uma carta para meus pais. E toda semana eles escreveram para mim. Lembro bem os aerogramas que meu pai mandava. Custando 22 centavos americanos, consistiam de uma folha de papel que se dobrava em envelope selado. Sempre os abria com muita atenção porque se não, eu riscava “cortar” palavras. Era impressionante como meu pai podia encher uma página e meia com tantas notícias. Ele me falava da família – incluíndo os cachorros – do tempo na Califórnia, dos meus amigos. Mesmo contava piadas.

      Não sei exatamente como evoluiu, mas os aerogramas do meu pai sempre chegavam à minha casa em Belo Horizonte na sexta-feira na hora do almoço. Durante o resto do dia, eu ficava feliz de ter as notícias da família mas também sentia muitas saudades da Califórnia. No dia seguinte eu iria ao correio na Avenida Afonso Pena para mandar uma carta para meus pais. Nunca lhes perguntei sobre essa correspondência mas suponho que a minha carta, reconhecível por seu envelope de listras verdes e amarelas, chegava na casa deles com a mesma regularidade do que eu recebia os aerogramas.

      Naquele ano de intercâmbio, o Natal era bem difícil. Embora estivesse rodeado de uma família carinhosa em Minas Gerais, eu tinha tantas saudades da Califórnia. Passei o dia inteiro pensando em meus pais e irmãos e nas nossas tradições natalinas. Tinha lágrimas aos olhos e um nó na garganta, pois estava sofrendo mesmo. Acho que Papai (meu pai brasileiro) percebeu minha aflição. De repente na hora do almoço, ele me disse que podíamos telefonar aos meus pais nos Estados Unidos para lhes desejar um “Merry Christmas”. Que oferta generosa! Nos anos 70 no Brasil, o telefone era um dos maiores bens da família e ligações internacionais eram quase inimagináveis. Por fim, recusei a oferta do Papai. Lembro inventando alguma razão por isso mas na verdade recusei porque eu teria  caído em prantos se ouvisse as vozes da minha família na Califórnia. Preferia sofrer o Natal em silêncio e esperar o próximo aerograma do meu pai.

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    • Romance nordestino

      Posted at 7:22 am by wannabemineiro, on fevereiro 1, 2023

      O Nordeste é poesia

      Deus quando fez o mundo, fez tudo com primazia

      Formando o céu e a terra cobertos com fantasia

      Para o sul deu a riqueza, para o planalto, a beleza

      Pro nordeste, a poesia

      (Trecho de Patativa do Assaré na 47ª canção:

      “Norte Nordeste me veste”, RAPadura)

      Não sei exatamente como foi que ouvi falar do livro Vidas Secas. Talvez fosse numa reportagem, talvez fosse do meu amigo Marcus. De qualquer jeito, quando vi a obra-prima de Graciliano Ramos numa livraria na Avenida Paulista a comprei. Lembro bem a moça no caixa que, ao ver o livro, me disse que valeu a pena. Ela o leu no colégio e adorou. Disse-me os nomes das personagens principais do livro: Fabiano, sinha Vitória, seus dois meninos – nunca nomeados – e o cachorro, Baleia. Desde então, outros amigos me disseram que tinham estudado Vidas Secas no colégio e imaginei que esse pequeno romance nordestino seria um pouco como As vinhas de ira de Steinbeck, o que li no high school na Califórnia.

      Alguns meses depois, tirei Vidas Secas da minha estante. O desenho simples na capa do livro era cativante.

      Com trouxa de roupa no ombro, um homem e seu cachorro atravessavam uma planície rala. Os dois eram magrinhos, o sol sob eles implacável. Quanto à capa, pensava que o livro ia ser super interessante.

      Abri o livro e comecei a ler. Logo depois, fiquei decepcionado. Havia muito vocabulário difícil. Juazeiro, alargar, mancha, galho, escanchado, aió, e pederneira eram palavras novas para mim, e todas apenas na primeira página. Suspirei, fechei Vidas Secas e coloquei novamente na estante onde ficaria por muito tempo.

      Na verdade, tentei ler o livro várias vezes e o resultado era sempre o mesmo. Dentro de quatro ou cinco páginas, desistia e devolvia o livro ao seu lugar na estante. Com cada tentativa me sentia como se não soubesse o português ou, pelo menos, como se meu vocabulário consistisse só em algumas dúzias de palavras.

      Ano passado resolvi ler Vidas Secas sem falha. Comecei como sempre, procurando o monte de palavras que não entendia. Usei este método até terminar o segundo capítulo. Mas já estava chateado por ter que procurar tantas palavras. O que mais me incomodou foi o fato de achar a palavra no dicionário não entender o sentido dela no texto. Isso geralmente não acontece quando leio outros textos em português. Procuro palavras desconhecidas, as entendo e continuo lendo. Vidas Secas, porém, era escrito como poesia, ou seja, mesmo com uma tradução ou definição de palavras desconhecidas não consegui entender o texto exatamente. Às vezes fiquei perdido mesmo.

      Mas dessa vez eu não desisti com a leitura. Persistiria até o fim. Também decidi que não procuraria nenhuma palavra mais. Assim, leria o resto do romance e entenderia o que entenderia.

      Com esse novo método, comecei o terceiro capítulo. O título dele, “Cadeia”, me parecia bastante interessante. Como era de esperar, Fabiano ficou preso numa cidadinha no Sertão. O delito que ele fez? Isso não entendi exatamente. Sei que em vez de voltar para a roça com os mantimentos que sua pobre família estava esperando, começou a beber aguardente e jogar algo chamado trinta e um. Por fim, ficou bêbado, perdeu dinheiro e ofendeu o chamado Soldado Amarelo. Mais tarde, caído na rua, Fabiano foi espancado e levado para a cadeia da cidade. Dentro da cela, se preocupava com a família.

      Minha compreensão daquela noite miserável era claramente incompleta. Nem sei como que Fabiano saiu da cadeia. Tanto faz, eu continuei lendo, capítulo após capítulo. Finalmente cheguei ao fim e fechei o livro. Senti algum alívio e o coloquei na estante.

      Agora tenho uma ideia do enredo desse romance famoso. Quando vejo o título, lembro bem as misérias que a pobre família sofreu no Sertão. Além disso, acho que o livro me permitiu entender porque tanta gente saiu do Nordeste nos anos 60 e 70 para buscar emprego nas grandes cidades do Sudeste e do Sul.

      Mas será que eu posso dizer que realmente li Vidas Secas? Isso eu não sei. A poesia do Nordeste me escapou.

      Postado em Brasil | 4 Comentários
    • A casa da Flávia

      Posted at 7:23 pm by wannabemineiro, on fevereiro 23, 2022

      Tem gente por todo canto,

      Mas eu lhe garanto que mais vai chegar,

      Tem gente em pé na cozinha,

      Até na vizinha querendo chegar,

      E a minha casa é pequena.

      (37º canção: “Água no feijão”,  Jorginho do Império)

      Havia uma pequena barraca brasileira na feira de sábado. A dona da barraca, brasiliense, a filhinha dela sempre ao lado, servia vários petiscos deliciosos. Para muitos fregueses, essa mulher sorridente e calorosa foi a primeira pessoa do Brasil que já tinham encontrado na vida. Mas, tristemente, a barraca da feira durou pouco tempo, pois a mulher sofreu dois lutos inimagináveis.

      Isso já faz algum tempo. Hoje em dia dúzias e dúzias de brasileiros moram ou já tinham morado na região de Manawatu. Esse pessoal reflete o multiculturalismo crescente da Nova Zelândia, mesmo no interior.

      A comunidade brasileira consiste de famílias, casais, e solteiros. São do Nordeste, do Sul, do Centro-Oeste, do Sudeste. Algumas pessoas puxam o “s”, outras enrolam o “r’’ e até outras dizem “uai!” ou te chamam de “velho” ou “tu”. Há técnicos, físicos, filósofos, veterinários, intérpretes, pintores, administradores, pesquisadores, professores, estudantes, bolsistas, cientistas, motoristas, baristas, linguistas, costureiras, fazendeiros, cozinheiros, faxineiros, cabelereiros, engenheiros. Todos representam várias etnias e raças, orientações sexuais, políticas, religiões, e interesses. Na verdade, tem um pouco de tudo, a diversidade humana do Brasil numa só comunidade em Manawatu.

      Em qualquer dia, então, seja no centro da cidade ou nos seus arredores, é possível se encontrar com brasileiro. Aliás, agora existe diversas coisas do Brasil para quem quiser experimentar. Numa pequena cidade agrícola, por exemplo, o dono paulista de um café típicamente kiwi serve coxinhas, ou seja chicken balls, aos fazendeiros da área. Quinhentos metros em linha reta dessa café tem um dojo onde se pode aprender jiu-jitsu brasileiro, ensinado por um sensei natalense. É mesmo possível aprender o português como língua estrangeira, pois em 2019 a universidade da região começou a oferecer aulas de português brasileiro. Nos últimos anos também houve um festival de filmes brasileiros assim como uma presença crescente da comunidade brasileira no Festival de Culturas que se realiza na praça da cidade num fim de semana em março.

      Mais memoráveis, talvez, são os eventos dos Palmeirinhos, uma iniciativa de pais brasileiros dedicados aos seus filhos a manter a língua herança e a cultura brasileira. Todo ano os Palmeirinhos fazem uma festa junina que inclui corridas de três pés, quadrilha, correio elegante e todo tipo de petisco que se pode imaginar. A energia das crianças durante tais festas é emocionante e mostra um respeito à língua e cultura de seus pais e entes queridos no Brasil. (Sem dúvida, a energia também mostra os efeitos do açúcar ingerido durante a festa!) Os espetáculos de Samba ao Vento, um grupo de batucada, são igualmente muito especiais. Os tocadores do grupo são de diversas nacionalidades. De fato, o fundador e líder é um neo-zelandês com um coração que, todos juram, bate como brasileiro. Samba ao Vento já fez shows em toda a região e mais além. Os ritmos que fazem são contagiosos e, ao final do show, se vê membros da platéia tentando sambar na avenida.

      Por fim, nos últimos quinze anos a comunidade brasileira na região de Manawatu cresceu muito e continua crescendo, mesmo durante essa maldita pandemia.

      E a brasiliense que trabalhava na feira tantos anos atrás?  Felizmente, essa mulher, o filho dela sempre ao lado, tem uma presença essencial em quase todas as atividades descritas acima. Ela conhece todos e todos a conhecem. Como explicava um curitibano que mora aqui, “é como se ela fosse a nossa própria embaixadora.”

      Na verdade, apesar dos desafios que enfrentou no passado (ou talvez por causa deles), a brasiliense é reconhecida como uma pessoa de coragem, positividade e generosidade. A casa dela, o coração da comunidade, fica frequentemente cheia de brasileiros. Na cozinha, na sala de jantar, no quintal se ouve português.  Mas se ouve outros idiomas também – inglês, persa, indonesiano, espanhol – pois a casa da brasiliense recebe todo o mundo. Não importa de onde você é, você é sempre bem-vindo.

      Nos últimos anos, essa comunidade brasileira de Manawatu se tornou a minha comunidade também. Agradeço a todos vocês por terem me aceitado.

      Postado em Aotearoa New Zealand, Brasil | 10 Comentários
    • Não sou Lobão, não

      Posted at 7:07 pm by wannabemineiro, on abril 29, 2021

      Na verdade, nada é o que parece ser

      (26º canção: “Essa noite, não”,  Lobão)

      A primeira vez que aconteceu foi na Avenida Paulista.

      Eu estava na calçada, andando para algum lugar, e de repente me deparei com uma equipe de filmagem fazendo comercial de chicletes. Duas pessoas estavam filmando enquanto um homem-sanduíche vestido de palhaço e um entrevistador falavam com pedestres. Era óbvio que o motivo do encontro era um tipo de brincadeira.

      Por acaso, o entrevistador e palhaço me escolheram de uma dúzia de pessoas que passavam. Eu não lembro das primeiras palavras da conversa que decorreu. Mas lembro claramente que o entrevistador começou a gozar do meu sotaque para entreter a plateia de pedestres assistindo ao espetáculo. Senti incômodo por causa disso e decidi me ir embora. Ao ver minha intenção, o entrevistador me despediu assim:

      – Até logo, Lobão!

      Algumas pessoas na calçada riam. Eu não soube como responder, nem entendi exatamente porque ele me apelidou de “Lobão”.  A única maneira em que eu podia responder foi em rima:

      – Tchau, bobão!

      Refletindo depois sobre esse encontro, eu me perguntava porque o entrevistador tinha me chamado de “Lobão”, o que se traduz em inglês como big wolf. O que eu tenho que parece com lobo grande? Meu cabelo? Meu nariz? Minha boca? Não entendi nada desse apelido.

      Quando relatei a história para Moema, minha irmã brasileira, ela me explicou que o Lobão era um roqueiro brasileiro. Continuou que, sim, lhe lembrava o Lobão, ao menos um pouco. Mostrou-me uma foto dele e admiti que, como eu, o cantor brasileiro era meio narigudo, tinha cabelo castanho bagunçado, e, sobre tudo, usava óculos grandes.

      Depois da explicação da Moema, escutei algumas músicas do Lobão e assisti a umas entrevistas dele. Por meio dessa pesquisa na rede aprendi que o Lobão, sempre controverso, foi alguém importante do rock nacional, especialmente nos anos 80. Além de cantar, também compôs várias canções, incluindo “Vida louca vida” que Cazuza cantava com sucesso. Sem dúvida, como escreve Nelson Motta em 101 Canções que Tocaram o Brasil, o Lobão era um nome importante “na nascente cena do rock brasileiro.”

      Voltando àquele encontro na Avenida Paulista, eu posso dizer outra coisa sobre este roqueiro. Ou seja, entre as bilhões de pessoas morando no planeta, parece que o Lobão é o meu doppelgänger (‘uma pessoa que se parece com outra’). Pois, o caso de alguém me chamar do Lobão não é raro. Já aconteceu várias vezes no Brasil e mesmo fora do Brasil.

      Por exemplo, uma vez estava visitando o lotado Mercado Central de Belo Horizonte com Moema. Nós andávamos corredor por corredor, conversando e curtindo qualquer amostra disponível. Goiabada cascão, queijo Minas, abacaxi de Araxá…estávamos satisfeitos com a fartura de comidas diante de nós. Subitamente, uma pergunta furou nossa bolha de alegria:

      – Você é o Lobão?

      Eu virei e vi um homem ansioso e meio sério. Sorri para ele e perguntei:

      – Você quer que eu canta?

      Ao ouvir meu português errado acompanhado pela grande risada da Moema, o homem entendeu que tinha se enganado, se corou e partiu sem dizer mais uma palavra. O encontro foi bem engraçado e, chegando em casa depois, Moema e eu o explicamos para todo mundo da família.

      Mais esquisito ainda foi um incidente em Guarulhos. JJ e eu entramos numa van que levava recem-chegados para vários hotéis. Fomos os primeiros passageiros no veículo. Logo, sete ou oito pessoas da mesma família entraram e se sentaram nos bancos de trás. Enquanto a van saiu do aeroporto, a família fazia muito barulho, todos falando ao mesmo tempo em voz alta. Acabaram de chegar de Santiago e no dia seguinte iriam de avião para o Mato Grosso do Sul. Estavam ansiosos para chegar na terra deles. De repente e sem aviso, os membros da família, um por um, baixaram a voz. Eu não podia entender mais nada do que se falava, mas pressentia que a conversa sussurrada entre a família se tratava de mim. Tive razão. Quando nós descemos da van em frente de nosso hotel, ouvimos risadinhas e gritos de “Lobão! Lobão! Lobããão!” Embora não respondesse, me lembro pensando, será que eles acham que seja o Lobão mesmo?

      Mesmo na Aotearoa New Zealand, a terra de rúgbi e hobbits, eu não posso evitar esse nome completamente. Na minha cidade, vários amigos brasileiros me contaram que eu lhes lembrava o Lobão. Uma vez quando explicava que minha família brasileira em Belo Horizonte me apelidou “Julião”, uma grande amiga minha contestou:

      – Julião? Você não tem cara de Julião. Tem cara do Lobão.

      Essa resposta acertou em cheio o que eu não posso escapar: tenho cara do Lobão.

      Agora faz mais de dez anos que eu tive aquela primeira experiência na Avenida Paulista, e pessoas continuam me chamando do Lobão. Mas, para dizer a verdade, eu não gosto muito desse apelido porque, simplesmente, não gosto da música do Lobão nem do seu comportamento ou política.

      Então, se algum dia você me vê na rua, lembre-se, por favor, que eu não sou Lobão, não.

      Postado em Aotearoa New Zealand, Brasil | 2 Comentários
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    • Olá. Sou neo-zelandês-americano tentando relembrar o português. Além de escrever neste blogue, gosto de estudar o português e o japonês, ouvir música, nadar, e viajar.

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